quarta-feira, 24 de maio de 2017

Construindo o bairro dos sonhos

Ainda dentro da ideia de espalhar a imprescindibilidade do resgate do sentido de comunidade, após a postagem intitulada "As pessoas querem se sentir parte da cidade", segue uma que apresenta a reportagem de Giovana Girardi publicada na edição de 3 de abril de 2017 do jornal O Estado de S. Paulo com o título Construindo o bairro dos sonhos. Coincidentemente, ela foi publicada na mesma edição do jornal em que foi publicada a reportagem-entrevista apresentada na postagem anterior.
Construindo o bairro dos sonhos
Moradores das Vilas Jataí, Beatriz e Ida, na zona oeste de São Paulo, se mobilizam para melhorar região e transformá-la em um ecobairro
No começo era só um sonho. O "bairro dos sonhos". As ideias de transformação, que começaram quase como uma brincadeira em uma barraca na festa junina anual na Vila Jataí – onde os moradores eram convidados a deixar post-its com mensagens sobre o que gostariam de ter ou ver no bairro -, num primeiro momento refletiam mais o que eles não queriam: grandes prédios, grandes comércios, violência.
"Havia uma dificuldade em sonhar", lembra a administradora Cecília Lotufo, dona de uma pizzaria no bairro e uma das idealizadoras da mobilização. Mas com o passar do tempo, o simples fato de os moradores se unirem no processo de construção da festa possibilitou que eles começassem a enxergar o que era possível mudar no bairro. Com as próprias mãos ou por meio de solicitações ao poder público.
"Fomos alimentando a ideia de ter um ecobairro antes mesmo de ter o nome", diz Cecília, que acabou se tornando membro do Conselho Municipal do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável (Cades). Foi assim que conseguiram recuperar uma casa da prefeitura abandonada havia quase 15 anos, na Praça Valdir Azevedo, na Vila Ida, que se tornou sede do grupo. O trabalho de revitalização, que incluiu também a própria praça, serviu de piloto para a criação da lei sobre gestão participativa de praças, sancionada pelo então prefeito Fernando Haddad, em 2015.
Busca das nascentes. Com a casa, surgiram as preocupações com a água. Não havia fornecimento na rua, então os moradores bolaram um sistema de captação da água da chuva. Hoje o grupo Jovens Profissionais do Saneamento trabalha na construção de cisternas com filtros. "Veio a ideia de ser sustentável, ver a coisa completa, entender a situação dos córregos, das nascentes", conta Cecília.
O grupo, que nessa altura já tinha se aliado a moradores da vizinha Vila Beatriz, onde fica a hoje famosa Praça das Corujas, começou um trabalho de mapeamento das nascentes. Descobriram que estão em uma região particularmente rica. Apenas em uma caminhada de 3 km, na qual dezenas se engajaram, eles encontram 16 nascentes. Muitas em péssimas condições, com ocupações irregulares.
A mobilização foi chamando a atenção de outros moradores. "As pessoas saíram na janela e contavam sobre as nascentes que tinham debaixo de suas casas", conta Maurício Ramos de Oliveira, vizinho da Praça das Corujas, que faz o monitoramento da qualidade da água do Córrego das Corujas.
Surgiram outros levantamentos, como de declividade e de ocupações irregulares, que fornecem informações importantes desde sobre riscos de desmoronamentos e de enchentes a até proliferação de mosquitos. A ideia era nortear como devia ser o ordenamento territorial, num momento em que se discutia na Prefeitura o novo Plano Diretor da cidade. A proposta da administração era transformar os bairros em zona mista, com maior adensamento, para aproximar mais gente dos corredores de transporte público que cercam a área. Isso a comunidade não queria.
"Não era um lobby de elite que quer proteger seu modo de vida, mas vimos que já tínhamos tantos problemas. Propusemos um adensamento menor, com prédios de quatro andares em vez de oito, e a transformação de casas abandonadas enormes que temos na região e que poderiam virar moradias coletivas", explica Cecília, sobre a sugestão que o grupo fez no plano de bairro enviado à Prefeitura para que a região fosse uma zona preferencialmente residencial (ZPR), o que foi aceito.
