segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Quem planta tâmaras não colhe tâmaras

Prosseguindo com as postagens "agrícolas", após Valeu a intenção da semente, segue Quem planta tâmaras não colhe tâmaras. Inspiradas na agricultura, algumas metáforas foram criadas com a intenção de levar os integrantes da pretensa espécie inteligente do universo a agirem de maneira mais sábia ao longo de sua trajetória por essa coisa denominada vida. Apresentadas em algumas diferentes versões, existem duas bastante conhecidas sobre as quais considero conveniente falar antes de focalizar a que empresta título a esta postagem.
Dizendo que "Aquilo que semearmos é o que vamos colher", a primeira adverte-nos para a importância de sabermos escolher o que semear. Dizendo que "A semeadura é opcional, mas a colheita é obrigatória.", a segunda adverte-nos quanto à imprescindibilidade de pensar bem antes de decidir se semearemos ou não.
Advertências que, estupidamente, negligenciadas fazem com que a espécie supracitada siga pela vida semeando uma série de coisas nocivas das quais germinarão inúmeros males dos quais ela tanto reclama como se nada tivesse a ver com a sua criação. Negligências que a levam a validar constantemente uma afirmação feita em uma belíssima canção da Legião Urbana: "nos perderemos entre monstros da nossa própria criação".
E "perdida entre monstros da sua própria criação", ao equívoco de semear coisas que contribuem para piorar o mundo em que vive, provocado pela negligência em relação às duas metáforas já citadas, em uma clara manifestação de desconhecimento ou de interpretação equivocada de outra metáfora, a dita espécie acrescenta a sua vida um novo equívoco: deixar de semear coisas das quais apenas as futuras gerações poderão tirar proveito. A que metáfora eu me refiro? A expressa em um antigo ditado árabe: "Quem planta tâmaras não colhe tâmaras"
Que ditado estranho! Se "Aquilo que semearmos é o que vamos colher", que história é essa de que "Quem planta tâmaras não colhe tâmaras"?! Em que se fundamenta essa estranha metáfora? No fato de que, antigamente, as tamareiras levavam de 80 a 100 anos para produzir os primeiros frutos. Ou seja, quem plantava uma tamareira não vivia tempo suficiente para colher tâmaras da árvore que plantara. É! A explicação elimina a estranheza citada acima, mas provoca outra. Qual? Se as pessoas não vivem tempo suficiente para colher tâmaras como se explica a existência de tâmaras? Afinal, segundo uma egoística lógica vigente nesta civilização (sic), por que alguém perderia seu tempo plantando o que não vai colher? Para responder esta indagação e tentar eliminar a nova estranheza, segue uma curta história sobre a plantação de tâmaras.
Conta-se que, certa vez, um senhor de idade avançada plantava tâmaras no deserto, quando um jovem o abordou perguntando:
– Por que o senhor perde seu tempo plantando o que não vai colher?
O senhor olhou nos olhos do jovem e, calmamente, respondeu:
– Se todos pensassem como você, ninguém colheria tâmaras.
E tome estranheza, hein! Um senhor de idade avançada plantando o que não vai colher! Um senhor de idade avançada, e de ideias idem, não? Será que existe ideia mais avançada do que plantar para que aqueles que nos sucedam tenham o que colher? Será que existe ideia mais avançada do que trabalhar não apenas para si próprio, mas também em prol das gerações futuras. Um senhor de idade avançada que, quem sabe, tenha conseguido lançar no coração de um jovem as sementes das avançadas ideias que já germinaram no seu. Um senhor de idade avançada cujo modo de pensar me faz lembrar algo dito por outro no primeiro parágrafo de uma reportagem-entrevista publicada na edição 268 da revista Trip em agosto de 2017 com o título O mais indignado dos discursos e espalhada por este blog em 13 de outubro de 2017.
