quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Cuidar é escutar sem pressa

A ideia a ser espalhada por esta postagem foi encontrada em um instigante texto de Alexandre Coimbra Amaral publicado na edição 284 da revista Vida Simples, referente a outubro de 2025. No "rodapé" do texto, o autor é apresentado assim: "Alexandre Coimbra Amaral é psicólogo, escritor best-seller, palestrante e podcaster. Conversador por excelência em diferentes mídias, gosta de falar sobre o que o inquieta. @alexandrecoimbraamaral". Feito esse preâmbulo, segue o referido texto.
Cuidar é escutar sem pressa
Uma coisa que não nos deveria faltar nunca é o cuidado, sobretudo aquele formado pela tríade silêncio, escuta e fala
QUANDO ESTAMOS DIANTE DE UM PROFISSIONAL DE SAÚDE, geralmente relatamos os sintomas incômodos que nos levaram àquela visita. Seja um mal-estar físico ou emocional (nenhum deles tem separação absoluta do outro, o corpo é um só quando padece), podemos sair daquela conversa com um diagnóstico e uma prescrição de tratamento para lidar com ele.
Os profissionais de saúde são muito treinados para a grande meta: chegar ao "diagnóstico fechado". Mas o que se fecha no diálogo quando o diagnóstico é fechado? Num papel, um nome, um resumo em que devo me sentir contemplado: "Você tem depressão", "Você tem ansiedade".
É um encontro que poderia ser uma partilha de tempo, mas, na pressa por classificar, deixamos de escutar. Há sempre um tanto de dor de existir que não se sente representada pelo suposto alívio de um diagnóstico que tem um tratamento eficaz. Escutar o sintoma não é ter um checklist de ideias para se chegar ao nome da doença. Nenhuma dor cabe inteira num rótulo. Nenhuma história se esconde no porão das letras incompreensíveis de remédios e de classificação de doenças. Quando a vida dói, ela pede todo o tipo de ação humana.
Quando escutamos alguém, não escutamos somente sua voz. Por exemplo, uma pessoa com ansiedade não carrega somente as taquicardias, sudoreses e pensamentos catastróficos. Ela traz sua história inteira e os ritmos acelerados da sociedade em que vive. O corpo ansioso também é um corpo social, como são todos os corpos que sofrem. O tremor do lado de dentro do corpo pode ser por boletos em aberto, por desemprego, por racismo, por solidão. Quem escuta o que está por trás dos nomes dos sintomas e das doenças que vão nos acometendo? Que destino podemos dar às palavras que precisam e merecem sair, porque somos também feitos de narrativa compartilhada?
Os profissionais têm sim uma relevância contumaz nessa esfera. Porém, me entristece que muitos de nós não tenhamos disponibilidade para escutar para além dos diagnósticos. Mas o mundo inteiro à volta de uma pessoa pode lhe ofertar escuta, que não quer dizer ter respostas ou ações eficazes para resolver o problema, e sim companhia no incômodo de viver com dor.
Qualquer um de nós pode perguntar de forma aberta e curiosa, querendo permanecer ali, reconhecendo que a dor não é um erro, mas uma narrativa que precisa ser contada. Cuidar é escutar sem pressa.
*************
A simples frase usada como título - Cuidar é escutar sem pressa - já seria suficiente para elaborar uma postagem, mas considerando que ela é seguida por um instigante texto, partamos do texto para prosseguir com esta postagem.
"Os profissionais de saúde são muito treinados para a grande meta: chegar ao 'diagnóstico fechado'. Mas o que se fecha no diálogo quando o diagnóstico é fechado? Num papel, um nome, um resumo em que devo me sentir contemplado: 'Você tem depressão', 'Você tem ansiedade'. É um encontro que poderia ser uma partilha de tempo, mas, na pressa por classificar, deixamos de escutar."
O que é um diagnóstico? É o processo analítico para se chegar a conclusão da natureza e da causa de um problema. É também o nome dado à conclusão em si mesma. O que significa "diagnóstico fechado"? Em medicina, significa que o médico chegou a uma conclusão definitiva sobre a condição de saúde do paciente, o que permite iniciar o tratamento específico, ao contrário de uma suspeita inicial ou de um quadro "em aberto" que precisa de mais investigação.
"Mas o que se fecha no diálogo quando o diagnóstico é fechado?", indaga Alexandre Coimbra. No meu entender, é o próprio diálogo. Usando palavras do psicólogo, o que se fecha "é um encontro que poderia ser uma partilha de tempo, mas, na pressa por classificar, deixamos de escutar". Mas, o que deixamos de escutar? Ainda no meu entender, e ainda usando palavras do psicólogo, deixamos de escutar "sua história inteira (do paciente) e os ritmos acelerados da sociedade em que vive. (...) o que está por trás dos nomes dos sintomas e das doenças que vão nos acometendo".
"Mas, na pressa por classificar, deixamos de escutar.", afirma o psicólogo. Mas se deixamos de escutar, indago eu, será que é possível se chegar ao diagnóstico correto? Indagação que, enxergo como respondida pela quantidade de pessoas doentes nesta sociedade patológica na qual sobrevivemos.
"Quando escutamos alguém, não escutamos somente sua voz. Por exemplo, uma pessoa com ansiedade não carrega somente as taquicardias, sudoreses e pensamentos catastróficos. Ela traz sua história inteira e os ritmos acelerados da sociedade em que vive. O tremor do lado de dentro do corpo pode ser por boletos em aberto, por desemprego, por racismo, por solidão."
Quando Alexandre Coimbra diz que "Quando escutamos alguém, não escutamos somente sua voz", obviamente refere-se a escutar sem pressa, pois, se for com pressa, nem mesmo sua voz escutamos. E ao dizer isso, ele me faz trazer para esta postagem as duas afirmações reproduzidas a seguir. "As pessoas não se escutam mais, elas apenas esperam a vez de falar", eis uma afirmação feita em um vídeo que assisti, recentemente, no You Tube. "O contrário de falar não é escutar. É esperar.", eis uma afirmação de Fran Lebowitz, extraída do livro "O Almanaque de Fran Lebowitz".
