segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Ensina-me a viver

Não, não é sobre um antigo filme homônimo lançado em 1971 que fala esta postagem, e sim sobre uma recente reportagem-entrevista homônima publicada na edição de 21, 22 e 23 de dezembro de 2018 do jornal Valor, em seu tablóide EU & FIM DE SEMANA, na época da visita ao Brasil do filósofo suíço Alain de Botton, criador de The School of Life. Uma reportagem-entrevista assinada por Adriana Abujamra da qual gostei tanto que resolvi fazer uma postagem com uma compilação de fatos e de ideias nela apresentados.
Ensina-me a viver
Alain de Botton nasceu em Zurique, na Suíça, e aos 8 anos foi levado para Londres. "Meus pais eram grandes sonhadores e tinham uma ideia romântica sobre o sistema educacional do país. Eles amavam a Inglaterra de uma forma que só quem não é da Inglaterra pode amar", diz, com ironia.
Quando ele era pequeno, os pais o mandaram para um internato. "Fiquei na escola inglesa até completar 18 anos. Completamente infeliz e sonhando pela liberdade. Mas eu era um bom menino. Na verdade, eu era um ótimo menino. Sempre fiz tudo que me pediam, era um estudante exemplar, mas, internamente, continuava muito triste."
Seus pais dedicavam-se um ao outro e não eram lá muito "interessados em crianças". Coube à babá, Bertha, criar o menino e sua irmã. Vinda de uma pequena aldeia na Suíça e sem nenhuma educação formal, ela é considerada por Botton uma das pessoas mais sábias com as quais já conviveu. Nos conflitos, ela o incentivava a se colocar no lugar do outro. "Até hoje (Bertha está com 87 anos), quando tenho algum problema, ligo para ela".
Aos 23 anos, escreveu "Ensaios de Amor", relato autobiográfico em que analisa as etapas de um relacionamento amoroso (com a namorada da ocasião, Chloe), do começo ao fim. O livro fez bastante sucesso e foi vendido em diversos países. "Foi uma surpresa – e assustador."
Será que os fatos citados acima podem ter contribuído para despertar em Alain de Botton o desejo de criar uma escola que possa ensinar as pessoas a viver? - eis uma pergunta que deixo para vocês, e que de mim recebe resposta afirmativa.
O nome The School of Life é uma provocação à arrogância intelectual das universidades, diz Botton. Muitas vezes os locais de ensino transformam o conhecimento em mero exercício acadêmico, em vez de usá-lo como guia para ajudar alunos a lidar com as questões práticas. "Atuamos justamente sobre ações, não só ideias. Ideias que são colocadas em prática. Nossos cursos giram em torno das decisões importantes da vida."
No início da School of Life, Botton convocou os melhores professores universitários para dar aulas, mas não deu certo. Foi um "de-sas-tre!", recorda, e repete: "de-sas-tre!". Os acadêmicos, diz, eram frios e esnobes. Sabiam a teoria, mas eram completamente inábeis para lidar com questões práticas. O corpo docente, então, passou a ser selecionado com o auxílio de uma série de testes. A maior parte tem familiaridade com psicoterapia, mas os talentos vêm também de lugares não convencionais. Gente que fez teatro, criou os filhos, trabalhou em banco e pescou nos fins de semana. O essencial, diz, é que seja alguém capaz de criar um ambiente acolhedor na sala para que o grupo se sinta à vontade para se expor. A School of Life seria "a casa da vulnerabilidade honesta", diz.
Em um dos eventos da escola, participantes são convidados a escreverem sobre seus problemas em um pedaço de papel. A gama de queixas é impressionante, segundo Botton. "Meu Deus! São pessoas cultas, com dinheiro e saúde, mas se você visse o que aparece... Vício em drogas, em sexo. Separação, demissão. A maioria de nós usa máscaras e não mostra o que está por trás. Temos receio de ser ridicularizados e taxados de esquisitos. Mas, se tirássemos a máscara, a vida seria tão mais gentil com a gente, sabe? Isso é o que significa amizade."