O trabalho de declividade mostrou, por exemplo, que a Cerro Corá é a área mais alta de região e, justamente por isso, concentra as nascentes. Mas por ser um corredor de ônibus, era um atrativo para o adensamento. "Pensamos num zoneamento especial para blindar as nascentes. É um corredor, mas é também uma área de proteção ambiental", diz Cecília. "Esse olhar atento que busca o contexto da microbacia é uma premissa para o ecobairro, mas deveria fazer parte de todo zoneamento", explica a arquiteta Lara Freitas, especialista em ecobairros que se uniu ao grupo inicialmente como consultora e hoje faz parte dos trabalhos.
'Jardim de chuva'. Outro resultado prático de toda essa mobilização foi um trabalho de melhoria na manutenção das praças da região e de aumento da arborização e da permeabilização das ruas. Capitaneado pela médica Thaís Mauad, a ideia foi pedir autorização a Prefeitura Regional de Pinheiros para a transformação de canteiros de ruas, até então cobertos apenas de asfalto, em áreas verdes. Isso já foi feito em oito. Um deles virou um "jardim de chuva", uma espécie de florestinha, e os outros foram alterados com técnicas de permacultura típicas das hortas urbanas.
"Com a vegetação, a água, em vez de escorrer pela rua, é absorvida, passa por um processo de filtragem e ou vai mais devagar para o esgoto ou acaba aumentando o lençol freático", explica Thaís. O projeto foi doado por um paisagista. O material foi comprado pela comunidade e coube à Prefeitura apenas autorizar a modificação.
O grupo também promoveu plantio de árvores em uma avenida que não tinha praticamente nenhuma e melhorou o manejo das praças. Folhas caídas, que antes, nos trabalhos de varrição, acabavam indo para aterros, passaram a ser usadas para "coroar" o entorno das árvores, o que enriquece o solo e traz mais umidade e proteção.
Em outra frente, foi proposta a abertura das caixas de árvores de ruas, um dos principais motivos de estrangulamento das plantas e suas eventuais quedas. Agora, o grupo estuda colocar composteiras nas praças para digerir o material orgânico. E no planejamento da festa junina deste ano, a ideia é que ela seja "resíduo zero".
Tudo isso faz da região um ecobairro? Talvez ainda não, mas é um bom começo. "O mais importante é entender que ecobairro não é um projeto, mas um processo sem fim. É um programa permanente", ensina Lara.
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"O mais importante é entender que ecobairro não é um projeto, mas um processo sem fim. É um programa permanente", ensina a arquiteta Lara Freitas, especialista em ecobairros. Ensinamento que, no meu entender, presta-se a inúmeras paráfrases apenas trocando o termo "ecobairro" por muitos outros, inclusive pelo termo "vida". Vocês concordam que é "como um processo sem fim, como um programa permanente que se deve ser entender essa coisa chamada vida"?
Mas além do ensinamento apresentado no último parágrafo, no meu entender, a reportagem de Giovana Girardi contém várias passagens capazes de provocar reflexões que levem a outros ensinamentos. Vocês enxergam alguma (s)?

quinta-feira, 18 de maio de 2017

As pessoas querem se sentir parte da cidade

Após algumas postagens nas quais é preconizada a imprescindibilidade do resgate do sentido de comunidade, esta apresenta uma reportagem-entrevista onde, uma leitura atenta, possibilita-nos enxergar também nela a referida preconização. Publicada na edição de 3 de abril de 2017 do jornal O Estado de S. Paulo com o título 'As pessoas querem se sentir parte da cidade' ela é assinada por Douglas Gavras.