"Os profissionais têm sim uma relevância contumaz nessa esfera. Porém, me entristece que muitos de nós não tenhamos disponibilidade para escutar para além dos diagnósticos. Mas o mundo inteiro à volta de uma pessoa pode lhe ofertar escuta, que não quer dizer ter respostas ou ações eficazes para resolver o problema, e sim companhia no incômodo de viver com dor. Qualquer um de nós pode perguntar de forma aberta e curiosa, querendo permanecer ali, reconhecendo que a dor não é um erro, mas uma narrativa que precisa ser contada. Cuidar é escutar sem pressa."
O que entendi do que afirma o psicólogo no parágrafo acima? Que, considerando o significado de sociedade – "agrupamento de seres que convivem em estado gregário e em colaboração mútua" -, qualquer um de nós deve se perceber como cuidador dos demais. O problema é que, se "cuidar é escutar sem pressa", na condição de integrante de uma sociedade (sic) assolada pela pressa, como qualquer um de nós conseguirá cuidar dos demais? E sem cada um de nós admitir que, também, é sua responsabilidade cuidar dos demais, será que faz algum sentido chamar de sociedade esse aglomerado confuso formado por indivíduos indiferentes ao que acontece com os demais? "O que não convém ao enxame não convém tampouco à abelha", eis uma afirmação atribuída ao imperador Marco Aurélio que uso aqui para defender a imprescindibilidade de cuidarmos uns dos outros.
"Escutar sem pressa!", eis a questão. Afinal, como conseguir fazer isso em uma sociedade onde as pessoas passaram a comunicar-se (sic) por meio de mensagens ouvidas por meio de um smartphone em velocidade "2x" no WhatsApp.
E para encerrar esta postagem, recorro ao que é dito no primeiro parágrafo do instigante texto: "Uma coisa que não nos deveria faltar nunca é o cuidado, sobretudo aquele formado pela tríade silêncio, escuta e fala". Tríade que interpreto assim: Fazer silêncio para que seja possível escutar a fala. Você consegue perceber que isso nada mais é do que conversar? Ou seja, será que também é válido afirmar que cuidar é conversar? Silêncio, escuta e fala, eis, no meu entender, a tríade que torna possível o atendimento a algo imprescindível à vida em sociedade ("agrupamento de seres que convivem em estado gregário e em colaboração mútua"): a necessidade de conversar.
P. S.
A edição do Jornal Valor Econômico publicada no dia seguinte à publicação desta postagem, traz um artigo no qual são publicados trechos de uma entrevista com Mike Massimino, ex-astronauta da Nasa que realizou quatro caminhadas espaciais para consertar o telescópio Hubble. Trechos dos quais selecionei um para acrescentá-lo a esta postagem, por considerar que ele tem tudo a ver com ela. Segue o trecho.
"A lição mais importante é o valor das pessoas e da comunicação entre a equipe, o que significa cuidar uns dos outros, se importar com o grupo e fazer coisas juntos. É isso que torna a vida interessante: o relacionamento com as pessoas ao redor."
Dito isto, ficam duas indagações. O P.S. acrescentado à postagem faz sentido? Será que, para enxergarmos o que diz o ex-astronauta, será necessário fazermos uma caminhada espacial ou uma reflexão sobre o que por ele é dito será suficiente para percebermos que suas palavras fazem muito sentido?

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Reflexões provocadas por "Não há férias na escola da vida"

Tendo me tornado alguém incapaz de deixar de refletir sobre qualquer coisa que leia ou escute, o recente recebimento de um instigante texto enviado por uma eterna amiga resultou nesta postagem. Postagem que começa com a reprodução do referido texto e prossegue com reflexões por ele provocadas.
Sem ter ainda conseguido compreender o que seja o que ela chama de vida, a autodenominada espécie inteligente do universo segue tentando explicá-la recorrendo a comparações com várias coisas que encontra durante … a vida. "A vida é um sopro", "A vida é uma roda gigante", "A vida é uma viagem", "O trem da vida", eis algumas das inúmeros comparações que pretendem explicar o que seja a vida. No texto reproduzido nesta postagem, a comparação é feita com algo denominado escola. "Não há férias na escola da vida", diz o título do texto.
"Não há férias na escola da vida"
(Autor desconhecido)
Na escola da vida, ninguém pergunta se você quer se matricular. Basta nascer e já está inscrito. O período letivo … Ah, esse nunca acaba. O curioso é que, nessa escola, somos alunos e ao mesmo tempo podemos ensinar também. Mas o grande mestre é o tempo — esse professor exigente, paciente e, às vezes, severo. Ele não dá aviso prévio de prova. Um dia você acorda e lá está: o teste na mesa! E se não estudou, não praticou, vai falhar. Mas quase sempre terá direito a uma nova chance.
Algumas matérias são leves: amor, amizade, gratidão, alegria. Outras exigem mais esforço: paciência, tolerância, perdão, humildade... Tem também aquelas disciplinas que a gente preferia não cursar: dor, perda, solidão. Mas é com elas que o aprendizado se aprofunda.
O diretor da escola. — Chamado de DEUS — Tem um jeito todo particular de preparar as lições. Às vezes, ensina pelo afeto. Outras, pela dificuldade. E assim vamos acumulando notas, sem boletim impresso, mas com um registro implacável no coração.
Nos conflitos, aprendemos a valorizar a paz. Na escassez, descobrimos o que nos é suficiente. Ao ver injustiças de desigualdades, treinamos a solidariedade. E, no convívio diário, aprendemos a arte difícil de amar o próximo. Lição que alguns repetem por anos e anos sem conseguir passar.
Não há férias nessa escola. O sinal não toca para encerrar o expediente. Cada dia é uma nova aula. E talvez o diploma final seja a serenidade de olhar para trás e dizer...
"Errei, mas aprendi. Viverei aprendendo e melhorando até o último dia de aula."
*VIVA COM SABEDORIA E NÃO ESQUEÇA DE AJUDAR SEUS COLEGAS DESSA ESCOLA DA VIDA!*
_Boa aula!!!
