"Que
filhos queremos: gladiadores ou golfinhos?", eis o instigante título de um
dos capítulos de um livro com título, igualmente, instigante: "A Bula de
Cada Criança - O olhar humanista de um pediatra sobre como cuidar dos filhos
sem receita pronta". Capítulo cujo primeiro parágrafo é reproduzido a
seguir.
"Nossa visão do mundo - fortemente influenciada pela cultura, que são os valores e hábitos de que nos cercamos - define em grande parte como vamos ou queremos criar nossos filhos. Nos dias de hoje, há uma invasão da cultura empresarial na vida privada. Numa empresa, temos o objetivo de criar e manter clientes lucrativos. Isso se obtém através da excelência dos produtos e dos serviços, com o claro e explícito objetivo de superar a concorrência. Estou sendo gentil quando digo superar a concorrência. Em geral a linguagem é mais bélica e a ideia é derrubar, destruir, acabar com a concorrência."
Parágrafo cuja leitura atenta leva-me a entender o porquê
de gladiadores ser uma das duas opções apresentadas na indagação do pediatra.
Afinal, se "a ideia é derrubar, destruir, acabar com a concorrência",
nada melhor do que contar com gladiadores. A definição apresentada a seguir foi
obtida na Wikipédia.
"Gladiador, do latim gladiātor, de gladius (modelo de espada utilizada pelos romanos), era uma pessoa que, na Roma Antiga, lutava com outra pessoa ou animal, às vezes, até a morte, para o entretenimento do público romano."
"Uma pessoa
que, na Roma Antiga, lutava com outra pessoa ou animal, às vezes, até a morte,
para o entretenimento do público romano.",
diz a definição acima.
"Uma pessoa
que, na Insana Sociedade (sic) Atual, luta com outra pessoa, às vezes, até a
morte, para o entretenimento do privado empresarial, composto pelos donos de gigantescas
corporações.", digo eu, parafraseando a definição
apresentada no parágrafo anterior. Exagerei na paráfrase? Se acha que sim, leia
a seguinte definição que obtive em mais uma busca na Wikipédia.
"Karoshi, que pode ser traduzido literalmente do japonês como 'morte por excesso de trabalho', é a morte súbita ocupacional. (...) As principais causas médicas das mortes pelo karoshi são ataque do coração e derrame devido a estresse."
Será que faz sentido associar "morte por excesso de trabalho" a
"lutar, às vezes, até a morte" (como é dito na definição de gladiador)? Diante do
que foi dito até aqui, será que faz sentido gladiadores ser uma das duas opções
oferecidas pelo pediatra? Dito isto, passemos a segunda opção. Opção cuja
definição não precisei buscar em lugar algum, pois o próprio pediatra já a oferece
em seu instigante texto.
"Golfinhos são inteligentes, brincam, se divertem, vivem em grupo, colaboram entre si para a alimentação e contra o ataque de predadores".
"Seres que brincam, se divertem, vivem em grupo,
colaboram entre si para a alimentação e contra o ataque de predadores". Ou
seja, ao contrário do que fazem gladiadores, que competem entre si, golfinhos
são seres que colaboram entre si. E ao comparar competição e colaboração, o velho
método das recordações sucessivas foi despertado e fez-me trazer para esta
postagem a seguinte passagem do livro Vencendo a competição, de Terry Orlick.
"Darwin ficou amargurado por suas teorias terem sido distorcidas e terem ajudado a perpetuar o mito da vitória-a-qualquer-custo e a ideia de que os 'perdedores' merecem ser esmagados. Entretanto, apesar do mau uso de suas teorias, Charles Darwin afirmou claramente que, para a raça humana, o valor mais alto de sobrevivência está no senso moral e na cooperação – e não na competição."
"Charles Darwin afirmou claramente que, para a raça
humana, o valor mais alto de sobrevivência está no senso moral e na cooperação
– e não na competição." Então, o quê e com quais intenções distorceu a
afirmação de Charles Darwin? Talvez o espírito capitalista inerente à cultura
empresarial. Os dois próximos parágrafos foram extraídos do texto do pediatra.
"Além do fato de a cultura das empresas entrar em nossas vidas, há um equívoco na avaliação da natureza humana. Muitas pessoas acreditam que Darwin (aquele da evolução das espécies) disse que os mais fortes sobrevivem. Não foi isso que ele disse, mas, sim, que os mais aptos sobrevivem. É uma diferença fundamental entre ser forte e ser apto.""Como em uma empresa só se tem um presidente e meia dúzia de diretores, é óbvio que os empregados (motivacionalmente chamados de colaboradores, associados etc.) disputam entre si a entrada nesse funil, rumo ao topo. Há uma concorrência interna entre as pessoas, e a empresa usa isso para obter o máximo de cada um."
