terça-feira, 20 de junho de 2017

Na loja de flores

Com a intenção de reforçar o espalhamento da ideia de que qualquer coisa que preste jamais nos será simplesmente dada e que sua obtenção requererá nossa participação em processos de construção coletiva, esta postagem apresenta dois episódios que têm muito a ver com o que acabo de dizer. O primeiro é apresentado em um artigo de Paulo Coelho, publicado na edição de 1º de abril de 2007 da Revista O Globo, com o título Na loja de flores. O segundo em uma passagem do filme "A Volta do Todo Poderoso", lançado em junho de 2007.
Na loja de flores
A mulher caminhava por um centro comercial quando reparou no cartaz: "Uma nova loja de flores." Ao entrar, levou um susto; não viu nenhum vaso, nenhum arranjo, mas era Deus, em pessoa, quem estava atendendo no balcão.
- Pode pedir o que quiser, disse Deus.
- Quero ser feliz. Quero paz, dinheiro, capacidade de ser compreendida. Quero ir para o céu quando morrer. E quero que tudo isso seja também concedido aos meus amigos.
Deus abriu alguns potes que estavam na prateleira atrás dele, tirou vários grãos de dentro e estendeu para a mulher.
- Aí estão as sementes – disse. – Comece a plantá-las, porque aqui nós não vendemos os frutos.
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O segundo episódio coincidentemente também apresenta uma inesperada visão de Deus tida por uma mulher. O primeiro episódio eu já encontrei com o título Na loja de flores. O segundo foi intitulado por mim. Em um lampejo de espantosa criatividade, intitulei-o No restaurante.
No restaurante
A esposa de Noé estava em um restaurante quando se viu diante de Deus, em pessoa. Visão que a levou a fazer-lhe o seguinte pedido: que a família ficasse mais unida quando mudasse para a nova casa. Pedido que levou Deus a dirigir-se à esposa de Noé falando-lhe assim:
- Deixe-me fazer uma pergunta.
- Se alguém rezar pedindo paciência acha que Deus dará paciência? Ou Deus dará a oportunidade de ser paciente?
- Se pedimos coragem, Deus nos dará coragem ou a oportunidade de sermos corajosos?
- Se alguém pede que a família seja mais unida, acha que Deus une a família com amor e alegria? Ou dá a eles a oportunidade de se amarem?
E diante das perguntas que Deus lhe faz, a esposa de Noé fica bastante pensativa.
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Diante das perguntas que Deus lhe fez, a esposa de Noé ficou bastante pensativa. E vocês, como ficaram após a leitura dos dois episódios em que, estando diante de Deus, em pessoa, duas mulheres fazem-lhe pedidos? Será que as pessoas que acreditam na existência de Deus conseguiram, a partir de tal leitura, ter um novo entendimento do que Deus espera delas? Espero que sim, pois foi com essa intenção que decidi espalhar tais episódios. Por quê? Porque enxergo neles a possibilidade de chamar a atenção das pessoas para algo que considero imprescindível aprendermos: abandonar a ideia de esperar que Deus nos dê prontas coisas que cabe a nós construir e, consequentemente, passar a atuar na construção de tais coisas.
Que coisas são essas? Coisas que começam pela construção de famílias unidas (algo pedido a Deus pela esposa de Noé), passam pela construção de boas organizações que serão esteios para uma boa sociedade (conforme defendem Geraldo R. Caravantes e Wesley E. Bjur em seu livro Magia & Gestão) e culminam na construção de algo que possa fazer jus ao termo civilização. O parágrafo abaixo foi copiado do livro Magia & Gestão.
