domingo, 15 de março de 2026

Refletir sobre o futuro aos 104 anos

"Há homens que lutam um dia e são bons,
há outros que lutam um ano e são melhores;
 há os que lutam muitos anos e são muito bons,
 mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis."
(Bertolt Brecht [1898 – 1956], dramaturgo, poeta e encenador alemão)
Por que epigrafo esta postagem com essas palavras de Brecht? Porque acredito que ele classificaria como imprescindível o filósofo citado no artigo reproduzido nesta postagem. Afinal, prosseguir lutando por um mundo melhor após 104 anos é algo que só homens imprescindíveis fazem.
O texto apresentado a seguir foi publicado na edição de 31 de dezembro de 2025, 1 e 2 de janeiro de 2026 do jornal Valor Econômico, na coluna de Andrea Jubé, repórter de Política em Brasília, onde ela escreve às sextas-feiras.
Refletir sobre o futuro aos 104 anos
"A ignorância é a mãe de todos os vícios", afirmou Machado de Assis, em uma crônica de 1889. É incomum citarmos "sabedoria" entre os votos para o ano novo, junto com "saúde, amor e prosperidade". Em se tratando de 2026, quando teremos palpitantes eleições no Brasil, deveríamos acrescentar "serenidade e tolerância".
Mas, raramente, mencionamos mais "conhecimento" ou "saber". Uma falha a se repensar em tempos velozes, de comunicação instantânea, progressos tecnológicos e científico, proliferação de guerras, quando sabedoria, muitas vezes, implica desacelerar e refletir.
A lição de um dos mais respeitados filósofos contemporâneos é de que em uma realidade de inteligência artificial, células-tronco, trans-humanismo, o mais urgente seria resgatar valores. "Fica claro que o verdadeiro progresso de que a humanidade necessita seria o da compreensão humana, da benevolência, da solidariedade, da amizade, sendo que nesse campo só houve avanços parciais e provisórios, num contexto de retrocesso generalizado".
A receita é do intelectual francês Edgar Morin, que em 2025, na plenitude de seus 104 anos, lançou mais um livro: "Lições da História", publicado no Brasil pela L&PM. Ele enumera 16 lições que os fatos históricos deixam para a humanidade, como a força do improvável, o papel dos mitos, heróis e santos, a contradição entre progresso e moralidade, o poder devastador das guerras. Centenário, ele afirma que vida é metamorfose: [a História] "nos lembra que a humanidade sempre esteve e sempre estará em transformação".
A história de Morin é inspiradora. Graduou-se em direito, história e geografia, mas sempre se declarou autodidata. Visionário, já na década de 70 escrevia sobre os riscos para o planeta e para o ser humano da degradação ambiental. Doutor Honoris Causa de mais de 40 universidades, é reconhecido pelo ambicioso "O Método", publicado entre 1977 e 2004, obra de seis volumes sobre transdisciplinaridade e o pensamento complexo.
Em "Lições da História", ele adverte que, em 2025, a humanidade estava "sendo arrastada para um grande retrocesso por um conjunto de crises ecológicas, políticas, econômicas; deixando-se de lado a afetividade, a felicidade, a infelicidade, a alegria, a tristeza, ou seja, realidades humanas essenciais".
Ele enxerga o retrocesso ao lado do progresso. "É incontestável que avanços científicos e tecnológicos não param, como mostram as manipulações do DNA e de células-tronco na biologia ou os desenvolvimentos exponenciais das ciências do digital", reconhece. "Enquanto o planeta está entregue a processos regressivos que parecem implacáveis, com a hegemonia do lucro, as degradações ecológicas, as guerras e as múltiplas crises interligadas numa policrise", lamentou.
Morin reflete que essa ideologia promete "a imortalidade, uma sociedade perfeita regulada por inteligência artificial e a continuação da aventura humana em planetas colonizados, a começar pela Lua e por Marte: o trans-humanismo torna-se pós-humanismo". Contudo, critica a "ausência de qualquer progresso moral no progresso científico-técnico-econômico", e retrocessos morais nas crises e guerras, insistindo que o verdadeiro progresso seria a "compreensão humana.
O debate que envolve avanços científicos, longevidade e imortalidade está no radar dos líderes mundiais. Em outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em evento com empresários na Malásia, que tem "compromisso com Deus para viver até 120 anos de idade", o que não seria muito "no mundo de hoje".
O repórter Assis Moreira, do Valor, lembrou que, recentemente, uma transmissão ao vivo capturou os líderes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, tratando do tema. "Órgãos humanos podem ser transplantados continuamente. Quanto mais você vive, mais jovem se torna – e pode até mesmo alcançar a imortalidade", disse Putin. "Alguns preveem que, neste século, os humanos poderão viver até 150 anos", completou Xi.
Para além da empreitada de viver 100 anos, e mais um pouco, o verdadeiro debate deveria ser em que condições chegar nesse estágio, e o que fazer com essa vivência. É onde entra a sabedoria. Lúcido, Morin caminha para os 105 anos estudando e publicando livros.
Nesta semana, a revista The Economist argumentou que Lula não deveria disputar a reeleição aos 80 anos - embora não mencionasse o americano Donald Trump, que tem a mesma idade e o mesmo desejo do brasileiro. Como tem afirmado, se estiver saudável e lúcido, Lula tem o direito de concorrer. O que ele precisará deixar claro é o que mais terá a oferecer ao país e aos brasileiros em eventual quarto governo.
Segundo Morin, outra lição da História é "fazer entender que o poder revela a natureza humana e permite a realização das piores e das melhores potencialidades". Que venha um 2026 com saúde, prosperidade e sabedoria para todos nós.
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"Refletir sobre o futuro aos 104 anos", eis o título de um instigante artigo, de uma repórter de Política em Brasília de quem eu nunca tinha lido alguma coisa, enaltecendo um dos mais respeitados filósofos contemporâneos, de quem já li alguns livros. Artigo cujo espalhamento por este blog leva-me a antecipar o título da próxima postagem: "Refletir sobre 'Refletir sobre o futuro aos 104 anos', aos 76 anos".