Ele não tem pudor em assumir que sua escola é de autoajuda, mas faz questão de se diferenciar dos gurus da área, principalmente os americanos. A cultura de autoajuda nos Estados Unidos, diz, é excessivamente otimista, acredita na perfeição e prega que basta o sujeito acreditar em si mesmo e correr atrás de seus objetivos para alcançar tudo o que deseja.
Botton sugere que uma filosofia pessimista pode ser mais valiosa e define sua escola como uma "organização trágica". A arte trágica, tal como desenvolvida pelo teatro grego na Antiguidade, era essencialmente uma forma de arte dedicada a mostrar como a vida é imperfeita e como as pessoas fracassam e merecem compaixão. Talvez não haja "solução" para muitas de nossas aflições, diz Botton, já que elas são inerentes à vida, mas é possível encontrar "consolação", uma palavra mais modesta e mais afinada com sua filosofia.
Impaciência e raiva, diz, são questões prementes da vida contemporânea. Para ele, a raiva é um otimismo malogrado. O filósofo cita exemplos. Por que você grita no trânsito? Porque acreditou que as ruas estariam livres. Por que entra em pânico ao perder as chaves? Porque acredita que não irá perdê-las. Botton aconselha senso de humor e uma boa dose de pessimismo: quanto menor a expectativa, menor a frustração.
Lançado aqui pela editora Sextante na ocasião de sua visita, "Grandes pensadores" faz parte da série de livros da School of Life. É uma compilação de ideias encontradas nas obras de filósofos, teóricos políticos, psicanalistas, sociólogos e artistas. Ateu, Botton o define como uma espécie de Bíblia ou livro de receitas intelectuais que podem ser aplicadas na vida. Alguns capítulos são dedicados à filosofia oriental. O zen-budismo, explica, aprecia as imperfeições, valoriza os tombos e a capacidade de superá-los. "Para eles, o 'quebrado' não é terrível, pode ser consertado. A parte quebrada é mais preciosa do que a intacta. Sinal de experiência de vida, de sofrimento, parte intrínseca da condição humana.". A sabedoria e beleza, diz, é justamente a habilidade de colar os cacos de volta.
Os filósofos gregos também são contemplados em sua "Bíblia", pois embora tenham vivido há milênios, são ainda guias indispensáveis para a vida nas sociedades capitalistas, diz Botton. Epicuro (341 a.C. – 271 a.C.), por exemplo, salientava que o amor romântico, o sucesso profissional e o luxo seriam falsas fontes de felicidade. O essencial, para ele, era ter sempre bons amigos por perto. "A amizade é a defesa contra a tragédia", diz Botton.
A obra inspiradora do escritor francês Marcel Proust (1871 – 1922), "Em Busca do Tempo Perdido", é uma história repleta de ideias práticas e universalmente aplicáveis sobre como parar de desperdiçar a vida, diz Botton.
Autora de "Orgulho e Preconceito", a escritora inglesa Jane Austen (1775 – 1817), tinha aguda consciência das imperfeições humanas e um desejo profundo de melhorar as pessoas. Assim como Botton, entendia o amor como uma habilidade. "A pessoa certa para nós não é simplesmente a que nos deixa confortáveis, ela tem que ser capaz de nos ajudar a superar nossos defeitos e nos tornar mais maduros."
Dentre seus próximos projetos estão um livro elencando 20 discussões comuns entre casais e outro dedicado a ser um guia mental para crianças entre 8 e 12 anos. Todo mundo, no fim das contas, é profundamente problemático e difícil de conviver, diz Botton.
Ele diz acreditar que aplicativos de relacionamento, como o Tinder, vão na contramão da filosofia de sua escola. Neles, as pessoas apresentam sua melhor faceta e escondem suas falhas. Tivesse ele que criar um aplicativo do tipo, batizaria-o de Tinder Moletom. "Quando você gosta de uma pessoa, não a quer sempre toda arrumada, mas usando seu velho par de jeans. Acho triste uma cultura que considera que só é possível encontrar amor mentindo sobre quem se é. Essa é uma ideia inútil. Se eu tivesse que refazer o Tinder, o faria mais humano. Nele, seria possível mostrar quem realmente a pessoa é, e também aceitar o outro. Acho isso muito mais romântico", afirma.