"Todos nós sabemos que vamos morrer, mas também sabemos que não nascemos para morrer, nascemos para continuar.", é uma frase do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, 88 anos, dita no filme Tudo é projeto, obra da cineasta Joana Mendes da Rocha, sua filha. A ideia da vida continuada vem da escola de filosofia de Frankfurt, Paulo explica, emendando por que acha o conceito fascinante: para ele, a reflexão da escola alemã fala a respeito de nossa infinita capacidade de transmitir conhecimento. "Só isso explica por que ainda estamos aqui", diz um dos arquitetos mais premiados do mundo.
"'Todos nós sabemos que vamos morrer, mas também sabemos que não nascemos para morrer, nascemos para continuar'. (...) 'Continuar devido a nossa infinita capacidade de transmitir conhecimento'. (...) 'Capacidade essa que fundamenta a única explicação por que ainda estamos aqui'", eis algumas das avançadas ideias que o premiado arquiteto Paulo Mendes da Rocha, aos 88 anos, pretende seguir praticando e defendendo, como é dito no último parágrafo da reportagem-entrevista já citada. Vocês concordam que as ideias de Paulo Mendes da Rocha o identificam perfeitamente com o senhor de idade avançada que plantava tâmaras no deserto?
Das palavras de Paulo Mendes da Rocha discordo apenas das seguintes: "Todos nós sabemos que (...)". Não, nem todos sabem o que ele e o senhor de idade avançada que plantava tâmaras no deserto sabem, pois a maioria ainda identifica-se com o jovem que questionara o senhor quanto a uma ação que julgara desprovida de sentido. E é por isso que a metáfora que intitula esta postagem, a história do senhor com idade avançada que plantava tâmaras e as avançadas ideias delas derivadas precisam continuar sendo espalhadas nesta civilização (sic) onde, diante de algo que precisa ser feito, a maioria reage assim: o que é que eu ganho com isso? Ou seja, onde, infelizmente, a maioria ainda pensa apenas em si e age de forma simplesmente oposta a dos plantadores de tâmaras.
Plantadores de tâmaras! Será que é possível construir algo que faça jus ao termo civilização sem contar com uma quantidade considerável de indivíduos dotados da mentalidade dos plantadores de tâmaras? No meu entender, não. Portanto, que tal passarmos a viver em conformidade com tal mentalidade? Que tal tornar-se um plantador de tâmaras?

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Reflexões provocadas por "Valeu a intenção da semente"

"Seu problema é que você só olha para a meta, mas esquece da caminhada. Tenha menos ansiedade e observe as coisas a sua volta. (...) Se você só olhar o fim, pode até chegar nele, mas não vai ter aprendido nada que o caminho pode oferecer".
Dizendo não lembrar se as palavras foram exatamente essas, Rafael Martí diz ser essa uma lição inesquecível que lhe foi oferecida pelo editor do jornal Essência Vital, e acrescenta. "Naquele momento, embora minha mente racional tenha compreendido sobre a necessidade de desacelerar meu tempo, eu não tinha efetivamente colocado em prática esse ensinamento. Ele ficou guardado durante alguns anos" até começar a ser colocada em prática.
Será que, mais do que uma lição inesquecível a ser gravada em sua mente racional, as palavras do editor podem ser interpretadas como uma semente esperançosa lançada no coração de um jovem jornalista no momento em que seus caminhos se encontraram? Será que o editor de um jornal intitulado Essência Vital acreditava que, se nada mais resultar da ação de semear algo que preste, pelo menos, dela valerá a intenção da semente? No meu entender, sim. Por que será que sempre vale a intenção da semente? Em resposta a esta questão segue o último parágrafo do maravilhoso texto de Rafael.
"Porque o que queremos é um mundo melhor. Mas se ele não for o melhor dos mundos, pelo menos estaremos nos dedicando a esse ideal com afinco. Afinal, como diria o saudoso Henfil, irmão do Betinho: 'Se não houver frutos, valeu a beleza das flores. Se não houver flores, valeu a sombra das folhas. Se não houver folhas, valeu a intenção da semente'."