"A boa sociedade não é uma dádiva, mas trata-se de um processo de construção coletivo, em que as boas organizações (lembre-se de que vivemos em uma sociedade organizacional) serão seus esteios. Por outro lado, entendem os autores que estas ficções legais, que chamamos organizações, são decorrência, por sua vez, de indivíduos que nelas atuam e, muito especialmente de suas lideranças. Ou, raciocinando pelo inverso: não vemos como obter uma sociedade saudável sem organizações saudáveis; nem tampouco organizações com alto desempenho, povoadas por indivíduos infelizes, subutilizados, impossibilitados de preencherem seu potencial. Entendemos e compartilhamos a visão de Aldous Huxley de que 'o objetivo da vida humana é concretizar potencialidades individuais ao máximo de seus limites'."
Reforçar o espalhamento da ideia de que qualquer coisa que preste jamais nos será simplesmente dada e que sua obtenção requererá nossa participação em processos de construção coletiva, eis a intenção desta postagem, conforme é dito na sua primeira frase. Intenção que, "brincando de Deus", enxergo como uma semente a ser espalhada por meio deste blog esperando que algum dia ela frutifique. Afinal, como digo em meu perfil no blog, "sou alguém que acredita que a qualidade de uma sociedade é resultado das ações de todos os seus componentes".

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Reflexões provocadas por "Saúvas Somos Nós"

Com a intenção de evitar mais uma postagem do tipo "Reflexões provocadas por", tentei incluir na própria postagem as reflexões provocadas pelo texto nela apresentado. Tentativa sem êxito, pois a postagem ultrapassaria o tamanho limite por mim estabelecido com a finalidade de não desestimular sua leitura nestes tempos em que, para uma grande quantidade de pessoas, qualquer coisa que excede 140 caracteres é considerada um tratado. Sendo assim, seguem as reflexões provocadas por Saúvas Somos Nós.
"O capitalismo quer mais consumo, é a lógica do negócio.", diz André Caramuru Aubert em seu excelente artigo Saúvas Somos Nós. Mais consumo que requer mais produção. Mais produção que requer mais extração. Mais extração que resulta em mais destruição de recursos naturais. Uma extração desenfreada para alimentar um estúpido processo - produzir, consumir, descartar, destruir, gerar lixo e substituir, incessantemente. E assim, seguindo a nefasta lógica do negócio, sob o pretexto de extração para produção de coisas "necessárias" à vida, o capitalismo procede a uma verdadeira devastação do meio ambiente. Capitalismo e preservação do meio ambiente, eis duas coisas simplesmente incompatíveis.
"Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil.", eis a frase que, segundo André Caramuru, parece ter sido cunhada pelo botânico francês Auguste de Saint-Hilaire, em 1822, em referência às saúvas, que devoravam hectares e mais hectares de plantações de café que faziam as fortunas dos barões do império. Frase, segundo ele, infinitamente repetida até perto de nossos dias e a partir da qual ele faz a seguinte indagação: "O problema eram as saúvas?".
Indagação que ele mesmo responde assim: "O problema, é óbvio, foi o desequilíbrio ecológico causado pelo desmatamento selvagem e o plantio inconsequente, que, além de alimentar formigas poderosas e livres de predadores naturais, também levou ao completo esgotamento as terras do Vale do Paraíba." Resposta que enxergo embasada em uma interpretação simples e incontestável - "vivendo na região da qual eram naturais, não há registro de que as saúvas tenham, ao longo de milênios, destruído floresta alguma".
Ou seja, como diz André Caramuru, "Temos sempre que culpar alguém ou lamentar a falta de sorte.", pois admitir a culpa por qualquer mal que nos aflige é algo que a maioria jamais se dispõe a fazer. E terminando seu excelente artigo Caramuru afirma que as saúvas somos nós, conforme mostra o último parágrafo reproduzido abaixo.
"É claro que mais planejamento e fiscalização, por parte dos governos (em todas as esferas), e a participação, por parte da sociedade, ajudariam muito. Mas enquanto continuarmos a acreditar que tudo o que existe no planeta foi criado para nosso exclusivo desfrute; enquanto acharmos que crescer sem limites (população, economia, consumo, cidades, prédios...) não é apenas necessário, mas até mesmo um desígnio divino, nós estaremos indo, mais e mais, na direção de um abismo. Será que ainda temos conserto? Não sei. O planeta está tomado por saúvas. E as saúvas somos nós."
