domingo, 8 de março de 2026

Dia Internacional da Mulher - 2026 ou "O que torna um planeta habitável"

"O futuro da humanidade não será decidido pelas relações entre nações, mas pelas relações entre homens e mulheres."

(D. H. Lawrence [1885 – 1930], escritor inglês)

A ideia de elaborar uma mensagem alusiva ao Dia Internacional da Mulher surgiu em 2005 (faz tempo hein!). De 2005 a 2010, a mensagem era enviada por e-mail para uma lista de mulheres com quem eu interagia, e tinha a intenção de parabenizá-las por esse dia, de agradecer-lhes por tornarem melhor esse percurso que a gente chama de vida e de estimulá-las a não desistirem de lutar em busca da equidade. A partir de 2011, com a criação deste blog, considerando que a mensagem passaria a ser lida também por homens, a intenção foi mudada para tentar conseguir que a mensagem seja enxergada em conformidade com aquelas e aqueles que a lerem.
- Por elas, como já dito no início desta postagem, como parabenização por esse dia, como agradecimento por tornarem melhor esse percurso que a gente chama de vida e como estímulo a não desistirem de lutar em busca da equidade.
- Por eles, como inspiração para que façam um exame de consciência sobre a maneira como trataram as mulheres nos dias de ontem, e como provocação de reflexões que os levem a empenharem-se na melhora no relacionamento com elas nos dias de amanhã.
E ao redigir o primeiro parágrafo acima, foi inevitável lembrar da afirmação de D.H. Lawrence que epigrafa esta postagem:
"O futuro da humanidade não será decidido pelas relações entre nações, mas pelas relações entre homens e mulheres."
O texto escolhido para ser espalhado por esta postagem foi obtido em um livro intitulado "A Mãe De Todas As Perguntas - Reflexões sobre os novos feminismos", de autoria de Rebecca Solnit. Na segunda orelha do referido livro, Rebecca Solnit é apresentada assim: "Autora do best-seller internacional Os homens explicam tudo para mim, é colunista da revista Harper’s, colaboradora do jornal The Guardian, historiadora e ativista. Escreveu mais de quinze livros sobre feminismo, história indígena e ocidental, poder popular e insurreição, entre outros temas contemporâneos." Segue o texto escolhido.
O que torna um planeta habitável
A situação, tal como existe há muito tempo, precisa ser descrita de modo simples e direto. Digamos apenas que um número significativo de homens odeia mulheres, seja a desconhecida molestada na rua, a twitteira ameaçada e condenada ao silêncio on-line ou a esposa espancada. Alguns homens se acham no direito de humilhar, punir, silenciar, violentar e até aniquilar mulheres. Por causa disso, as mulheres enfrentam um grau assombroso de violência cotidiana e uma atmosfera ameaçadora, bem como uma infinidade de insultos e agressões menores na intenção de nos manter sob domínio. Assim, não admira que o Southern Poverty Law Center [Centro Sulino de Advocacia Gratuita] classifique alguns grupos de direitos dos homens como grupos de ódio.
Nesse contexto, avalie o que queremos dizer com cultura do estupro. É ódio. Aqueles estupros por times esportivos e membros de fraternidades se baseiam na ideia de que violar os direitos, a dignidade e o corpo de outro ser humano é uma coisa bacana de se fazer. Essas ações grupais se fundam numa noção predatória monstruosa de masculinidade, que muitos homens não subscrevem, mas que afeta a todos nós. É também um problema que os homens são capazes de corrigir de outras maneiras, não acessíveis às mulheres.
Numa noite dessas, saí de uma palestra de uma astrofísica conhecida minha sobre as condições para que um planeta seja habitável – temperatura, atmosfera, distância de uma estrela. Pensei em pedir a um rapaz, amigo de uma amiga, que me acompanhasse até meu carro, no estacionamento totalmente escuro da Academia de Ciências da Califórnia, mas a astrofísica e eu ficamos conversando e fomos juntas até lá, sem nem questionar, e então a levei de carro até o carro dela.
Algumas semanas antes, juntei-me a Emma Sulkowicz e um grupo de moças que estavam carregando um colchão entre uma aula e outra na Universidade Columbia. Como disse antes, Sulkowicz é uma estudante de artes que denunciou um estupro e não recebeu nada que se parecesse com justiça, nem das autoridades do campus, nem do Departamento de Polícia de Nova York. Como reação, ela vem expondo seu drama com uma performance artística que consiste em carregar um colchão do dormitório universitário para todos os lugares enquanto está no campus.
A reação da mídia foi estrondosa.2 Uma equipe de documentário estava lá naquele dia, e a cinegrafista, uma mulher de meia-idade, comentou comigo que, se os critérios de consentimento sexual nas universidades já existissem, se o direito das mulheres de negar e a obrigação dos homens em respeitar a decisão feminina já fossem reconhecidos quando ela era jovem, sua vida teria sido totalmente diferente. Refleti nisso por um instante e percebi:  a minha também. Gastei muita energia entre os doze e os trinta anos simplesmente para sobreviver a homens predadores. A revelação de que desconhecidos totais e conhecidos eventuais podiam me infligir humilhação, dano e talvez até a morte por causa de meu gênero e que eu tinha de estar alerta o tempo inteiro para escapar a esse destino – bom, faz parte do que me levou a ser feminista.
Tenho profunda preocupação com as condições habitáveis do nosso planeta de um ponto de vista ambiental, porém, enquanto não for plenamente habitável por mulheres que possam caminhar livremente pelas ruas sem o medo constante, teremos de carregar fardos práticos e psicológicos que prejudicam a nossa total capacidade. É por isso que, mesmo considerando o clima a coisa mais importante neste momento, ainda escrevo sobre feminismo e direitos das mulheres. E celebro os homens que tornaram um pouco mais fácil mudar o mundo ou que agora fazem parte das grandes mudanças em curso.