domingo, 8 de março de 2026

Dia Internacional da Mulher - 2026 ou "O que torna um planeta habitável"

"O futuro da humanidade não será decidido pelas relações entre nações, mas pelas relações entre homens e mulheres."

(D. H. Lawrence [1885 – 1930], escritor inglês)

A ideia de elaborar uma mensagem alusiva ao Dia Internacional da Mulher surgiu em 2005 (faz tempo hein!). De 2005 a 2010, a mensagem era enviada por e-mail para uma lista de mulheres com quem eu interagia, e tinha a intenção de parabenizá-las por esse dia, de agradecer-lhes por tornarem melhor esse percurso que a gente chama de vida e de estimulá-las a não desistirem de lutar em busca da equidade. A partir de 2011, com a criação deste blog, considerando que a mensagem passaria a ser lida também por homens, a intenção foi mudada para tentar conseguir que a mensagem seja enxergada em conformidade com aquelas e aqueles que a lerem.
- Por elas, como já dito no início desta postagem, como parabenização por esse dia, como agradecimento por tornarem melhor esse percurso que a gente chama de vida e como estímulo a não desistirem de lutar em busca da equidade.
- Por eles, como inspiração para que façam um exame de consciência sobre a maneira como trataram as mulheres nos dias de ontem, e como provocação de reflexões que os levem a empenharem-se na melhora no relacionamento com elas nos dias de amanhã.
E ao redigir o primeiro parágrafo acima, foi inevitável lembrar da afirmação de D.H. Lawrence que epigrafa esta postagem:
"O futuro da humanidade não será decidido pelas relações entre nações, mas pelas relações entre homens e mulheres."
O texto escolhido para ser espalhado por esta postagem foi obtido em um livro intitulado "A Mãe De Todas As Perguntas - Reflexões sobre os novos feminismos", de autoria de Rebecca Solnit. Na segunda orelha do referido livro, Rebecca Solnit é apresentada assim: "Autora do best-seller internacional Os homens explicam tudo para mim, é colunista da revista Harper’s, colaboradora do jornal The Guardian, historiadora e ativista. Escreveu mais de quinze livros sobre feminismo, história indígena e ocidental, poder popular e insurreição, entre outros temas contemporâneos." Segue o texto escolhido.
O que torna um planeta habitável
A situação, tal como existe há muito tempo, precisa ser descrita de modo simples e direto. Digamos apenas que um número significativo de homens odeia mulheres, seja a desconhecida molestada na rua, a twitteira ameaçada e condenada ao silêncio on-line ou a esposa espancada. Alguns homens se acham no direito de humilhar, punir, silenciar, violentar e até aniquilar mulheres. Por causa disso, as mulheres enfrentam um grau assombroso de violência cotidiana e uma atmosfera ameaçadora, bem como uma infinidade de insultos e agressões menores na intenção de nos manter sob domínio. Assim, não admira que o Southern Poverty Law Center [Centro Sulino de Advocacia Gratuita] classifique alguns grupos de direitos dos homens como grupos de ódio.
Nesse contexto, avalie o que queremos dizer com cultura do estupro. É ódio. Aqueles estupros por times esportivos e membros de fraternidades se baseiam na ideia de que violar os direitos, a dignidade e o corpo de outro ser humano é uma coisa bacana de se fazer. Essas ações grupais se fundam numa noção predatória monstruosa de masculinidade, que muitos homens não subscrevem, mas que afeta a todos nós. É também um problema que os homens são capazes de corrigir de outras maneiras, não acessíveis às mulheres.
Numa noite dessas, saí de uma palestra de uma astrofísica conhecida minha sobre as condições para que um planeta seja habitável – temperatura, atmosfera, distância de uma estrela. Pensei em pedir a um rapaz, amigo de uma amiga, que me acompanhasse até meu carro, no estacionamento totalmente escuro da Academia de Ciências da Califórnia, mas a astrofísica e eu ficamos conversando e fomos juntas até lá, sem nem questionar, e então a levei de carro até o carro dela.
Algumas semanas antes, juntei-me a Emma Sulkowicz e um grupo de moças que estavam carregando um colchão entre uma aula e outra na Universidade Columbia. Como disse antes, Sulkowicz é uma estudante de artes que denunciou um estupro e não recebeu nada que se parecesse com justiça, nem das autoridades do campus, nem do Departamento de Polícia de Nova York. Como reação, ela vem expondo seu drama com uma performance artística que consiste em carregar um colchão do dormitório universitário para todos os lugares enquanto está no campus.
A reação da mídia foi estrondosa.2 Uma equipe de documentário estava lá naquele dia, e a cinegrafista, uma mulher de meia-idade, comentou comigo que, se os critérios de consentimento sexual nas universidades já existissem, se o direito das mulheres de negar e a obrigação dos homens em respeitar a decisão feminina já fossem reconhecidos quando ela era jovem, sua vida teria sido totalmente diferente. Refleti nisso por um instante e percebi:  a minha também. Gastei muita energia entre os doze e os trinta anos simplesmente para sobreviver a homens predadores. A revelação de que desconhecidos totais e conhecidos eventuais podiam me infligir humilhação, dano e talvez até a morte por causa de meu gênero e que eu tinha de estar alerta o tempo inteiro para escapar a esse destino – bom, faz parte do que me levou a ser feminista.
Tenho profunda preocupação com as condições habitáveis do nosso planeta de um ponto de vista ambiental, porém, enquanto não for plenamente habitável por mulheres que possam caminhar livremente pelas ruas sem o medo constante, teremos de carregar fardos práticos e psicológicos que prejudicam a nossa total capacidade. É por isso que, mesmo considerando o clima a coisa mais importante neste momento, ainda escrevo sobre feminismo e direitos das mulheres. E celebro os homens que tornaram um pouco mais fácil mudar o mundo ou que agora fazem parte das grandes mudanças em curso.