Afirmação a partir da qual elaborei algumas considerações apresentadas a seguir.
Não, o problema do planeta não era estar tomado por saúvas, e sim o ambiente em que elas passaram a viver, pois, como é dito no artigo, enquanto viveram em um ambiente ecologicamente equilibrado não houve registro algum de males causados por elas, o que só ocorreu após o desequilíbrio ecológico provocado pela intervenção dos barões do império com a finalidade de aumentarem insaciavelmente suas fortunas.
Não, o problema do planeta não é estar tomado por seres que André Caramuru diz serem as saúvas, e sim o ambiente em que eles passaram a viver, pois enquanto viveram em um ambiente, digamos, psiquicamente mais equilibrado, enquanto ainda não imperava entre eles a insana crença de que tudo que existe no planeta foi criado para seu exclusivo desfrute; enquanto ainda não achavam que crescer sem limites (população, economia, consumo, cidades, prédios...) não é apenas necessário, mas até mesmo um desígnio divino, tais seres não representavam a ameaça que hoje representam para o planeta em que sobrevivemos.
"Será que ainda temos conserto?" – pergunta André Caramuru? Pergunta que ele mesmo responde com "Não sei". Pergunta que no único comentário feito sobre a postagem anterior foi respondida negativamente e que, no meu entender, fica mais fácil responder após a leitura de uma antiga história intitulada "O sábio e o pássaro" que pode ser encontrada em várias versões na internet, dentre elas a que escolhi para reproduzir a seguir.
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O sábio e o pássaro
Conta-se que certa feita um jovem maldoso e inconsequente resolveu pregar uma peça em idoso e experiente mestre, famoso por sua sabedoria.
— Quero ver se esse velho é sábio como dizem. Vou esconder um passarinho em minhas mãos. Depois, em presença de seus discípulos, vou perguntar-lhe se está vivo ou morto. Se responder que está vivo, eu o esmagarei e o apresentarei morto. Se afirmar que está morto, abrirei a mão e o pássaro voará. Uma armadilha infalível. Aos olhos de quem presenciasse o encontro, qualquer que fosse sua resposta, o sábio ficaria desmoralizado. E lá se foi o jovem mal-intencionado, com sua artimanha perfeita. Diante do ancião acompanhado dos aprendizes, fez a pergunta fatal:
— Mestre, este passarinho que tenho preso em minhas mãos está vivo ou morto?
O sábio olhou em seus olhos, como se perscrutasse os recônditos de sua alma, e respondeu:
— Meu filho, o destino desse pássaro está em suas mãos.
Esta história pode ser um exemplo da perversidade que não vacila em esmagar inocentes para conseguir seus objetivos. Será uma demonstração das excelências da sabedoria, a sobrepor-se aos ardis da desonestidade. É, sobretudo, uma ilustração perfeita sobre os mistérios do destino, pois tudo está sempre em nossas mãos.
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"Esta história é, sobretudo, uma ilustração perfeita sobre os mistérios do destino, pois tudo está sempre em nossas mãos". Sim, por mais incrível que possa lhes parecer, tudo está sempre em nossas mãos. Até porque, diferentemente das saúvas, somos seres a quem é dada a possibilidade de desenvolver a consciência até um grau que nos capacite para as duas seguintes habilidades: a percepção das consequências de nossos atos e, consequentemente, a correção de atos equivocados.
Dito isto, repito aqui a pergunta: "Será que ainda temos conserto?" Pergunta que, usando uma antiga e belíssima canção, Ivan Lins responderia assim: Depende de nós. Canção da qual extraí o seguinte trecho: "Depende de nós / Se esse mundo ainda tem jeito / Apesar do que o homem tem feito / Se a vida sobreviverá."
