Tendo me tornado alguém incapaz
de deixar de refletir sobre qualquer coisa que leia ou escute, o recente
recebimento de um instigante texto enviado por uma eterna amiga resultou nesta
postagem. Postagem que começa com a reprodução do referido texto e prossegue
com reflexões por ele provocadas.
Sem ter
ainda conseguido compreender o que seja o que ela chama de vida, a
autodenominada espécie inteligente do universo segue tentando explicá-la
recorrendo a comparações com várias coisas que encontra durante … a vida.
"A vida é um sopro", "A vida é uma roda gigante", "A
vida é uma viagem", "O trem da vida", eis algumas das inúmeros
comparações que pretendem explicar o que seja a vida. No texto reproduzido nesta
postagem, a comparação é feita com algo denominado escola. "Não há férias
na escola da vida", diz o título do texto.
"Não
há férias na escola da vida"
(Autor
desconhecido)
Na escola
da vida, ninguém pergunta se você quer se matricular. Basta nascer e já está
inscrito. O período letivo … Ah, esse nunca acaba. O curioso é que, nessa
escola, somos alunos e ao mesmo tempo podemos ensinar também. Mas o grande
mestre é o tempo — esse professor exigente, paciente e, às vezes, severo. Ele
não dá aviso prévio de prova. Um dia você acorda e lá está: o teste na mesa! E
se não estudou, não praticou, vai falhar. Mas quase sempre terá direito a uma
nova chance.
Algumas
matérias são leves: amor, amizade, gratidão, alegria. Outras exigem mais
esforço: paciência, tolerância, perdão, humildade... Tem também aquelas
disciplinas que a gente preferia não cursar: dor, perda, solidão. Mas é com
elas que o aprendizado se aprofunda.
O diretor
da escola. — Chamado de DEUS — Tem um jeito todo particular de preparar as
lições. Às vezes, ensina pelo afeto. Outras, pela dificuldade. E assim vamos
acumulando notas, sem boletim impresso, mas com um registro implacável no
coração.
Nos
conflitos, aprendemos a valorizar a paz. Na escassez, descobrimos o que nos é
suficiente. Ao ver injustiças de desigualdades, treinamos a solidariedade. E,
no convívio diário, aprendemos a arte difícil de amar o próximo. Lição que
alguns repetem por anos e anos sem conseguir passar.
Não há
férias nessa escola. O sinal não toca para encerrar o expediente. Cada dia é
uma nova aula. E talvez o diploma final seja a serenidade de olhar para trás e
dizer...
"Errei,
mas aprendi. Viverei aprendendo e melhorando até o último dia de aula."
*VIVA COM
SABEDORIA E NÃO ESQUEÇA DE AJUDAR SEUS COLEGAS DESSA ESCOLA DA VIDA!*
_Boa
aula!!!
*************
Citada
quase no final do texto, a afirmação “Não há férias na escola da vida”, foi
escolhida (imagino que tenha sido pelo autor desconhecido) para intitulá-lo, e
escolhida pelo identificado mantenedor do blog para por ela iniciar estas
reflexões. Reflexões que começam pela interpretação do título do texto.
Interpretação que começa com duas indagações: "O que é escola?";
"O que são férias?"..
Escola:
Lugar destinado a ensino coletivo, onde crianças de tenra idade (a cada dia
mais tenra) são colocadas, com a finalidade de lá aprenderem uma série de
coisas estabelecidas por indivíduos com mais idade, com o pretexto de serem
indispensáveis para prepará-las para lidarem com a tal da vida.
Férias:
Período de descanso dado aos frequentadores da escola, depois de passado um
determinado período de frequência.
Os
significados apresentados acima não foram obtidos em lugar algum, e sim
definidos por mim, a partir do que se pode ver nos dias de hoje, até porque as
coisas mudam muito ao longo do tempo, conforme se pode entender a partir do que
é dito a seguir. Trazido da Grécia Antiga para os dias de hoje, o significado
de escola ficaria, simplesmente, irreconhecível. A palavra escola vem do grego
"scholé" que significa lugar do ócio. Na Grécia Antiga, as pessoas
com melhores condições socioeconômicas e que dispunham de tempo livre, se
reuniam nesses lugares para pensar e refletir.