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Será que a banda Titãs está certa quando, em uma bela canção lançada em 1998, afirma que "É preciso saber viver"? Será que o simples de fato de sermos seres, inevitavelmente, envolvidos com uma coisa chamada vida não deveria ser suficiente para despertar em nós um forte interesse em aprender a viver? Será que refletir sobre o que é dito por alguém que dedica sua vida a manter uma Escola da Vida é algo que deve interessar a todos nós? Afinal, como diz Alain de Botton na última frase do segundo parágrafo acima - "Todo mundo, no fim das contas, é profundamente problemático e difícil de conviver".

sábado, 5 de janeiro de 2019

A jornada rumo a esse lugar que se chama "alguém melhor"

Viver em um mundo melhor, eis algo que creio ser um desejo da quase totalidade dos integrantes de qualquer mundo. Estar consciente de que o mundo não passa de um reflexo do que são aqueles que o integram, eis algo que, infelizmente, creio ser um estágio atingido por uma pequena quantidade de seus integrantes. Ter a pretensão de aumentar tal quantidade, eis a intenção do espalhamento de mais um texto da jornalista e escritora Milly Lacombe.
Extraído da edição 280 da revista Trip, o texto apresentado a seguir tem duas diferenças em relação ao original: apresenta apenas a segunda metade do texto publicado na coluna de Milly Lacombe e o título que dei a ele é uma frase usada por Milly, digamos, como subtítulo.
Embora seja baseado na história de vida da autora, enxergo no texto a capacidade de propiciar inúmeras reflexões a qualquer pessoa que se disponha a ler coisas que possam oferecer-lhe a oportunidade de encetar uma jornada rumo a esse lugar que se chama "alguém melhor".
A jornada rumo a esse lugar que se chama "alguém melhor"
É um movimento que exige esforço constante, desconstruções, reparações
Nasci e cresci dentro de uma família tradicional. Católica, conservadora, direitista, totalmente branca, bastante europeia e ligeiramente rica. Estudei nas melhores escolas, tive acesso a clubes privados, onde pude praticar esportes e conhecer muitas pessoas como eu. Viajei para a Europa antes dos 18, aprendi outras línguas, li muitos livros. Não precisei fazer as camas onde dormi, nem lavar a louça que sujei ou guardar as roupas que usei. Havia quem fizesse isso por mim. Eram, quase sempre, corpos negros a me servir.
Uma criança que se forma nessas circunstâncias naturaliza preconceitos e tem sua configuração-padrão programada para acreditar ser melhor do que outros: pobres, excluídos, periféricos. A vida, aliás, vai dando a você a certeza de ser isso mesmo. Os melhores empregos são seus, os salários mais altos, também, as casas mais glamurosas, idem, e sempre localizadas em bairros cheios de conveniências e oportunidades culturais.
Mundo real
É preciso um bocado de atenção e de disciplina para perceber que o mundo real não é bem aquele em que tentaram fazer você acreditar. O mundo real é injusto, cruel, desigual e a sua volta existem milhões de pessoas que, ao contrário de você, não tiveram oportunidades. Nessa hora, é fundamental que nos perguntemos como teria sido a vida delas se tivessem tido as chances que tivemos.
Claro que é mais fácil acreditar que eu me dei bem na vida porque sou mesmo talentosa. Que ganhei dinheiro porque ralei. Que sou culta porque me esforcei. Não é conveniente acreditar que só ganhei dinheiro e status porque tive oportunidades e privilégios, ou uma herança, ou consegui meu primeiro emprego porque meu pai era amigo do dono da empresa. Ou, quem sabe, era até o dono da empresa. As pessoas mais esforçadas que eu conheço são pobres e se esforço fosse garantia de sucesso e riqueza, elas seriam bem mais ricas do que eu.