E para encerrar esta postagem, aproveito o seu final para responder uma pergunta feita em um e-mail recebido em resposta à postagem anterior: "Quer mudar o mundo ou apenas escrever?" Pergunta que, no meu entender, posso responder usando a primeira frase da primeira postagem deste blog. Intitulada "Por que criei um blog?", a primeira postagem deste blog começa assim: "Porque acredito em uma afirmação atribuída a Caio Graco: 'Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas'.". Vocês acham que a pergunta está respondida?

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Saúvas Somos Nós

Com a intenção de postar mensagens alusivas a datas comemorativas que eu considere significativas, neste Dia Mundial do Meio Ambiente, este blog espalha um artigo de André Caramuru Aubert publicado em maio de 2014, na seção Comportamento da revista Trip, com o título Saúvas Somos Nós. Três anos depois, considero-o ainda bastante atual.
Saúvas Somos Nós
A lógica capitalista diz: compre novas TVs, novos carros. Mas também diz: seja consciente, não use o carro ou a TV. Ora, além de contraditórias, as mensagens mostram que há algo de muito estúpido nisto tudo
"E Deus os abençoou e lhes disse: 'Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a! Dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e tudo o que o que se move sobre a terra'." Gênesis, 1:28.
"Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil." Parece que foi o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire quem, em 1822, cunhou essa frase, depois infinitamente repetida até perto de nossos dias, inclusive em campanhas do governo. Na primeira metade do século 19, o café se expandia pelo Vale do Paraíba, ocupando o espaço originalmente pertencente à Mata Atlântica, e fazia a fortuna dos barões do império. O maior problema, na época e depois, conforme as fazendas avançavam, eram as danadas das saúvas, que devoravam hectares e mais hectares de plantações. Ao longo dos anos, zilhões de toneladas de agrotóxicos foram empregados, mas as saúvas, teimosas, seguiram firmes.
O problema eram as saúvas? Ora, essas formigas são nativas da Mata Atlântica (ao contrário do café) e não há registro de que elas tenham, ao longo de milênios, destruído floresta alguma. O problema, é óbvio, foi o desequilíbrio ecológico causado pelo desmatamento selvagem e o plantio inconsequente, que, além de alimentar formigas poderosas e livres de predadores naturais, também levou ao completo esgotamento as terras do Vale do Paraíba. Na época da expansão do café pelo vale, há registros de dias e dias em que a cidade do Rio de Janeiro ficava envolvida por uma pesada neblina, que na verdade não era neblina, era fumaça da Mata Atlântica (originalmente um dos biomas mais ricos em diversidade em todo o mundo) sendo sistematicamente queimada.
Agora, a água. Vivemos no país em que ela é mais abundante. E, no entanto, a matriz energética hídrica encontra-se perto do esgotamento, as torneiras paulistas estão secando e os exércitos de São Paulo e do Rio de Janeiro, aos berros de "O rio Paraíba é nosso!", já se alinham na fronteira, prontos para começar a Primeira Guerra da Água. O Sistema Cantareira não está dando conta porque, dizem, não choveu. Não choveu? Como não choveu? O sistema capta água numa vasta área (que vai até o sul de Minas) e eles dizem que em nenhum desses lugares choveu? Pode ter chovido menos que a média, mas isso não explica o colapso. O Cantareira foi concebido nas décadas de 60 e 70 e, de lá para cá, a região teve muitos de seus mananciais ocupados e perdeu 70% de sua cobertura vegetal, enquanto, em sentido contrário, o número de pessoas que se abastece do sistema praticamente dobrou. Nos últimos dez anos, a população cresceu numa média de 200 mil pessoas por ano apenas na região metropolitana de São Paulo, e o consumo de água subiu 26%. É claro que essa conta não iria fechar.