Embora seja intitulado Valeu a intenção da semente e com essa afirmação seja encerrado, como se pode perceber desde o primeiro parágrafo, o texto de Rafael Martí tem como tema o caminhar.
"Sobre a caminhada muitos poetas escreveram. Eu gosto muito de uma música do Almir Sater na qual ele diz: 'ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais'. Em poucos versos de nossa língua um autor conseguiu ser tão profundo em tão poucas palavras. Todos nós somos apressados. E um dia chegaremos à sabedoria de andar devagar apenas para observar o caminho, sem nos preocupar com o fim em si mesmo, mas com a qualidade dos nossos passos até o ponto de chegada.", diz Rafael.
Também gosto muito da música citada por Rafael e concordo com quase tudo que é dito no parágrafo anterior. De que discordo? De que "Todos nós somos apressados". Afinal, se já existe quem "ande devagar porque já teve pressa", nem todos são apressados, não é mesmo? Mas é fato que a imensa maioria é apressada.
"Outro verso que me encanta é do poeta espanhol Antonio Machado. 'Caminhante não há caminho. Se faz o caminho ao caminhar.'. Esses versos mostram que muitas vezes o fim traçado se modifica com a nossa jornada. É fundamental que caminhemos com honestidade e amor ao caminho. Porque o fim dele não nos pertence."
"Mas sem dúvida alguma a frase mais perfeita sobre isso é de Mahatma Gandhi. Ele disse certa vez que 'a felicidade estava na luta e não na conquista em si. Por isso sacrifício total é vitória total'. Foi quando li essa frase que minha ficha caiu. Os fins não justificam os meios como diriam os maquiavélicos de plantão, mas os meios devem estar em sintonia com os fins. E mais do que isso. Se não alcançarmos a meta, ao menos que nos dediquemos a ela com toda nossa energia e amor."
Também extraídos do texto de Rafael, os dois parágrafos acima são aqui reproduzidos com a finalidade de "explicar" uma compilação feita com a intenção de associá-la a algo marcante que ouvi em um filme que assisti em 1992 (faz tempo, hein!) e que jamais esqueci.
"'Caminhante não há caminho. Se faz o caminho ao caminhar.' (...) 'muitas vezes o fim traçado se modifica com a nossa jornada. É fundamental que caminhemos com honestidade e amor ao caminho. Porque o fim dele não nos pertence.' (...) 'a felicidade estava na luta e não na conquista em si. Por isso sacrifício total é vitória total'. (...) 'Os fins não justificam os meios como diriam os maquiavélicos de plantão, mas os meios devem estar em sintonia com os fins. E mais do que isso. Se não alcançarmos a meta, ao menos que nos dediquemos a ela com toda nossa energia e amor'."
Será que é possível enxergar na compilação apresentada no parágrafo anterior alguma relação com o que no filme intitulado Cidade da Esperança é dito ser o Canto de Guerra Suaile: "Só a luta dá sentido à vida. O triunfo ou a derrota estão nas mãos dos deuses. Festejemos a luta!". Os grifos são meus e foram feitos com a intenção de facilitar a visão da relação que eu enxergo entre as palavras de Rafael Martí, as de Mahatma Gandhi e as do Canto de Guerra Suaile.
Entendendo que uma das melhores maneiras de assimilar algo novo que se ouça ou que se leia é fazendo associações com coisas anteriormente assimiladas, recorrer ao método das associações sucessivas é algo que faço o tempo todo, conforme já deve ter sido percebido por quem já tenha lido uma quantidade considerável de postagens deste blog. Sendo assim, segue uma associação que, no meu entender, eu não deveria deixar de compartilhar com vocês nesta postagem.
"O que educa uma criança é o caminho da escola, nem tanto a escola em si.", diz o premiado arquiteto e urbanista Paulo Mendes da Rocha, em uma reportagem-entrevista intitulada O mais indignado dos discursos, espalhada por este blog em 13 de outubro de 2017. "Se você só olhar o fim, pode até chegar nele, mas não vai ter aprendido nada que o caminho pode oferecer", diz Rafael Martí em um texto intitulado Valeu a intenção da semente, espalhado pela postagem anterior. Vocês concordam que as duas afirmações têm tudo a ver?