'As pessoas querem se sentir parte da cidade'
Para arquiteto, segredo para cidades agradáveis está em moradia, meio ambiente e oportunidades iguais para todos
Para o arquiteto Liu Thai Ker, de 79 anos, as melhores cidades são as que funcionam. Nelas, trabalho e moradia – questões que devem estar na lista de preocupações do poder público – ficam próximos um do outro e medidas como a conservação dos recursos naturais e o controle da poluição não ficam relegadas ao segundo plano. O urbanista é considerado o pai do projeto que transformou Cingapura em referência internacional de sustentabilidade e para a qual previu uma concepção urbana totalmente diferente da que foi herdada dos colonizadores britânicos. Em algumas décadas, a cidade-Estado implementou um massivo programa habitacional e alcançou soluções inovadoras, mesmo com um território restrito e superpovoado. Thai Ker é um dos convidados do Summit Imobiliário 2017, evento promovido em uma parceria do Estado com o Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP) e que acontece amanhã. A seguir, os principais trechos de sua entrevista.
Quais foram os maiores desafios do plano de modernização urbana de Cingapura?
Nós tínhamos muitos problemas habitacionais e ambientais. O nível educacional não era bom e a primeira geração de políticos depois da independência sentiu que era preciso pensar em novas mudanças para conseguir transformar um país pobre em um país desenvolvido, como oferecer moradia de qualidade para todos e boa infraestrutura.
Como vocês resolveram os problemas de moradia?
No começo, construímos as chamadas "habitações de emergência", apartamentos de cerca de 23 m2. O governo alugaria esses imóveis para cidadãos sem muitos recursos, mas que poderiam pagar um valor baixo. Como isso foi aliado a um programa de criação de fábricas e geração de empregos, as pessoas que antes não tinham condições de pagar aluguel, a partir daquele momento, já conseguiam. Aos poucos, a indústria da construção se tornou mais forte e conseguimos recursos para estender a faixa dos beneficiários aos mais carentes. Outra preocupação era criar uma cidade sem guetos. As famílias mais pobres eram colocadas para morar ao lado das que tinham mais recursos. Crianças de realidades diferentes estudavam juntas, conviviam o tempo todo. Isso também foi pensado para que o país pudesse superar a desigualdade.
Um programa semelhante poderia ser aplicado no Brasil?
É difícil falar com propriedade, por não conhecer a fundo as políticas públicas de habitação das cidades brasileiras. De maneira geral, a chave do nosso programa em Cingapura foi criar uma política sustentável, que não falisse o Estado e nos permitisse oferecer moradias com qualidade cada vez maior para os cidadãos. Esse princípio pode ser usado como referência para qualquer país, inclusive o Brasil.
Por que muitos brasileiros, quando viajam ao exterior, se empolgam com soluções que outras cidades desenvolveram, mas não tentam replicar alguns dos conceitos ao voltar ao País?
Esse é um fenômeno interessante e que não acontece apenas com os brasileiros. Muitas pessoas se impressionam quando visitam uma cidade no exterior que passou por um projeto bem estruturado de planejamento e que conseguiu superar alguns dos problemas que são comuns à maioria das grandes cidades. O que ocorre é que elas tendem a ver apenas a superfície sem levar em conta o esforço necessário para se chegar a uma cidade mais agradável de se morar, sem considerar os erros de percurso, os esforços para corrigir distorções e sem a disposição para replicar esse trabalho, que não é visível. Uma boa forma de se evitar isso é tentar entender as razões que levam as nossas cidades a ter determinados problemas.
O que fazer para que uma grande cidade, como São Paulo, com todos os seus problemas, se torne melhor?
As melhores cidades são aquelas que funcionam. Além da questão da moradia, elas precisam resolver questões de mobilidade, que passam pelo conceito de oferecer opções de trabalho mais próximas dessas moradias. Morar em uma cidade preocupada com o meio ambiente é outra forma de se conservar a beleza. De diferentes maneiras, as pessoas querem se sentir parte da cidade. Uma questão que eu entendo ter sido muito discutida recentemente em São Paulo é a dos grafiteiros. Em Cingapura, há uma lei que determina que os edifícios sejam pintados a cada cinco anos – dessa forma, tudo sempre parece limpo e novo. A pichação é crime, mas a cidade mantém muros para os grafiteiros, em que a expressão artística é permitida e valorizada.