RUMO AO ABISMO
E vai ficar pior. O capitalismo quer mais consumo, é a lógica do negócio. Crescimento econômico equivale a mais emprego, mais renda, mais gente, mais consumo, mais lixo. Bairros se verticalizam com novos apartamentos de três dormitórios, espaço gourmet e quatro vagas na garagem. Compre o apartamento, eles dizem, compre novas TVs, compre carros. Mas eles também dizem: seja consciente, não abra as torneiras, evite ligar a TV e não tire os carros da garagem. Ora: as mensagens não são apenas contraditórias, elas mostram que tem alguma coisa que é muito, muito estúpida nisto tudo.
Saúvas, falta de chuva. Temos sempre que culpar alguém ou lamentar a falta de sorte. É claro que mais planejamento e fiscalização, por parte dos governos (em todas as esferas), e a participação, por parte da sociedade, ajudariam muito. Mas enquanto continuarmos a acreditar que tudo o que existe no planeta foi criado para nosso exclusivo desfrute; enquanto acharmos que crescer sem limites (população, economia, consumo, cidades, prédios...) não é apenas necessário, mas até mesmo um desígnio divino, nós estaremos indo, mais e mais, na direção de um abismo. Será que ainda temos conserto? Não sei. O planeta está tomado por saúvas. E as saúvas somos nós.
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"O planeta está tomado por saúvas. E as saúvas somos nós. (...) Será que ainda temos conserto?" Será que saúvas são capazes de refletir sobre as consequências de seus atos? Será que saúvas interessam-se em refletir sobre textos que procurem despertar-lhes interesse pelo Meio Ambiente e pela preservação dos recursos naturais do planeta em que vivem? O que vocês acham?

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Reflexões provocadas por "Construindo o bairro dos sonhos"

Assim como nos filmes, o que me mais me interessa nos textos são as passagens das quais seja possível tirar ensinamentos aplicáveis à prática da cooperação para tornar melhor o todo do qual sou parte. Afinal, como digo em meu perfil no blog, "sou alguém que acredita que a qualidade de uma sociedade é resultado das ações de todos os seus componentes". Feito este preâmbulo, vejamos duas passagens da reportagem de Giovana Girardi que, sendo capazes de provocar reflexões que resultem em ensinamentos, foram por mim selecionadas para a elaboração desta postagem.
"No começo era só um sonho. O 'bairro dos sonhos'. (...) 'Havia uma dificuldade em sonhar', lembra a administradora Cecília Lotufo, dona de uma pizzaria no bairro e uma das idealizadoras da mobilização. Mas com o passar do tempo, o simples fato de os moradores se unirem no processo de construção da festa possibilitou que eles começassem a enxergar o que era possível mudar no bairro. Com as próprias mãos ou por meio de solicitações ao poder público."
"No começo era só um sonho.", diz a repórter Giovana Girardi. - E poderia ter sido diferente? - pergunto eu. Não, creio que não, pois tudo começa sempre com um sonho... e prossegue com ações capazes de torná-lo realidade. "A realidade de hoje, foi o sonho de ontem; o sonho de hoje, será a realidade de amanhã; e em todas as épocas zombou-se dos sonhadores.", eis uma afirmação de Zalkind Piatigorsky com a qual concordo plenamente.
Será que ao dizer que "em todas as épocas zombou-se dos sonhadores" Zalkind Piatigorsky explica a dificuldade apontada pela administradora Cecília Lotufo quando ela diz que "Havia uma dificuldade em sonhar". Creio que sim. Receosos de terem que enfrentar possíveis zombarias, e até mesmo serem chamados de loucos por aqueles que afirmam que determinadas coisas jamais mudarão, a maioria das pessoas talvez acabe tendo dificuldade em sonhar.
Coincidentemente, na tarde de ontem, ou seja, no período dos retoques finais desta postagem, encontrei na internet uma matéria que, no meu entender, eu não deveria deixar de citar nesta postagem. Intitulada A incrível história do brasileiro chamado de louco pelos vizinhos por plantar a própria floresta. (http://g1.globo.com/natureza/noticia/a-incrivel-historia-do-brasileiro-chamado-de-louco-pelos-vizinhos-por-plantar-a-propria-floresta.ghtml), em sua chamada ela é apresentada assim: SP: idoso planta 50 mil árvores sozinho e recupera floresta.
