terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Que filhos queremos: gladiadores ou golfinhos?

O nascimento de um neto, em 20 de dezembro de 2024, despertou em mim o interesse em atualizar-me quanto aos modos de interagir adequadamente com crianças. Em conformidade com tal interesse, sem lembrar como, descobri um livro lançado em 2024 com um instigante título: "A Bula de Cada Criança - O olhar humanista de um pediatra sobre como cuidar dos filhos sem receita pronta", de autoria de Roberto Cooper. Um livro no qual, na condição de mantenedor de um blog intitulado "Espalhando ideias", não tive como não enxergar inúmeras ideias para por ele serem espalhadas. Já tendo espalhado alguns textos, segue mais um.
Que filhos queremos: gladiadores ou golfinhos?
Nossa visão do mundo - fortemente influenciada pela cultura, que são os valores e hábitos de que nos cercamos - define em grande parte como vamos ou queremos criar nossos filhos. Nos dias de hoje, há uma invasão da cultura empresarial na vida privada. Numa empresa, temos o objetivo de criar e manter clientes lucrativos. Isso se obtém através da excelência dos produtos e dos serviços, com o claro e explícito objetivo de superar a concorrência. Estou sendo gentil quando digo superar a concorrência. Em geral a linguagem é mais bélica e a ideia é derrubar, destruir, acabar com a concorrência.
Esse é o jogo. Para obter isso, é preciso que os empregados de todos os níveis estejam motivados, focados e comprometidos com as metas da empresa. Como o objetivo final é lucro, uma empresa deve pensar o tempo todo em minimizar custos e maximizar receitas. Eficiência é uma palavra-chave e metas são fundamentais para se poder medir o tamanho do sucesso. Se bati ou superei a meta, isso é um balizador da minha competência. A visão empresarial do mundo é a de que estamos em guerra. Mesmo internamente, com alguns mecanismos atenuantes, há uma guerra surda, silenciosa, pelo avanço na carreira. Como em uma empresa só se tem um presidente e meia dúzia de diretores, é óbvio que os empregados (motivacionalmente chamados de colaboradores, associados etc.) disputam entre si a entrada nesse funil, rumo ao topo. Há uma concorrência interna entre as pessoas, e a empresa usa isso para obter o máximo de cada um. 
Claro que essa descrição é simplista, superficial e, talvez, exagerada. Serve apenas para nos colocar no contexto do que seria uma cultura empresarial. Certamente, para uma empresa, essa cultura funciona muito bem. É desejável que prosperem e que haja uma continuada melhoria de produtos e serviços. O problema é quando não percebemos que a cultura - bélica, competitiva, baseada em entregar (deliver) e bater metas - se instala na nossa vida pessoal e das nossas famílias. Pessoas e famílias não são empresas. São seres humanos.
Além do fato de a cultura das empresas entrar em nossas vidas, há um equívoco na avaliação da natureza humana. Muitas pessoas acreditam que Darwin (aquele da evolução das espécies) disse que os mais fortes sobrevivem. Não foi isso que ele disse, mas, sim, que os mais aptos sobrevivem. É uma diferença fundamental entre ser forte e ser apto.
Se a nossa visão de mundo for a de que tudo é uma empresa e o mais forte triunfará, certamente educaremos nossos filhos para serem gladiadores implacáveis. Desde cedo lhes daremos tarefas, metas (sem dar esse nome) e bônus (que se chama presente) se cumprirem com o combinado (bater as metas). Seremos generosos com as críticas porque estas fortalecem e preparam para um mundo cruel e competitivo. Seremos econômicos com elogios porque estes amolecem o espírito e levam à acomodação e à inércia.
No entanto, se conseguirmos perceber que a vida pessoal não é feita de metas nem de tarefas (ainda que tenhamos as do dia a dia), mas de emoções, sensações, prazeres (e desprazeres), alegrias (e tristezas), veremos que somos dependentes de relacionamentos. Nossa existência, sem vínculos, sem o outro, que não seja um inimigo, perde o sentido.
Somos seres gregários, vivemos em grupo, dependemos uns dos outros, portanto, há um enorme espaço para solidariedade, compaixão e afeto. Nesse contexto, triunfarão os mais aptos, e a aptidão necessária é a do encontro, da empatia com o outro. Não é a força com que eu domino o outro, mas o afeto com que eu o acolho que pode determinar a felicidade e o bem-estar, coisa que todos desejam.
Se nossa visão de mundo for a de que a cooperação, o altruísmo e uma boa dose de ócio (não fazer compulsivamente algo, apenas pensar, refletir, ser criativo) são importantes, certamente educaremos nossos filhos para se tornarem golfinhos. Golfinhos são inteligentes, brincam, se divertem, vivem em grupo, colaboram entre si para a alimentação e contra o ataque de predadores. Desde cedo lhes mostraremos que ser alguém não se mede (apenas) pelo que se faz. Não seremos pais "operários", sempre à procura de tarefas com nossos filhos, mas pais que querem estar com eles. Fazer algo e estar junto não é exatamente a mesma coisa. Uma agenda sobrecarregada de atividades pode eliminar um tempo precioso de estar junto, literalmente sem fazer nada. O que, em um mundo de tarefeiros, fabris, é quase um crime.