Mas é preciso muita atenção e disciplina para se desfazer da configuração-padrão e pensar por conta própria. Trata-se, como sugeriu o escritor David Foster Wallace, da verdadeira liberdade: a liberdade de enxergar o outro.
Todos somos feitos de inúmeros preconceitos. Somos falíveis porque somos humanos e nossa beleza é inseparável de nossas fragilidades. Nada disso é novo ou surpreende. O que surpreende é ser criado com tanta escolarização e ainda assim não reconhecer o preconceito estrutural introjetado em cada um de nós, e então fazer o que for preciso para se livrar dele.
O racismo, o machismo e a homofobia são estruturas de poder que vão além de desvios de caráter individuais. Dar os ombros e dizer coisa como "mas eu não sou racista" é deixar de enxergar o racismo como estrutura de poder, deixar de perceber que, apesar de querermos nos considerar pessoas boas, estamos impregnados desses preconceitos porque eles foram introjetados em todos nós quando éramos crianças.
Estruturas de poder fazem uso de todos nós para que, doutrinados e automatizados, possamos perpetuar a hegemonia de quem sempre nos oprimiu. Com elas seguimos alimentando, ainda que inconscientemente, os valores de uma sociedade patriarcal que celebra tudo o que é masculino, branco e heteronormativo e tenta marginalizar e deslegitimar qualquer coisa que não seja. A jornada rumo a esse lugar que se chama "alguém melhor" é longa e está longe de ser um evento; é um movimento que exige esforço constante, desconstruções, reparações. Que exige coragem para sentir vergonha da pessoa que um dia você foi e, depois, uma certa saudade daquela pessoa que você ainda não é.
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"Claro que é mais fácil acreditar que eu me dei bem na vida porque sou mesmo talentosa. Que ganhei dinheiro porque ralei. Que sou culta porque me esforcei. Não é conveniente acreditar que só ganhei dinheiro e status porque tive oportunidades e privilégios, ou uma herança, ou consegui meu primeiro emprego porque meu pai era amigo do dono da empresa. Ou, quem sabe, era até o dono da empresa.", diz Milly Lacombe.
Vocês percebem no parágrafo acima uma crítica ao conceito de meritocracia difundido pelos privilegiados com a intenção de fazer os "fundidos" (!) resignarem-se diante das condições de vida (sic) que lhes cabem neste mundo?
Sim, como afirma Milly Lacombe, "é preciso muita atenção e disciplina para se desfazer da configuração-padrão, pensar por conta própria e conseguir atingir o que o escritor David Foster Wallace disse ser a verdadeira liberdade: a liberdade de enxergar o outro".
"A jornada rumo a esse lugar que se chama 'alguém melhor' é longa e está longe de ser um evento; é um movimento que exige esforço constante, desconstruções, reparações. Que exige coragem para sentir vergonha da pessoa que um dia você foi e, depois, uma certa saudade daquela pessoa que você ainda não é.", diz Milly Lacombe.
"Longa, longe de ser um evento, um movimento que exige esforço constante (e interminável, acrescento eu), desconstruções e reparações", eis uma boa descrição da "jornada rumo a esse lugar que se chama 'alguém melhor'". Lugar pelo qual cada um de nós, inevitavelmente, terá que passar para tornar-se apto a cooperar na construção desse lugar que se chama 'um mundo melhor'. Aptidão que (usando aqui algumas palavras de Milly Lacombe), exige de cada um, inicialmente, "a coragem para sentir vergonha da pessoa que foi um dia e, posteriormente, uma certa saudade daquela pessoa que ainda não é", mas que, inevitavelmente, terá que ser se, verdadeiramente, almejar viver em 'um mundo melhor'.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Tudo o que importa dura um instante

Faltando cinco dias e algumas horas para aquele momento do ano em que os orixás ficam sobrecarregados com a lista de pedidos feitos repetidamente há uma infinidade de anos, encerrando as postagens de 2018, segue um daqueles textos que, ficando mais interessantes à medida que são lidos, apresentam um epílogo interessantíssimo. Publicado na coluna da jornalista e escritora Milly Lacombe na edição 279 da revista Trip, disponibilizada em novembro de 2018, enxergo na primeira frase de seu último parágrafo uma excelente sugestão para um pedido inédito a ser feito aos orixás no referido momento.