Em um texto cujo tema é o caminhar, originalmente publicado na edição de julho de 2006 da revista Mandala, onde Rafael Martí mantinha uma coluna, ele faz a seguinte afirmação:
"E aqui estou eu. Por isso que o nome dessa coluna é Caminhando. Nesse espaço nossa intenção é compartilhar com o leitor um modo mais lúdico de ver o mundo. Sem tanta pressa e com muita utopia."
Em uma postagem provocada pelo texto de Rafael Martí, publicada recentemente em um blog intitulado Espalhando ideias, parafraseando sua afirmação, digo o seguinte:
"E aqui estou eu. Por isso que o nome deste blog é Espalhando ideias. Nesse espaço minha intenção é compartilhar com o leitor um modo mais consciente de ver o mundo. Sem tanta pressa e com muita utopia."
"Sem tanta pressa e com muita utopia."! Será que são essas as condições imprescindíveis para o plantio de tâmaras? Plantio de tâmaras?! Que conversa estranha é essa?! Na postagem anterior, Valeu a intenção da semente. Nesta, essa estranha história de plantio de tâmaras. Será que este blog está sendo transformado em um blog agrícola? Será que em vez de Espalhando ideias ele terá seu nome mudado Semeando ideias? Será que espalhando e semeando têm alguma coisa a ver? Será que a próxima postagem será inspirada em um antigo ditado árabe que diz que Quem planta tâmaras não colhe tâmaras?
"Sem tanta pressa e com muita utopia", quem viver e continuar visitando este blog, a partir da próxima segunda-feira saberá. Evidentemente, se até lá o blogueiro também ainda estiver nesta dimensão. Afinal, como é dito no texto de Rafael Martí, "o fim do caminho não nos pertence", por mais sinistra que possa lhes parecer tal afirmação.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Valeu a intenção da semente

O texto apresentado a seguir foi publicado na edição de julho de 2006 da revista Mandala. Assinado por Rafael Martí e intitulado Valeu a intenção da semente, classifico-o como um texto que o passar do tempo não consegue desatualizar. Hoje, a revista Mandala é encontrável em WWW.revistamandala.com.br.
Valeu a intenção da semente
Um dia, estava conversando com o editor do saudoso jornal Essência Vital, primeiro periódico onde trabalhei, sobre planos para o futuro e ele encerrou nossa conversa com uma lição a qual nunca mais esquecerei. Disse ele: "Rafael, seu problema é que você só olha para a meta, mas esquece da caminhada. Tenha menos ansiedade e observe as coisas a sua volta. Veja as belezas do caminho, as flores, espinhos, pedras, pássaros. Se você só olhar o fim, pode até chegar nele, mas não vai ter aprendido nada que o caminho pode oferecer".
Não lembro se as palavras foram exatamente essas. Mas com certeza a lição foi aprendida em sua essência. Eu precisava deixar a ansiedade de lado e aprender a caminhar. Naquele momento, embora minha mente racional tenha compreendido sobre a necessidade de desacelerar meu tempo, eu não tinha efetivamente colocado em prática esse ensinamento.
Ele ficou guardado durante alguns anos até hoje. Não que hoje eu seja um monge zen, capaz de meditar por horas seguidas e não me importar com o trânsito louco, o vizinho que coloca aquele funk no último volume ou aquele chefe que você jura que não regula bem da cabeça. Mas pelo menos hoje eu consigo perceber que essas pedras são partes integrantes da paisagem, da qual também fazem parte o sorriso da mulher amada, o riso com os companheiros de jornada, o gorjear dos pássaros, o pôr do sol. Logo, devemos, e isso estou aprendendo a duras penas, aceitar as rosas com os espinhos, ou a vida do jeito que ela é.
