quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Octingentésima postagem ou “Revisitando A necessidade de conversar”

Inaugurado com uma postagem intitulada "Por que criei um blog?", publicada em 1º de fevereiro de 2011 (faz tempo, hein!), a primeira ideia espalhada por este blog foi "O Fenômeno do Centésimo Macaco". Onze meses depois, período em que noventa e oito postagens foram publicadas, influenciado pelo simbolismo do centésimo, publiquei "A centésima postagem".
Tendo tomado gosto pela ideia de destacar a completeza de uma nova centena de postagens, dezesseis meses depois, publiquei "Ducentésima postagem" ou "Quanto pior melhor". O tempo passou e, quinze anos e três dias depois, aqui está "Octingentésima postagem" ou "Revisitando A necessidade de conversar".
A escolha do tema para esta postagem veio da combinação do que é dito no parágrafo final da postagem anterior com o fato de "A necessidade de conversar" ser, no meu entender, uma postagem que não recebeu a devida atenção pelas pessoas que visitaram este blog. Sendo uma necessidade humana, refletir sobre a necessidade de conversar é algo que, no meu entender, deveria interessar cada vez mais aos seres integrantes da autodenominada espécie inteligente do universo. Sendo assim, esta postagem pretende oferecer uma nova oportunidade para que isso seja feito. Publicada em 31 de maio de 2011, como a 35ª postagem deste blog, enxergo "A necessidade de conversar" como uma postagem atemporal. 
A necessidade de conversar
A vontade de redigir este texto foi despertada por uma gravação encontrada no correio de voz do telefone localizado na "estação de trabalho" que eu ocupava. Ela foi deixada na noite de 12.10.2002, um sábado, e só a ouvi na segunda-feira. Fiquei tão impressionado com a mensagem que resolvi copiar aquelas palavras. Creio que elas possibilitem reflexões sobre uma necessidade humana tão negligenciada: conversar.
"Oi. Olha só. Eu estou aqui sozinha sabe e queria conversar com alguém e involuntariamente eu liguei pra você, mas nem você quer falar comigo. Tá bom, tudo bem, fazer o que. Beijinho."
A voz era de uma jovem que, em uma numa noite de sábado, estava sozinha e involuntariamente ligara para alguém porque queria conversar. Mas em vez de encontrar alguém com quem conversar o que ela conseguiu foi ouvir o correio de voz repetir a seguinte saudação: "Se a intenção era ligar para 9999-9999 você acertou o número, mas errou o momento. Se julgar conveniente, grave uma mensagem após o sinal". Apesar da ligação não ter sido intencional aquela saudação era válida: ela ligara no momento errado. Ligara para uma empresa em um dia em que a maior parte de sua "força de trabalho" ainda tem direito a um descanso. Involuntariamente eu a decepcionara: afinal, nem eu quis falar com ela. Foi uma pena, pois adoro conversar. No meu entender, conversar é uma necessidade humana. Concordo com algo que li no livro O Retorno e Terno de Rubem Alves.
"Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: 'Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: 'Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?' Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar'."
Creio que a capacidade de conversar com prazer deve ser objeto de interesse não apenas no relacionamento entre casais, mas em qualquer relacionamento. Vimala Thakar escreveu um livro intitulado Viver é relacionar-se e Rubem Alves diz que relações não transitórias são construídas sobre a arte de conversar. Mas na sociedade em que vivemos a preferência é justamente pelas relações transitórias; por aquelas que não se prendem a nada nem a ninguém. É de um antigo texto que circulou pela internet e atribuído a Arnaldo Jabor o seguinte trecho:  
"Na hora de cantar todo mundo enche o peito nas boates, levanta os braços, sorri e dispara: 'eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também'. No entanto, passado o efeito do uísque com energético e dos beijos descompromissados, os adeptos da geração 'tribalista' se dirigem aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição."
Sim, é somente após passar o efeito de coisas que esta sociedade doente oferece para que as pessoas, transitoriamente, esqueçam a realidade em que sobrevivem e "curtam" estados artificiais de euforia (que muitos confundem com alegria) que elas percebem a solidão em que vivem (embora cercadas de pessoas) e dirigem-se aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição. É neste momento que vem à tona a necessidade de conversar, porém junto com ela vêem dificuldades para satisfazer tal necessidade, pois conversar é confundido com falar.
Conversar depende de tempo para dar atenção ao que outra pessoa fala, mas isto é algo cada dia mais difícil em uma sociedade na qual a maioria faz parte do MST: Movimento dos Sem Tempo. Considerando insuficiente o tempo de que dispõe, a maioria opta por fazer muitas coisas ao mesmo tempo, e como diz Daniel Piza, nenhuma com a devida consistência. Uma delas é falar com alguém enquanto faz outra coisa. Sem dar atenção ao que o outro fala as pessoas respondem falando o que "mal" entendem e, equivocadamente, acham que estão conversando.
Que conversar e falar não são a mesma coisa pode ser entendido até musicalmente. É da música Same Mistake interpretada por James Blunt o seguinte trecho:
"And maybe someday we will meet
E talvez um dia nós nos encontremos  
And maybe talk and not just speak
E talvez possamos conversar e não apenas falar"
Mas enquanto não pudermos conversar e apenas falar, persistirá o fracasso nos verdadeiros relacionamentos. E, consequentemente, prosseguiremos vivendo mal, pois se viver é relacionar-se jamais viveremos bem enquanto nos relacionarmos mal. E pouco adianta criar meios de comunicação se nós não abandonarmos a superficialidade e a futilidade de nossos relacionamentos. Meios de comunicação não nos faltam, creio até que existem demais, o que nos falta é saber usá-los com algo que preste. Repito aqui um trecho do texto de Luiza Possi que postei em 30 de março.
"Acho que é mais fácil dizer para muita gente ao mesmo tempo que você está entrando no carro e indo ao supermercado do que sentar com um amigo e falar do que realmente nos faz bem, e do que nos faz mal. O conceito de se relacionar está mudando, não sabemos ainda muito bem para onde."
Sim, o conceito de se relacionar está mudando e as redes sociais estão aí fazendo um estrondoso sucesso. Tão estrondoso que parece impedir as pessoas de ouvir sua voz interior alertando que relacionamentos superficiais jamais resolverão o problema da solidão que a cada dia é mais profunda.
Viver é relacionar-se e conversar é uma necessidade. Estamos conversados?
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Espalhado por uma postagem publicada em 31 de maio de 2011, será que o texto inspirado por uma mensagem gravada no "correio de voz" de um "telefone fixo", após uma ligação telefônica frustrada em 12 de outubro de 2002, ainda faz sentido nos dias de hoje? Será que existem coisas que deveriam ser, periodicamente, revisitadas até o dia em que, finalmente, consigam ser compreendidas?

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