Tudo o que importa dura um instante
Só acumulamos ódio e coisas descartáveis. Como vamos desistir disso e finalmente lidar com as nossas dores?
Eu estava na Praça da República, no centro de São Paulo, entregue à recém-descoberta arte de virar votos e completamente envolvida com a atividade, quando vi pela primeira vez nos olhos de outro ser humano um tipo de ódio que eu não achava possível ser percebido em manifestação física. Já conhecia esse ódio das redes sociais, mas até ali era apenas verbal, impessoal e distante. Só que naquela tarde de sexta-feira, 26 de outubro, o percebi cara a cara, e isso me assustou.
O sol começava a se pôr e já estava abordando pedestres fazia duas horas quando notei duas moças e um rapaz indo para a estação do metrô. Eles estavam conversando e rindo, e fui andando na direção deles usando a frase que até ali tinha sido bem-sucedida para fazer as pessoas me darem atenção. "Oi. Vocês já decidiram em quem vão votar no domingo?". Os três seguiram caminhando, o rapaz da ponta sorriu e disse que sim, a menina da outra ponta fez o mesmo e foi nessa hora que a mulher que estava no meio virou o rosto para mim. Em seus olhos vi todo o ódio do mundo, e ele era dirigido a mim.
Por reflexo, em vez de me mandar, comecei a andar ao lado deles, mas de costas porque estávamos indo em direções opostas. Sorrindo, disse: "Não me olha assim, por favor. Sou apenas uma sapatão que gostaria muito que vocês votassem no candidato que não quer que eu morra. Não faço mal não, tô só em campanha pela minha vida". Em segundos, o olhar de ódio foi desarmado. Ela não disse nada, mas sorriu para mim enquanto descia as escadas da estação do metrô.
Não foi uma virada de voto, mas foi uma virada de ódio.
À noite, voltando para casa depois de passar algumas horas praticando o exercício da democracia, tentava entender por que a mulher tinha me olhado daquele jeito. Por que odiar tanto alguém que você não conhece? O que eu representava? Que tipo de ameaça ela enxergou em mim?
Em casa, uma simples passada de olhos pelas redes sociais já me fez ter contato com avalanches de mensagens de ódio, que agora me remetiam àquele olhar. De onde vem todo esse ódio? Quem são os que conseguem entrar em perfis de rede social e sair vomitando preconceitos e ameaças? O que os move? Como fazer para livrá-los desse sentimento?
Ter olhado nos olhos daquela mulher, ter podido dizer a ela que eu não era uma ameaça e vê-la sorrir foi bonito, ainda que nada no voto dela tivesse mudado. Mas como fazer com os demais, esses nos quais não podemos causar empatia?
"O ódio, que tantas coisas pode destruir, nunca falhou em destruir o homem que odeia, e essa é uma lei imutável", disse o escritor americano James Baldwin.
Temos uma multidão de pessoas se autodestruindo, e destruindo tudo ao redor. "Acho que um dos motivos pelos quais as pessoas se agarram a seus ódios tão teimosamente", escreveu Baldwin, "é porque, de certa forma, se o ódio for embora elas serão forçadas a lidar com suas dores". Como vamos interromper essa avalanche de ódio para finalmente começar a lidar com as nossas dores?