2 Depois que escrevi isso, Sulkowicz foi submetida a ataques maciços nas redes sociais e em outros lugares, como resultado do movimento pelos direitos dos homens. Em 2016, uma pesquisa sobre o seu sobrenome na internet dá como primeiro resultado "Emma Sulkowicz" e como segundo "Emma Sulkowicz mentirosa". Puseram cartazes por todo o campus de Columbia chamando-a de "pretty little liar" [referência ao seriado Pretty Little Liars], e uma conta do Twitter chamada @fakerape passou a persegui-la até ser suspensa.

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"...enquanto não for plenamente habitável por mulheres que possam caminhar livremente pelas ruas sem o medo constante, teremos de carregar fardos práticos e psicológicos que prejudicam a nossa total capacidade. É por isso que, mesmo considerando o clima a coisa mais importante neste momento, ainda escrevo sobre feminismo e direitos das mulheres. E celebro os homens que tornaram um pouco mais fácil mudar o mundo ou que agora fazem parte das grandes mudanças em curso.", eis as palavras finais do instigante texto de Rebecca Solnit.
Palavras que levam-me a fazer a seguinte indagação: Que tal tornar-se um homem celebrado por Rebecca Solnit? Afinal, repetindo mais uma vez a afirmação de D.H. Lawrence, "O futuro da humanidade não será decidido pelas relações entre nações, mas pelas relações entre homens e mulheres." Afirmação que, no meu entender, tem tudo a ver com o título do texto de Rebecca Solnit: "O que torna um planeta habitável". Você concorda que tornar um planeta habitável tem tudo a ver com as relações entre os diferentes seres que nele convivem?
Dito isto, eis a questão: Que tipo de planeta você almeja, não só para você mesmo, mas, principalmente, para esses seres que a maioria das pessoas diz ser o que mais amam nessa coisa que a gente chama de vida: seus filhos e suas filhas? Você está disposto a atuar no sentido de tornar este planeta um planeta habitável onde os homens deixem de enxergar as mulheres como seres inferiores a eles? Até porque, se nos propusermos a pensar melhor sobre a pretensa superioridade dos homens em relação às mulheres, a conclusão a que se chega é completamente diferente do que pretendem os homens.
Para entender melhor essa história de superioridade dos homens em relação às mulheres, sugiro a leitura das postagens publicadas, neste blog, nos dias 24 de julho e 02 de agosto de 2025, intituladas, "Por que mulheres nos assustam?" e "Reflexões provocadas por 'Por que mulheres nos assustam?'", respectivamente. Compreendido?

quarta-feira, 4 de março de 2026

Reflexões provocadas por "Que filhos queremos: gladiadores ou golfinhos?"