Mas o mundo não é tão simples. Ou isso, ou aquilo. O mundo é complexo e, geralmente, é isso e aquilo, ao mesmo tempo. Assim, temos que pensar em nossos filhos como gladiadores, quando estiverem na arena das empresas, do mercado, da vida profissional e, como golfinhos, na vida, no convívio e nos relacionamentos. Precisamos lhes dar as aptidões para que possam viver bem, em todas as situações, de forma integrada e feliz. O perigo é quando só lhes damos um modo de ver e de estar no mundo. E, hoje, esse modo é o do gladiador.
Precisamos adicionar na formação dos nossos filhos afeto, vínculo, confiança mútua, solidariedade, empatia, compaixão e altruísmo. Só faremos isso, se pudermos ser assim. Não há curso para essas aptidões nas quais possamos inscrever nossos filhos, muito menos comprar algo que os ensine a ser gente. É preciso que sejamos pais amorosos, afetivos, solidários para que nossos filhos cresçam e se tornem adultos capazes de não ver o mundo exclusivamente pelas lentes da competição e da vitória sobre o outro.
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Apresentada a questão - Que filhos queremos: gladiadores ou golfinhos? -, seguida pela argumentação feita pelo próprio questionador para respondê-la, resta a quem se dispôs a ler esta postagem refletir sobre o que diz o pediatra Roberto Cooper em mais um instigante texto.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Octingentésima postagem ou “Revisitando A necessidade de conversar”

Inaugurado com uma postagem intitulada "Por que criei um blog?", publicada em 1º de fevereiro de 2011 (faz tempo, hein!), a primeira ideia espalhada por este blog foi "O Fenômeno do Centésimo Macaco". Onze meses depois, período em que noventa e oito postagens foram publicadas, influenciado pelo simbolismo do centésimo, publiquei "A centésima postagem".
Tendo tomado gosto pela ideia de destacar a completeza de uma nova centena de postagens, dezesseis meses depois, publiquei "Ducentésima postagem" ou "Quanto pior melhor". O tempo passou e, quinze anos e três dias depois, aqui está "Octingentésima postagem" ou "Revisitando A necessidade de conversar".
A escolha do tema para esta postagem veio da combinação do que é dito no parágrafo final da postagem anterior com o fato de "A necessidade de conversar" ser, no meu entender, uma postagem que não recebeu a devida atenção pelas pessoas que visitaram este blog. Sendo uma necessidade humana, refletir sobre a necessidade de conversar é algo que, no meu entender, deveria interessar cada vez mais aos seres integrantes da autodenominada espécie inteligente do universo. Sendo assim, esta postagem pretende oferecer uma nova oportunidade para que isso seja feito. Publicada em 31 de maio de 2011, como a 35ª postagem deste blog, enxergo "A necessidade de conversar" como uma postagem atemporal. 
A necessidade de conversar
A vontade de redigir este texto foi despertada por uma gravação encontrada no correio de voz do telefone localizado na "estação de trabalho" que eu ocupava. Ela foi deixada na noite de 12.10.2002, um sábado, e só a ouvi na segunda-feira. Fiquei tão impressionado com a mensagem que resolvi copiar aquelas palavras. Creio que elas possibilitem reflexões sobre uma necessidade humana tão negligenciada: conversar.
"Oi. Olha só. Eu estou aqui sozinha sabe e queria conversar com alguém e involuntariamente eu liguei pra você, mas nem você quer falar comigo. Tá bom, tudo bem, fazer o que. Beijinho."
A voz era de uma jovem que, em uma numa noite de sábado, estava sozinha e involuntariamente ligara para alguém porque queria conversar. Mas em vez de encontrar alguém com quem conversar o que ela conseguiu foi ouvir o correio de voz repetir a seguinte saudação: "Se a intenção era ligar para 9999-9999 você acertou o número, mas errou o momento. Se julgar conveniente, grave uma mensagem após o sinal". Apesar da ligação não ter sido intencional aquela saudação era válida: ela ligara no momento errado. Ligara para uma empresa em um dia em que a maior parte de sua "força de trabalho" ainda tem direito a um descanso. Involuntariamente eu a decepcionara: afinal, nem eu quis falar com ela. Foi uma pena, pois adoro conversar. No meu entender, conversar é uma necessidade humana. Concordo com algo que li no livro O Retorno e Terno de Rubem Alves.
"Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: 'Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: 'Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?' Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar'."
Creio que a capacidade de conversar com prazer deve ser objeto de interesse não apenas no relacionamento entre casais, mas em qualquer relacionamento. Vimala Thakar escreveu um livro intitulado Viver é relacionar-se e Rubem Alves diz que relações não transitórias são construídas sobre a arte de conversar. Mas na sociedade em que vivemos a preferência é justamente pelas relações transitórias; por aquelas que não se prendem a nada nem a ninguém. É de um antigo texto que circulou pela internet e atribuído a Arnaldo Jabor o seguinte trecho:  
"Na hora de cantar todo mundo enche o peito nas boates, levanta os braços, sorri e dispara: 'eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também'. No entanto, passado o efeito do uísque com energético e dos beijos descompromissados, os adeptos da geração 'tribalista' se dirigem aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição."
Sim, é somente após passar o efeito de coisas que esta sociedade doente oferece para que as pessoas, transitoriamente, esqueçam a realidade em que sobrevivem e "curtam" estados artificiais de euforia (que muitos confundem com alegria) que elas percebem a solidão em que vivem (embora cercadas de pessoas) e dirigem-se aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição. É neste momento que vem à tona a necessidade de conversar, porém junto com ela vêem dificuldades para satisfazer tal necessidade, pois conversar é confundido com falar.