CAIXA DE ÓDIO
Me peguei pensando nesse acúmulo de ódio e de como algumas coisas na vida não são acumuláveis. Afetos, amores, atenção, disciplina, liberdade, justiça, momentos. Não se acumulam as coisas essenciais; apenas as descartáveis, o que é uma ironia. Acumula-se dinheiro, e com ele, preocupações. Acumula-se dívidas, e com elas, servitude. Acumula-se poder, e com ele, a eterna dependência de desejar ainda mais poder. Acumula-se fama, e com ela, o angustiante desespero de não perdê-la.
Mas não se acumula uma manhã de domingo na cama ao lado da pessoa que amamos, ou uma tarde preguiçosa de sexta-feira quando apenas você, um livro e uma taça de vinho estão em casa, nem o abraço do sobrinho que aparece para visitar sem avisar, muito menos os seis ovos do omelete que ele pede para que você faça porque foi invadido por uma fome súbita e o omelete de um jovem faminto de 20 anos leva seis ovos. Não se acumulam carinho, gentileza, atenção. Essas são práticas diárias, que exigem algum esforço e muita disciplina. Odiar é fácil; o difícil, nessa vida tão corrida, é exercer afetos, pois fazer isso exige entrega e foco.
Não se acumulam também os minutos de meditação ou as práticas matinais de ioga vendo o dia nascer, não se acumula sequer consciência, porque essa, devidamente trabalhada, se expande. Mas ódio se acumula. Amargura se acumula. Rancor também. E o acúmulo é justamente o que mata o acumulador de forma lenta e esgarçada.
Tudo o que importa dura um instante. Tudo o que importa, como aquele olhar que a eleitora do presidente eleito e eu trocamos, dura um segundo. Desvendar o eterno no agora talvez seja o grande segredo, o sentido do que estamos fazendo aqui mergulhados nesse caos, a serviço de coisas que não nos fazem bem, não nos aproximam, não nos elevam.
Em tempos tão estranhos e sombrios, fiquemos com a palavra do poeta: "Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo. Sou um apanhador de desperdícios; amo os restos". Manoel de Barros.
Que os orixás nos afastem de tanto ódio e nos ajudem a encontrar o caminho do afeto, do amor, da solidariedade, da justiça social e da liberdade, do único tipo de liberdade que importa: aquela que enxerga o outro. Porque só seremos livres quando todos forem livres. Nesse mundo, ninguém existe sozinho. Ninguém. Que consigamos então, como sugere o poeta, cuidar de nossos restos, que consigamos apanhar nossos desperdícios e fazer com eles, e deles, o amanhã.
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"Desvendar o eterno no agora talvez seja o grande segredo, o sentido do que estamos fazendo aqui mergulhados nesse caos, a serviço de coisas que não nos fazem bem, não nos aproximam, não nos elevam.", diz Milly Lacombe.
Colocarmo-nos a serviço de coisas que não nos fazem bem, não nos aproximam, não nos elevam! Será que é difícil enxergar nessa estúpida prática a origem da cultura de ódio que assola este planeta?
"O ódio, que tantas coisas pode destruir, nunca falhou em destruir o homem que odeia, e essa é uma lei imutável. Acho que um dos motivos pelos quais as pessoas se agarram a seus ódios tão teimosamente é porque, de certa forma, se o ódio for embora elas serão forçadas a lidar com suas dores.", disse o escritor americano James Baldwin, conforme citado no texto de Milly.
"Temos uma multidão de pessoas se autodestruindo, e destruindo tudo ao redor. Como vamos interromper essa avalanche de ódio para finalmente começar a lidar com as nossas dores?", indaga Milly Lacombe. Indagação para a qual enxergo, no próprio texto de Milly, o início da resposta. Qual é a primeira coisa a fazer para interromper essa avalanche de ódio?
Incluir nos nossos pedidos o que Milly pede no dela: "Que os orixás (ou aqueles a quem costumamos fazer pedidos) nos afastem de tanto ódio e nos ajudem a encontrar o caminho do afeto, do amor, da solidariedade, da justiça social e da liberdade, do único tipo de liberdade que importa: aquela que enxerga o outro." Pedido por ela justificado assim: "Porque só seremos livres quando todos forem livres. Nesse mundo, ninguém existe sozinho. Ninguém." Será que faz sentido discordar do pedido e da justificativa de Milly Lacombe?