Ou seja,
da Grécia Antiga ao Mundo Atual, o significado de escola mudou
assustadoramente. De um "lugar de ócio onde pessoas se reuniam para pensar
e refletir" passou a ser um "lugar de atividades ininterruptas onde
pessoas são impedidas, exatamente, de pensar e refletir para que possam,
docilmente, serem transformadas em mão de obra barata a ser usada, futuramente,
em trabalhos prestados durante períodos de tempo cada vez maiores". Em
outras palavras, de um lugar onde pessoas se reuniam para pensar e refletir, a
escola passou a ser um lugar onde a finalidade é, exatamente, proibir as
pessoas de pensar e refletir. Proibição que, em seu limite, originou, neste
país, uma verdadeira aberração denominada "escola cívico-militar". A
palavra férias vem do latim "feriae, - arum", que significava
"dias festivos", "dias de descanso" ou "dias
sagrados" onde não se trabalhava, ligado a "festus" (festivo).
"Não
há férias na escola da vida", eis a afirmação que intitula o texto que
provocou esta postagem. Afirmação que, no meu entender, tem a intenção de
enaltecer a ocupação de todo o tempo de que se dispõe, em uma escola, com o
estudo. Enaltecimento que enxergo como preparação do terreno para, mais
adiante, enaltecer a ocupação de todo o tempo de que se dispõe, na "escola
da vida", com o trabalho. Estudar sem férias como preparação para
trabalhar sem férias. Trabalhar em jornadas de trabalho 6 x 1, enquanto deus (o
deus Mercado) não consegue estabelecer a jornada 7 x 0. Incutir nas pessoas a
ideia de que trabalhar exaustivamente é enobrecedor, embora jamais tenha
existido algum nobre que tivesse trabalhado, eis a intenção por trás da sórdida
exaltação do trabalho como algo enobrecedor. Fazer as pessoas trabalharem
durante todo o tempo para evitar que consigam dispor de tempo para fazer,
exatamente, o que faziam os "nobres" na Grécia Antiga: reunirem-se
para "pensar e refletir".
E ao
falar em Grécia Antiga, e em não parar para pensar e refletir, a velha prática
do método das recordações sucessivas fez-me ir buscar na introdução do livro O
Ato da Vontade, de Roberto Assagioli, o próximo parágrafo.
"Se um homem de uma civilização anterior à nossa – um grego da Antiguidade, digamos, ou um romano – aparecesse de súbito entre os seres humanos do presente, suas primeiras impressões o levariam a considerá-los uma raça de mágicos, de semideuses. Mas fosse um Platão ou um Marco Aurélio e se recusasse a ficar deslumbrado ante as maravilhas materiais criadas pela tecnologia avançada e examinasse a condição humana com mais cuidado, suas primeiras impressões dariam lugar a uma grande consternação. Verificaria que esse pretenso semideus que controla grandes forças elétricas com o mover de um dedo e inunda o ar de sons e imagens para divertimento de milhões de pessoas – é incapaz de lidar com as próprias emoções, impulsos e desejos."
"Pretenso
semideus incapaz de lidar com as próprias emoções, impulsos e desejos",
eis como um Platão ou um Marco Aurélio, enxergaria os seres humanos do
presente, se por aqui aparecesse de súbito, dando lugar a uma grande
consternação, diz Roberto Assagioli. Consternação que, no meu entender, poderia
ser explicada também pela percepção, por parte de um Platão ou um Marco
Aurélio, do que a escola ("scholé") se tornou. Afinal, será que sem
parar para "pensar e refletir", e dessa forma rever o uso que faz do
tempo (A
única coisa a fazer é decidir como usar o tempo que nos foi dado. Eis uma
das frases inesquecíveis da trilogia O
Senhor dos Anéis), é possível ao homem conseguir tornar-se capaz de deixar
de dedicar todo o seu tempo ao desenvolvimento de uma tecnologia avançada para
dedicar algum ao desenvolvimento da evolução "positiva" da condição
humana. Será que parar para "pensar e refletir" é algo possível de
ser feito em uma escola em que não há férias? O que você acha?