Agindo assim, o fim não perde sua importância. Ainda traçamos metas e as buscamos. Mas como o término da jornada não depende só de nós, mas também das circunstâncias nas quais estamos imersos, a felicidade passa a ser algo tangível quando estamos mais preocupados com nosso presente do que com um futuro distante.
Sobre a caminhada muitos poetas escreveram. Eu gosto muito de uma música do Almir Sater na qual ele diz: "ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais". Em poucos versos de nossa língua um autor conseguiu ser tão profundo em tão poucas palavras. Todos nós somos apressados. E um dia chegaremos à sabedoria de andar devagar apenas para observar o caminho, sem nos preocupar com o fim em si mesmo, mas com a qualidade dos nossos passos até o ponto de chegada.
Outro verso que me encanta é do poeta espanhol Antonio Machado. "Caminhante não há caminho. Se faz o caminho ao caminhar.". Esses versos mostram que muitas vezes o fim traçado se modifica com a nossa jornada. É fundamental que caminhemos com honestidade e amor ao caminho. Porque o fim dele não nos pertence.
Mas sem dúvida alguma a frase mais perfeita sobre isso é de Mahatma Gandhi. Ele disse certa vez que "a felicidade estava na luta e não na conquista em si. Por isso sacrifício total é vitória total". Foi quando li essa frase que minha ficha caiu. Os fins não justificam os meios como diriam os maquiavélicos de plantão, mas os meios devem estar em sintonia com os fins. E mais do que isso. Se não alcançarmos a meta, ao menos que nos dediquemos a ela com toda nossa energia e amor.
E aqui estou eu. Por isso que o nome dessa coluna é Caminhando. Nesse espaço nossa intenção é compartilhar com o leitor um modo mais lúdico de ver o mundo. Sem tanta pressa e com muita utopia.
Porque o que queremos é um mundo melhor. Mas se ele não for o melhor dos mundos, pelo menos estaremos nos dedicando a esse ideal com afinco. Afinal, como diria o saudoso Henfil, irmão do Betinho: "Se não houver frutos, valeu a beleza das flores. Se não houver flores, valeu a sombra das folhas. Se não houver folhas, valeu a intenção da semente".
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Se, como é afirmado no parágrafo acima, "o que queremos é um mundo melhor", será que ao publicar seu maravilhoso e atemporal texto a intenção do autor foi lançar algumas sementes capazes de fazerem brotar em nós a vontade de cooperar na construção de tal mundo? Será que refletir sobre o que é dito no texto poderá contribuir para a germinação das sementes?

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Reflexões provocadas por "Criança precisa caminhar pela cidade para ser cidadã"

"A vida isolada é a vida egoísta, a vida selvagem; a vida em comum é a vida moral, que faz nascer o direito e o dever, a única para a qual o homem foi criado, na qual pode desenvolver suas faculdades, descobrir as leis de justiça que regem as sociedades e os mundos.", diz Léon Denis em um livro intitulado O Progresso. "Cidadão: indivíduo no gozo de seus direitos civis e políticos de um Estado, ou no desempenho de seus deveres para com este.", diz um antigo dicionário Aurélio que me foi presenteado pelo ex-colega de trabalho e amigo Ricardo Wilson. Os grifos são meus.
"Hoje em dia a rotina das crianças é o que eu chamo de caixinhas. Está na caixinha que é a casa, entra na caixinha com rodas que é o carro ou a van, vai para a escola, que é a caixa maior, e geralmente só tem dez minutos para lanche e dez para brincar. Aí ela volta para casa e não sai, porque é perigoso ou por falta de opção.", diz a arquiteta e urbanista Irene Quintáns na reportagem-entrevista espalhada pela postagem anterior.
À luz do que é dito nos dois parágrafos acima, será que faz sentido dizer que, hoje em dia, as crianças são tratadas como cidadãs? Será que para, acertadamente, serem classificadas como cidadãs é preciso que elas caminhem pela cidade, como defende Irene Quintáns? Será que "Uma criança que não anda não convive com moradores de rua, com situações e pessoas de cores diferentes", pode ser considera cidadã? O que vocês acham?