Tornar um sonho realidade é algo que requer muita disposição para enfrentar inúmeras, e que embora, como no exemplo acima, possa ser obra de apenas uma pessoa, na enorme maioria das vezes, é algo que requer a participação de todos, como diz Miguel de Cervantes em uma de suas célebres frases: "O sonho de um é apenas um sonho. O sonho de todos é a realidade.".
Uma frase que, no meu entender, explica muito bem as palavras com que Cecília Lotufo dá prosseguimento à sua menção sobre "a dificuldade em sonhar": "Mas com o passar do tempo, o simples fato de os moradores se unirem no processo de construção da festa possibilitou que eles começassem a enxergar o que era possível mudar no bairro.". Vocês conseguem enxergar, nas palavras de Cecília, a transformação do "sonho de um" em "sonho de todos"?
Transformar o "sonho de um" em "sonho de todos", eis o caminho que está sendo seguido pelos moradores das Vilas citadas na reportagem de Giovana Girardi para construir o seu bairro dos sonhos. Que está sendo, e que precisará continuar sendo permanentemente seguido, pois, como diz a arquiteta Lara Freitas, especialista em ecobairros, "O mais importante é entender que ecobairro não é um projeto, mas um processo sem fim. É um programa permanente".
E ao falar em "o que é mais importante entender", Lara Freitas oferece-me a possibilidade de usar suas palavras para elaborar a seguinte paráfrase: "O mais importante é entender que qualquer coisa oriunda de sonhos (bairro, cidade, país, sociedade, civilização etc) não é um projeto, mas um processo sem fim. É um programa permanente". Entendido isto, passemos ao segundo parágrafo extraído da reportagem.
"Por ser um corredor de ônibus, era um atrativo para o adensamento. 'É um corredor, mas é também uma área de proteção ambiental. Pensamos num zoneamento especial para blindar as nascentes', diz Cecília. 'Esse olhar atento que busca o contexto da microbacia é uma premissa para o ecobairro, mas deveria fazer parte de todo zoneamento', explica a arquiteta Lara Freitas, especialista em ecobairros que se uniu ao grupo inicialmente como consultora e hoje faz parte dos trabalhos."
'Esse olhar atento que busca o contexto da microbacia é uma premissa para o ecobairro, mas deveria fazer parte de todo zoneamento', explica a arquiteta Lara Freitas em mais uma de suas interessantíssimas intervenções citadas na reportagem. "Esse olhar atento que busca o contexto"! Vocês concordam que, sem "Esse olhar atento que busca o contexto", as "soluções" que damos aos nossos problemas dificilmente deixam de resultar em novos problemas gerados por elas; pelas "soluções"?
Por considerar que ter "Esse olhar atento que busca o contexto" seja algo imprescindível para, realmente, solucionar qualquer problema que tenhamos diante de nós, com a intenção de despertar-lhes o interesse por esse olhar, segue uma história na qual, no meu entender, foi ele que propiciou a solução do "persistente" problema.
"Era uma vez um mercador de tapetes que viu que seu mais belo tapete tinha um calombo no centro. Ele pisou no calombo a fim de achatá-lo – e conseguiu. Mas o calombo reapareceu em outro lugar. O mercador pisou-o mais uma vez, e o calombo desapareceu – apenas por um momento, pois logo reapareceu em outro lugar. O mercador continuou a pular sobre o tapete, pisoteando-o com raiva, até que finalmente levantou a ponta do tapete e viu uma cobra sair debaixo dele."
Vocês concordam que foi ao levantar o tapete para olhar o que estava debaixo dele que o mercador, finalmente, usou "o olhar atento que busca o contexto" em vez do olhar "superficial" que usara até então?