*************
Citada quase no final do texto, a afirmação “Não há férias na escola da vida”, foi escolhida (imagino que tenha sido pelo autor desconhecido) para intitulá-lo, e escolhida pelo identificado mantenedor do blog para por ela iniciar estas reflexões. Reflexões que começam pela interpretação do título do texto. Interpretação que começa com duas indagações: "O que é escola?"; "O que são férias?"..
Escola: Lugar destinado a ensino coletivo, onde crianças de tenra idade (a cada dia mais tenra) são colocadas, com a finalidade de lá aprenderem uma série de coisas estabelecidas por indivíduos com mais idade, com o pretexto de serem indispensáveis para prepará-las para lidarem com a tal da vida.
Férias: Período de descanso dado aos frequentadores da escola, depois de passado um determinado período de frequência.
Os significados apresentados acima não foram obtidos em lugar algum, e sim definidos por mim, a partir do que se pode ver nos dias de hoje, até porque as coisas mudam muito ao longo do tempo, conforme se pode entender a partir do que é dito a seguir. Trazido da Grécia Antiga para os dias de hoje, o significado de escola ficaria, simplesmente, irreconhecível. A palavra escola vem do grego "scholé" que significa lugar do ócio. Na Grécia Antiga, as pessoas com melhores condições socioeconômicas e que dispunham de tempo livre, se reuniam nesses lugares para pensar e refletir.
Ou seja, da Grécia Antiga ao Mundo Atual, o significado de escola mudou assustadoramente. De um "lugar de ócio onde pessoas se reuniam para pensar e refletir" passou a ser um "lugar de atividades ininterruptas onde pessoas são impedidas, exatamente, de pensar e refletir para que possam, docilmente, serem transformadas em mão de obra barata a ser usada, futuramente, em trabalhos prestados durante períodos de tempo cada vez maiores". Em outras palavras, de um lugar onde pessoas se reuniam para pensar e refletir, a escola passou a ser um lugar onde a finalidade é, exatamente, proibir as pessoas de pensar e refletir. Proibição que, em seu limite, originou, neste país, uma verdadeira aberração denominada "escola cívico-militar". A palavra férias vem do latim "feriae, - arum", que significava "dias festivos", "dias de descanso" ou "dias sagrados" onde não se trabalhava, ligado a "festus" (festivo).
"Não há férias na escola da vida", eis a afirmação que intitula o texto que provocou esta postagem. Afirmação que, no meu entender, tem a intenção de enaltecer a ocupação de todo o tempo de que se dispõe, em uma escola, com o estudo. Enaltecimento que enxergo como preparação do terreno para, mais adiante, enaltecer a ocupação de todo o tempo de que se dispõe, na "escola da vida", com o trabalho. Estudar sem férias como preparação para trabalhar sem férias. Trabalhar em jornadas de trabalho 6 x 1, enquanto deus (o deus Mercado) não consegue estabelecer a jornada 7 x 0. Incutir nas pessoas a ideia de que trabalhar exaustivamente é enobrecedor, embora jamais tenha existido algum nobre que tivesse trabalhado, eis a intenção por trás da sórdida exaltação do trabalho como algo enobrecedor. Fazer as pessoas trabalharem durante todo o tempo para evitar que consigam dispor de tempo para fazer, exatamente, o que faziam os "nobres" na Grécia Antiga: reunirem-se para "pensar e refletir".
E ao falar em Grécia Antiga, e em não parar para pensar e refletir, a velha prática do método das recordações sucessivas fez-me ir buscar na introdução do livro O Ato da Vontade, de Roberto Assagioli, o próximo parágrafo.
"Se um homem de uma civilização anterior à nossa – um grego da Antiguidade, digamos, ou um romano – aparecesse de súbito entre os seres humanos do presente, suas primeiras impressões o levariam a considerá-los uma raça de mágicos, de semideuses. Mas fosse um Platão ou um Marco Aurélio e se recusasse a ficar deslumbrado ante as maravilhas materiais criadas pela tecnologia avançada e examinasse a condição humana com mais cuidado, suas primeiras impressões dariam lugar a uma grande consternação. Verificaria que esse pretenso semideus que controla grandes forças elétricas com o mover de um dedo e inunda o ar de sons e imagens para divertimento de milhões de pessoas – é incapaz de lidar com as próprias emoções, impulsos e desejos."
"Pretenso semideus incapaz de lidar com as próprias emoções, impulsos e desejos", eis como um Platão ou um Marco Aurélio, enxergaria os seres humanos do presente, se por aqui aparecesse de súbito, dando lugar a uma grande consternação, diz Roberto Assagioli. Consternação que, no meu entender, poderia ser explicada também pela percepção, por parte de um Platão ou um Marco Aurélio, do que a escola ("scholé") se tornou. Afinal, será que sem parar para "pensar e refletir", e dessa forma rever o uso que faz do tempo (A única coisa a fazer é decidir como usar o tempo que nos foi dado. Eis uma das frases inesquecíveis da trilogia O Senhor dos Anéis), é possível ao homem conseguir tornar-se capaz de deixar de dedicar todo o seu tempo ao desenvolvimento de uma tecnologia avançada para dedicar algum ao desenvolvimento da evolução "positiva" da condição humana. Será que parar para "pensar e refletir" é algo possível de ser feito em uma escola em que não há férias? O que você acha?
E ainda fazendo referência à Grécia Antiga, segue uma conhecida frase atribuída a Sócrates por Platão: "Uma vida não refletida não vale a pena ser vivida". Frase que significa que uma existência sem reflexão, autoconhecimento e questionamento de valores e crenças é vazia e sem sentido, pois a verdadeira plenitude vem de buscar a sabedoria, a virtude e entender o propósito da vida. Será que faz sentido, na escola da vida, não haver férias, não haver tempo para parar e refletir? O que você acha?
"Na escola da vida, ninguém pergunta se você quer se matricular. Basta nascer e já está inscrito.", eis uma afirmação feita em relação à escola da vida que, no meu entender, aplica-se também em outras escolas. Você tem conhecimento de algum bebê que tenha sido consultado para saber se desejaria ir ou não para a escola? Basta nascer e, se as condições socioeconômicas dos pais possibilitarem, após poucos meses, o bebê já estará inscrito em uma escola onde estará, inclusive, sendo submetido a aulas de línguas estrangeiras, antes mesmo de conseguir começar a falar. Criança sofre! "Se a vida fosse fácil bebê não nascia chorando", eis a frase gravada em um imã de geladeira afixado naquela que tenho na cozinha.  