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Considerado o pai do projeto que transformou Cingapura em referência internacional de sustentabilidade, o arquiteto Liu Thai Ker, de 79 anos, compartilha conosco sua "estranha receita" para criar cidades que funcionem, pois, segundo ele, essas são as melhores. Quais são os ingredientes de sua "estranha receita"?
Proximidade entre trabalho e moradia, conservação dos recursos naturais, controle da poluição e inexistência de guetos, ou seja, superação da desigualdade. Colocar famílias mais pobres para morar ao lado das que tinham mais recursos. Colocar crianças de realidades diferentes para estudarem juntas, para conviverem o tempo todo. Que receita sinistra, não?! Ela contém, simplesmente, tudo o que não se vê na maioria das cidades, não é mesmo?
Colocar famílias mais pobres para morar ao lado das que tinham mais recursos. Colocar crianças de realidades diferentes para estudarem juntas, para conviverem o tempo todo. Vocês enxergam nessas ações o resgate do sentido de comunidade, citado no primeiro parágrafo da postagem?
Oportuníssima a pergunta do repórter - Por que viajantes ao exterior empolgam-se com soluções que outras cidades desenvolveram, mas não tentam replicar alguns dos conceitos ao voltar ao País? -. Pergunta que o arquiteto respondeu assim:
"O que ocorre é que eles tendem a ver apenas a superfície sem levar em conta o esforço necessário para se chegar a uma cidade mais agradável de se morar, sem considerar os erros de percurso, os esforços para corrigir distorções e sem a disposição para replicar esse trabalho, que não é visível. Uma boa forma de se evitar isso é tentar entender as razões que levam as nossas cidades a ter determinados problemas."
Ver apenas a superfície de cidades melhoradas por outros, sem levar em conta o esforço necessário para se chegar ao grau de agradabilidade por elas alcançado, eis um equívoco dos viajantes ao exterior, segundo o pai do projeto que transformou Cingapura em referência internacional de sustentabilidade. "Tentar entender as razões que levam as nossas cidades a ter determinados problemas.", eis uma boa forma de se evitar a equivocada visão dos viajantes, segundo o competente arquiteto. Dá para discordar de Liu Thai Ker?

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Reflexões provocadas por "Dias melhores virão" - Segunda (e última) parte

Após a publicação da postagem alusiva ao Dia do Silêncio, segue a segunda (e última) parte das reflexões provocadas por Dias melhores virão. Como é dito na última frase de Dias melhores virão (final): "Nossa! Que entrevista rica em provocação de reflexões!"
"O termo interser é mais forte do que o uso do termo interconectividade ou interdependência. Ele significa que sua existência está ligada à minha, que de alguma forma você é uma parte minha, e vice-versa. Então qualquer coisa que aconteça a você, à pessoa ao lado, à floresta tropical, aos rios e aos oceanos também estará acontecendo a mim. Não podemos escapar das consequências. Portanto, se faço algo ruim, se rompo com o círculo da vida, isso retornará para mim. Isso significa que tudo o que está acontecendo do lado de fora também está acontecendo dentro de nós."
O parágrafo acima foi extraído da entrevista concedida pelo filósofo Charles Eisenstein. O parágrafo abaixo foi elaborado com trechos de um texto conhecido como A Carta do Cacique Seattle. Elaborado pelo médico Henry Smith a partir de notas que tomara do histórico discurso proferido pelo chefe das tribos Suquamish e Duwamish em 10 de janeiro de 1854, como geralmente ocorre, com o transcorrer do tempo, o texto foi sofrendo alterações. Hoje, a versão mais difundida é uma escrita pelo roteirista de cinema norte-americano Ted Perry.
"O que seria dos homens sem os animais? Se todos os animais se fossem, o homem morreria de uma imensa solidão de espírito. O que quer que aconteça com os animais, logo acontece com os homens. Todas as coisas estão ligadas. (...) O que acontece com a terra, acontece com os filhos da terra. Não foi o homem que teceu a rede da vida; ele é apenas um fio nessa trama. O que ele fizer a esse tecido, estará fazendo a si próprio. Mesmo o homem branco não pode ser dispensado desse sentido comum."