"Olhar superficialmente" os problemas em vez de olhá-los com "o olhar atento que busca o contexto", eis um dos grandes equívocos da autodenominada espécie inteligente do universo. Equívoco do qual resultam várias consequências desagradáveis, dentre elas a seguinte: "Os problemas de hoje provêm das 'soluções' de ontem.". A sexta postagem deste blog, publicada em 16 de fevereiro de 2011, com o título Consequências do desconhecimento do raciocínio sistêmico tem tudo a ver com o que acabo de dizer.
E para terminar estas reflexões deixo aqui a seguinte indagação. Será que assim como a solução de um problema identificado em cima do tapete só foi possível após olhar debaixo do tapete, analogamente, a solução de todo e qualquer problema identificado fora de nós só é possível após olharmos para dentro de nós? O que vocês acham?

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Construindo o bairro dos sonhos

Ainda dentro da ideia de espalhar a imprescindibilidade do resgate do sentido de comunidade, após a postagem intitulada "As pessoas querem se sentir parte da cidade", segue uma que apresenta a reportagem de Giovana Girardi publicada na edição de 3 de abril de 2017 do jornal O Estado de S. Paulo com o título Construindo o bairro dos sonhos. Coincidentemente, ela foi publicada na mesma edição do jornal em que foi publicada a reportagem-entrevista apresentada na postagem anterior.
Construindo o bairro dos sonhos
Moradores das Vilas Jataí, Beatriz e Ida, na zona oeste de São Paulo, se mobilizam para melhorar região e transformá-la em um ecobairro
No começo era só um sonho. O "bairro dos sonhos". As ideias de transformação, que começaram quase como uma brincadeira em uma barraca na festa junina anual na Vila Jataí – onde os moradores eram convidados a deixar post-its com mensagens sobre o que gostariam de ter ou ver no bairro -, num primeiro momento refletiam mais o que eles não queriam: grandes prédios, grandes comércios, violência.
"Havia uma dificuldade em sonhar", lembra a administradora Cecília Lotufo, dona de uma pizzaria no bairro e uma das idealizadoras da mobilização. Mas com o passar do tempo, o simples fato de os moradores se unirem no processo de construção da festa possibilitou que eles começassem a enxergar o que era possível mudar no bairro. Com as próprias mãos ou por meio de solicitações ao poder público.
"Fomos alimentando a ideia de ter um ecobairro antes mesmo de ter o nome", diz Cecília, que acabou se tornando membro do Conselho Municipal do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável (Cades). Foi assim que conseguiram recuperar uma casa da prefeitura abandonada havia quase 15 anos, na Praça Valdir Azevedo, na Vila Ida, que se tornou sede do grupo. O trabalho de revitalização, que incluiu também a própria praça, serviu de piloto para a criação da lei sobre gestão participativa de praças, sancionada pelo então prefeito Fernando Haddad, em 2015.
Busca das nascentes. Com a casa, surgiram as preocupações com a água. Não havia fornecimento na rua, então os moradores bolaram um sistema de captação da água da chuva. Hoje o grupo Jovens Profissionais do Saneamento trabalha na construção de cisternas com filtros. "Veio a ideia de ser sustentável, ver a coisa completa, entender a situação dos córregos, das nascentes", conta Cecília.
O grupo, que nessa altura já tinha se aliado a moradores da vizinha Vila Beatriz, onde fica a hoje famosa Praça das Corujas, começou um trabalho de mapeamento das nascentes. Descobriram que estão em uma região particularmente rica. Apenas em uma caminhada de 3 km, na qual dezenas se engajaram, eles encontram 16 nascentes. Muitas em péssimas condições, com ocupações irregulares.
A mobilização foi chamando a atenção de outros moradores. "As pessoas saíram na janela e contavam sobre as nascentes que tinham debaixo de suas casas", conta Maurício Ramos de Oliveira, vizinho da Praça das Corujas, que faz o monitoramento da qualidade da água do Córrego das Corujas.