2 Depois que escrevi isso, Sulkowicz foi submetida a ataques maciços nas redes sociais e em outros lugares, como resultado do movimento pelos direitos dos homens. Em 2016, uma pesquisa sobre o seu sobrenome na internet dá como primeiro resultado "Emma Sulkowicz" e como segundo "Emma Sulkowicz mentirosa". Puseram cartazes por todo o campus de Columbia chamando-a de "pretty little liar" [referência ao seriado Pretty Little Liars], e uma conta do Twitter chamada @fakerape passou a persegui-la até ser suspensa.

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"...enquanto não for plenamente habitável por mulheres que possam caminhar livremente pelas ruas sem o medo constante, teremos de carregar fardos práticos e psicológicos que prejudicam a nossa total capacidade. É por isso que, mesmo considerando o clima a coisa mais importante neste momento, ainda escrevo sobre feminismo e direitos das mulheres. E celebro os homens que tornaram um pouco mais fácil mudar o mundo ou que agora fazem parte das grandes mudanças em curso.", eis as palavras finais do instigante texto de Rebecca Solnit.
Palavras que levam-me a fazer a seguinte indagação: Que tal tornar-se um homem celebrado por Rebecca Solnit? Afinal, repetindo mais uma vez a afirmação de D.H. Lawrence, "O futuro da humanidade não será decidido pelas relações entre nações, mas pelas relações entre homens e mulheres." Afirmação que, no meu entender, tem tudo a ver com o título do texto de Rebecca Solnit: "O que torna um planeta habitável". Você concorda que tornar um planeta habitável tem tudo a ver com as relações entre os diferentes seres que nele convivem?
Dito isto, eis a questão: Que tipo de planeta você almeja, não só para você mesmo, mas, principalmente, para esses seres que a maioria das pessoas diz ser o que mais amam nessa coisa que a gente chama de vida: seus filhos e suas filhas? Você está disposto a atuar no sentido de tornar este planeta um planeta habitável onde os homens deixem de enxergar as mulheres como seres inferiores a eles? Até porque, se nos propusermos a pensar melhor sobre a pretensa superioridade dos homens em relação às mulheres, a conclusão a que se chega é completamente diferente do que pretendem os homens.
Para entender melhor essa história de superioridade dos homens em relação às mulheres, sugiro a leitura das postagens publicadas, neste blog, nos dias 24 de julho e 02 de agosto de 2025, intituladas, "Por que mulheres nos assustam?" e "Reflexões provocadas por 'Por que mulheres nos assustam?'", respectivamente. Compreendido?