Conversar depende de tempo para dar atenção ao que outra pessoa fala, mas isto é algo cada dia mais difícil em uma sociedade na qual a maioria faz parte do MST: Movimento dos Sem Tempo. Considerando insuficiente o tempo de que dispõe, a maioria opta por fazer muitas coisas ao mesmo tempo, e como diz Daniel Piza, nenhuma com a devida consistência. Uma delas é falar com alguém enquanto faz outra coisa. Sem dar atenção ao que o outro fala as pessoas respondem falando o que "mal" entendem e, equivocadamente, acham que estão conversando.
Que conversar e falar não são a mesma coisa pode ser entendido até musicalmente. É da música Same Mistake interpretada por James Blunt o seguinte trecho:
"And maybe someday we will meet
E talvez um dia nós nos encontremos  
And maybe talk and not just speak
E talvez possamos conversar e não apenas falar"
Mas enquanto não pudermos conversar e apenas falar, persistirá o fracasso nos verdadeiros relacionamentos. E, consequentemente, prosseguiremos vivendo mal, pois se viver é relacionar-se jamais viveremos bem enquanto nos relacionarmos mal. E pouco adianta criar meios de comunicação se nós não abandonarmos a superficialidade e a futilidade de nossos relacionamentos. Meios de comunicação não nos faltam, creio até que existem demais, o que nos falta é saber usá-los com algo que preste. Repito aqui um trecho do texto de Luiza Possi que postei em 30 de março.
"Acho que é mais fácil dizer para muita gente ao mesmo tempo que você está entrando no carro e indo ao supermercado do que sentar com um amigo e falar do que realmente nos faz bem, e do que nos faz mal. O conceito de se relacionar está mudando, não sabemos ainda muito bem para onde."
Sim, o conceito de se relacionar está mudando e as redes sociais estão aí fazendo um estrondoso sucesso. Tão estrondoso que parece impedir as pessoas de ouvir sua voz interior alertando que relacionamentos superficiais jamais resolverão o problema da solidão que a cada dia é mais profunda.
Viver é relacionar-se e conversar é uma necessidade. Estamos conversados?
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Espalhado por uma postagem publicada em 31 de maio de 2011, será que o texto inspirado por uma mensagem gravada no "correio de voz" de um "telefone fixo", após uma ligação telefônica frustrada em 12 de outubro de 2002, ainda faz sentido nos dias de hoje? Será que existem coisas que deveriam ser, periodicamente, revisitadas até o dia em que, finalmente, consigam ser compreendidas?

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Cuidar é escutar sem pressa

A ideia a ser espalhada por esta postagem foi encontrada em um instigante texto de Alexandre Coimbra Amaral publicado na edição 284 da revista Vida Simples, referente a outubro de 2025. No "rodapé" do texto, o autor é apresentado assim: "Alexandre Coimbra Amaral é psicólogo, escritor best-seller, palestrante e podcaster. Conversador por excelência em diferentes mídias, gosta de falar sobre o que o inquieta. @alexandrecoimbraamaral". Feito esse preâmbulo, segue o referido texto.
Cuidar é escutar sem pressa
Uma coisa que não nos deveria faltar nunca é o cuidado, sobretudo aquele formado pela tríade silêncio, escuta e fala
QUANDO ESTAMOS DIANTE DE UM PROFISSIONAL DE SAÚDE, geralmente relatamos os sintomas incômodos que nos levaram àquela visita. Seja um mal-estar físico ou emocional (nenhum deles tem separação absoluta do outro, o corpo é um só quando padece), podemos sair daquela conversa com um diagnóstico e uma prescrição de tratamento para lidar com ele.
Os profissionais de saúde são muito treinados para a grande meta: chegar ao "diagnóstico fechado". Mas o que se fecha no diálogo quando o diagnóstico é fechado? Num papel, um nome, um resumo em que devo me sentir contemplado: "Você tem depressão", "Você tem ansiedade".
É um encontro que poderia ser uma partilha de tempo, mas, na pressa por classificar, deixamos de escutar. Há sempre um tanto de dor de existir que não se sente representada pelo suposto alívio de um diagnóstico que tem um tratamento eficaz. Escutar o sintoma não é ter um checklist de ideias para se chegar ao nome da doença. Nenhuma dor cabe inteira num rótulo. Nenhuma história se esconde no porão das letras incompreensíveis de remédios e de classificação de doenças. Quando a vida dói, ela pede todo o tipo de ação humana.
Quando escutamos alguém, não escutamos somente sua voz. Por exemplo, uma pessoa com ansiedade não carrega somente as taquicardias, sudoreses e pensamentos catastróficos. Ela traz sua história inteira e os ritmos acelerados da sociedade em que vive. O corpo ansioso também é um corpo social, como são todos os corpos que sofrem. O tremor do lado de dentro do corpo pode ser por boletos em aberto, por desemprego, por racismo, por solidão. Quem escuta o que está por trás dos nomes dos sintomas e das doenças que vão nos acometendo? Que destino podemos dar às palavras que precisam e merecem sair, porque somos também feitos de narrativa compartilhada?
