"Há homens que lutam um dia e são bons,
há outros que lutam um ano e são
melhores;
há os que lutam muitos anos e são
muito bons,
mas há os que lutam toda a vida e
estes são imprescindíveis."
(Bertolt Brecht [1898 – 1956], dramaturgo, poeta e
encenador alemão)
Por que epigrafo esta postagem com essas palavras de
Brecht? Porque acredito que ele classificaria como imprescindível o filósofo citado no artigo reproduzido nesta postagem. Afinal, prosseguir lutando por
um mundo melhor após 104 anos é algo que só homens imprescindíveis fazem.
O texto apresentado a seguir foi publicado na edição de 31
de dezembro de 2025, 1 e 2 de janeiro de 2026 do jornal Valor Econômico, na coluna de Andrea Jubé, repórter de
Política em Brasília, onde ela escreve às sextas-feiras.
Refletir sobre o futuro
aos 104 anos
"A ignorância é a mãe de todos os vícios",
afirmou Machado de Assis, em uma crônica de 1889. É incomum citarmos "sabedoria"
entre os votos para o ano novo, junto com "saúde, amor e prosperidade".
Em se tratando de 2026, quando teremos palpitantes eleições no Brasil,
deveríamos acrescentar "serenidade e tolerância".
Mas, raramente, mencionamos mais "conhecimento"
ou "saber". Uma falha a se repensar em tempos velozes, de comunicação
instantânea, progressos tecnológicos e científico, proliferação de guerras,
quando sabedoria, muitas vezes, implica desacelerar e refletir.
A lição de um dos mais respeitados filósofos
contemporâneos é de que em uma realidade de inteligência artificial,
células-tronco, trans-humanismo, o mais urgente seria resgatar valores. "Fica
claro que o verdadeiro progresso de que a humanidade necessita seria o da
compreensão humana, da benevolência, da solidariedade, da amizade, sendo que
nesse campo só houve avanços parciais e provisórios, num contexto de retrocesso
generalizado".
A receita é do intelectual francês Edgar Morin, que em
2025, na plenitude de seus 104 anos, lançou mais um livro: "Lições da
História", publicado no Brasil pela L&PM. Ele enumera 16 lições que os
fatos históricos deixam para a humanidade, como a força do improvável, o papel
dos mitos, heróis e santos, a contradição entre progresso e moralidade, o poder
devastador das guerras. Centenário, ele afirma que vida é metamorfose: [a
História] "nos lembra que a humanidade sempre esteve e sempre estará em
transformação".
A história de Morin é inspiradora. Graduou-se em direito,
história e geografia, mas sempre se declarou autodidata. Visionário, já na
década de 70 escrevia sobre os riscos para o planeta e para o ser humano da
degradação ambiental. Doutor Honoris
Causa de mais de 40 universidades, é reconhecido pelo ambicioso "O
Método", publicado entre 1977 e 2004, obra de seis volumes sobre
transdisciplinaridade e o pensamento complexo.
Em "Lições da História", ele adverte que, em
2025, a humanidade estava "sendo arrastada para um grande retrocesso por
um conjunto de crises ecológicas, políticas, econômicas; deixando-se de lado a
afetividade, a felicidade, a infelicidade, a alegria, a tristeza, ou seja,
realidades humanas essenciais".
Ele enxerga o retrocesso ao lado do progresso. "É
incontestável que avanços científicos e tecnológicos não param, como mostram as
manipulações do DNA e de células-tronco na biologia ou os desenvolvimentos
exponenciais das ciências do digital", reconhece. "Enquanto o planeta
está entregue a processos regressivos que parecem implacáveis, com a hegemonia
do lucro, as degradações ecológicas, as guerras e as múltiplas crises
interligadas numa policrise", lamentou.
Morin reflete que essa ideologia promete "a
imortalidade, uma sociedade perfeita regulada por inteligência artificial e a
continuação da aventura humana em planetas colonizados, a começar pela Lua e
por Marte: o trans-humanismo torna-se pós-humanismo". Contudo, critica a "ausência
de qualquer progresso moral no progresso científico-técnico-econômico", e
retrocessos morais nas crises e guerras, insistindo que o verdadeiro progresso
seria a "compreensão humana.
O debate que envolve avanços científicos, longevidade e
imortalidade está no radar dos líderes mundiais. Em outubro, o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva afirmou, em evento com empresários na Malásia, que tem "compromisso
com Deus para viver até 120 anos de idade", o que não seria muito "no
mundo de hoje".
O repórter Assis Moreira, do Valor, lembrou que, recentemente, uma transmissão ao vivo capturou
os líderes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, tratando do tema.
"Órgãos humanos podem ser transplantados continuamente. Quanto mais você
vive, mais jovem se torna – e pode até mesmo alcançar a imortalidade",
disse Putin. "Alguns preveem que, neste século, os humanos poderão viver
até 150 anos", completou Xi.
Para além da empreitada de viver 100 anos, e mais um
pouco, o verdadeiro debate deveria ser em que condições chegar nesse estágio, e
o que fazer com essa vivência. É onde entra a sabedoria. Lúcido, Morin caminha
para os 105 anos estudando e publicando livros.
Nesta semana, a revista The Economist argumentou que Lula não deveria disputar a reeleição
aos 80 anos - embora não mencionasse o americano Donald Trump, que tem a mesma
idade e o mesmo desejo do brasileiro. Como tem afirmado, se estiver saudável e
lúcido, Lula tem o direito de concorrer. O que ele precisará deixar claro é o
que mais terá a oferecer ao país e aos brasileiros em eventual quarto governo.
Segundo Morin, outra lição da História é "fazer
entender que o poder revela a natureza humana e permite a realização das piores
e das melhores potencialidades". Que venha um 2026 com saúde, prosperidade
e sabedoria para todos nós.
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"Refletir sobre o futuro aos 104 anos", eis o
título de um instigante artigo, de uma repórter de Política em Brasília de quem
eu nunca tinha lido alguma coisa, enaltecendo um dos mais respeitados filósofos
contemporâneos, de quem já li alguns livros. Artigo cujo espalhamento por este
blog leva-me a antecipar o título da próxima postagem: "Refletir sobre 'Refletir sobre o
futuro aos 104 anos', aos 76 anos".
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