A ideia a
ser espalhada por esta postagem foi encontrada em um instigante texto de
Alexandre Coimbra Amaral publicado na edição 284 da revista Vida Simples,
referente a outubro de 2025. No "rodapé" do texto, o autor é
apresentado assim: "Alexandre Coimbra Amaral é psicólogo, escritor
best-seller, palestrante e podcaster. Conversador por excelência em diferentes
mídias, gosta de falar sobre o que o inquieta. @alexandrecoimbraamaral".
Feito esse preâmbulo, segue o referido texto.
Cuidar é escutar sem pressa
Uma coisa que não nos deveria faltar nunca é o cuidado,
sobretudo aquele formado pela tríade silêncio, escuta e fala
QUANDO ESTAMOS DIANTE DE UM PROFISSIONAL DE SAÚDE,
geralmente relatamos os sintomas incômodos que nos levaram àquela visita. Seja
um mal-estar físico ou emocional (nenhum deles tem separação absoluta do outro,
o corpo é um só quando padece), podemos sair daquela conversa com um
diagnóstico e uma prescrição de tratamento para lidar com ele.
Os profissionais de saúde são muito treinados para a grande
meta: chegar ao "diagnóstico fechado". Mas o que se fecha no diálogo
quando o diagnóstico é fechado? Num papel, um nome, um resumo em que devo me
sentir contemplado: "Você tem depressão", "Você tem
ansiedade".
É um encontro que poderia ser uma partilha de tempo, mas,
na pressa por classificar, deixamos de escutar. Há sempre um tanto de dor de
existir que não se sente representada pelo suposto alívio de um diagnóstico que
tem um tratamento eficaz. Escutar o sintoma não é ter um checklist de ideias para
se chegar ao nome da doença. Nenhuma dor cabe inteira num rótulo. Nenhuma
história se esconde no porão das letras incompreensíveis de remédios e de
classificação de doenças. Quando a vida dói, ela pede todo o tipo de ação
humana.
Quando escutamos alguém, não escutamos somente sua voz.
Por exemplo, uma pessoa com ansiedade não carrega somente as taquicardias,
sudoreses e pensamentos catastróficos. Ela traz sua história inteira e os
ritmos acelerados da sociedade em que vive. O corpo ansioso também é um corpo
social, como são todos os corpos que sofrem. O tremor do lado de dentro do
corpo pode ser por boletos em aberto, por desemprego, por racismo, por solidão.
Quem escuta o que está por trás dos nomes dos sintomas e das doenças que vão
nos acometendo? Que destino podemos dar às palavras que precisam e merecem
sair, porque somos também feitos de narrativa compartilhada?
Os profissionais têm sim uma relevância contumaz nessa
esfera. Porém, me entristece que muitos de nós não tenhamos disponibilidade
para escutar para além dos diagnósticos. Mas o mundo inteiro à volta de uma
pessoa pode lhe ofertar escuta, que não quer dizer ter respostas ou ações
eficazes para resolver o problema, e sim companhia no incômodo de viver com
dor.
Qualquer um de nós pode perguntar de forma aberta e
curiosa, querendo permanecer ali, reconhecendo que a dor não é um erro, mas uma
narrativa que precisa ser contada. Cuidar é escutar sem pressa.
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A simples frase usada como título - Cuidar é escutar sem
pressa - já seria suficiente para elaborar uma postagem, mas considerando que
ela é seguida por um instigante texto, partamos do texto para prosseguir com
esta postagem.
"Os profissionais de saúde são muito treinados para a grande meta: chegar ao 'diagnóstico fechado'. Mas o que se fecha no diálogo quando o diagnóstico é fechado? Num papel, um nome, um resumo em que devo me sentir contemplado: 'Você tem depressão', 'Você tem ansiedade'. É um encontro que poderia ser uma partilha de tempo, mas, na pressa por classificar, deixamos de escutar."
O que é um diagnóstico? É o processo analítico para se
chegar a conclusão da natureza e da causa de um problema. É também o nome dado
à conclusão em si mesma. O que significa "diagnóstico fechado"? Em
medicina, significa que o médico chegou a uma conclusão definitiva sobre a
condição de saúde do paciente, o que permite iniciar o tratamento específico,
ao contrário de uma suspeita inicial ou de um quadro "em aberto" que
precisa de mais investigação.
"Mas o que se fecha no diálogo quando o diagnóstico
é fechado?", indaga Alexandre Coimbra. No meu entender, é o próprio
diálogo. Usando palavras do psicólogo, o que se fecha "é um encontro que
poderia ser uma partilha de tempo, mas, na pressa por classificar, deixamos de
escutar". Mas, o que deixamos de escutar? Ainda no meu entender, e ainda
usando palavras do psicólogo, deixamos de escutar "sua história inteira
(do paciente) e os ritmos acelerados da sociedade em que vive. (...) o que está
por trás dos nomes dos sintomas e das doenças que vão nos acometendo".
