segunda-feira, 3 de junho de 2019

Filosofia também interessa a médicos e engenheiros

"Viver sem filosofar é, propriamente, ter os olhos fechados sem nunca tratar de abri-los."
(René Descartes [1596 -1650], filósofo, físico e matemático francês)
Embora, diferentemente da anterior, esta postagem não apresente em seu título a palavra precarização, no meu entender, ela também fala sobre isso. Afinal, será que existe outra palavra que define melhor o que está sendo feito com a educação pública neste país?
Atribuído a Catarina Dutilh Novaes, apresentada como professora titular de filosofia na Universidade Livre de Amsterdã e editora na revista Synthese, o texto apresentado a seguir foi publicado na edição de 10 de maio de 2019 do jornal Folha de S.Paulo.
Coincidentemente, em uma seção em que a cada semana é apresentada uma quantidade variável de perguntas com respostas atribuídas à determinada pessoa, a edição de 13 de maio de 2019 da revista Época traz uma entrevista intitulada "9 perguntas para Catarina", assinada por Dimitrius Dantas, na qual a Catarina entrevistada é a mesma do artigo publicado na Folha de S.Paulo.
Em termos de espalhamento por meio deste blog, entre o artigo e a entrevista, optei pelo artigo, porém deixo aqui a recomendação da leitura da entrevista.
Filosofia também interessa a médicos e engenheiros
Disciplina é vital para compreender o conhecimento
O presidente Jair Bolsonaro (PSL) recentemente anunciou pelo Twitter que o ministro da Educação, Abraham Weintraub, estuda diminuir ou cortar (ele usou a palavra "descentralizar") o financiamento federal para as áreas de filosofia e sociologia no ensino superior. O objetivo seria o de "focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como veterinária, engenharia e medicina". É a velha ideia de que filosofia e sociologia não têm relevância prática para a sociedade. Veterinária, engenharia e medicina, por sua vez, deveriam gerar o tal retorno imediato.
Mas o que é necessário para a formação de bons médicos, engenheiros e veterinários? Segundo o sistema de ensino superior da Holanda, um dos elementos necessários é exatamente a filosofia.
Moro há 20 anos na Holanda, onde sou professora titular de filosofia na Universidade Livre de Amsterdã (VU Amsterdam). Na minha universidade, absolutamente todos os alunos de graduação, de todas as disciplinas, devem seguir cursos obrigatórios de filosofia como parte da grade curricular. Futuros médicos, por exemplo, fazem cursos de filosofia das ciências biomédicas e de ética médica. O interessante é que todas as universidades holandesas, inclusive as técnicas, têm departamentos de filosofia, já que lá também todos os alunos – futuros engenheiros e arquitetos – seguem cursos como filosofia da ciência e tecnologia e ética, entre outros.
A Holanda é atualmente um dos países mais prósperos do mundo, com taxas de desemprego baixíssimas. É também um país de ponta para ciência e ensino superior.
Claro, existem muitos motivos para esse sucesso. O fato de a filosofia ter um papel fundamental no ensino superior de todas as áreas não é a única nem tampouco a principal causa.
Mas não deixa de ser interessante observar que, na Holanda, um bom médico ou engenheiro é visto como aquele que teve uma boa base de filosofia – exatamente o oposto do que afirma o presidente Jair Bolsonaro quando diz que as universidades devem focar em medicina e engenharia em vez de filosofia e sociologia. Mesmo as áreas que geram "retorno imediato ao contribuinte" se beneficiam muitíssimo da presença da filosofia nas universidades, o que por sua vez irá beneficiar a sociedade como um todo.
E por que exatamente a filosofia é importante para o futuro médico ou o futuro engenheiro? O ponto principal é que a disciplina é essencial para uma melhor compreensão do que é e como se forma o conhecimento, o que é importante para aplicações do mesmo a problemas práticos e tecnológicos na sociedade. Além disso, a filosofia investiga princípios éticos que devem pautar o uso e aplicação do conhecimento, como questões éticas na prática médica – ou questões éticas cada vez mais urgentes que surgem com as novas tecnologias.
A conclusão é simples: mesmo se objetivo é o de focar em "áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte", diminuir o papel da filosofia nas universidades brasileiras é um grande equívoco, como mostra o exemplo da Holanda.
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"A conclusão é simples: mesmo se objetivo é o de focar em "áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte", diminuir o papel da filosofia nas universidades brasileiras é um grande equívoco, como mostra o exemplo da Holanda.", diz Catarina Dutilh.
"A indagação é simples: se o pretexto é o de focar em "áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte", será que faz sentido desinteressar-se pela qualidade do retorno?", pergunto eu. E ao interessar-se pela qualidade do retorno, inevitavelmente, chegar-se-á ao interesse pela filosofia, como mostram as seguintes palavras de Catarina Dutilh.
"Além disso, a filosofia investiga princípios éticos que devem pautar o uso e aplicação do conhecimento, como questões éticas na prática médica – ou questões éticas cada vez mais urgentes que surgem com as novas tecnologias.".
Sim, considerando a apregoada, e suspeita, neutralidade atribuída à tecnologia, é cada vez mais urgente interessarmo-nos pelas questões éticas que surgem com as novas tecnologias.
"Filosofia também interessa a médicos e engenheiros", diz o título do artigo atribuído a Catarina Dutilh Novaes. "Viver sem filosofar é, propriamente, ter os olhos fechados sem nunca tratar de abri-los.", diz uma afirmação atribuída a René Descartes, que epigrafa esta postagem. Será que faz sentido afirmar que filosofia é algo que deve interessar a todas as pessoas que considerem-se do bem?

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