"Um dia eu caminhava com o meu filho e ele deu um sorrisão para um morador de rua e falou 'bom dia!'. Como você vai fazer esse tipo de construção social se você é transportado de uma caixa para outra?", diz a arquiteta e urbanista, contando um episódio, que remete a algo defendido na primeira frase desta postagem: a vida em comum. A vida em comum que leva ao pertencimento.
"É superimportante tratar o tema do pertencimento. Se ela (a criança) não se sente pertencente ao seu bairro, à cidade, como é que você vai ensinar coisas do tipo 'não se joga lixo na rua'? Através do tablet?", questiona Irene Quintáns fazendo-me lembrar a seguinte passagem do documentário "O Começo da Vida", lançado em 5 de maio de 2016.
"Uma das grandes solidões do mundo contemporâneo é a perda de comunidade. Perdemos esse sentido comunitário, a criança precisa disso. Ela precisa de crianças, ela precisa de pessoas, não só quando falta alguém da família, mas como um acréscimo; ela precisa dessa ampliação. Isso muda tudo. Cada criança pertence à comunidade, pertence, na verdade mesmo, pertence à humanidade inteira.", diz Severino Antônio, Ph.D., educador e escritor.
E de lembrança em lembrança, ele, sempre ele, o método das recordações sucessivas leva-me a comparar as duas seguintes afirmações:
"Uma coisa que eu não gosto é que as pessoas falam: a criança é o cidadão do futuro. Não, ela é um cidadão de hoje, de ontem e de amanhã.", diz a arquiteta e urbanista espanhola Irene Quintáns.
"'Crianças não são o futuro. Crianças são o presente' ... precisamos dizer a elas que são o presente, que podem fazer do mundo um lugar melhor hoje mesmo.", diz a designer indiana Kiran Sethi.
Vocês concordam que Irene Quintáns e Kiran Seth dizem a mesma coisa? Conseguem concordar com elas?
"Existem, em vários países, projetos de multas cidadãs. As crianças saem para as ruas com umas multas e, se um carro está estacionado na calçada, por exemplo, ela põe o papel, que diz: 'Você estacionou em um dos poucos lugares onde eu posso estar, por favor não faça mais. Assinado, Pedrinho, de 8 anos'.", diz Irene Quintáns em "Criança precisa caminhar pela cidade para ser cidadã.".
"Quando conseguimos estabelecer a mentalidade da capacidade de transformação desde a infância, as pessoas passam a se preparar desde cedo para viver em um mundo melhor, e não para prepará-lo no futuro.", diz Kiran Sethi em 'Crianças não são o futuro. Crianças são o presente'.
Vocês concordam que, mais uma vez, Irene Quintáns e Kiran Sethi dizem a mesma coisa?
Encerrando esta sequência de postagens que entre suas intenções inclui a semeadura da imprescindibilidade de oferecermos às crianças a oportunidade de cooperarem na construção de um mundo melhor, um mundo onde, pela ordem natural das coisas, elas passarão um tempo maior do que nós, esta postagem é encerrada com a seguinte mensagem. Espalhar sementes de um mundo melhor é algo que devemos fazer sempre, pois, mesmo que nós não cheguemos a colher algum fruto, creio que a simples intenção da semente já terá valido a pena.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Criança precisa caminhar pela cidade para ser cidadã

Prosseguindo com a prática de sequenciar postagens que apresentem alguma relação entre elas, após uma em que um premiado arquiteto e urbanista brasileiro diz que "O que educa uma criança é o caminho da escola, nem tanto a escola em si.", segue uma em que uma arquiteta e urbanista espanhola diz que "Criança precisa caminhar pela cidade para ser cidadã". Assinada por Júlia Barbon, a reportagem-entrevista que originou a postagem foi publicada na edição de 20 de junho de 2017 do jornal Folha de S.Paulo.
