Inaugurado
com uma postagem intitulada "Por que
criei um blog?", publicada em 1º de fevereiro de 2011 (faz tempo,
hein!), a primeira ideia espalhada por este blog foi "O Fenômeno do Centésimo Macaco". Onze meses depois, período em
que noventa e oito postagens foram publicadas, influenciado pelo simbolismo do centésimo, publiquei "A centésima postagem".
Tendo tomado
gosto pela ideia de destacar a completeza de uma nova centena de postagens, dezesseis
meses depois, publiquei "Ducentésima
postagem" ou "Quanto pior melhor". O tempo passou e, quinze anos
e três dias depois, aqui está "Octingentésima
postagem" ou "Revisitando A necessidade de conversar".
A escolha do
tema para esta postagem veio da combinação do que é dito no parágrafo final da
postagem anterior com o fato de "A necessidade de conversar" ser, no
meu entender, uma postagem que não recebeu a devida atenção pelas pessoas que
visitaram este blog. Sendo uma necessidade humana, refletir sobre a necessidade
de conversar é algo que, no meu entender, deveria interessar cada vez mais aos
seres integrantes da autodenominada espécie inteligente do universo. Sendo
assim, esta postagem pretende oferecer uma nova oportunidade para que isso seja
feito. Publicada em 31 de maio de 2011, como a 35ª postagem deste blog, enxergo
"A necessidade de conversar" como uma postagem atemporal.
A necessidade de conversar
A
vontade de redigir este texto foi despertada por uma gravação encontrada no
correio de voz do telefone localizado na "estação de trabalho" que eu ocupava. Ela
foi deixada na noite de 12.10.2002, um sábado, e só a ouvi na segunda-feira.
Fiquei tão impressionado com a mensagem que resolvi copiar aquelas palavras. Creio
que elas possibilitem reflexões sobre uma necessidade humana tão negligenciada:
conversar.
"Oi. Olha só. Eu estou aqui sozinha sabe e queria conversar com alguém e involuntariamente eu liguei pra você, mas nem você quer falar comigo. Tá bom, tudo bem, fazer o que. Beijinho."
A voz era de
uma jovem que, em uma numa noite de sábado, estava sozinha e involuntariamente ligara para alguém porque queria
conversar. Mas em vez
de encontrar alguém com quem conversar o que ela conseguiu foi ouvir o correio
de voz repetir a seguinte saudação: "Se a intenção era ligar para 9999-9999 você
acertou o número, mas errou o momento. Se julgar conveniente, grave uma
mensagem após o sinal". Apesar da ligação não ter sido intencional aquela
saudação era válida: ela ligara no momento errado. Ligara para uma empresa em
um dia em que a maior parte de sua "força de trabalho" ainda tem direito a um
descanso. Involuntariamente eu a
decepcionara: afinal, nem eu quis falar
com ela. Foi uma pena, pois adoro conversar. No meu entender, conversar é
uma necessidade humana. Concordo com algo que li no livro O Retorno e Terno de Rubem
Alves.
"Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: 'Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: 'Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?' Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar'."
Creio que a capacidade de conversar com prazer deve ser objeto de interesse não apenas no relacionamento entre casais, mas em qualquer relacionamento. Vimala Thakar escreveu um livro intitulado Viver é relacionar-se e Rubem Alves diz que relações não transitórias são construídas
sobre a arte de conversar. Mas na sociedade em que vivemos a preferência é justamente pelas relações transitórias; por aquelas que não se prendem a nada nem a ninguém. É de
um antigo texto que circulou pela internet e atribuído a Arnaldo Jabor o
seguinte trecho:
"Na hora de cantar todo mundo enche o peito nas boates, levanta os braços, sorri e dispara: 'eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também'. No entanto, passado o efeito do uísque com energético e dos beijos descompromissados, os adeptos da geração 'tribalista' se dirigem aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição."
Sim, é somente após passar o efeito de coisas que esta sociedade doente oferece para que as pessoas, transitoriamente, esqueçam a realidade em que
sobrevivem e "curtam" estados artificiais de euforia (que muitos confundem com
alegria) que elas percebem a solidão em que vivem (embora cercadas de pessoas)
e dirigem-se aos consultórios
terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e reclamam de solidão,
ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição. É neste momento que vem à tona a necessidade de conversar, porém junto
com ela vêem dificuldades para satisfazer tal necessidade, pois conversar é
confundido com falar.
Conversar
depende de tempo para dar atenção ao que outra pessoa fala, mas isto é algo
cada dia mais difícil em uma sociedade na qual a maioria faz parte do MST:
Movimento dos Sem Tempo. Considerando insuficiente o tempo de que dispõe, a maioria
opta por fazer muitas coisas ao
mesmo tempo, e como diz Daniel Piza, nenhuma com a devida consistência. Uma
delas é falar com alguém enquanto faz outra coisa. Sem dar atenção ao que o
outro fala as pessoas respondem falando o que "mal" entendem e, equivocadamente,
acham que estão conversando.
Que conversar
e falar não são a mesma coisa pode ser entendido até musicalmente. É da música Same Mistake interpretada por James Blunt o seguinte trecho:
"And maybe someday we will meetE talvez um dia nós nos encontremosAnd maybe talk and not just speakE talvez possamos conversar e não apenas falar"
Mas enquanto não pudermos conversar
e apenas falar, persistirá o fracasso nos verdadeiros relacionamentos. E,
consequentemente, prosseguiremos vivendo mal, pois se viver é relacionar-se jamais viveremos bem enquanto nos
relacionarmos mal. E pouco adianta criar meios de comunicação se nós não
abandonarmos a superficialidade e a futilidade de nossos relacionamentos. Meios
de comunicação não nos faltam, creio até que existem demais, o que nos falta é
saber usá-los com algo que preste. Repito aqui um trecho do texto de Luiza
Possi que postei em 30 de março.
"Acho que é mais fácil dizer para muita gente ao mesmo tempo que você está entrando no carro e indo ao supermercado do que sentar com um amigo e falar do que realmente nos faz bem, e do que nos faz mal. O conceito de se relacionar está mudando, não sabemos ainda muito bem para onde."
Sim, o conceito de se relacionar
está mudando e as redes sociais estão aí fazendo um estrondoso sucesso. Tão
estrondoso que parece impedir as pessoas de ouvir sua voz interior alertando
que relacionamentos superficiais jamais resolverão o problema da solidão que a
cada dia é mais profunda.
Viver é relacionar-se e conversar é uma
necessidade. Estamos conversados?
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Espalhado por uma postagem
publicada em 31 de maio de 2011, será que o texto inspirado por uma mensagem gravada
no "correio de voz" de um "telefone
fixo", após uma ligação telefônica
frustrada em 12 de outubro de 2002, ainda faz sentido nos dias de hoje? Será que existem coisas que
deveriam ser, periodicamente, revisitadas até o dia em que, finalmente, consigam
ser compreendidas?