O que mais precisa ser feito para concluir minha resposta à indagação de Milly? Após ter encontrado o caminho do afeto, do amor, da solidariedade, da justiça social e da liberdade, aplicar à nossa vida dois ensinamentos passados pelo personagem Morpheus no primeiro filme da trilogia Matrix. O primeiro: há uma grande diferença entre saber qual é o caminho e percorrer o caminho. O segundo: mostrar-nos o caminho é algo que alguém pode fazer; percorrer o caminho é algo que tem que ser feito por cada um de nós.
Dito isso, deixo-lhes a seguinte pergunta: - Qual é a resposta de vocês à indagação de Milly Lacombe?

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

O poder criador

Prosseguindo com a ideia de publicar postagens que possam estimular mudanças comportamentais no próximo ano, após uma postagem mostrando - O que faz um indivíduo ser o que é - e uma defendendo a ideia que perguntar-se - Quem se quer ser - é mais importante que perguntar-se - O que se quer ser -, segue uma postagem alertando contra um equívoco cometido pela imensa maioria dos integrantes da pretensa espécie inteligente do universo. Qual é o equívoco? Entregar a outros o poder de criar o que desejamos. O texto apresentado a seguir foi encontrado no livro intitulado O grande livro do Ho'oponopono - Sabedoria Havaiana de Cura, de autoria de Jean Graciet, Dr. Luc Bodin e Nathalie Bodin, publicado originalmente em 2012 e, no Brasil, em 2016.
O poder criador
Gandhi dizia: "Seja a mudança que você quer ver no mundo". Isso porque, como o mundo não passa de um reflexo do que nós somos, quando nos transformamos, o mundo se transforma. O mundo somos nós.
Quando acontece algo desagradável na sua vida, o que você faz instintivamente? Procura, no mundo exterior, um culpado, alguém que você possa acusar. Isso parece tão óbvio que você nem se pergunta se é verdade ou não: já que a coisa aconteceu fora de você, o culpado também está no mundo exterior.
Aliás, os que governam incitam você a olhar para o lado de fora o tempo todo. Isso o leva a se enxergar como vítima e considerar que o perigo sempre vem de fora. Cada um se desresponsabiliza de tudo, e é assim que, por causa de fatos insignificantes, o médico, o professor dos filhos, o chefe ou o vizinho são processados na justiça. Na área da saúde, encontram-se bodes expiatórios bastante práticos, tais como os vírus, o tabaco, a poluição e várias outras coisas. As religiões já trilharam o caminho há muito tempo, inculcando-lhe a ideia de que você é pecador de nascença e vive sob o olhar inquisidor de um deus impiedoso, pronto para puni-lo.
Desde o nascimento, o arquétipo de vítima fica bem arraigado em você, o que vem a calhar aos negócios dos poderes exteriores, sejam eles políticos ou religiosos. Porém, ao continuar procurando o responsável pelo seu desagrado fora de você, o que acontece? Você abre mão do seu próprio poder! Como o responsável está em outro lugar, você concede a ele o seu poder e não controla mais a sua vida.
Conclusão: se um agente exterior é culpado do seu infortúnio, então ele tem todo o poder sobre você! Pois bem, entregar o poder nas mãos dos outros é o que fazemos constantemente a vida inteira.
De fato, para nós é muito mais fácil jogar a responsabilidade nas costas dos outros e assumir o papel de vítima, tão mais confortável! E, no entanto, não! Aconteça o que acontecer, você não é vítima, aliás, nunca foi - você é somente criador de 100% de tudo o que lhe acontece.
A esta altura, você com certeza está pensando: "Se eu sou responsável pela situação que está me incomodando, como vou resolvê-la?" Se você aceitar que é criador de tudo o que lhe acontece, poderá mudar a sua realidade. A partir desse momento, você reconquista o seu poder, pois considera que ninguém mais, além de si mesmo, é responsável pelo que lhe acontece. Não é mais culpa dos outros, que só interferem na sua vida para lhe mostrar o que há a mudar e melhorar em você.