Criança precisa caminhar pela cidade para ser cidadã
Hoje crianças são transportadas 'de uma caixa para outra' e não vivenciam nem aprendem com as ruas, afirma urbanista
Lugar de criança também é na rua. Inserir essa ideia na cabeça dos brasileiros tem sido a missão da espanhola Irene Quintáns, 38, nos últimos anos. Moradora de São Paulo desde 2011, a arquiteta e urbanista defende que os próprios pés sejam o meio de transporte dos alunos até a escola, substituindo os carros. E argumenta que dá, sim, para fazer isso na capital paulista. Hoje consultora freelancer, Quintáns já trabalhou como técnica nas prefeituras de Barcelona e de São Paulo. Veio ao país para acompanhar o marido brasileiro. Há quatro anos, criou o site Red Ocara, em que compila projetos de mobilidade infantil pela América Latina. É mãe de dois meninos, de sete e quatro anos.
Para a entrevista, escolheu uma cafeteria na região central da cidade com mesas na rua – "uma mistura do público com o privado", destaca com seu sotaque espanhol.
Folha – Por que defender que a criança ande até a escola?
Irene Quintáns – O caminho para a escola é um trajeto que todas elas fazem, e fazem todos os dias. É o seu contato mais próximo com a cidade. Hoje em dia a rotina das crianças é o que eu chamo de caixinhas. Está na caixinha que é a casa, entra na caixinha com rodas que é o carro ou a van, vai para a escola, que é a caixa maior, e geralmente só tem dez minutos para lanche e dez para brincar. Aí ela volta para casa e não sai, porque é perigoso ou por falta de opção. Nessa rotina ele só teve dez minutos livre, o que traz muitos problemas.
Quais?
O primeiro é o sedentarismo, que traz sobrepeso. A criança que é sedentária e tem má alimentação pode ter diabetes. Ela também não recebe luz solar, que é importante para o sistema imunológico. Então só caminhar já ajuda muito na parte da saúde. Um estudo feito na Dinamarca viu ainda que as crianças que iam a pé ou de bicicleta para a escola tinham mais concentração para desenvolver atividades complexas.
E ainda tem a ver com preconceito. Uma criança que não anda não convive com moradores de rua, com situações e pessoas de cores diferentes. Um dia eu caminhava com o meu filho e ele deu um sorrisão para um morador de rua e falou 'bom dia!'. Como você vai fazer esse tipo de construção social se você é transportado de uma caixa para outra?
Como a criança pode ser um ator social na cidade?
É superimportante tratar o tema do pertencimento. Se ela não se sente pertencente ao seu bairro, à cidade, como é que você vai ensinar coisas do tipo 'não se joga lixo na rua'? Através do tablet?
Uma coisa que eu não gosto é que as pessoas falam: a criança é o cidadão do futuro. Não, ela é um cidadão de hoje, de ontem e de amanhã.
Muitas vezes as pessoas não levam o tema da criança à sério, então eu trago provas científicas. Os ganhadores do prêmio Nobel de medicina em 2014 viram que, para se orientar, o cérebro humano absorve referências e cria uma grade mental. Se você não anda na cidade, como vai absorvê-las? Em oficinas, quando peço que crianças desenhem o caminho de casa para a escola, é muito clara a diferença. As que vão motorizadas só conseguem desenhar rua, semáforo e carro, já as que vão a pé desenham outros seres humanos, elementos naturais.
O que a criança vê que o adulto não vê?
Elas veem beleza e obstáculos em todo lugar. Um degrauzinho na porta de uma casa para a criança é uma oportunidade para pular, sentar, parar um pouco. Por exemplo, aquelas muretas com elementos pontudos ou com espinha de cristo, aquela planta horrível. Pensa na altura da criança. Se ela vê uma plantinha que machuca, não pode se aproximar, mas se é uma flor, provavelmente ela vai falar 'olha, mãe!'. Às vezes nem é nada tão poético. Choveu muito e um rio se forma na rua. Você adulto, não vai querer pisar nessa água, já as crianças pedem: 'Posso pular?'. De carro não dá, tem que ser a pé.
