"O futuro da humanidade não será decidido pelas relações
entre nações, mas pelas relações entre homens e mulheres."
(D. H. Lawrence [1885 – 1930], escritor
inglês)
A ideia
de elaborar uma mensagem alusiva ao Dia Internacional da Mulher surgiu em 2005
(faz tempo hein!). De 2005 a 2010, a mensagem era enviada por e-mail para uma
lista de mulheres com quem eu interagia, e tinha a intenção de parabenizá-las
por esse dia, de agradecer-lhes por tornarem melhor esse percurso que a gente
chama de vida e de estimulá-las a não desistirem de lutar em busca da equidade.
A partir de 2011, com a criação deste blog, considerando que a mensagem passaria a
ser lida também por homens, a intenção foi mudada para tentar conseguir que a
mensagem seja enxergada em conformidade com aquelas e aqueles que a lerem.
- Por elas, como já dito no início
desta postagem, como parabenização por esse dia, como agradecimento por tornarem melhor
esse percurso que a gente chama de vida e como estímulo a não desistirem de
lutar em busca da equidade.
- Por eles, como inspiração para que
façam um exame de consciência sobre a maneira como trataram as mulheres nos
dias de ontem, e como provocação de reflexões que os levem a empenharem-se na
melhora no relacionamento com elas nos dias de amanhã.
E ao redigir o primeiro parágrafo
acima, foi inevitável lembrar da afirmação de D.H. Lawrence que epigrafa esta
postagem:
"O futuro da humanidade não será
decidido pelas relações entre nações, mas pelas relações entre homens e
mulheres."
O texto escolhido para ser
espalhado por esta postagem foi obtido em um livro intitulado "A Mãe De Todas As Perguntas -
Reflexões sobre os novos feminismos", de autoria de Rebecca Solnit. Na
segunda orelha do referido livro, Rebecca Solnit é apresentada assim: "Autora do best-seller
internacional Os homens explicam tudo
para mim, é colunista da revista Harper’s,
colaboradora do jornal The Guardian,
historiadora e ativista. Escreveu mais de quinze livros sobre feminismo,
história indígena e ocidental, poder popular e insurreição, entre outros temas
contemporâneos." Segue o texto escolhido.
O que torna um planeta habitável
A
situação, tal como existe há muito tempo, precisa ser descrita de modo simples
e direto. Digamos apenas que um número significativo de homens odeia mulheres, seja
a desconhecida molestada na rua, a twitteira ameaçada e condenada ao silêncio
on-line ou a esposa espancada. Alguns homens se acham no direito de humilhar,
punir, silenciar, violentar e até aniquilar mulheres. Por causa disso, as
mulheres enfrentam um grau assombroso de violência cotidiana e uma atmosfera
ameaçadora, bem como uma infinidade de insultos e agressões menores na intenção
de nos manter sob domínio. Assim, não admira que o Southern Poverty Law Center
[Centro Sulino de Advocacia Gratuita] classifique alguns grupos de direitos dos
homens como grupos de ódio.
Nesse
contexto, avalie o que queremos dizer com cultura do estupro. É ódio. Aqueles
estupros por times esportivos e membros de fraternidades se baseiam na ideia de
que violar os direitos, a dignidade e o corpo de outro ser humano é uma coisa
bacana de se fazer. Essas ações grupais se fundam numa noção predatória
monstruosa de masculinidade, que muitos homens não subscrevem, mas que afeta a
todos nós. É também um problema que os homens são capazes de corrigir de outras
maneiras, não acessíveis às mulheres.
Numa
noite dessas, saí de uma palestra de uma astrofísica conhecida minha sobre as
condições para que um planeta seja habitável – temperatura, atmosfera,
distância de uma estrela. Pensei em pedir a um rapaz, amigo de uma amiga, que
me acompanhasse até meu carro, no estacionamento totalmente escuro da Academia
de Ciências da Califórnia, mas a astrofísica e eu ficamos conversando e fomos
juntas até lá, sem nem questionar, e então a levei de carro até o carro dela.