Os profissionais têm sim uma relevância contumaz nessa esfera. Porém, me entristece que muitos de nós não tenhamos disponibilidade para escutar para além dos diagnósticos. Mas o mundo inteiro à volta de uma pessoa pode lhe ofertar escuta, que não quer dizer ter respostas ou ações eficazes para resolver o problema, e sim companhia no incômodo de viver com dor.
Qualquer um de nós pode perguntar de forma aberta e curiosa, querendo permanecer ali, reconhecendo que a dor não é um erro, mas uma narrativa que precisa ser contada. Cuidar é escutar sem pressa.
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A simples frase usada como título - Cuidar é escutar sem pressa - já seria suficiente para elaborar uma postagem, mas considerando que ela é seguida por um instigante texto, partamos do texto para prosseguir com esta postagem.
"Os profissionais de saúde são muito treinados para a grande meta: chegar ao 'diagnóstico fechado'. Mas o que se fecha no diálogo quando o diagnóstico é fechado? Num papel, um nome, um resumo em que devo me sentir contemplado: 'Você tem depressão', 'Você tem ansiedade'. É um encontro que poderia ser uma partilha de tempo, mas, na pressa por classificar, deixamos de escutar."
O que é um diagnóstico? É o processo analítico para se chegar a conclusão da natureza e da causa de um problema. É também o nome dado à conclusão em si mesma. O que significa "diagnóstico fechado"? Em medicina, significa que o médico chegou a uma conclusão definitiva sobre a condição de saúde do paciente, o que permite iniciar o tratamento específico, ao contrário de uma suspeita inicial ou de um quadro "em aberto" que precisa de mais investigação.
"Mas o que se fecha no diálogo quando o diagnóstico é fechado?", indaga Alexandre Coimbra. No meu entender, é o próprio diálogo. Usando palavras do psicólogo, o que se fecha "é um encontro que poderia ser uma partilha de tempo, mas, na pressa por classificar, deixamos de escutar". Mas, o que deixamos de escutar? Ainda no meu entender, e ainda usando palavras do psicólogo, deixamos de escutar "sua história inteira (do paciente) e os ritmos acelerados da sociedade em que vive. (...) o que está por trás dos nomes dos sintomas e das doenças que vão nos acometendo".
"Mas, na pressa por classificar, deixamos de escutar.", afirma o psicólogo. Mas se deixamos de escutar, indago eu, será que é possível se chegar ao diagnóstico correto? Indagação que, enxergo como respondida pela quantidade de pessoas doentes nesta sociedade patológica na qual sobrevivemos.
"Quando escutamos alguém, não escutamos somente sua voz. Por exemplo, uma pessoa com ansiedade não carrega somente as taquicardias, sudoreses e pensamentos catastróficos. Ela traz sua história inteira e os ritmos acelerados da sociedade em que vive. O tremor do lado de dentro do corpo pode ser por boletos em aberto, por desemprego, por racismo, por solidão."
Quando Alexandre Coimbra diz que "Quando escutamos alguém, não escutamos somente sua voz", obviamente refere-se a escutar sem pressa, pois, se for com pressa, nem mesmo sua voz escutamos. E ao dizer isso, ele me faz trazer para esta postagem as duas afirmações reproduzidas a seguir. "As pessoas não se escutam mais, elas apenas esperam a vez de falar", eis uma afirmação feita em um vídeo que assisti, recentemente, no You Tube. "O contrário de falar não é escutar. É esperar.", eis uma afirmação de Fran Lebowitz, extraída do livro "O Almanaque de Fran Lebowitz".
"Os profissionais têm sim uma relevância contumaz nessa esfera. Porém, me entristece que muitos de nós não tenhamos disponibilidade para escutar para além dos diagnósticos. Mas o mundo inteiro à volta de uma pessoa pode lhe ofertar escuta, que não quer dizer ter respostas ou ações eficazes para resolver o problema, e sim companhia no incômodo de viver com dor. Qualquer um de nós pode perguntar de forma aberta e curiosa, querendo permanecer ali, reconhecendo que a dor não é um erro, mas uma narrativa que precisa ser contada. Cuidar é escutar sem pressa."
O que entendi do que afirma o psicólogo no parágrafo acima? Que, considerando o significado de sociedade – "agrupamento de seres que convivem em estado gregário e em colaboração mútua" -, qualquer um de nós deve se perceber como cuidador dos demais. O problema é que, se "cuidar é escutar sem pressa", na condição de integrante de uma sociedade (sic) assolada pela pressa, como qualquer um de nós conseguirá cuidar dos demais? E sem cada um de nós admitir que, também, é sua responsabilidade cuidar dos demais, será que faz algum sentido chamar de sociedade esse aglomerado confuso formado por indivíduos indiferentes ao que acontece com os demais? "O que não convém ao enxame não convém tampouco à abelha", eis uma afirmação atribuída ao imperador Marco Aurélio que uso aqui para defender a imprescindibilidade de cuidarmos uns dos outros.
"Escutar sem pressa!", eis a questão. Afinal, como conseguir fazer isso em uma sociedade onde as pessoas passaram a comunicar-se (sic) por meio de mensagens ouvidas por meio de um smartphone em velocidade "2x" no WhatsApp.