Surgiram outros levantamentos, como de declividade e de ocupações irregulares, que fornecem informações importantes desde sobre riscos de desmoronamentos e de enchentes a até proliferação de mosquitos. A ideia era nortear como devia ser o ordenamento territorial, num momento em que se discutia na Prefeitura o novo Plano Diretor da cidade. A proposta da administração era transformar os bairros em zona mista, com maior adensamento, para aproximar mais gente dos corredores de transporte público que cercam a área. Isso a comunidade não queria.
"Não era um lobby de elite que quer proteger seu modo de vida, mas vimos que já tínhamos tantos problemas. Propusemos um adensamento menor, com prédios de quatro andares em vez de oito, e a transformação de casas abandonadas enormes que temos na região e que poderiam virar moradias coletivas", explica Cecília, sobre a sugestão que o grupo fez no plano de bairro enviado à Prefeitura para que a região fosse uma zona preferencialmente residencial (ZPR), o que foi aceito.
O trabalho de declividade mostrou, por exemplo, que a Cerro Corá é a área mais alta de região e, justamente por isso, concentra as nascentes. Mas por ser um corredor de ônibus, era um atrativo para o adensamento. "Pensamos num zoneamento especial para blindar as nascentes. É um corredor, mas é também uma área de proteção ambiental", diz Cecília. "Esse olhar atento que busca o contexto da microbacia é uma premissa para o ecobairro, mas deveria fazer parte de todo zoneamento", explica a arquiteta Lara Freitas, especialista em ecobairros que se uniu ao grupo inicialmente como consultora e hoje faz parte dos trabalhos.
'Jardim de chuva'. Outro resultado prático de toda essa mobilização foi um trabalho de melhoria na manutenção das praças da região e de aumento da arborização e da permeabilização das ruas. Capitaneado pela médica Thaís Mauad, a ideia foi pedir autorização a Prefeitura Regional de Pinheiros para a transformação de canteiros de ruas, até então cobertos apenas de asfalto, em áreas verdes. Isso já foi feito em oito. Um deles virou um "jardim de chuva", uma espécie de florestinha, e os outros foram alterados com técnicas de permacultura típicas das hortas urbanas.
"Com a vegetação, a água, em vez de escorrer pela rua, é absorvida, passa por um processo de filtragem e ou vai mais devagar para o esgoto ou acaba aumentando o lençol freático", explica Thaís. O projeto foi doado por um paisagista. O material foi comprado pela comunidade e coube à Prefeitura apenas autorizar a modificação.
O grupo também promoveu plantio de árvores em uma avenida que não tinha praticamente nenhuma e melhorou o manejo das praças. Folhas caídas, que antes, nos trabalhos de varrição, acabavam indo para aterros, passaram a ser usadas para "coroar" o entorno das árvores, o que enriquece o solo e traz mais umidade e proteção.
Em outra frente, foi proposta a abertura das caixas de árvores de ruas, um dos principais motivos de estrangulamento das plantas e suas eventuais quedas. Agora, o grupo estuda colocar composteiras nas praças para digerir o material orgânico. E no planejamento da festa junina deste ano, a ideia é que ela seja "resíduo zero".
Tudo isso faz da região um ecobairro? Talvez ainda não, mas é um bom começo. "O mais importante é entender que ecobairro não é um projeto, mas um processo sem fim. É um programa permanente", ensina Lara.
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"O mais importante é entender que ecobairro não é um projeto, mas um processo sem fim. É um programa permanente", ensina a arquiteta Lara Freitas, especialista em ecobairros. Ensinamento que, no meu entender, presta-se a inúmeras paráfrases apenas trocando o termo "ecobairro" por muitos outros, inclusive pelo termo "vida". Vocês concordam que é "como um processo sem fim, como um programa permanente que se deve ser entender essa coisa chamada vida"?
Mas além do ensinamento apresentado no último parágrafo, no meu entender, a reportagem de Giovana Girardi contém várias passagens capazes de provocar reflexões que levem a outros ensinamentos. Vocês enxergam alguma (s)?