E ainda
fazendo referência à Grécia Antiga, segue uma conhecida frase atribuída a
Sócrates por Platão: "Uma vida não refletida não vale a pena ser
vivida". Frase que significa que uma existência sem reflexão,
autoconhecimento e questionamento de valores e crenças é vazia e sem sentido,
pois a verdadeira plenitude vem de buscar a sabedoria, a virtude e entender o
propósito da vida. Será que faz sentido, na escola da vida, não haver férias,
não haver tempo para parar e refletir? O que você acha?
"Na
escola da vida, ninguém pergunta se você quer se matricular. Basta nascer e já
está inscrito.", eis uma afirmação feita em relação à escola da vida que,
no meu entender, aplica-se também em outras escolas. Você tem conhecimento de
algum bebê que tenha sido consultado para saber se desejaria ir ou não para a
escola? Basta nascer e, se as condições socioeconômicas dos pais possibilitarem,
após poucos meses, o bebê já estará inscrito em uma escola onde estará,
inclusive, sendo submetido a aulas de línguas estrangeiras, antes mesmo de
conseguir começar a falar. Criança sofre! "Se a vida fosse fácil bebê não
nascia chorando", eis a frase gravada em um imã de geladeira afixado
naquela que tenho na cozinha.
"O
curioso é que, nessa escola, somos alunos e ao mesmo tempo podemos ensinar
também", eis um trecho do texto atribuído a um autor desconhecido que, no
meu entender, precisa ser corrigido. E para corrigi-lo, recorro à uma afirmação
atribuída a Buda. "Ensine sendo; aprenda fazendo.". Se, segundo Buda,
ensinar é algo que acontece pelo que somos, e aprender é algo que acontece pelo
que fazemos, ou seja, ensinar é algo que acontece pelos exemplos que damos
(bons ou ruins), consciente ou inconscientemente, e aprender é algo que
acontece quando passamos a fazer alguma nova coisa que nos for ensinada por
outras pessoas, a frase que inicia este parágrafo fica assim: "O estranho
é que, nessa escola, nos consideremos alunos ou
professores, em vez de alunos e
professores, pois não apenas nessa, mas em qualquer outra escola, somos,
simultaneamente, alunos e professores. Professores pelas muitas coisas que
ensinamos a partir daquilo que somos; alunos pelas poucas coisas que nos
dispomos a aprender quando passamos a fazer alguma nova coisa que nos for
ensinada por outras pessoas".
"Mas
o grande mestre é o tempo - esse professor exigente, paciente e, às vezes,
severo.", diz o autor desconhecido. Será? Em um filme argentino que
assisti, há décadas, no Centro Cultural do Banco do Brasil, logo em seu início
é feita uma afirmação, mais ou menos, assim: “Há pessoas que conseguem viver
"??" anos e que saem desta vida nada tendo aprendido”. Será que tal
resultado deve-se à exigência e à severidade do mestre, ou será que, na
verdade, não é o tempo o grande mestre?
Quanto a quem seja, na verdade, o mestre, segue uma conhecida frase de Guimarães Rosa,
no livro Grande Sertão: "Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de
repente aprende". E ao falar em quem ensina e em quem aprende, ele, sempre
ele, o velho método das recordações sucessivas, traz para estas reflexões a
seguinte afirmação de Alex Periscinoto (1925 - 2021), destacado publicitário
brasileiro: "Mais vale o que se aprende que o que te ensinam". Afirmação,
que, no meu entender, serve para encerrar muito bem uma postagem contendo
reflexões provocadas por algo que se leu. O que foi ensinado, é o que foi lido;
o que foi aprendido, é o que foi refletido. Compreendido?
"Viva
com sabedoria e não esqueça de ajudar seus colegas dessa escola da vida!",
eis a recomendação do autor desconhecido, feita no final do texto, que
reescrevo assim: "Não esqueça de ajudar seus colegas dessa escola da vida,
pois, só quando você conseguir não esquecer isso, é que você conseguirá, finalmente,
viver com sabedoria".
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