"O curioso é que, nessa escola, somos alunos e ao mesmo tempo podemos ensinar também", eis um trecho do texto atribuído a um autor desconhecido que, no meu entender, precisa ser corrigido. E para corrigi-lo, recorro à uma afirmação atribuída a Buda. "Ensine sendo; aprenda fazendo.". Se, segundo Buda, ensinar é algo que acontece pelo que somos, e aprender é algo que acontece pelo que fazemos, ou seja, ensinar é algo que acontece pelos exemplos que damos (bons ou ruins), consciente ou inconscientemente, e aprender é algo que acontece quando passamos a fazer alguma nova coisa que nos for ensinada por outras pessoas, a frase que inicia este parágrafo fica assim: "O estranho é que, nessa escola, nos consideremos alunos ou professores, em vez de alunos e professores, pois não apenas nessa, mas em qualquer outra escola, somos, simultaneamente, alunos e professores. Professores pelas muitas coisas que ensinamos a partir daquilo que somos; alunos pelas poucas coisas que nos dispomos a aprender quando passamos a fazer alguma nova coisa que nos for ensinada por outras pessoas".
"Mas o grande mestre é o tempo - esse professor exigente, paciente e, às vezes, severo.", diz o autor desconhecido. Será? Em um filme argentino que assisti, há décadas, no Centro Cultural do Banco do Brasil, logo em seu início é feita uma afirmação, mais ou menos, assim: “Há pessoas que conseguem viver "??" anos e que saem desta vida nada tendo aprendido”. Será que tal resultado deve-se à exigência e à severidade do mestre, ou será que, na verdade, não é o tempo o grande mestre?
Quanto a quem seja, na verdade, o mestre, segue uma conhecida frase de Guimarães Rosa, no livro Grande Sertão: "Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende". E ao falar em quem ensina e em quem aprende, ele, sempre ele, o velho método das recordações sucessivas, traz para estas reflexões a seguinte afirmação de Alex Periscinoto (1925 - 2021), destacado publicitário brasileiro: "Mais vale o que se aprende que o que te ensinam". Afirmação, que, no meu entender, serve para encerrar muito bem uma postagem contendo reflexões provocadas por algo que se leu. O que foi ensinado, é o que foi lido; o que foi aprendido, é o que foi refletido. Compreendido?
"Viva com sabedoria e não esqueça de ajudar seus colegas dessa escola da vida!", eis a recomendação do autor desconhecido, feita no final do texto, que reescrevo assim: "Não esqueça de ajudar seus colegas dessa escola da vida, pois, só quando você conseguir não esquecer isso, é que você conseguirá, finalmente, viver com sabedoria".

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Lá vem o ano novo!

Em uma hipotética retrospectiva do ano 2025 feita por mim, inevitavelmente, nela constaria a descoberta do livro "A Bula de Cada Criança - O olhar humanista de uma pediatra sobre como cuidar dos filhos sem receita pronta", de autoria do pediatra Roberto Cooper, publicado em 2024. Intitulado "A Bula de Cada Criança", em sua primeira orelha, o livro traz a BULA DO LIVRO. Constando de dez itens, dela extraí os três primeiros para reproduzir neste preâmbulo.
1. Para quem este livro é indicado?
Pais, educadores e profissionais de saúde que lidam com crianças, interessados em um olhar humanista sobre como cuidar delas.
2. Como o livro funciona?
Ativando a criatividade e o senso de competência, autonomia e independência dos pais, provocando os profissionais da saúde a (re) pensar sua prática.
3. Quem não deve ler este livro?
Pais, educadores e profissionais de saúde em busca de normas, regras, estatísticas, diretrizes e receitas prontas de como cuidar de filhos e crianças.
O próximo parágrafo reproduz um trecho da Apresentação feita pelo autor.
"Outra motivação foi a de mostrar aos pais que eles sabem muito mais a respeito de seus filhos do que imaginam. Em um mundo de especialistas em tudo, onde é preciso transformar-se no melhor no que se faz, ser mãe e pai ficou difícil. 'Certamente há alguém que entende de bebês e crianças mais do que nós' é um pensamento recorrente, mas uma mentira. Quem entende dos filhos são os pais. Acho importante ainda desmedicalizar a saúde, outra proposta do livro."
Após as palavras do autor reproduzidas acima, seguem algumas coisas que não consigo deixar de falar sobre o livro. No meu entender, A Bula de Cada Criança, deveria ser lido não só pelos pais, mas também por todos (as) aqueles (as) que, de alguma forma, interagem com o bebê. Pelos pais para que sintam-se estimulados a (como é dito no parágrafo acima) tornarem-se "sujeitos ativos no processo de cuidar dos seus filhos". Por aqueles (as) que, de alguma forma, interagem com o bebê para que sintam-se desestimulados a enxergarem-se "como alguém que entende de bebês e crianças mais do que os pais".
Na condição de avô, comprei um exemplar para a minha filha e um para mim. Na condição de alguém que mantém um blog intitulado Espalhando ideias, recomendo, a quem estiver em uma das duas condições citadas no início deste parágrafo, que compre o seu exemplar e o leia com a devida atenção. Feito este longo preâmbulo, vamos a mais um instigante texto do livro "A Bula de Cada Criança - O olhar humanista de uma pediatra sobre como cuidar dos filhos sem receita pronta".
Lá vem o ano novo!
Me inspiro em Bela, uma linda menina de 3 anos, para escrever sobre a mudança de ano. Ela veio ao consultório porque estava com um machucado no dedo. Ao chegar, disse: "Te vi na televisão"! Eu desconversei: "Seu vestido é lindo.' "É de flores", respondeu Bela. Logo no início da consulta, ela me avisou: "Não gosto de injeção". A consulta transcorreu com a Bela interagindo, me contando coisas, pedindo abaixadores de língua coloridos, depois me dando alguns, para retomá-los a seguir. Quando perguntei se poderia examiná-la, subiu sozinha na maca e aguardou o momento de que mais gosta: ser medida. Me contou da viagem que iria fazer, do Hulk vermelho que ganhou, de como ela mora em um andar alto que mais parece uma torre. Eu disse que era a torre da princesa e ela, com olhar pensativo, disse apenas: "É"!