Algumas
semanas antes, juntei-me a Emma Sulkowicz e um grupo de moças que estavam
carregando um colchão entre uma aula e outra na Universidade Columbia. Como
disse antes, Sulkowicz é uma estudante de artes que denunciou um estupro e não
recebeu nada que se parecesse com justiça, nem das autoridades do campus, nem
do Departamento de Polícia de Nova York. Como reação, ela vem expondo seu drama
com uma performance artística que consiste em carregar um colchão do dormitório
universitário para todos os lugares enquanto está no campus.
A reação
da mídia foi estrondosa.2 Uma equipe de documentário estava lá
naquele dia, e a cinegrafista, uma mulher de meia-idade, comentou comigo que,
se os critérios de consentimento sexual nas universidades já existissem, se o
direito das mulheres de negar e a obrigação dos homens em respeitar a decisão
feminina já fossem reconhecidos quando ela era jovem, sua vida teria sido
totalmente diferente. Refleti nisso por um instante e percebi: a minha também. Gastei muita energia entre os
doze e os trinta anos simplesmente para sobreviver a homens predadores. A
revelação de que desconhecidos totais e conhecidos eventuais podiam me infligir
humilhação, dano e talvez até a morte por causa de meu gênero e que eu tinha de
estar alerta o tempo inteiro para escapar a esse destino – bom, faz parte do
que me levou a ser feminista.
Tenho
profunda preocupação com as condições habitáveis do nosso planeta de um ponto
de vista ambiental, porém, enquanto não for plenamente habitável por mulheres
que possam caminhar livremente pelas ruas sem o medo constante, teremos de
carregar fardos práticos e psicológicos que prejudicam a nossa total
capacidade. É por isso que, mesmo considerando o clima a coisa mais importante
neste momento, ainda escrevo sobre feminismo e direitos das mulheres. E celebro
os homens que tornaram um pouco mais fácil mudar o mundo ou que agora fazem
parte das grandes mudanças em curso.
2 Depois
que escrevi isso, Sulkowicz foi submetida a ataques maciços nas redes sociais e
em outros lugares, como resultado do movimento pelos direitos dos homens. Em
2016, uma pesquisa sobre o seu sobrenome na internet dá como primeiro resultado
"Emma Sulkowicz" e como segundo "Emma Sulkowicz mentirosa".
Puseram cartazes por todo o campus de Columbia chamando-a de "pretty little liar" [referência ao
seriado Pretty Little Liars], e uma conta do Twitter chamada @fakerape passou a persegui-la até ser
suspensa.
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"...enquanto
não for plenamente habitável por mulheres que possam caminhar livremente pelas
ruas sem o medo constante, teremos de carregar fardos práticos e psicológicos
que prejudicam a nossa total capacidade. É por isso que, mesmo considerando o
clima a coisa mais importante neste momento, ainda escrevo sobre feminismo e
direitos das mulheres. E celebro os homens que tornaram um pouco mais fácil
mudar o mundo ou que agora fazem parte das grandes mudanças em curso.",
eis as palavras finais do instigante texto de Rebecca Solnit.
Palavras
que levam-me a fazer a seguinte indagação: Que tal tornar-se um homem celebrado
por Rebecca Solnit? Afinal, repetindo mais uma vez a afirmação de D.H. Lawrence, "O futuro da humanidade não será
decidido pelas relações entre nações, mas pelas relações entre homens e
mulheres." Afirmação que, no meu entender, tem tudo a ver com o título
do texto de Rebecca Solnit: "O que torna um planeta habitável". Você
concorda que tornar um planeta habitável tem tudo a ver com as relações entre
os diferentes seres que nele convivem?
Dito
isto, eis a questão: Que tipo de planeta você almeja, não só para você mesmo,
mas, principalmente, para esses seres que a maioria das pessoas diz ser o que
mais amam nessa coisa que a gente chama de vida: seus filhos e suas filhas?
Você está disposto a atuar no sentido de tornar este planeta um planeta
habitável onde os homens deixem de enxergar as mulheres como seres inferiores a
eles? Até porque, se nos propusermos a pensar melhor sobre a pretensa
superioridade dos homens em relação às mulheres, a conclusão a que se chega é completamente
diferente do que pretendem os homens.