E para encerrar esta postagem, recorro ao que é dito no primeiro parágrafo do instigante texto: "Uma coisa que não nos deveria faltar nunca é o cuidado, sobretudo aquele formado pela tríade silêncio, escuta e fala". Tríade que interpreto assim: Fazer silêncio para que seja possível escutar a fala. Você consegue perceber que isso nada mais é do que conversar? Ou seja, será que também é válido afirmar que cuidar é conversar? Silêncio, escuta e fala, eis, no meu entender, a tríade que torna possível o atendimento a algo imprescindível à vida em sociedade ("agrupamento de seres que convivem em estado gregário e em colaboração mútua"): a necessidade de conversar.
P. S.
A edição do Jornal Valor Econômico publicada no dia seguinte à publicação desta postagem, traz um artigo no qual são publicados trechos de uma entrevista com Mike Massimino, ex-astronauta da Nasa que realizou quatro caminhadas espaciais para consertar o telescópio Hubble. Trechos dos quais selecionei um para acrescentá-lo a esta postagem, por considerar que ele tem tudo a ver com ela. Segue o trecho.
"A lição mais importante é o valor das pessoas e da comunicação entre a equipe, o que significa cuidar uns dos outros, se importar com o grupo e fazer coisas juntos. É isso que torna a vida interessante: o relacionamento com as pessoas ao redor."
Dito isto, ficam duas indagações. O P.S. acrescentado à postagem faz sentido? Será que, para enxergarmos o que diz o ex-astronauta, será necessário fazermos uma caminhada espacial ou uma reflexão sobre o que por ele é dito será suficiente para percebermos que suas palavras fazem muito sentido?

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Reflexões provocadas por "Não há férias na escola da vida"

Tendo me tornado alguém incapaz de deixar de refletir sobre qualquer coisa que leia ou escute, o recente recebimento de um instigante texto enviado por uma eterna amiga resultou nesta postagem. Postagem que começa com a reprodução do referido texto e prossegue com reflexões por ele provocadas.
Sem ter ainda conseguido compreender o que seja o que ela chama de vida, a autodenominada espécie inteligente do universo segue tentando explicá-la recorrendo a comparações com várias coisas que encontra durante … a vida. "A vida é um sopro", "A vida é uma roda gigante", "A vida é uma viagem", "O trem da vida", eis algumas das inúmeros comparações que pretendem explicar o que seja a vida. No texto reproduzido nesta postagem, a comparação é feita com algo denominado escola. "Não há férias na escola da vida", diz o título do texto.
"Não há férias na escola da vida"
(Autor desconhecido)
Na escola da vida, ninguém pergunta se você quer se matricular. Basta nascer e já está inscrito. O período letivo … Ah, esse nunca acaba. O curioso é que, nessa escola, somos alunos e ao mesmo tempo podemos ensinar também. Mas o grande mestre é o tempo — esse professor exigente, paciente e, às vezes, severo. Ele não dá aviso prévio de prova. Um dia você acorda e lá está: o teste na mesa! E se não estudou, não praticou, vai falhar. Mas quase sempre terá direito a uma nova chance.
Algumas matérias são leves: amor, amizade, gratidão, alegria. Outras exigem mais esforço: paciência, tolerância, perdão, humildade... Tem também aquelas disciplinas que a gente preferia não cursar: dor, perda, solidão. Mas é com elas que o aprendizado se aprofunda.
O diretor da escola. — Chamado de DEUS — Tem um jeito todo particular de preparar as lições. Às vezes, ensina pelo afeto. Outras, pela dificuldade. E assim vamos acumulando notas, sem boletim impresso, mas com um registro implacável no coração.
Nos conflitos, aprendemos a valorizar a paz. Na escassez, descobrimos o que nos é suficiente. Ao ver injustiças de desigualdades, treinamos a solidariedade. E, no convívio diário, aprendemos a arte difícil de amar o próximo. Lição que alguns repetem por anos e anos sem conseguir passar.
Não há férias nessa escola. O sinal não toca para encerrar o expediente. Cada dia é uma nova aula. E talvez o diploma final seja a serenidade de olhar para trás e dizer...
"Errei, mas aprendi. Viverei aprendendo e melhorando até o último dia de aula."
*VIVA COM SABEDORIA E NÃO ESQUEÇA DE AJUDAR SEUS COLEGAS DESSA ESCOLA DA VIDA!*
_Boa aula!!!
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Citada quase no final do texto, a afirmação “Não há férias na escola da vida”, foi escolhida (imagino que tenha sido pelo autor desconhecido) para intitulá-lo, e escolhida pelo identificado mantenedor do blog para por ela iniciar estas reflexões. Reflexões que começam pela interpretação do título do texto. Interpretação que começa com duas indagações: "O que é escola?"; "O que são férias?"..
Escola: Lugar destinado a ensino coletivo, onde crianças de tenra idade (a cada dia mais tenra) são colocadas, com a finalidade de lá aprenderem uma série de coisas estabelecidas por indivíduos com mais idade, com o pretexto de serem indispensáveis para prepará-las para lidarem com a tal da vida.
Férias: Período de descanso dado aos frequentadores da escola, depois de passado um determinado período de frequência.
Os significados apresentados acima não foram obtidos em lugar algum, e sim definidos por mim, a partir do que se pode ver nos dias de hoje, até porque as coisas mudam muito ao longo do tempo, conforme se pode entender a partir do que é dito a seguir. Trazido da Grécia Antiga para os dias de hoje, o significado de escola ficaria, simplesmente, irreconhecível. A palavra escola vem do grego "scholé" que significa lugar do ócio. Na Grécia Antiga, as pessoas com melhores condições socioeconômicas e que dispunham de tempo livre, se reuniam nesses lugares para pensar e refletir.