Será que uma comparação criteriosa do que disse recentemente o filósofo com o que disse o cacique Seattle há 163 anos torna evidente a coincidência entre o que eles disseram? Será que, como diz o filósofo, o termo interser é mais forte do que o uso dos termos interconectividade ou interdependência? Ou será que de todos esses "inter"s o mais forte é a interdependência? Afinal, se todas as coisas estão ligadas – para o bem ou para o mal –, se o que acontece com cada uma delas, independentemente de percebermos ou não, depende do que acontece com as demais, será que existe algum termo que define melhor a inter-relação entre todas as coisas do que interdependência? O que vocês acham?
Interdependência é, no meu entender, um termo fortíssimo. Presente em muitas postagens deste blog, ele aparece no título da postagem - 'Unity', de Shaun Monson,mostra a interdependência das formas de vida – publicada em 3 de novembro de 2015, e seguramente estará presente em muitas outras. Afinal, tudo na vida, ou seja, a própria vida é algo que, simplesmente, depende da interdependência. Da interdependência entre escolhas e ações e entre escolhas e omissões. Da interdependência entre ações e conseqüências e entre omissões e consequências. Escolhas, ações e omissões que "praticadas" por todos os componentes da sociedade trazem as consequências que determinam a qualidade da sociedade em que se vive ou se sobrevive. Será que é difícil enxergar isto? Infelizmente, para a maioria, a resposta é sim, e é por isso que a chegada de dias melhores ainda demorará, conforme afirma Charles Eisenstein:
"A verdade é que essa crise não irá desaparecer tão cedo. Muito pelo contrário, ela ficará cada vez pior. Tal cenário só poderá ser transformado quando o que consideramos 'normal' entrar em colapso. Daí então surgirá espaço para o novo.".
Perguntado sobre – O que seria uma postura de vida capaz de nutrir um futuro desejável, se a mudança começa em cada um de nós? – Eisenstein começa respondendo assim: "Vale muito a pena passar bastante tempo perto de pessoas realmente generosas e benevolentes. Essa é a melhor maneira de aprendermos pelo exemplo e nos contagiarmos." E ao dizer isso ele me faz lembrar uma das citações que ilustram a lateral direita deste blog: "Daqui a cinco anos você estará bem próximo de ser a mesma pessoa que é hoje, exceto por duas coisas: os livros que ler e as pessoas de quem se aproximar.", é uma frase de Howard Hendricks (1924 – 2013) com a qual me identifico muito. Sim, "vale muito a pena passar bastante tempo perto de pessoas realmente generosas e benevolentes".
Indagado – Por que você afirma ser tão importante neutralizarmos a sensação de impotência e ceticismo em relação ao futuro melhor e voltarmos a acreditar no poder dos pequenos gestos? – em sua resposta Eisenstein inclui o que transcrevo no parágrafo abaixo.
"Podemos achar que nossas ações são insignificantes e, portanto, desprovidas de poder para transformar o mundo. Mas, na verdade, nossas escolhas, por mais singelas que sejam, são nossas orações, nossos atestados. Um jeito de afirmar: "É esse o mundo que eu desejo para mim e para todos". Como negar a importância de uma avó amorosa em algum lugar do mundo que está transmitindo seu afeto a seu neto e, consequentemente, ao neto dele, e assim por diante. Daqui a 500 anos, o mundo pode ser um lugar melhor por causa dela. Quem vai ter coragem de dizer que não?"
E com as palavras acima, Eisenstein me faz lembrar algo que li no livro Liderança para Tempos de Incerteza – A Descoberta de um Novo Caminho, de autoria de Margaret J. Wheatley: "Em uma carta para um amigo, Thomas Merton, o famoso místico cristão, dá o seguinte conselho: 'Não fique na dependência de resultados... você pode ter que encarar o fato de que seu trabalho será aparentemente inútil e sem resultados, ou que os resultados serão contrários aos esperados. Acostumando-se a essa ideia, você começa a se concentrar não nos resultados, mas no valor, na retidão, na verdade do próprio trabalho...'"