O leitor deve estar se perguntando: mas o que foi que a Bela disse que me fez saber o que escrever a respeito do ano novo. Ela não disse nada! Ela me mostrou tudo! Ela me mostrou que, para as crianças, o ano novo acontece todos os dias. Os sonhos por se realizar povoam suas cabeças e tudo é possível para elas. Me mostrou que, sem pudores culturais ou sociais, a espontaneidade brota de uma forma genuína e deliciosa. Ao brincar com a régua de medir crianças ou subir fascinada na balança, confirmou que tudo pode ser o que é e outra coisa, lúdica, ao mesmo tempo. Não há necessidade de classificações rígidas, imutáveis, engessando o mundo. Ao falar de si, da cor dos seus olhos, do vestido, do Hulk, me dizia o tempo todo: eu gosto de mim e me sinto muito bem e segura! Enquanto eu explicava a prescrição para os pais, Bela continuava conversando, falando de cores, desenhos, objetos que tinha em casa, e um tema engrenava no outro com uma fluidez admirável. Finalmente, ao ir embora, me ofereceu um beijo e um abraço muito forte. Nenhuma vergonha ou inibição em demonstrar o seu afeto.
Então, o que Bela me mostrou é que, se formos atentos e observarmos carinhosamente nossos filhos, não só lhes ensinaremos coisas fundamentais para a vida, mas poderemos aprender com eles a resgatar aspectos que a maturidade e os compromissos sociais nos fazem esquecer ou ocultar sob um manto de vergonha.
Desejo a todos os pais que possam, através dos filhos, celebrar a vida todos os dias e não só em datas convencionadas. Que possamos ser espontâneos, sonhadores, brincalhões, alegres, criativos, seguros de nós mesmos, desengessando (existe isso?) o cotidiano de códigos e classificações rígidas.
Finalmente e, principalmente, que possamos, como a Bela fez, beijar e abraçar as pessoas de que gostamos, sem pudor, sem receio, sem esperar os dias "certos".
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"Ela (Bela) me mostrou que, para as crianças, o ano novo acontece todos os dias. Me mostrou que, sem pudores culturais ou sociais, a espontaneidade brota de uma forma genuína e deliciosa. Não há necessidade de classificações rígidas, imutáveis, engessando o mundo."
E diante do que é dito no parágrafo anterior pelo pediatra Roberto Cooper, Bela (uma linda menina de três anos) me fez pensar o seguinte: a convivência com adultos, vai tirando das crianças "a espontaneidade que brota de uma forma genuína e deliciosa", e nelas instalando uma artificialidade desenvolvida de uma forma interesseira e ardilosa. Segue mais um trecho do texto do pediatra. 
"Finalmente, ao ir embora, me ofereceu um beijo e um abraço muito forte. Nenhuma vergonha ou inibição em demonstrar o seu afeto. Então, o que Bela me mostrou é que, se formos atentos e observarmos carinhosamente nossos filhos, não só lhes ensinaremos coisas fundamentais para a vida, mas poderemos aprender com eles a resgatar aspectos que a maturidade e os compromissos sociais nos fazem esquecer ou ocultar sob um manto de vergonha."
"Oferecer um beijo e um abraço muito forte, sem nenhuma vergonha ou inibição em demonstrar o seu afeto.", eis o gesto de uma criança que ainda consegue manter sua espontaneidade. Oferecer um aperto de mão, muitas vezes forte demais, com algum fingimento ou inibição, eis o gesto de um adulto que não consegue disfarçar sua artificialidade.
"Todas as pessoas grandes foram um dia criança, mas poucas se lembram disso," eis uma conhecida afirmação de Antoine de Saint-Exupéry. Por que cito-a nesta postagem? Para associá-la ao que é dito pelo pediatra Roberto Cooper no próximo parágrafo.  
"Desejo a todos os pais que possam, através dos filhos, celebrar a vida todos os dias e não só em datas convencionadas. Que possamos ser espontâneos, sonhadores, brincalhões, alegres, criativos, seguros de nós mesmos, desengessando (existe isso?) o cotidiano de códigos e classificações rígidas."
Você consegue enxergar que, em última análise, o que o pediatra "deseja a todos os pais que possam, é, através dos filhos", lembrar que foram um dia criança?
Dito isto, creio que a melhor maneira de encerrar esta postagem que encerra as postagens deste ano é repetir o trecho que encerra o belo texto que o pediatra Roberto Cooper elaborou inspirado em Bela, uma linda menina de três anos:
"Finalmente e, principalmente, que possamos, como a Bela fez, beijar e abraçar as pessoas de que gostamos, sem pudor, sem receio, sem esperar os dias 'certos'."

domingo, 14 de dezembro de 2025

Papai Noel existe?

Quinze anos após a sua criação, transcorridos quatorze meses de dezembro, publicadas setecentas e noventa e cinco postagens, nenhuma delas focalizando a figura do Papai Noel, eis que, em dezembro de 2025, aqui está ela. Na condição de um blog cuja intenção é espalhar ideias interessantes encontradas nesse percurso que a gente chama de vida, apenas neste ano encontrei um texto sobre Papai Noel que despertou minha vontade de espalhá-lo por meio deste blog. Onde o encontrei? Em um livro lançado em 2024 com um instigante título: "A Bula de Cada Criança - O olhar humanista de um pediatra sobre como cuidar dos filhos sem receita pronta", de autoria de Roberto Cooper. Livro do qual já extraí vários textos para espalhar por este blog, e do qual ainda extrairei vários outros. Feito este preâmbulo, vamos ao texto.
Papai Noel existe?