Ou seja, da Grécia Antiga ao Mundo Atual, o significado de escola mudou assustadoramente. De um "lugar de ócio onde pessoas se reuniam para pensar e refletir" passou a ser um "lugar de atividades ininterruptas onde pessoas são impedidas, exatamente, de pensar e refletir para que possam, docilmente, serem transformadas em mão de obra barata a ser usada, futuramente, em trabalhos prestados durante períodos de tempo cada vez maiores". Em outras palavras, de um lugar onde pessoas se reuniam para pensar e refletir, a escola passou a ser um lugar onde a finalidade é, exatamente, proibir as pessoas de pensar e refletir. Proibição que, em seu limite, originou, neste país, uma verdadeira aberração denominada "escola cívico-militar". A palavra férias vem do latim "feriae, - arum", que significava "dias festivos", "dias de descanso" ou "dias sagrados" onde não se trabalhava, ligado a "festus" (festivo).
"Não há férias na escola da vida", eis a afirmação que intitula o texto que provocou esta postagem. Afirmação que, no meu entender, tem a intenção de enaltecer a ocupação de todo o tempo de que se dispõe, em uma escola, com o estudo. Enaltecimento que enxergo como preparação do terreno para, mais adiante, enaltecer a ocupação de todo o tempo de que se dispõe, na "escola da vida", com o trabalho. Estudar sem férias como preparação para trabalhar sem férias. Trabalhar em jornadas de trabalho 6 x 1, enquanto deus (o deus Mercado) não consegue estabelecer a jornada 7 x 0. Incutir nas pessoas a ideia de que trabalhar exaustivamente é enobrecedor, embora jamais tenha existido algum nobre que tivesse trabalhado, eis a intenção por trás da sórdida exaltação do trabalho como algo enobrecedor. Fazer as pessoas trabalharem durante todo o tempo para evitar que consigam dispor de tempo para fazer, exatamente, o que faziam os "nobres" na Grécia Antiga: reunirem-se para "pensar e refletir".
E ao falar em Grécia Antiga, e em não parar para pensar e refletir, a velha prática do método das recordações sucessivas fez-me ir buscar na introdução do livro O Ato da Vontade, de Roberto Assagioli, o próximo parágrafo.
"Se um homem de uma civilização anterior à nossa – um grego da Antiguidade, digamos, ou um romano – aparecesse de súbito entre os seres humanos do presente, suas primeiras impressões o levariam a considerá-los uma raça de mágicos, de semideuses. Mas fosse um Platão ou um Marco Aurélio e se recusasse a ficar deslumbrado ante as maravilhas materiais criadas pela tecnologia avançada e examinasse a condição humana com mais cuidado, suas primeiras impressões dariam lugar a uma grande consternação. Verificaria que esse pretenso semideus que controla grandes forças elétricas com o mover de um dedo e inunda o ar de sons e imagens para divertimento de milhões de pessoas – é incapaz de lidar com as próprias emoções, impulsos e desejos."
"Pretenso semideus incapaz de lidar com as próprias emoções, impulsos e desejos", eis como um Platão ou um Marco Aurélio, enxergaria os seres humanos do presente, se por aqui aparecesse de súbito, dando lugar a uma grande consternação, diz Roberto Assagioli. Consternação que, no meu entender, poderia ser explicada também pela percepção, por parte de um Platão ou um Marco Aurélio, do que a escola ("scholé") se tornou. Afinal, será que sem parar para "pensar e refletir", e dessa forma rever o uso que faz do tempo (A única coisa a fazer é decidir como usar o tempo que nos foi dado. Eis uma das frases inesquecíveis da trilogia O Senhor dos Anéis), é possível ao homem conseguir tornar-se capaz de deixar de dedicar todo o seu tempo ao desenvolvimento de uma tecnologia avançada para dedicar algum ao desenvolvimento da evolução "positiva" da condição humana. Será que parar para "pensar e refletir" é algo possível de ser feito em uma escola em que não há férias? O que você acha?
E ainda fazendo referência à Grécia Antiga, segue uma conhecida frase atribuída a Sócrates por Platão: "Uma vida não refletida não vale a pena ser vivida". Frase que significa que uma existência sem reflexão, autoconhecimento e questionamento de valores e crenças é vazia e sem sentido, pois a verdadeira plenitude vem de buscar a sabedoria, a virtude e entender o propósito da vida. Será que faz sentido, na escola da vida, não haver férias, não haver tempo para parar e refletir? O que você acha?
"Na escola da vida, ninguém pergunta se você quer se matricular. Basta nascer e já está inscrito.", eis uma afirmação feita em relação à escola da vida que, no meu entender, aplica-se também em outras escolas. Você tem conhecimento de algum bebê que tenha sido consultado para saber se desejaria ir ou não para a escola? Basta nascer e, se as condições socioeconômicas dos pais possibilitarem, após poucos meses, o bebê já estará inscrito em uma escola onde estará, inclusive, sendo submetido a aulas de línguas estrangeiras, antes mesmo de conseguir começar a falar. Criança sofre! "Se a vida fosse fácil bebê não nascia chorando", eis a frase gravada em um imã de geladeira afixado naquela que tenho na cozinha.  