Concentrar-se não na visão imediata de resultados, e sim na crença de que algum dia alguém colherá os resultados "do valor, da retidão e da verdade do trabalho" no qual nós empregarmos o tempo que nos foi dado, pois como é dito em uma das inesquecíveis frases da trilogia O Senhor dos Anéis, "A única coisa a fazer é decidir como usar o tempo que nos foi dado.".
E ao dizer que "A única coisa a fazer é decidir como usar o tempo que nos foi dado.", eu trago para reflexões a última pergunta feita na excelente entrevista que originou esta série de postagens. O grifo é meu. Perguntado – Nesse mundo mais bonito que nossos corações sabem ser possível, qual seria a maneira mais fértil de empregar o nosso tempo? - em sua resposta Charles Eisenstein inclui o que é transcrevo no parágrafo abaixo.
"Seguir o caminho que você considera o mais bonito e que o faz se sentir vivo. (...) Temos a oportunidade de fazer essa escolha, mesmo que, a princípio, ela assuste ou pareça audaciosa. (...) Oportunidades aparecem no tempo certo, isto é, quando estamos preparados para elas. E tudo bem se cometermos erros. Pois tudo isso é parte de um território desconhecido. E o único jeito de conhecê-lo é explorando-o, aprendendo com os nossos equívocos."
Oportunidades aparecem no tempo certo, isto é, quando estamos preparados para elas. Oportunidades de fazer escolhas. Escolhas que resultam em ações ou omissões. Ações ou omissões que trazem consequências. Consequências entre as quais encontram-se erros decorrentes de equívocos nas escolhas. Equívocos que – se bem aproveitados - oferecem oportunidades de aprendermos a fazer melhores escolhas. Aprender com os nossos equívocos! Será essa a lição final que podemos extrair da excelente reportagem que Raphaela de Campos Mello, intitulou Dias melhores virão? O que vocês acham?

domingo, 7 de maio de 2017

Para escutar o som do silêncio

Com a intenção de postar mensagens alusivas a datas comemorativas que eu considere significativas, neste Dia do Silêncio, este blog espalha um artigo de Susan Andrews, psicóloga e monja iogue, publicado na edição de 28 de maio de 2007 da revista Época, com o título Para escutar o som do silêncio. Dez anos após ter sido publicado considero-o tremendamente atual.
Para escutar o som do silêncio
Será que estamos todos sofrendo de Transtorno de Déficit de Atenção? O psicanalista Edward Hallowell, autor de diversos livros sobre o tema, diz que sim. Vivemos no que ele chama de Estado F – frenético e furioso – em vez do Estado C – calmo e centrado. Considere as semelhanças entre o Estado F, tão comum na vida moderna, e os sintomas de déficit de atenção:
- ter dificuldade para focar a atenção por mais de uns poucos segundos, desligando no meio de uma conversa;
- apresentar tendência a ser irrequieto, se mexendo constantemente;
- tocar muitos projetos de uma só vez, mas sem conseguir acompanhá-los;
- inabilidade para ouvir, interrompendo frequentemente quem fala;
- estar constantemente preocupado, com uma compulsão crônica para alterar o estado mental; por meio de álcool, drogas, comida ou consumismo;
- ter intolerância ao tédio e incessante ânsia por alta estimulação.
Os estudantes hoje em dia são ensinados a aplicar o célebre princípio 80 / 20 do economista italiano Vilfredo Pareto em seus estudos. "Obtenha 80% da informação em 20% do tempo simplesmente lendo o título, o subtítulo, os trechos em negrito, o último e o primeiro parágrafos – gastando apenas de 30 a 45 segundos", recomendam os especialistas. Hallowell, no entanto, lamenta: "Em vez de vidas reflexivas, para ser saboreadas, as pessoas correm o risco de levar vidas superficiais, e mal se dando conta disso".