"Mas, na pressa por classificar, deixamos de
escutar.", afirma o psicólogo. Mas se deixamos de escutar, indago eu, será
que é possível se chegar ao diagnóstico correto? Indagação que, enxergo como
respondida pela quantidade de pessoas doentes nesta sociedade patológica na
qual sobrevivemos.
"Quando escutamos alguém, não escutamos somente sua voz. Por exemplo, uma pessoa com ansiedade não carrega somente as taquicardias, sudoreses e pensamentos catastróficos. Ela traz sua história inteira e os ritmos acelerados da sociedade em que vive. O tremor do lado de dentro do corpo pode ser por boletos em aberto, por desemprego, por racismo, por solidão."
Quando Alexandre Coimbra diz que "Quando escutamos
alguém, não escutamos somente sua voz", obviamente refere-se a escutar sem
pressa, pois, se for com pressa, nem mesmo sua voz escutamos. E ao dizer isso,
ele me faz trazer para esta postagem as duas afirmações reproduzidas a seguir. "As
pessoas não se escutam mais, elas apenas esperam a vez de falar", eis uma
afirmação feita em um vídeo que assisti, recentemente, no You Tube. "O
contrário de falar não é escutar. É esperar.", eis uma afirmação de Fran
Lebowitz, extraída do livro "O Almanaque de Fran Lebowitz".
"Os profissionais têm sim uma relevância contumaz nessa esfera. Porém, me entristece que muitos de nós não tenhamos disponibilidade para escutar para além dos diagnósticos. Mas o mundo inteiro à volta de uma pessoa pode lhe ofertar escuta, que não quer dizer ter respostas ou ações eficazes para resolver o problema, e sim companhia no incômodo de viver com dor. Qualquer um de nós pode perguntar de forma aberta e curiosa, querendo permanecer ali, reconhecendo que a dor não é um erro, mas uma narrativa que precisa ser contada. Cuidar é escutar sem pressa."
O que entendi do que afirma o psicólogo no parágrafo
acima? Que, considerando o significado de sociedade – "agrupamento de
seres que convivem em estado gregário e em colaboração mútua" -, qualquer
um de nós deve se perceber como cuidador dos demais. O problema é que, se "cuidar
é escutar sem pressa", na condição de integrante de uma sociedade (sic)
assolada pela pressa, como qualquer um de nós conseguirá cuidar dos demais? E sem
cada um de nós admitir que, também, é sua responsabilidade cuidar dos demais, será
que faz algum sentido chamar de sociedade esse aglomerado confuso formado por
indivíduos indiferentes ao que acontece com os demais? "O que não convém ao enxame não convém
tampouco à abelha", eis uma afirmação atribuída ao imperador Marco
Aurélio que uso aqui para defender a imprescindibilidade de cuidarmos uns dos
outros.
"Escutar sem pressa!", eis a questão. Afinal,
como conseguir fazer isso em uma sociedade onde as pessoas passaram a
comunicar-se (sic) por meio de mensagens ouvidas por meio de um smartphone em
velocidade "2x" no WhatsApp.
E para encerrar esta postagem,
recorro ao que é dito no primeiro parágrafo do instigante texto: "Uma coisa
que não nos deveria faltar nunca é o cuidado, sobretudo aquele formado pela
tríade silêncio, escuta e fala". Tríade que interpreto assim: Fazer silêncio para que seja
possível escutar a fala. Você consegue perceber que isso nada mais é do que
conversar? Ou seja, será que também é válido afirmar que cuidar é conversar? Silêncio, escuta e fala, eis, no meu
entender, a tríade que torna possível o atendimento a algo imprescindível à
vida em sociedade ("agrupamento de seres que convivem em estado
gregário e em colaboração mútua"): a necessidade de conversar.
P. S.
A edição do Jornal
Valor Econômico publicada no dia seguinte à publicação desta postagem, traz
um artigo no qual são publicados trechos de uma entrevista com Mike Massimino, ex-astronauta
da Nasa que realizou quatro caminhadas espaciais para consertar o telescópio
Hubble. Trechos dos quais selecionei um para acrescentá-lo a esta postagem, por
considerar que ele tem tudo a ver com ela. Segue o trecho.
"A lição mais importante é o valor das pessoas e da comunicação entre a equipe, o que significa cuidar uns dos outros, se importar com o grupo e fazer coisas juntos. É isso que torna a vida interessante: o relacionamento com as pessoas ao redor."
Dito isto, ficam duas indagações. O P.S. acrescentado à postagem faz sentido? Será que, para
enxergarmos o que diz o ex-astronauta, será necessário fazermos uma caminhada
espacial ou uma reflexão sobre o que por ele é dito será suficiente para
percebermos que suas palavras fazem muito sentido?