"O curioso é que, nessa escola, somos alunos e ao mesmo tempo podemos ensinar também", eis um trecho do texto atribuído a um autor desconhecido que, no meu entender, precisa ser corrigido. E para corrigi-lo, recorro à uma afirmação atribuída a Buda. "Ensine sendo; aprenda fazendo.". Se, segundo Buda, ensinar é algo que acontece pelo que somos, e aprender é algo que acontece pelo que fazemos, ou seja, ensinar é algo que acontece pelos exemplos que damos (bons ou ruins), consciente ou inconscientemente, e aprender é algo que acontece quando passamos a fazer alguma nova coisa que nos for ensinada por outras pessoas, a frase que inicia este parágrafo fica assim: "O estranho é que, nessa escola, nos consideremos alunos ou professores, em vez de alunos e professores, pois não apenas nessa, mas em qualquer outra escola, somos, simultaneamente, alunos e professores. Professores pelas muitas coisas que ensinamos a partir daquilo que somos; alunos pelas poucas coisas que nos dispomos a aprender quando passamos a fazer alguma nova coisa que nos for ensinada por outras pessoas".
"Mas o grande mestre é o tempo - esse professor exigente, paciente e, às vezes, severo.", diz o autor desconhecido. Será? Em um filme argentino que assisti, há décadas, no Centro Cultural do Banco do Brasil, logo em seu início é feita uma afirmação, mais ou menos, assim: “Há pessoas que conseguem viver "??" anos e que saem desta vida nada tendo aprendido”. Será que tal resultado deve-se à exigência e à severidade do mestre, ou será que, na verdade, não é o tempo o grande mestre?
Quanto a quem seja, na verdade, o mestre, segue uma conhecida frase de Guimarães Rosa, no livro Grande Sertão: "Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende". E ao falar em quem ensina e em quem aprende, ele, sempre ele, o velho método das recordações sucessivas, traz para estas reflexões a seguinte afirmação de Alex Periscinoto (1925 - 2021), destacado publicitário brasileiro: "Mais vale o que se aprende que o que te ensinam". Afirmação, que, no meu entender, serve para encerrar muito bem uma postagem contendo reflexões provocadas por algo que se leu. O que foi ensinado, é o que foi lido; o que foi aprendido, é o que foi refletido. Compreendido?
"Viva com sabedoria e não esqueça de ajudar seus colegas dessa escola da vida!", eis a recomendação do autor desconhecido, feita no final do texto, que reescrevo assim: "Não esqueça de ajudar seus colegas dessa escola da vida, pois, só quando você conseguir não esquecer isso, é que você conseguirá, finalmente, viver com sabedoria".

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Lá vem o ano novo!

Em uma hipotética retrospectiva do ano 2025 feita por mim, inevitavelmente, nela constaria a descoberta do livro "A Bula de Cada Criança - O olhar humanista de uma pediatra sobre como cuidar dos filhos sem receita pronta", de autoria do pediatra Roberto Cooper, publicado em 2024. Intitulado "A Bula de Cada Criança", em sua primeira orelha, o livro traz a BULA DO LIVRO. Constando de dez itens, dela extraí os três primeiros para reproduzir neste preâmbulo.
1. Para quem este livro é indicado?
Pais, educadores e profissionais de saúde que lidam com crianças, interessados em um olhar humanista sobre como cuidar delas.
2. Como o livro funciona?
Ativando a criatividade e o senso de competência, autonomia e independência dos pais, provocando os profissionais da saúde a (re) pensar sua prática.
3. Quem não deve ler este livro?
Pais, educadores e profissionais de saúde em busca de normas, regras, estatísticas, diretrizes e receitas prontas de como cuidar de filhos e crianças.
O próximo parágrafo reproduz um trecho da Apresentação feita pelo autor.
"Outra motivação foi a de mostrar aos pais que eles sabem muito mais a respeito de seus filhos do que imaginam. Em um mundo de especialistas em tudo, onde é preciso transformar-se no melhor no que se faz, ser mãe e pai ficou difícil. 'Certamente há alguém que entende de bebês e crianças mais do que nós' é um pensamento recorrente, mas uma mentira. Quem entende dos filhos são os pais. Acho importante ainda desmedicalizar a saúde, outra proposta do livro."
Após as palavras do autor reproduzidas acima, seguem algumas coisas que não consigo deixar de falar sobre o livro. No meu entender, A Bula de Cada Criança, deveria ser lido não só pelos pais, mas também por todos (as) aqueles (as) que, de alguma forma, interagem com o bebê. Pelos pais para que sintam-se estimulados a (como é dito no parágrafo acima) tornarem-se "sujeitos ativos no processo de cuidar dos seus filhos". Por aqueles (as) que, de alguma forma, interagem com o bebê para que sintam-se desestimulados a enxergarem-se "como alguém que entende de bebês e crianças mais do que os pais".
Na condição de avô, comprei um exemplar para a minha filha e um para mim. Na condição de alguém que mantém um blog intitulado Espalhando ideias, recomendo, a quem estiver em uma das duas condições citadas no início deste parágrafo, que compre o seu exemplar e o leia com a devida atenção. Feito este longo preâmbulo, vamos a mais um instigante texto do livro "A Bula de Cada Criança - O olhar humanista de uma pediatra sobre como cuidar dos filhos sem receita pronta".
Lá vem o ano novo!