Como os sábios há muito nos têm aconselhado, não fazer nada pode algumas vezes ser mais importante que fazer algo. E o silêncio pode ser mais eloquente que a fala. O compositor francês Debussy disse: "A música é o espaço entre as notas".
Não fazer nada pode algumas vezes ser mais importante que fazer algo
Anos atrás, assisti a um concerto do compositor avant-garde americano John Cage. Uma experiência memorável. Água sendo despejada dentro de um recipiente vazio, o embaralhar das cartas de um baralho e a estática produzida por um rádio, entre outros sons. Isso é o que Cage chamava de "música do dia-a-dia", derivada de uma percepção ampliada do mundo a nossa volta. Cage explicou: "Agora, quando vou a um coquetel, eu não ouço barulho. Ouço música".
Mas a composição mais inesquecível foi a 4' 33''. Os artistas permaneceram sentados imóveis por exatamente quatro minutos e 33 segundos, empunhando seus instrumentos, sem tocá-los. Um tempo de silêncio absoluto, precisamente cronometrado. Ou quase absoluto, não fossem algumas tossidelas dos músicos. Depois de tantos anos, ainda posso "ouvir" aquele momento.
Cage sempre foi fascinado pelo silêncio. (De fato, sua gravadora tem o direito autoral do silêncio. Imagine só!) Ele chegou a ir para uma câmara à prova de som na Universidade Harvard, para experimentar a pura ausência de ruído. Lá, Cage se surpreendeu ao ouvir dois sons: um alto – seu sistema nervoso – e outro baixo – a circulação de seu sangue. Como descreveu Cage: "Esses sons estavam vibrando sem nenhuma intenção de minha parte. Aquela experiência deu uma direção a minha vida – a exploração da não-intenção. E me dei conta de que o silêncio não é de natureza acústica. Ele é uma alteração mental, um girar para dentro".
Para aqueles de nós que sofrem de déficit de atenção, Cage tem um bom conselho: "Se algo se tornar tedioso após dois minutos, tolere até quatro, e depois até oito. Depois até 16, e depois até 32 minutos. No final das contas, você descobre que aquilo não tem tédio nenhum".
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Intitulado "Para escutar o som do silêncio", o artigo de Susan Andrews termina falando sobre o tédio. Silêncio e tédio - eis duas forças estruturantes imprescindíveis aos equilíbrios mental e emocional dos integrantes da autodenominada espécie inteligente do universo. Forças estruturantes que tal espécie passou a abominar cada vez mais, a partir do momento em que optou por viver no que o psicanalista Edward Hallowell chama de Estado F – frenético e furioso – em vez do Estado C – calmo e centrado. Abominação que ela terá que reconsiderar caso ainda almeje, algum dia, alcançar os dois imprescindíveis equilíbrios citados no início deste parágrafo.
Sobre o silêncio, para não alongar esta postagem, acrescento apenas o seguinte parágrafo:
"E me dei conta de que o silêncio não é de natureza acústica. Ele é uma alteração mental, um girar para dentro", é uma afirmação atribuída ao compositor avant-garde americano John Cage (no artigo de Susan Andrews) que me faz lembrar algo que li em um livro de Trigueirinho: "O silêncio proporciona ao ser a possibilidade de enxergar a vida por dentro.". E ao conseguir enxergar a vida por dentro, creio que consequentemente nós conseguiremos melhorá-la por fora.
Sobre o tédio, existem no blog algumas postagens onde ele é citado. Que Teeeeeédio (27 de julho de 2012) e A conquista da quietude (I) (31 de julho de 2012), A conquista da quietude (final) (2 de agosto de 2012), Reflexões provocadas por "A conquista da quietude" (6 de agosto de 2012).
Para quem quiser ler mais sobre o silêncio, eis algumas postagens publicadas neste blog: Dia do Silêncio (7 de maio de 2014) e Silêncio, por favor (14 de maio de 2015), Reflexões provocadas por "Silêncio, por favor" (21 de maio de 2015), Quietude (7 de maio de 2016).