Ora, até uma criança sabe a resposta dessa pergunta: claro que existe! Existe porque somos seres simbólicos e adoramos uma fábula. E não são só nossos filhos que adoram uma historinha. Nós, adultos, mantemos o fascínio por fábulas. Claro que não são mais histórias de princesas, dragões, porquinhos e bruxas. Mas adoramos ouvir fábulas de suplementos, vitaminas, cremes, alimentos que fazem isso ou aquilo, novos exercícios que gastam milhares de calorias em poucos minutos, métodos para mantermos a memória ou aumentarmos a libido, livros que garantem a felicidade plena em dez passos, sem esquecer a quantidade de pessoas que devolvem a pessoa amada em três dias. A lista de fábula que nós, adultos, nos contamos mutuamente é interminável. E ainda temos a ousadia de questionarmos se Papai Noel existe!?
A fábula tem uma função importante no desenvolvimento das crianças ao estimular a criatividade e contribuir para que lidem com as questões da vida, inicialmente de forma lúdica. Nesse contexto, não há nenhuma discussão a respeito da existência do Papai Noel. Só nos resta definir qual Papai Noel vai existir. Como assim, existe mais de um Papai Noel? Sendo uma narrativa, existirão tantos papais Noel quantas narrativas existirem. Mas, basicamente, existem dois papais Noel e devemos escolher qual deles será o que vamos apresentar aos nossos filhos.
Existe o Papai Noel que representa a sociedade de consumo, trazendo presentes, se tornando o destinatário de listas intermináveis de pedidos. De alguma forma, esse Papai Noel existirá em todas as narrativas porque vivemos em uma sociedade em que o consumo é algo hipertrofiado e que, muitas vezes, preenche vazios existenciais. Esse vazio não é só dos adultos que acabam confundindo ser com ter. Para muitos, o que eu tenho define quem eu sou. Como a possibilidade de ter é sempre infinita, a sensação de ser é frágil e sujeita aos modismos de consumo. Assim que eu acabo de comprar o tablet de última geração, me tornando alguém, lançam outro e passo a me sentir vulnerável, inseguro, por não TER o último modelo.
Se os pais são consumistas ou mesmo que não sejam, mas por vários motivos se sintam "devedores" dos filhos (trabalham muito, por exemplo), podem tentar compensar com a compra de presentes. Esse Papai Noel é o do comércio que tenta nos confundir com mensagens que embaralham objetos e coisas com afeto e emoção. Esse Papai Noel de listas enormes e pouco ou nenhum limite é uma narrativa que ensinará nossos filhos a se tornarem consumidores vorazes, muitas vezes na tentativa de preencher uma lacuna que não é de coisas materiais. Esse é o Papai Noel que incentiva o egocentrismo porque a minha felicidade está em ter o que o outro não tem.
Existe um outro Papai Noel que representa a bondade, a solidariedade e a generosidade. Um Papai Noel que fala sobre quem somos, antes de falar sobre o que temos. Um Papai Noel que recebe uma cartinha na qual eu conto o que eu fiz no ano que passou e não só uma lista do que quero. Quando pedimos a nossos filhos que escrevam contando o que fizeram, estamos dando a oportunidade (e o aprendizado) de que parem um minuto para pensar nas suas realizações e não só nos seus desejos de possuir algo. Um Papai Noel que tem limites nas possibilidades de presentear, que associa presentes a algum mérito e que coloca cada criança como parte de um universo de outras crianças (ele tem muito trabalho, precisa visitar todas as crianças), fazendo com que cada uma se sinta especial, mas não única. Esse Papai Noel é o do afeto e do carinho.
É o que ensinará aos nossos filhos que as coisas (objetos) fazem parte das nossas vidas e nos dão muito prazer, mas que a nossa felicidade não pode ser definida pelo que temos e, sim, por quem somos. Somos humanos e, como tal, seres carregados de emoção e empatia , além de racionais. Somos originalmente gregários, dependendo uns dos outros. Podemos (e somos) diferentes em muitas coisas, mas nem melhores nem piores do que ninguém. Esse é o Papai Noel que incentiva a solidariedade porque, diferentemente do que ocorre com objetos, quanto mais dividimos emoções e sentimentos, mais estes se multiplicam.
Cada família vai escolher qual narrativa de Papai Noel quer para si e, consequentemente, para seus filhos.
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Segundo o pediatra Roberto Cooper, "Sendo uma narrativa, existirão tantos papais Noel quantas narrativas existirem. Mas, basicamente, existem dois papais Noel e devemos escolher qual deles será o que vamos apresentar aos nossos filhos." Quais são os dois tipos básicos? "O que representa a sociedade de consumo e o que representa a bondade, a solidariedade e a generosidade". Ou seja, no meu entender, segundo ele, bondade, solidariedade e generosidade são qualidades incompatíveis com sociedade de consumo.
"O Papai Noel que incentiva o egocentrismo porque a minha felicidade está em ter o que o outro não tem." Esse Papai Noel é o do egoísmo. "Um Papai Noel que coloca cada criança como parte de um universo de outras crianças (ele tem muito trabalho, precisa visitar todas as crianças), fazendo com que cada uma se sinta especial, mas não única. Esse Papai Noel é o do afeto e do carinho."
Feitas as descrições acima, o pediatra diz que "De alguma forma, o primeiro dos papais Noel citados existirá em todas as narrativas porque vivemos em uma sociedade em que o consumo é algo hipertrofiado e que, muitas vezes, preenche vazios existenciais." Sim, de alguma forma, o primeiro existirá em todas as narrativas, enquanto o segundo corre um risco enorme de não existir em alguma. Afinal, sobrevivemos em uma sociedade em que a maioria das pessoas, simplesmente, faz o que ouve dizer que a maioria está fazendo, não é mesmo?
Diante da associação do Papai Noel à sociedade de consumo, o irresistível método das recordações sucessivas foi buscar para esta postagem algo dito pelo inesquecível Millôr Fernandes a José Carvalho, industrial, dono da DUCAL, em conversa ocorrida em 1958, registrada no livro "O Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr.".
"Papai Noel, filho da exploração comercial, da ignorância infantil e da incapacidade de reação paternal, é um velho meio idiota, meio malandro, extremamente desonesto, que se presta a servir de intermediário para o enriquecimento da sociedade de consumo, em todo o mundo. Um canalha."