Colaboradores para produzirem exorbitantes lucros para os
empresários; competidores para disputarem a, cada vez mais escassa, quantidade
de empregos oferecidos pelos empresários. Escassa quantidade, motivacionalmente engendrada pelos
próprios empresários, conforme se pode constatar em um vídeo intitulado "Bilionário
sincero, diz que aumentar o desemprego é bom para os capitalistas.", gravado em setembro de 2023, e encontrável
no endereço https://www.youtube.com/watch?v=3Csmpv_6Ljw
até o momento da publicação desta postagem.
Vídeo no qual Tim Gurner, empresário australiano, fundador da Gurner Group, desatentamente, defende o aumento da
taxa de desemprego. Os dois próximos parágrafos resultam de transcrição de
trechos traduzidos da fala do bilionário sincero.
Precisamos aumentar o desemprego. O desemprego precisa aumentar entre 40 e 50%. Precisamos fazer a economia sofrer. Precisamos lembrar às pessoas que elas trabalham para o empregador, não o contrário."Existe uma mudança sistemática onde o trabalhador considera que o patrão tem sorte em ter os funcionários e deveria ser o contrário. Então essa dinâmica precisa mudar. Precisamos matar esse pensamento e isso acontece quando machucamos a economia, que é o que o mundo está tentando fazer. Governos do mundo inteiro estão tentando aumentar o desemprego para conseguir um pouco de normalidade."
Será que em vez de "Empregados (motivacionalmente
chamados de colaboradores"(expressão usada pelo pediatra), não seria mais
correta a expressão "Empregados (debochadamente chamados de colaboradores)"?
Ao indagar "Que filhos queremos: gladiadores ou
golfinhos?", o que o pediatra propõe é escolhermos entre querermos que
eles se tornem competidores ou cooperadores. Escolha que, segundo ele, é definida
em conformidade com nossa visão de mundo. O próximo parágrafo traz mais um trecho
do instigante livro do pediatra.
"Nossa visão do mundo - fortemente influenciada pela cultura, que são os valores e hábitos de que nos cercamos - define em grande parte como vamos ou queremos criar nossos filhos."
E os parágrafos trazendo trechos do instigante do instigante livro do pediatra Roberto
Cooper não param.
"Se a nossa visão de mundo for a de que tudo é uma empresa e o mais forte triunfará, certamente educaremos nossos filhos para serem gladiadores implacáveis."
E,
consequentemente, os prepararemos para tentarem sobreviver um mundo cada vez
mais cruel e competitivo. Segue mais um trecho extraído do instigante texto.
"Se nossa visão de mundo for a de que a cooperação, o altruísmo e uma boa dose de ócio (não fazer compulsivamente algo, apenas pensar, refletir, ser criativo) são importantes, certamente educaremos nossos filhos para se tornarem golfinhos."
E, consequentemente, os estimularemos a cooperarem na
construção de um mundo mais compassivo e cooperativo. E tome mais um trecho do instigante
texto espalhado pela postagem anterior.
"Mas o mundo não é tão simples. Ou isso, ou aquilo. O mundo é complexo e, geralmente, é isso e aquilo, ao mesmo tempo. Assim, temos que pensar em nossos filhos como gladiadores, quando estiverem na arena das empresas, do mercado, da vida profissional e, como golfinhos, na vida, no convívio e nos relacionamentos. Precisamos lhes dar as aptidões para que possam viver bem, em todas as situações, de forma integrada e feliz. O perigo é quando só lhes damos um modo de ver e de estar no mundo. E, hoje, esse modo é o do gladiador."
E já que o mundo não é tão simples; já que, geralmente, não
se trata de isso ou aquilo, e sim de
isso e aquilo, no meu entender, a
melhor maneira de encerrar estas reflexões é sugerindo que cada um que as ler reflita
bastante sobre o que é dito no último parágrafo do provocante texto do pediatra
Roberto Cooper, reproduzido a seguir.
"Precisamos adicionar na formação dos nossos filhos afeto, vínculo, confiança mútua, solidariedade, empatia, compaixão e altruísmo. Só faremos isso, se pudermos ser assim. Não há curso para essas aptidões nas quais possamos inscrever nossos filhos, muito menos comprar algo que os ensine a ser gente. É preciso que sejamos pais amorosos, afetivos, solidários para que nossos filhos cresçam e se tornem adultos capazes de não ver o mundo exclusivamente pelas lentes da competição e da vitória sobre o outro."
"Só faremos isso, se pudermos ser assim. Não há
curso para essas aptidões nas quais possamos inscrever nossos filhos, muito
menos comprar algo que os ensine a ser gente. ", diz Roberto Cooper. E ao ler
isso, o velho método das recordações sucessivas impede-me de encerrar estas
reflexões sem nelas referir-me a quatro palavras atribuídas a Buda que, certa
vez, vi afixadas na parede atrás da mesa de uma saudosa ex-colega de trabalho: "Ensine
Sendo Aprenda Fazendo".
Ufa! Há textos que dão o que pensar!