Quando surge um problema na sua vida, será que a solução dele está fora de você, no mundo exterior? Se você quiser que tal problema deixe de existir, será que deve tentar mudar os outros, que, segundo você, são as causas do problema que o está atrapalhando?
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"Gandhi dizia: 'Seja a mudança que você quer ver no mundo'. Isso porque, como o mundo não passa de um reflexo do que nós somos, quando nos transformamos, o mundo se transforma. O mundo somos nós.", eis o primeiro parágrafo do texto apresentado acima. E ao ler "O mundo somos nós.", o método das recordações sucessivas faz-me lembrar um livro composto de oito palestras de Jiddu Krishnamurti (1895 – 1986), publicado em 1972, sob o título O mundo somos nós, e do qual extraí a seguinte passagem.
"A sociedade em que vivemos é o resultado do nosso estado psicológico. A sociedade é nós próprios, o mundo é nós próprios – este mundo não é diferente de nós. Assim como somos assim fazemos o mundo, porque estamos confusos, porque somos ambiciosos, ávidos, à procura de poder, de posição, de prestígio. Somos agressivos, desumanos, competitivos, e damos origem a uma sociedade igualmente desumana, competitiva e violenta. Parece-me, pois que a nossa responsabilidade é primeiro compreendermo-nos a nós mesmos, porque nós somos o mundo.".
Compreendermo-nos a nós mesmos, eis a nossa primeira responsabilidade, diz Krishnamurti. E sobre o modo como chegaremos a tal compreensão, eis o que ele diz:
"É muito importante aprender acerca de nós próprios, não segundo algum especialista, mas aprender por uma verdadeira observação de nós mesmos. E descobriremos assim que somos o mundo: os ódios, o nacionalismo, o sectarismo religioso, o homem que crê em certas coisas e descrê de outras, o homem que tem medo, e assim por diante.".
Dispormo-nos a "Aprender acerca de nós próprios", e do mundo à nossa volta, eis uma atitude imprescindível para enxergarmos corretamente, e, consequentemente, conseguirmos solucionar o problema fundamental deste insano mundo em que sobrevivemos.
"Quando observamos o mundo atual à nossa volta e em nós mesmos, que problema é que vemos? Será um problema econômico, racial, brancos e negros uns contra os outros, tal como os comunistas e os capitalistas, uma religião em oposição à outra religião – é esse o problema? Ou ele é muito mais vasto, muito mais profundo, um problema psicológico? Com certeza não se trata meramente de uma questão exterior, mas muito mais um problema interior.", diz Krishnamurti.
"Com certeza não se trata meramente de uma questão exterior, mas muito mais um problema interior.", afirma Krishnamurti referindo-se ao problema fundamental do mundo em que vivemos. Problema que, considerando que "o mundo somos nós", na verdade, é o problema que cabe a todos e a cada um de nós solucionar. Problema cuja solução, segundo Krishnamurti, requer uma revolução. Uma revolução que ele descreve assim:
"A única revolução 'não poderá acontecer por intermédio de outrem ou de qualquer livro ou organização. Terá de acontecer por nós, por cada um de nós. Só então poderemos criar uma nova sociedade, uma nova estrutura, em que não seja possível a existência deste horror que nos rodeia, em que não haja lugar para estas gigantescas forças destruidoras, que se estão a acumular', diz Krishnamurti.
Dito isto, encerrando esta postagem cuja intenção é estimular mudanças comportamentais no próximo ano, sugiro-lhes refletirem sobre as duas indagações que encerram o texto apresentado no início desta postagem.
"Quando surge um problema na sua vida, será que a solução dele está fora de você, no mundo exterior? Se você quiser que tal problema deixe de existir, será que deve tentar mudar os outros, que, segundo você, são as causas do problema que o está atrapalhando?"