Me inspiro em Bela, uma linda menina de 3 anos, para escrever sobre a mudança de ano. Ela veio ao consultório porque estava com um machucado no dedo. Ao chegar, disse: "Te vi na televisão"! Eu desconversei: "Seu vestido é lindo.' "É de flores", respondeu Bela. Logo no início da consulta, ela me avisou: "Não gosto de injeção". A consulta transcorreu com a Bela interagindo, me contando coisas, pedindo abaixadores de língua coloridos, depois me dando alguns, para retomá-los a seguir. Quando perguntei se poderia examiná-la, subiu sozinha na maca e aguardou o momento de que mais gosta: ser medida. Me contou da viagem que iria fazer, do Hulk vermelho que ganhou, de como ela mora em um andar alto que mais parece uma torre. Eu disse que era a torre da princesa e ela, com olhar pensativo, disse apenas: "É"!
O leitor deve estar se perguntando: mas o que foi que a Bela disse que me fez saber o que escrever a respeito do ano novo. Ela não disse nada! Ela me mostrou tudo! Ela me mostrou que, para as crianças, o ano novo acontece todos os dias. Os sonhos por se realizar povoam suas cabeças e tudo é possível para elas. Me mostrou que, sem pudores culturais ou sociais, a espontaneidade brota de uma forma genuína e deliciosa. Ao brincar com a régua de medir crianças ou subir fascinada na balança, confirmou que tudo pode ser o que é e outra coisa, lúdica, ao mesmo tempo. Não há necessidade de classificações rígidas, imutáveis, engessando o mundo. Ao falar de si, da cor dos seus olhos, do vestido, do Hulk, me dizia o tempo todo: eu gosto de mim e me sinto muito bem e segura! Enquanto eu explicava a prescrição para os pais, Bela continuava conversando, falando de cores, desenhos, objetos que tinha em casa, e um tema engrenava no outro com uma fluidez admirável. Finalmente, ao ir embora, me ofereceu um beijo e um abraço muito forte. Nenhuma vergonha ou inibição em demonstrar o seu afeto.
Então, o que Bela me mostrou é que, se formos atentos e observarmos carinhosamente nossos filhos, não só lhes ensinaremos coisas fundamentais para a vida, mas poderemos aprender com eles a resgatar aspectos que a maturidade e os compromissos sociais nos fazem esquecer ou ocultar sob um manto de vergonha.
Desejo a todos os pais que possam, através dos filhos, celebrar a vida todos os dias e não só em datas convencionadas. Que possamos ser espontâneos, sonhadores, brincalhões, alegres, criativos, seguros de nós mesmos, desengessando (existe isso?) o cotidiano de códigos e classificações rígidas.
Finalmente e, principalmente, que possamos, como a Bela fez, beijar e abraçar as pessoas de que gostamos, sem pudor, sem receio, sem esperar os dias "certos".
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"Ela (Bela) me mostrou que, para as crianças, o ano novo acontece todos os dias. Me mostrou que, sem pudores culturais ou sociais, a espontaneidade brota de uma forma genuína e deliciosa. Não há necessidade de classificações rígidas, imutáveis, engessando o mundo."
E diante do que é dito no parágrafo anterior pelo pediatra Roberto Cooper, Bela (uma linda menina de três anos) me fez pensar o seguinte: a convivência com adultos, vai tirando das crianças "a espontaneidade que brota de uma forma genuína e deliciosa", e nelas instalando uma artificialidade desenvolvida de uma forma interesseira e ardilosa. Segue mais um trecho do texto do pediatra. 
"Finalmente, ao ir embora, me ofereceu um beijo e um abraço muito forte. Nenhuma vergonha ou inibição em demonstrar o seu afeto. Então, o que Bela me mostrou é que, se formos atentos e observarmos carinhosamente nossos filhos, não só lhes ensinaremos coisas fundamentais para a vida, mas poderemos aprender com eles a resgatar aspectos que a maturidade e os compromissos sociais nos fazem esquecer ou ocultar sob um manto de vergonha."
"Oferecer um beijo e um abraço muito forte, sem nenhuma vergonha ou inibição em demonstrar o seu afeto.", eis o gesto de uma criança que ainda consegue manter sua espontaneidade. Oferecer um aperto de mão, muitas vezes forte demais, com algum fingimento ou inibição, eis o gesto de um adulto que não consegue disfarçar sua artificialidade.
"Todas as pessoas grandes foram um dia criança, mas poucas se lembram disso," eis uma conhecida afirmação de Antoine de Saint-Exupéry. Por que cito-a nesta postagem? Para associá-la ao que é dito pelo pediatra Roberto Cooper no próximo parágrafo.  
"Desejo a todos os pais que possam, através dos filhos, celebrar a vida todos os dias e não só em datas convencionadas. Que possamos ser espontâneos, sonhadores, brincalhões, alegres, criativos, seguros de nós mesmos, desengessando (existe isso?) o cotidiano de códigos e classificações rígidas."
Você consegue enxergar que, em última análise, o que o pediatra "deseja a todos os pais que possam, é, através dos filhos", lembrar que foram um dia criança?
Dito isto, creio que a melhor maneira de encerrar esta postagem que encerra as postagens deste ano é repetir o trecho que encerra o belo texto que o pediatra Roberto Cooper elaborou inspirado em Bela, uma linda menina de três anos:
"Finalmente e, principalmente, que possamos, como a Bela fez, beijar e abraçar as pessoas de que gostamos, sem pudor, sem receio, sem esperar os dias 'certos'."