"Um Papai Noel, filho da exploração comercial, que se presta a servir de intermediário para o enriquecimento da sociedade de consumo", diz Millôr Fernandes. "Um Papai Noel do comércio que tenta nos confundir com mensagens que embaralham objetos e coisas com afeto e emoção. Um Papai Noel que ensinará nossos filhos a se tornarem consumidores vorazes, muitas vezes na tentativa de preencher uma lacuna que não é de coisas materiais. Um Papai Noel que incentiva o egocentrismo porque a minha felicidade está em ter o que o outro não tem.", diz o pediatra Roberto Cooper. "Um canalha", conclui Millôr. E com esta conclusão, termino aqui minhas reflexões sobre o primeiro dos papais Noel a que se refere o pediatra, e passo ao segundo.
"Existe um outro Papai Noel que representa a bondade, a solidariedade e a generosidade. Um Papai Noel que fala sobre quem somos, antes de falar sobre o que temos. Esse Papai Noel é o do afeto e do carinho. É o que ensinará aos melhor aquinhoadas nossos filhos que as coisas (objetos) fazem parte das nossas vidas e nos dão muito prazer, mas que nossa felicidade não pode ser definida pelo que temos e, sim, por quem somos. Esse é o Papai Noel que incentiva a solidariedade porque, diferentemente do que ocorre com objetos, quanto mais dividimos emoções e sentimentos, mais estes se multiplicam."
Tendo descrito dois papais Noel, Roberto Cooper termina seu instigante texto dizendo:
"Cada família vai escolher qual narrativa de Papai Noel quer para si e, consequentemente, para seus filhos.
Com a intenção de ajudar cada família nessa difícil escolha, ele, sempre ele, o método das recordações sucessivas faz-me trazer para esta postagem uma instigante afirmação feita por Dumbledore, o mago barbudo do filme Harry Potter e o Cálice de Fogo: "Tempos difíceis estão por vir. Em breve, teremos que escolher entre o que é certo e o que é fácil."
Afirmação que, vinte anos após ter sido pronunciada (o filme foi lançado em 2005), no meu entender, deve ter dela suprimida a expressão "Em breve", pois os tempos difíceis que, naquela época, estavam por vir, com certeza já chegaram, há algum tempo, embora a maioria demonstre não ter percebido.
Dito isto, agora é esperar que cada família consiga escolher a narrativa de Papai Noel que seja melhor, não para si, mas sim para a sociedade como um todo, o que, consequentemente, implica em ser melhor para seus filhos, considerando que eles também são integrantes da sociedade, embora a maioria das famílias possuidoras de melhores condições financeiras imagine que eles nada tenham a ver com ela (sociedade).

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Reflexões provocadas pela postagem anterior

Tendo evitado a elaboração de uma postagem do tipo "Reflexões provocadas por '.......'", devido à quantidade de reflexões que poderiam ser provocadas por um longo texto, após uma postagem encurtada composta de alguns trechos marcantes, minha vontade de elaborar uma postagem associando algumas ideias a trechos da postagem anterior tornou-se incontrolável.
"Personagens que definem o que é ser bonito, o que é ser bem-sucedido, o que é normal e o que é aceitável, moldam a imaginação infantil desde cedo. Se a escola doutrina pela disciplina, a mídia doutrina pelo desejo, transforma crianças em consumidores antes mesmo que aprendam a somar. Ensina-as a desejar antes que compreendam o valor de uma escolha. Aprisiona sua imaginação dentro de moldes fabricados em massa. Uma criança doutrinada se torna um adulto que não sabe questionar, que não consegue imaginar alternativas, que aceita como natural aquilo que lhe foi imposto."
"Libertar a infância não significa abandoná-la à própria sorte ou transformá-la em um experimento sem direção, mas sim oferecer um ambiente fértil onde ela possa experimentar, errar, questionar e imaginar sem medo. Se quisermos uma sociedade mais justa, mais sábia e mais humana, precisamos começar pelo óbvio: permitir que nossas crianças sejam crianças, que descubram o mundo com seus próprios olhos, que façam perguntas sem medo, que duvidem sem culpa e que ousem imaginar sem limites. A arte, a filosofia e a imaginação são tratadas como luxos secundários quando na verdade deveriam estar no coração do processo educativo."
"Em uma sociedade que glorifica a pressa e a produtividade, até mesmo as crianças são forçadas a viver em agendas lotadas de compromissos como se a brincadeira fosse perda de tempo. Rouba da criança o tempo de ser criança. Brincar, sonhar, explorar, errar e se reinventar tornam-se luxo em um mundo que já as coloca em cursos de idiomas, aulas de reforço, esportes competitivos e agendas dignas de executivos. Mas é justamente no brincar livre que se forjam habilidades profundas: a imaginação, a empatia, a autonomia, a resiliência. Brincar é ensaiar a vida, é criar mundos possíveis, é aprender sem a consciência pesada da obrigação."
"A mente infantil é a última fronteira da liberdade. É nela que a imaginação ainda não foi colonizada pela propaganda, pelas normas sociais rígidas, pelas exigências de sucesso e de consumo. É nela que floresce a capacidade de maravilhar-se com o simples, de rir sem motivo, de perguntar sem medo."
Diante de tantas citações sobre a imaginação (apresentadas no vídeo Estratégia maligna do sistema para escravizar nossas crianças), o implacável método das recordações sucessivas faz-me trazer para esta postagem um trecho de um episódio de uma série de documentários apresentada no Clube de Documentários do canal Curta On. Sob o título Incertezas Críticas, a série traz documentários de 26 minutos com um personagem central, trazendo uma reflexão sobre o mundo contemporâneo, na visão de alguns dos mais importantes intelectuais do presente. No referido episódio, o intelectual é o escritor e ensaísta argentino Alberto Manguel (1948). O próximo parágrafo transcreve suas palavras finais.
"Eu creio que nascemos com o impulso de sermos leitores, nascemos com inteligência, com imaginação. E desde que somos crianças, ainda com poucos meses, a sociedade faz um esforço enorme para educar-nos na estupidez, para fazer com que não sejamos inteligentes, que não sejamos imaginativos, que nos conformemos às normas, que não façamos perguntas, e que aceitemos respostas banais. Então, é preciso fazer da leitura um ato subversivo, para ir contra o que a sociedade nos quer impor. Mas isso, cada um deve fazer por si mesmo. Muitos o fazem."