"Que filhos queremos: gladiadores ou golfinhos?", eis o instigante título de um dos capítulos de um livro com título, igualmente, instigante: "A Bula de Cada Criança - O olhar humanista de um pediatra sobre como cuidar dos filhos sem receita pronta". Capítulo cujo primeiro parágrafo é reproduzido a seguir.
"Nossa visão do mundo - fortemente influenciada pela cultura, que são os valores e hábitos de que nos cercamos - define em grande parte como vamos ou queremos criar nossos filhos. Nos dias de hoje, há uma invasão da cultura empresarial na vida privada. Numa empresa, temos o objetivo de criar e manter clientes lucrativos. Isso se obtém através da excelência dos produtos e dos serviços, com o claro e explícito objetivo de superar a concorrência. Estou sendo gentil quando digo superar a concorrência. Em geral a linguagem é mais bélica e a ideia é derrubar, destruir, acabar com a concorrência."
Parágrafo cuja leitura atenta leva-me a entender o porquê de gladiadores ser uma das duas opções apresentadas na indagação do pediatra. Afinal, se "a ideia é derrubar, destruir, acabar com a concorrência", nada melhor do que contar com gladiadores. A definição apresentada a seguir foi obtida na Wikipédia.
"Gladiador, do latim gladiātor, de gladius (modelo de espada utilizada pelos romanos), era uma pessoa que, na Roma Antiga, lutava com outra pessoa ou animal, às vezes, até a morte, para o entretenimento do público romano."
"Uma pessoa que, na Roma Antiga, lutava com outra pessoa ou animal, às vezes, até a morte, para o entretenimento do público romano.", diz a definição acima.
"Uma pessoa que, na Insana Sociedade (sic) Atual, luta com outra pessoa, às vezes, até a morte, para o entretenimento do privado empresarial, composto pelos donos de gigantescas corporações.", digo eu, parafraseando a definição apresentada no parágrafo anterior. Exagerei na paráfrase? Se acha que sim, leia a seguinte definição que obtive em mais uma busca na Wikipédia.
"Karoshi, que pode ser traduzido literalmente do japonês como 'morte por excesso de trabalho', é a morte súbita ocupacional. (...) As principais causas médicas das mortes pelo karoshi são ataque do coração e derrame devido a estresse."
Será que faz sentido associar "morte por excesso de trabalho" a "lutar, às vezes, até a morte" (como é dito na definição de gladiador)? Diante do que foi dito até aqui, será que faz sentido gladiadores ser uma das duas opções oferecidas pelo pediatra? Dito isto, passemos a segunda opção. Opção cuja definição não precisei buscar em lugar algum, pois o próprio pediatra já a oferece em seu instigante texto.
"Golfinhos são inteligentes, brincam, se divertem, vivem em grupo, colaboram entre si para a alimentação e contra o ataque de predadores".
"Seres que brincam, se divertem, vivem em grupo, colaboram entre si para a alimentação e contra o ataque de predadores". Ou seja, ao contrário do que fazem gladiadores, que competem entre si, golfinhos são seres que colaboram entre si. E ao comparar competição e colaboração, o velho método das recordações sucessivas foi despertado e fez-me trazer para esta postagem a seguinte passagem do livro Vencendo a competição, de Terry Orlick.
"Darwin ficou amargurado por suas teorias terem sido distorcidas e terem ajudado a perpetuar o mito da vitória-a-qualquer-custo e a ideia de que os 'perdedores' merecem ser esmagados. Entretanto, apesar do mau uso de suas teorias, Charles Darwin afirmou claramente que, para a raça humana, o valor mais alto de sobrevivência está no senso moral e na cooperação – e não na competição."
"Charles Darwin afirmou claramente que, para a raça humana, o valor mais alto de sobrevivência está no senso moral e na cooperação – e não na competição." Então, o quê e com quais intenções distorceu a afirmação de Charles Darwin? Talvez o espírito capitalista inerente à cultura empresarial. Os dois próximos parágrafos foram extraídos do texto do pediatra.
"Além do fato de a cultura das empresas entrar em nossas vidas, há um equívoco na avaliação da natureza humana. Muitas pessoas acreditam que Darwin (aquele da evolução das espécies) disse que os mais fortes sobrevivem. Não foi isso que ele disse, mas, sim, que os mais aptos sobrevivem. É uma diferença fundamental entre ser forte e ser apto."
"Como em uma empresa só se tem um presidente e meia dúzia de diretores, é óbvio que os empregados (motivacionalmente chamados de colaboradores, associados etc.) disputam entre si a entrada nesse funil, rumo ao topo. Há uma concorrência interna entre as pessoas, e a empresa usa isso para obter o máximo de cada um."
