quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Cuidar é escutar sem pressa

A ideia a ser espalhada por esta postagem foi encontrada em um instigante texto de Alexandre Coimbra Amaral publicado na edição 284 da revista Vida Simples, referente a outubro de 2025. No "rodapé" do texto, o autor é apresentado assim: "Alexandre Coimbra Amaral é psicólogo, escritor best-seller, palestrante e podcaster. Conversador por excelência em diferentes mídias, gosta de falar sobre o que o inquieta. @alexandrecoimbraamaral". Feito esse preâmbulo, segue o referido texto.
Cuidar é escutar sem pressa
Uma coisa que não nos deveria faltar nunca é o cuidado, sobretudo aquele formado pela tríade silêncio, escuta e fala
QUANDO ESTAMOS DIANTE DE UM PROFISSIONAL DE SAÚDE, geralmente relatamos os sintomas incômodos que nos levaram àquela visita. Seja um mal-estar físico ou emocional (nenhum deles tem separação absoluta do outro, o corpo é um só quando padece), podemos sair daquela conversa com um diagnóstico e uma prescrição de tratamento para lidar com ele.
Os profissionais de saúde são muito treinados para a grande meta: chegar ao "diagnóstico fechado". Mas o que se fecha no diálogo quando o diagnóstico é fechado? Num papel, um nome, um resumo em que devo me sentir contemplado: "Você tem depressão", "Você tem ansiedade".
É um encontro que poderia ser uma partilha de tempo, mas, na pressa por classificar, deixamos de escutar. Há sempre um tanto de dor de existir que não se sente representada pelo suposto alívio de um diagnóstico que tem um tratamento eficaz. Escutar o sintoma não é ter um checklist de ideias para se chegar ao nome da doença. Nenhuma dor cabe inteira num rótulo. Nenhuma história se esconde no porão das letras incompreensíveis de remédios e de classificação de doenças. Quando a vida dói, ela pede todo o tipo de ação humana.
Quando escutamos alguém, não escutamos somente sua voz. Por exemplo, uma pessoa com ansiedade não carrega somente as taquicardias, sudoreses e pensamentos catastróficos. Ela traz sua história inteira e os ritmos acelerados da sociedade em que vive. O corpo ansioso também é um corpo social, como são todos os corpos que sofrem. O tremor do lado de dentro do corpo pode ser por boletos em aberto, por desemprego, por racismo, por solidão. Quem escuta o que está por trás dos nomes dos sintomas e das doenças que vão nos acometendo? Que destino podemos dar às palavras que precisam e merecem sair, porque somos também feitos de narrativa compartilhada?
Os profissionais têm sim uma relevância contumaz nessa esfera. Porém, me entristece que muitos de nós não tenhamos disponibilidade para escutar para além dos diagnósticos. Mas o mundo inteiro à volta de uma pessoa pode lhe ofertar escuta, que não quer dizer ter respostas ou ações eficazes para resolver o problema, e sim companhia no incômodo de viver com dor.
Qualquer um de nós pode perguntar de forma aberta e curiosa, querendo permanecer ali, reconhecendo que a dor não é um erro, mas uma narrativa que precisa ser contada. Cuidar é escutar sem pressa.
*************
A simples frase usada como título - Cuidar é escutar sem pressa - já seria suficiente para elaborar uma postagem, mas considerando que ela é seguida por um instigante texto, partamos do texto para prosseguir com esta postagem.
"Os profissionais de saúde são muito treinados para a grande meta: chegar ao 'diagnóstico fechado'. Mas o que se fecha no diálogo quando o diagnóstico é fechado? Num papel, um nome, um resumo em que devo me sentir contemplado: 'Você tem depressão', 'Você tem ansiedade'. É um encontro que poderia ser uma partilha de tempo, mas, na pressa por classificar, deixamos de escutar."
O que é um diagnóstico? É o processo analítico para se chegar a conclusão da natureza e da causa de um problema. É também o nome dado à conclusão em si mesma. O que significa "diagnóstico fechado"? Em medicina, significa que o médico chegou a uma conclusão definitiva sobre a condição de saúde do paciente, o que permite iniciar o tratamento específico, ao contrário de uma suspeita inicial ou de um quadro "em aberto" que precisa de mais investigação.
"Mas o que se fecha no diálogo quando o diagnóstico é fechado?", indaga Alexandre Coimbra. No meu entender, é o próprio diálogo. Usando palavras do psicólogo, o que se fecha "é um encontro que poderia ser uma partilha de tempo, mas, na pressa por classificar, deixamos de escutar". Mas, o que deixamos de escutar? Ainda no meu entender, e ainda usando palavras do psicólogo, deixamos de escutar "sua história inteira (do paciente) e os ritmos acelerados da sociedade em que vive. (...) o que está por trás dos nomes dos sintomas e das doenças que vão nos acometendo".