Você consegue enxergar nessas palavras de Alberto Manguel uma afinidade extrema com as ideias passadas pela "trilogia" composta pelas postagens intituladas Estratégia maligna do sistema para escravizar nossas crianças elaboradas pela transcrição do vídeo homônimo? Vídeo do qual foi extraído também o próximo parágrafo.
"Em uma sociedade que glorifica a pressa e a produtividade, até mesmo as crianças são forçadas a viver em agendas lotadas de compromissos como se a brincadeira fosse perda de tempo. Rouba da criança o tempo de ser criança. Brincar, sonhar, explorar, errar e se reinventar tornam-se luxo em um mundo que já as coloca em cursos de idiomas, aulas de reforço, esportes competitivos e agendas dignas de executivos. Mas é justamente no brincar livre que se forjam habilidades profundas: a imaginação, a empatia, a autonomia, a resiliência. Brincar é ensaiar a vida, é criar mundos possíveis, é aprender sem a consciência pesada da obrigação."
E ao ler um texto que fala sobre roubar da criança o tempo de ser criança, de já colocar as crianças em cursos de idiomas, aulas de reforço, esportes competitivos e agendas dignas de executivos, o método das recordações sucessivas faz-me trazer para estas reflexões alguns links para postagens que têm muito a ver com tais coisas.
... 13.05.2011 ....... Era uma vez uma infância
... 24.08.2015 ....... A criança e a infância
... 03.09.2015 ....... Contas sem faz de conta
... 09.09.2015 ....... Reflexões provocadas por "Contas sem faz de conta"
Ou seja, desde o seu início, este blog interessa-se muito por crianças e pela infância. Até porque, como é dito da postagem publicada em 28 de agosto de 2015, "Se o mundo tem solução, é através da criança". O próximo parágrafo é mais um extraído do magnífico vídeo que, no meu entender, seria imperdoável não comentar.
"Assim, a sala de aula se transforma em uma extensão da máquina social, uma réplica em miniatura do mundo adulto que espera por essas crianças. Competitivo, hierarquizado, sufocante. A mesa enfileirada diante do quadro é o prelúdio das baias de escritório. A prova cronometrada é o treino para a pressão dos prazos. A nota é a preparação para o salário que mede não o valor humano, mas a utilidade produtiva."
Uma analogia, simplesmente, magistral! Você concorda?
"Uma verdadeira educação também significa oferecer múltiplas perspectivas para que a criança aprenda desde cedo que não existe uma única forma de interpretar o mundo. Assim, em vez de um cidadão moldado para obedecer, surge um indivíduo capaz de escolher conscientemente, de decidir seus valores, de trilhar seu próprio caminho. Pais e educadores nesse processo deixam de ser doutrinadores para se tornarem guias. Não são escultores que esculpem à força um modelo pronto, mas jardineiros que nutrem o crescimento natural de cada árvore. Eles apontam horizontes, mas não cortam asas. Mostram caminhos, mas não obrigam passos. Oferecem ferramentas, mas não impõem muros."
Em outras palavras, em vez de moldadores de indivíduos obedecedores em trilhar caminhos determinados por outros, pais e educadores devem ser estimuladores de indivíduos no sentido de tornarem-se capazes de escolher conscientemente seus próprios caminhos, e de decidir seus próprios valores.
E diante da ideia expressa no parágrafo anterior, a prática das recordações sucessivas faz-me trazer para estas reflexões a seguinte frase de Antoine de Saint-Exupéry:
"Se quiseres construir um navio, não reúna pessoas para elaborar planos, distribuir tarefas, buscar ferramentas, cortar madeira, mas desperta nelas o desejo de buscar a amplidão dos mares. Então, elas construirão o navio por si."
Mutatis mutandis, "Se quiseres construir um mundo melhor, não reúna crianças para lhes apontar horizontes, mostrar caminhos, obrigar passos, oferecer ferramentas, mas desperta nelas o desejo de buscar a amplidão da fraternidade. Então, elas construirão um mundo melhor por si."
"Uma educação verdadeiramente transformadora não mede o valor de uma criança por suas notas ou diplomas, mas pela sua capacidade de ser livre, crítica e criativa. Uma criança quando ainda não contaminada pelos padrões rígidos e interesses ocultos da sociedade enxerga o mundo com olhos limpos capazes de ver beleza onde o adulto já só vê utilidade."
"Ter a capacidade de enxergar o mundo com olhos limpos capazes de ver beleza onde o adulto já só vê utilidade." Há dinheiro que pague isso? Os três parágrafos finais são transcritos do magnífico vídeo Estratégia maligna do sistema para escravizar nossas crianças.
"Resistir à doutrinação infantil é lutar pelo futuro da humanidade. Cada criança que cresce com liberdade de pensamento, é uma fagulha que desafia o conformismo. O futuro não será decidido apenas por tecnologias ou políticas, mas pelo tipo de infância que cultivarmos hoje, e é essa decisão, silenciosa e cotidiana que definirá não apenas a vida de cada criança, mas o destino de toda a civilização. E se queremos um futuro diferente, é preciso começar agora com a coragem de romper com o velho modelo e plantar na infância as sementes de uma humanidade mais lúcida, mais autônoma e, sobretudo, mais livre."
"Uma humanidade adestrada é uma humanidade condenada. Mas uma humanidade que ousa cultivar a liberdade desde cedo é uma humanidade que se renova, que encontra forças para reescrever sua história, que ainda pode sonhar com o mundo mais justo. Se quisermos uma sociedade mais justa, mais sábia e mais humana, precisamos começar pelo óbvio: permitir que nossas crianças sejam crianças, que descubram o mundo com seus próprios olhos, que façam perguntas sem medo, que duvidem sem culpa e que ousem imaginar sem limites."
"A escolha está diante de nós. Ou aceitamos que nossas crianças sejam moldadas para servir a engrenagens invisíveis ou ousamos romper o ciclo e devolver-lhes o direito de pensar, imaginar e viver plenamente. Essa escolha não é abstrata, mas concreta, ela está na forma como educamos, como dialogamos, como permitimos ou não que a curiosidade floresça."