Colaboradores para produzirem exorbitantes lucros para os empresários; competidores para disputarem a, cada vez mais escassa, quantidade de empregos oferecidos pelos empresários. Escassa quantidade, motivacionalmente engendrada pelos próprios empresários, conforme se pode constatar em um vídeo intitulado "Bilionário sincero, diz que aumentar o desemprego é bom para os capitalistas.", gravado em setembro de 2023, e encontrável no endereço https://www.youtube.com/watch?v=3Csmpv_6Ljw até o momento da publicação desta postagem. Vídeo no qual Tim Gurner, empresário australiano, fundador da Gurner Group, desatentamente, defende o aumento da taxa de desemprego. Os dois próximos parágrafos resultam de transcrição de trechos traduzidos da fala do bilionário sincero.
Precisamos aumentar o desemprego. O desemprego precisa aumentar entre 40 e 50%. Precisamos fazer a economia sofrer. Precisamos lembrar às pessoas que elas trabalham para o empregador, não o contrário.
"Existe uma mudança sistemática onde o trabalhador considera que o patrão tem sorte em ter os funcionários e deveria ser o contrário. Então essa dinâmica precisa mudar. Precisamos matar esse pensamento e isso acontece quando machucamos a economia, que é o que o mundo está tentando fazer. Governos do mundo inteiro estão tentando aumentar o desemprego para conseguir um pouco de normalidade."
Será que em vez de "Empregados (motivacionalmente chamados de colaboradores"(expressão usada pelo pediatra), não seria mais correta a expressão "Empregados (debochadamente chamados de colaboradores)"?
Ao indagar "Que filhos queremos: gladiadores ou golfinhos?", o que o pediatra propõe é escolhermos entre querermos que eles se tornem competidores ou cooperadores. Escolha que, segundo ele, é definida em conformidade com nossa visão de mundo. O próximo parágrafo traz mais um trecho do instigante livro do pediatra.
"Nossa visão do mundo - fortemente influenciada pela cultura, que são os valores e hábitos de que nos cercamos - define em grande parte como vamos ou queremos criar nossos filhos."
E os parágrafos trazendo trechos do instigante do instigante livro do pediatra Roberto Cooper não param.
"Se a nossa visão de mundo for a de que tudo é uma empresa e o mais forte triunfará, certamente educaremos nossos filhos para serem gladiadores implacáveis."
E, consequentemente, os prepararemos para tentarem sobreviver um mundo cada vez mais cruel e competitivo. Segue mais um trecho extraído do instigante texto.
"Se nossa visão de mundo for a de que a cooperação, o altruísmo e uma boa dose de ócio (não fazer compulsivamente algo, apenas pensar, refletir, ser criativo) são importantes, certamente educaremos nossos filhos para se tornarem golfinhos."
E, consequentemente, os estimularemos a cooperarem na construção de um mundo mais compassivo e cooperativo. E tome mais um trecho do instigante texto espalhado pela postagem anterior.
"Mas o mundo não é tão simples. Ou isso, ou aquilo. O mundo é complexo e, geralmente, é isso e aquilo, ao mesmo tempo. Assim, temos que pensar em nossos filhos como gladiadores, quando estiverem na arena das empresas, do mercado, da vida profissional e, como golfinhos, na vida, no convívio e nos relacionamentos. Precisamos lhes dar as aptidões para que possam viver bem, em todas as situações, de forma integrada e feliz. O perigo é quando só lhes damos um modo de ver e de estar no mundo. E, hoje, esse modo é o do gladiador."
E já que o mundo não é tão simples; já que, geralmente, não se trata de isso ou aquilo, e sim de isso e aquilo, no meu entender, a melhor maneira de encerrar estas reflexões é sugerindo que cada um que as ler reflita bastante sobre o que é dito no último parágrafo do provocante texto do pediatra Roberto Cooper, reproduzido a seguir.
"Precisamos adicionar na formação dos nossos filhos afeto, vínculo, confiança mútua, solidariedade, empatia, compaixão e altruísmo. Só faremos isso, se pudermos ser assim. Não há curso para essas aptidões nas quais possamos inscrever nossos filhos, muito menos comprar algo que os ensine a ser gente. É preciso que sejamos pais amorosos, afetivos, solidários para que nossos filhos cresçam e se tornem adultos capazes de não ver o mundo exclusivamente pelas lentes da competição e da vitória sobre o outro."
"Só faremos isso, se pudermos ser assim. Não há curso para essas aptidões nas quais possamos inscrever nossos filhos, muito menos comprar algo que os ensine a ser gente. ", diz Roberto Cooper. E ao ler isso, o velho método das recordações sucessivas impede-me de encerrar estas reflexões sem nelas referir-me a quatro palavras atribuídas a Buda que, certa vez, vi afixadas na parede atrás da mesa de uma saudosa ex-colega de trabalho: "Ensine Sendo Aprenda Fazendo".
Ufa! Há textos que dão o que pensar!