A partir de qual idade é recomendável que elas saiam a pé?
Quando a criança é pequena, de 5 a 7 anos, aparecem as experiências como o Carona a Pé, do colégio Equipe [projeto em que grupos de crianças vão à escola acompanhados por dois adultos]. Mas meu filho mais velho, por exemplo, acha muito chato. Crianças maiores, de uns 8 a 10 anos, podem ir com os amigos que moram perto.
Além disso, esses projetos de ônibus a pé incentivam que a própria cidade acolha as crianças, com sinalização e até engajando os comércios no caminho, para que ajudem se a criança precisar de algo. Se os pais não largam mão do carro, também não dá para organizar caronas. Você sempre pode pensar em soluções: a pé, de bicicleta, de transporte público e até de carro.
Quais outras cidades com realidades parecidas com a de SP podem servir de exemplo?
Na América Latina, a referência é Bogotá, na Colômbia. Que eu saiba, na região, foi a primeira a implantar o ônibus a pé. Foi em 2010, na periferia barra pesada, onde moram guerrilheiros, com circunstâncias bem difíceis. Se deu certo lá, dá certo em São Paulo. Tem também um em Barranquilha. Isso falando de políticas públicas. Lá eles construíram um BRT, só que naquela avenida tinham 22 escolas, e muitos alunos iam a pé. Vendo isso, eles fizeram tipo um Carona a Pé, inclusive capacitando os professores. São poucos, mas são projetos muito bons. São política pública quase transversal, que toca várias áreas. A Colômbia é muito avançada em temas urbanos.
Como driblar o medo?
"O conceito de medo, segurança, depende muito. Quando fiz um estudo numa escola no Jardim Ângela [zona sul] pelo IVM [Instituto Cidade em Movimento], perto da estrada do M'Boi Mirim, as crianças diziam que o maior medo delas quando andavam era de ser atropelado. Veja só, no bairro considerado o mais perigoso do mundo pela ONU em 1996, o medo é de ser atropelado. É muito fácil falar: 'A criança não pode ir a pé porque é inseguro'. Vamos ver o que contribui para essa sensação. Às vezes os medos são múltiplos, e tem um deles que a engenharia de trânsito pode melhorar facilmente.
A gestão Doria abriu para carros, em alguns domingos, ruas que ficavam abertas só para lazer. Que impacto isso tem?
As ruas abertas trazem um elemento muito importante, que é a proximidade, e são uma pequeníssima contribuição para balancear os espaços da cidade. Existem, em vários países, projetos de multas cidadãs. As crianças saem para as ruas com umas multas e, se um carro está estacionado na calçada, por exemplo, ela põe o papel, que diz: 'Você estacionou em um dos poucos lugares onde eu posso estar, por favor não faça mais. Assinado, Pedrinho, de 8 anos'. Ou seja, as ruas abertas são um desses poucos lugares onde elas podem estar. Quando são fechadas é feio, bem feio.
Temos a Política Nacional de Mobilidade Urbana, de 2012.
Vamos chorar juntas? [risos]
Em que fase de implementação dela estamos?
A lei não tem implementação, mas tem que dar sustento a intervenções e, de fato, ela está aí engavetada. O ponto principal dela é que o pedestre é prioridade absoluta, e o pedestre não é prioridade em nenhuma política pública nesse país. Zero. Ainda assim eu acho a lei supercorajosa. Sabe o que ele fala? Que a distribuição do espaço urbano tem que ser proporcional à distribuição modal do transporte. Isso significa que se só 30% das viagens de São Paulo são feitas de carro, só 30% do espaço urbano teria que estar reservado para carro. Já imaginou?
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Será que vale a pena refletir sobre o que é dito por Irene Quintáns na reportagem-entrevista?