"Mas, na pressa por classificar, deixamos de escutar.", afirma o psicólogo. Mas se deixamos de escutar, indago eu, será que é possível se chegar ao diagnóstico correto? Indagação que, enxergo como respondida pela quantidade de pessoas doentes nesta sociedade patológica na qual sobrevivemos.
"Quando escutamos alguém, não escutamos somente sua voz. Por exemplo, uma pessoa com ansiedade não carrega somente as taquicardias, sudoreses e pensamentos catastróficos. Ela traz sua história inteira e os ritmos acelerados da sociedade em que vive. O tremor do lado de dentro do corpo pode ser por boletos em aberto, por desemprego, por racismo, por solidão."
Quando Alexandre Coimbra diz que "Quando escutamos alguém, não escutamos somente sua voz", obviamente refere-se a escutar sem pressa, pois, se for com pressa, nem mesmo sua voz escutamos. E ao dizer isso, ele me faz trazer para esta postagem as duas afirmações reproduzidas a seguir. "As pessoas não se escutam mais, elas apenas esperam a vez de falar", eis uma afirmação feita em um vídeo que assisti, recentemente, no You Tube. "O contrário de falar não é escutar. É esperar.", eis uma afirmação de Fran Lebowitz, extraída do livro "O Almanaque de Fran Lebowitz".
"Os profissionais têm sim uma relevância contumaz nessa esfera. Porém, me entristece que muitos de nós não tenhamos disponibilidade para escutar para além dos diagnósticos. Mas o mundo inteiro à volta de uma pessoa pode lhe ofertar escuta, que não quer dizer ter respostas ou ações eficazes para resolver o problema, e sim companhia no incômodo de viver com dor. Qualquer um de nós pode perguntar de forma aberta e curiosa, querendo permanecer ali, reconhecendo que a dor não é um erro, mas uma narrativa que precisa ser contada. Cuidar é escutar sem pressa."
O que entendi do que afirma o psicólogo no parágrafo acima? Que, considerando o significado de sociedade – "agrupamento de seres que convivem em estado gregário e em colaboração mútua" -, qualquer um de nós deve se perceber como cuidador dos demais. O problema é que, se "cuidar é escutar sem pressa", na condição de integrante de uma sociedade (sic) assolada pela pressa, como qualquer um de nós conseguirá cuidar dos demais? E sem cada um de nós admitir que, também, é sua responsabilidade cuidar dos demais, será que faz algum sentido chamar de sociedade esse aglomerado confuso formado por indivíduos indiferentes ao que acontece com os demais? "O que não convém ao enxame não convém tampouco à abelha", eis uma afirmação atribuída ao imperador Marco Aurélio que uso aqui para defender a imprescindibilidade de cuidarmos uns dos outros.
"Escutar sem pressa!", eis a questão. Afinal, como conseguir fazer isso em uma sociedade onde as pessoas passaram a comunicar-se (sic) por meio de mensagens ouvidas por meio de um smartphone em velocidade "2x" no WhatsApp.
E para encerrar esta postagem, recorro ao que é dito no primeiro parágrafo do instigante texto: "Uma coisa que não nos deveria faltar nunca é o cuidado, sobretudo aquele formado pela tríade silêncio, escuta e fala". Tríade que interpreto assim: Fazer silêncio para que seja possível escutar a fala. Você consegue perceber que isso nada mais é do que conversar? Ou seja, será que também é válido afirmar que cuidar é conversar? Silêncio, escuta e fala, eis, no meu entender, a tríade que torna possível o atendimento a algo imprescindível à vida em sociedade ("agrupamento de seres que convivem em estado gregário e em colaboração mútua"): a necessidade de conversar.
P. S.
A edição do Jornal Valor Econômico publicada no dia seguinte à publicação desta postagem, traz um artigo no qual são publicados trechos de uma entrevista com Mike Massimino, ex-astronauta da Nasa que realizou quatro caminhadas espaciais para consertar o telescópio Hubble. Trechos dos quais selecionei um para acrescentá-lo a esta postagem, por considerar que ele tem tudo a ver com ela. Segue o trecho.
"A lição mais importante é o valor das pessoas e da comunicação entre a equipe, o que significa cuidar uns dos outros, se importar com o grupo e fazer coisas juntos. É isso que torna a vida interessante: o relacionamento com as pessoas ao redor."
Dito isto, ficam duas indagações. O P.S. acrescentado à postagem faz sentido? Será que, para enxergarmos o que diz o ex-astronauta, será necessário fazermos uma caminhada espacial ou uma reflexão sobre o que por ele é dito será suficiente para percebermos que suas palavras fazem muito sentido?

Nenhum comentário: