segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Pela janela do Opala da minha mãe

Conforme prometido no antepenúltimo parágrafo da postagem anterior, segue a primeira de duas postagens que pretendem ajudá-los a pensar sobre a existência de uma idade até a qual uma criança ainda não aprendeu a ser cínica. De autoria de Milly Lacombe, o texto apresentado abaixo foi publicado na edição 268 da revista Trip em agosto de 2017.
Pela janela do Opala da minha mãe
Aos olhos de uma criança as injustiças do mundo provocam as únicas reações possíveis: choque e vontade de mudar as coisas. Aos olhos de um adulto, o efeito já não é o mesmo
Eu devia ter uns 7 anos quando enxerguei pela primeira vez uma criança de rua. Estava no banco de trás do Opala azul de minha mãe e vi pela janela um menino que devia ter a minha idade vindo pedir dinheiro. Era um garoto pequeno, magro, de cabelos lisos, pele suja e olhar desesperado. Ainda posso ver seu rosto, a expressão de seus olhos pelo vidro do Opala. Sei exatamente em que esquina estávamos – e até por isso a memória daquele dia volta sempre que passo por lá -, sei que era fim de tarde e sei que fazia frio. Durante as semanas que se seguiram ao encontro, fantasiei com a possibilidade de voltar àquela esquina, reencontrá-lo, convidá-lo a entrar, levá-lo para morar em casa. Ele dormiria no quarto do meu irmão, me parecia bastante óbvio que fosse assim, já que meu irmão dormia sozinho e eu tinha que dividir o quarto com aquelas duas outras meninas que moravam em casa: minhas irmãs caçulas. Lembro de ter dito a minha mãe que queria voltar àquela esquina, ver se o menino ainda estava lá, chamá-lo para morar com a gente. Não lembro da reação dela diante do pedido, mas o fato é que aquele menino e eu nunca mais nos encontramos.
Aos olhos de uma criança as injustiças do mundo provocam as únicas reações possíveis: choque e vontade de mudar as coisas. Aos olhos de um adulto, já completamente inserido nesse mundo maluco e cruel em que vivemos, o efeito já não é o mesmo: "É assim que as coisas são", dizemos a nós mesmos. Mas as coisas não deveriam ser assim, as coisas não poderiam ser assim, e nós não deveríamos nos acostumar que as coisas fossem assim. Essa sociedade adoentada em que vivemos não foi imposta por ordem divina, ela foi criada por cada um de nós, e todas as coisas que homens e mulheres criaram podem ser destruídas, reformadas, renovadas.
Não demora muito para que uma criança privilegiada como aquela que eu fui cresça para ter a convicção de que suas conquistas e sucessos são resultados apenas de mérito e esforço pessoal, e não de vantagens como educação, herança, classe etc. O arranjo social que nos molda é feito para encorajar cada um de nós a acreditar que a desigualdade é aceitável, já que ela recompensa mérito e esforço: as leis do maravilhoso e santificado mercado asseguram que cada um terá o que merece porque o mercado se autorregula e se autocorrige. É assim que a vida daquele menino e a minha passam a ser, sob os olhos de uma instituição que celebra a competição e menospreza a colaboração, justas, explicáveis, adequadas. Privilégio é complicado porque leva o privilegiado a acreditar que sua vantagem na vida foi completamente conquistada e que as desvantagens dos menos afortunados vêm de demérito, ensina Noam Chomsky.
Mas, antes de mais nada, temos que entender para onde esse privilégio que nos dá o direito de consumir e acumular está nos levando, porque nesse corre-corre maluco que estabelecemos e chamamos de vida não há tempo para parar e refletir.
CORRENTE HUMANA
Na França atual, 6 milhões de pessoas, ou 10% da população, acordam sem saber se terão alguma coisa para comer naquele dia. Estamos falando da situação de um dos países mais ricos e romantizados do mundo, e não do Haiti, onde a realidade é imperialmente pior. No riquíssimo Japão, 20 em cada 100 mil pessoas cometem suicídio por ano; no Peru, um país pobre, uma pessoa em cada 100 mil faz a mesma coisa anualmente.
Os efeitos de um sistema baseado na acumulação de riqueza, esse valor contra o qual todos os demais são medidos, como sugeriu a poeta Adrienne Reich há algumas décadas, ferem a todos nós de forma profunda e muitas vezes discreta: impedem questionamentos, castram a imaginação, reduzem complexas relações humanas a uma iconografia barata, produzem surtos de ansiedade, angústia, fobias, solidão.
"Dominamos completamente o planeta não porque somos mais espertos e ágeis do que um chipanzé e sim porque somos a única espécie capaz de uma cooperação flexível e em grande escala", escreve o historiador israelense Yuval Noah Harari em seu Homo Deus. O que nos distingue das demais espécies é, portanto, a capacidade de cooperar, de nos ajudar, de nos organizar, de viver em comunidades.
Clair Patterson é o nome do cientista que em 1956 descobriu a idade da Terra (4,5 bilhões de anos), e, embora ele tenha ficado com o mérito, é folclórico o momento em que Patterson, esperando que o resultado de sua pesquisa fosse confirmado e o elevasse à categoria de imortal, agradeceu nominalmente a todos aqueles geólogos e cientistas que vieram antes dele e cujas pesquisas possibilitaram sua descoberta. É o que fazemos nessa viagem maluca pela Terra: passamos o bastão; colaboramos com os que estão aqui agora, aceitamos a colaboração dos que vieram antes, deixamos alguma algum conhecimento de herança para os que nos substituirão e, especialmente, aprendemos que as mais individuais de nossas conquistas nunca são mérito de nossos esforços e talentos, mas resultado da colaboração de uma comunidade inteira.
Só que o ritmo de vida que criamos estabelece que devemos abrir mão de significado em troca de poder e riqueza. "O credo de [ter] 'mais coisas' impele indivíduos, empresas e governos a descartar tudo o que possa impedir o crescimento econômico, tal como preservar a igualdade social, garantir a harmonia ecológica ou respeitar os pais", escreve Harari. Ele explica que se a ideia é a de fornecer a todos os seres do mundo um padrão de vida semelhante ao do americano abastado, então precisaríamos de outros planetas que pudessem ser explorados e torturados porque este aqui está se esgotando.
O que talvez indique ser essa a hora ideal, se não a última, para que exerçamos uma de nossas liberdades mais poderosas: escolher conscientemente o que tem e o que não tem significado. E quem sabe ao fazermos isso entendamos Belchior: "A minha alucinação é suportar o dia a dia, e meu delírio é a experiência com coisas reais – amar e mudar as coisas me interessa mais".
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Que texto fértil para reflexões!

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Super-heróis contra o cinismo

Após uma postagem encerrada com uma frase de um personagem do filme Harry Potter e o Cálice de Fogo, este blog traz uma contendo trechos de uma reportagem de Elaine Guerini onde são apresentadas algumas afirmações do diretor do filme Valerian e a Cidade dos Mil Planetas que chamaram minha atenção. A referida reportagem foi publicada no suplemento do jornal Valor na edição de 11 de agosto de 2017.
Super-heróis contra o cinismo
Com estilo hollywoodiano, francês Luc Besson adapta HQ de ficção científica "Valerian" para criticar mundo descrente de utopias.
Ser chamado de "o mais hollywoodiano dos diretores franceses" não incomoda Luc Besson, desde que não confundam a sua motivação por trás das câmaras. "Se eu fosse movido apenas por dinheiro, já teria feito pelo menos duas continuações de 'O Profissional' [1994]", diz o cineasta de 58 anos. Em vez de ceder aos pedidos para revisitar a órfã Mathilda, com Natalie Portman adulta, o parisiense resgatou uma história em quadrinhos criada no fim dos anos 60 para assinar o filme mais caro da história da França. Foram consumidos cerca de US$ 180 milhões na adaptação de "Valerian e a Cidade dos Mil Planetas,", a HQ franco-belga que povoou a imaginação de Besson na infância.
(...) "Posso falar do que tenho medo", diz Besson. "O que uma pessoa pode fazer não me assusta. Tenho muito mais medo do risco de a população não fazer nada, achando que os problemas do mundo não são dela. O povo precisa tomar as rédeas da situação e não deixar tudo para o governo resolver."
É por essa linha que segue o casal de protagonistas de "Valerian", que estréia no Brasil nesta semana. Interpretados por Dane DeHaan e Cra Delevingne, eles são agentes especiais vivendo no século XXVIII, quando diversas espécies do universo coexistem na cidade Alpha. Para salvar os habitantes que restaram do planeta Mül, atacado 30 anos antes, a dupla precisa enfrentar regras do governo, investigando o que ocorreu. Há suspeitas do envolvimento dos humanos no episódio que praticamente exterminou os pacíficos moradores de Mül.
"Nós somos o nosso pior inimigo. Nem mesmo depois de duas guerras mundiais, a humanidade ainda não aprendeu isso", afirma Besson, "cansado" de ver os extraterrestres como vilões na maioria das histórias de super-heróis levadas ao cinema. A ideia de supremacia dos EUA, que costuma ser reforçada nesse filão de filmes, também foi rejeitada aqui. "Nada de americano salvando o resto do mundo.". São os mais de 2,7 mil efeitos especiais que aproximam "Valerian das superproduções de Hollywood, além de o filme ter sido rodado em inglês.
"Apontada como uma das inspirações de George Lucas na criação da saga de "Star Wars" (iniciada em 1977), a HQ de "Valerian" ilustra o que Besson chama de "maior erro da humanidade". "A pior coisa que fizemos foi colocar o dinheiro e o lucro em primeiro lugar, deixando as pessoas em segundo. É só recordarmos a falsa alegação de que o Iraque tinha armas de destruição em massa, o que levou à guerra. Ninguém estava preocupado em salvar pessoas, e sim dinheiro."
"A pior coisa que fizemos foi colocar o dinheiro e o lucro em primeiro lugar, deixando as pessoas em segundo", diz o cineasta Luc Besson
Na visão do cineasta, cabe aos artistas a missão de combater a mentalidade vigente, já que a classe política não se importa. "Hoje eu faço filmes na esperança de despertar alguma consciência entre os espectadores. Prefiro ser chamado de ingênuo a enveredar pelo cinismo, um sentimento que está destruindo o planeta", diz Besson, alvo de críticas por "Valerian" incluir clichês no roteiro, como "O destino está em nossas mãos" ou "O amor é mais poderoso que qualquer coisa".
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"Cansado de ver os extraterrestres como vilões na maioria das histórias de super-heróis levadas ao cinema.", o cineasta afirma que "Nós somos o nosso pior inimigo, e que nem mesmo depois de duas guerras mundiais, a humanidade ainda não aprendeu isso". É impressionante! Mas há certas coisas que a dita (bendita ou maldita) espécie inteligente do universo tem uma dificuldade imensa para aprender! Dificuldade que me faz lembrar, mais uma vez, uma frase de uma belíssima canção da Legião Urbana que diz: "Nos perderemos entre monstros da nossa própria criação".
"Nada de americano salvando o resto do mundo.", diz Besson, ainda referindo-se as histórias de super-heróis levadas ao cinema. Até porque, fora dele o que se vê é exatamente o contrário: é americano ferrando (para não usar um verbo mais contundente) o resto do mundo. Sim, é assim que são vistos os demais: apenas um resto cuja finalidade de existir resume-se a contribuir para possibilitar algo que, em um livro intitulado Pnin, o escritor russo Vladimir Nabokov enxerga como a coisa mais cretina e incompreensível já inventada pelo homem - o AWOL – American Way of Life. Literalmente, modo de vida americano.
Modo de vida mantido pelo fomento de guerras pelo mundo afora, pois, como disse o escritor americano Nicholson Baker em uma reportagem-entrevista publicada na edição de 19-20 de setembro de 2004 do Jornal do Commercio, "Os EUA já foram uma nação de consertadores, de inventores, de soldadores de fundo de quintal. Todo mundo sonhava em construir uma bicicleta melhor. Agora nossa única grande indústria é a guerra.". Os grifos são meus.
"O que uma pessoa pode fazer não me assusta. Tenho muito mais medo do risco de a população não fazer nada, achando que os problemas do mundo não são dela. O povo precisa tomar as rédeas da situação e não deixar tudo para o governo resolver.", diz Besson em mais uma afirmação que considero extremamente lúcida e relevante.
A HQ de "Valerian" ilustra o que Besson chama de "maior erro da humanidade". "A pior coisa que fizemos foi colocar o dinheiro e o lucro em primeiro lugar, deixando as pessoas em segundo. É só recordarmos a falsa alegação de que o Iraque tinha armas de destruição em massa, o que levou à guerra. Ninguém estava preocupado em salvar pessoas, e sim dinheiro.", diz Besson fazendo-me retornar ao segundo parágrafo acima. A "falsa alegação" foi apenas um pretexto para "levar à guerra" e consequentemente a estrondosos lucros para a única grande indústria americana.
"Hoje eu faço filmes na esperança de despertar alguma consciência entre os espectadores. Prefiro ser chamado de ingênuo a enveredar pelo cinismo, um sentimento que está destruindo o planeta," diz Besson, alvo de críticas por "Valerian" incluir clichês no roteiro, como "O destino está em nossas mãos" ou "O amor é mais poderoso que qualquer coisa".
Críticas entre as quais incluo uma que li na internet e reproduzo aqui. "O roteiro da aventura espacial parece fruto da mente de um menino de dez anos de idade. Um garoto do século XXI que compreende a relevância de uma personagem feminina forte e é crítico ao consumismo e à ganância, mas não domina construção narrativa bem o suficiente para escrever um longa-metragem satisfatório e, apesar da mente aberta, ainda não conseguiu se desprender de algumas ideias do século passado."
Será que a crítica negativa mostrada acima valida algo dito pelo cineasta? Vocês concordam que "preferir ser chamado de ingênuo a enveredar pelo cinismo" e "enxergar o mundo com a mente de um menino de dez anos de idade" são duas coisas que ainda podem ser associadas? Será que existe uma idade até a qual uma criança ainda não aprendeu a ser cínica? A quem desejar pensar sobre o assunto, sugiro a leitura das duas próximas postagens deste blog.
"Hoje eu faço filmes na esperança de despertar alguma consciência entre os espectadores. Prefiro ser chamado de ingênuo a enveredar pelo cinismo, um sentimento que está destruindo o planeta," diz Luc Besson. "Hoje eu assisto filmes na esperança de ter despertada alguma consciência pelo cineasta. Afinal, assim como Besson, prefiro ser chamado de ingênuo a enveredar pelo cinismo, um sentimento que está destruindo o planeta.
E encerrando esta já longa postagem, defendendo o criticado clichê "O amor é mais poderoso que qualquer coisa", apresentado no filme de Besson, pela segunda vez consecutiva eu recorro a uma frase de um dos filmes de Harry Potter. "Não tenha pena dos mortos, Harry. Tenha pena dos vivos e, acima de tudo, de todos que vivem sem amor.", diz o professor Dumbledore em Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Diferenciação entre saída e solução

A ideia de elaborar esta postagem surgiu de algo que ouvi em uma palestra apresentada em 20 de agosto de 2017 pela TV Escola em sua edição dominical do programa Café Filosófico. Proferida pelo psicólogo e doutor em psicologia clínica Cláudio Mello Wagner, lá pelas tantas, ele diz o seguinte: "Eu queria fazer uma diferenciação entre saída e solução. A saída para um conflito, para uma angústia, eu vou colocar ao nível do individual. E vou colocar a palavra solução para resolução de algum conflito ao nível coletivo". E prosseguindo ele dá o seguinte exemplo.
"O meu filho tem uma escola pública que fica a duas quadras de casa. Então, ele pode ir a pé. Mas essa escola não é muito forte e eu tenho conhecimento que a três quilômetros tem uma escola pública que é muito boa. Então, eu penso. Eu posso dar uma saída que é uma solução individual. Vou lá, vejo se arranjo uma vaga pro meu filho nessa escola boa, dou um jeito de levá-lo ou alugar uma perua ... pagar uma perua... qualquer coisa.... Eu arrumo um jeito pra resolução de um problema individual. Então, é uma saída.
Agora a questão que seria. Bom, se aquela escola é boa, é uma referência, e essa escola aqui é meio fraquinha, podemos aqui, a coletividade dos pais daqui que estão insatisfeitos, em vez de cada um querer resolver o seu problema, como é que a gente faz... de ir lá e ver porque é que aquilo funciona bem e trazer pra cá?. Isso é solução."
Ficou clara e nítida a diferenciação entre saída e solução? Será que a não diferenciação entre essas duas coisas tem alguma coisa a ver com a maioria dos males que nos afligem? Será que olhar de um ponto de vista individual que leve a optar por uma saída que possibilite a fuga do enfrentamento de um problema que atinge uma coletividade, em vez de olhar do ponto de vista coletivo que leve a unir forças capazes de levar à solução do problema, é algo que faz algum sentido? Será que faz algum sentido fugir dos problemas que nos afligem?
"Nem tudo que se enfrenta pode ser modificado, mas nada pode ser modificado até que seja enfrentado.", é uma afirmação de James Baldwin (1924-1987), escritor e ativista americano, da qual gosto muito e que uso aqui para fazer a seguinte paráfrase. "Nem tudo que se enfrenta pode ser solucionado, mas nada pode ser solucionado até que seja enfrentado". Ou seja, não é fugindo dos problemas que eles serão solucionados.
E após a lembrança da afirmação de James Baldwin, lembro também de uma inesquecível afirmação de Peter M. Senge (1947-....) usada como título de uma passagem de seu consagrado livro A Quinta Disciplina. "Os problemas de hoje provêm das 'soluções' de ontem.". Afirmação que, em conformidade com a ideia espalhada por esta postagem, fica assim: "Os problemas de hoje provêm das saídas de ontem."
E de lembrança em lembrança, o método das recordações sucessivas leva-me a uma afirmação de Friedrich Nietzsche (1844-1900) que, embora tenha sido feita em outro contexto, entendo que cabe perfeitamente nesta postagem. "O que não me mata me fortalece.". Vocês concordam que problemas que não sejam mortos por soluções ficarão cada vez mais fortes e consequentemente mais difíceis de solucionar? Não sei porque..., talvez devido a algum delírio..., a afirmação de Nietzsche me faz lembrar da cada vez mais forte violência urbana que assola esta civilização (sic). A postagem publicada neste blog em 26 de fevereiro de 2012 é intitulada "O que não me mata me fortalece" ou "Os problemas de hoje provêm das 'soluções' de ontem".
Enxergar a diferenciação entre saída e solução, eis a questão! E uma vez enxergada - sem hesitação - abandonar a habitual inclinação de optar pelo que é fácil – a saída – e passar a optar pelo que é certo – a solução -, pois como diz Dumbledore, o mago barbudo do filme Harry Potter e o Cálice de Fogo, "Tempos difíceis estão por vir. Em breve, teremos que escolher entre o que é certo e o que é fácil." Compreendido?

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

A saída é...

Neste momento em que, atingida por mais uma daquelas periódicas ondas de desânimo em relação ao futuro deste país e imitando a banda Skank, uma considerável quantidade de pessoas almeja "fugir deste lugar" e ir para "outro lugar qualquer", encontrei na edição de 15 de julho de 2017 do jornal O Globo um artigo de Arnaldo Bloch que pode ser bastante útil para ajudar a decidir qual o lugar para onde fugir. Título do artigo? A saída é...
A saída é...
E agora? Qual a saída? O aeroporto é uma. Já dizia Tom Jobim. Não, não foi ele. Foi o gaitista Maurício Einhorn. Não importa. Ficou sendo Tom. É a verdade mítica. Ele tinha medo de avião, depois deixou de ter. Não, medo de avião foi Belchior. Foi, não foi. Foi-se o sapo-boi. Ainda não somos os mesmos. Somos piores. Mas éramos melhores? Éramos ruins, mas de outro jeito. E tinha o samba. Do avião. A ode ao Rio. E a saída do Tom. Tanto que o aeroporto ganhou o nome dele. O pessoal chiou. Galeão? Engenhão? Não. Tom. Niltão. Antigamente eu não tinha medo de voar. Até achava que aquilo não era real, era alguém passando slides na janela. Hoje, na hora da turbulência severa, fecho os olhos e penso no surfboard: fui, já fui, não fui. Não tenho medo de avião. Rezo para ser abduzido. Como diz uma pichação atual: "Se eu for abduzido, não é sequestro. É resgate". Medo, mesmo, tenho é do Brasil.
Ame-o ou deixe-o? Eu deixo de amar. Aos poucos quase me despeço da terra, das palmeiras, da linha do mar, do sabiá, Sabe-se lá?
Não tenho medo de avião. Medo tenho é do Brasil. Ame-o ou deixe-o? Eu deixo de amar. Quase me despeço da terra, das palmeiras, da linha do mar, do sabiá. Sabe-se lá?
Vira e mexe me vem o refrão do Chico. As últimas fichas estão caindo, e os caras jogando suas fichas sujas na nossa cara, de olho no pleito que, a esta altura, virou cassino do caos em mercado futuro. Um exílio brechtiano faria bem. Olhar para nós e para mim, lá de fora.
Mas de onde? Tom foi para os EUA. O império continua lá. Mas no lugar dos trompetes hoje soam os gritos histéricos das "trumpetes" com seus filhos armados até os dentes de leite.
Europa? E as bombas? Os atropelamentos em massa? Estados de urgência? Neofascismos, fossos étnicos?
Ah, teremos sempre Portugal! Tem uma turma fugindo para a lusitânia. É só comprar uma quitinete mais barata que conjugado em Copacabana e ficar ali, nas colinas, mirando os telhados da Alfama sob o sol. E, ao fundo, o Tejo, de onde saíram os navegadores que iniciaram essa nossa odisseia. E chorar nas tascas, bisavós eternas dos botecos.
Ora pois, ninguém quer explodir Portugal, atropelar português, atirar a esmo na Casa do Alentejo ou nas cantoras de fado do Ferreirinha. Mas o imposto é dose... Ganha até do Brasil. E a melancolia corrói qualquer coração mestiço. E o rancor? Amsterdã, então? Cidade criativa, razão e emoção, soluções a granel, bike, bonde, a utopia da legalização de tudo, até da morte autoassistida, se a coisa ficar braba. Mas por trás de toda essa maravilha há o racismo que progride nas entranhas de uma sociedade enigmática, com muita mágoa sob a máscara de tulipas e o idílio das vaquinhas malhadas. A Europa está empesteada, tão empesteada que a Alemanha, sítio exemplar dos horrores do século passado, é hoje o farol isolado do que restou dos ideais libertários que levantaram a união continental ora ameaçada de extinção. Na linha do pertencimento diaspórico, haverá aquela ponte sempre aberta para a terra de Sion... um mês, e a cidadania está no papo, lei do eterno retorno... Mas dormir com um olho sempre aberto na guerra iminente que une irmãos num laço inquebrantável de sangue? Não, obrigado. Sou diaspórico até o fim.
Uma opção tribalista: viver com os ianomânis numa aldeia semi-isolada. Uma forma de sair sem sair. Mas agora?, que o nosso colosso parlamentar desavergonhou-se de vez sob as rédeas de sanguessuga, e não vê a hora de acabar com a floresta, fatiar a terra, garimpar, grilar, queimar e jogar os índios na indigência?
Até me ocorre Montevidéu. Dizem que é a maior paz. A metrópole sem peso. O verdinho do Prado, a prata do Prata e umas cidadezinhas de herança colonial, um custo de vida razoável, leis modernas. Não chegaria a morrer de tédio no Uruguai. Mas, se fosse para sair, ir assim tão perto não traria o sentimento profundo do exílio voluntário, estando a poucas horas daqui... Não. Para sair não poderia ser tão fácil voltar.
Se me desse a louca iria amarrar meu burro no Oriente, num mosteiro, aprender a meditar, e ir para o alto da montanha comer o pão de Deus que, agora sabemos, não é brasileiro coisa nenhuma, assim como qualquer espírito ou força que o valha.
Divina, subatômica, oculta na gravidade em loop, inteligente ou aleatória, nenhuma força da natureza primaria por nacionalidade, nem por espécie. Tudo que é humano lhe escapa, e tal ignorância é a chave da prosperidade universal.
Mas o diabo é que, por mais casmurros que sejam meus impulsos, não fui feito para a solidão ou o isolamento. Meu ensimesmamento termina quando minha natureza gregária clama pelo outro. O outro sou eu. E, sem o outro, nada sou.
Brasileiro, vou ficando. Com um livro, um piano, a gente amiga, e a mãezinha, meditando sem lótus, arranhando um pilates e um violão, procurando não proferir sentenças definitivas e aceitando a perplexidade com a candura de um gafanhoto de kung fu.
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Será que a visão que Arnaldo Bloch tem dos países e dos continentes citados em seu artigo faz algum sentido? Será que neste mundo assolado por ações e comportamentos desprovidos de sentido existe algum país isento de males e de problemas? Será que trocar de país será trocar de males e de problemas? Será que os insatisfeitos em um país serão bem-vindos aos lugares para onde almejem fugir? Será que, considerando os "serás?" anteriores, "A saída é..." a solução? Não, a saída jamais será a solução, pois saída e solução são duas coisas bastante diferentes. Diferenciação entre saída e solução, eis um bom tema para a próxima postagem.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Elucidando o problema da violência urbana

"Nem tudo que se enfrenta pode ser modificado, mas nada pode ser modificado até que seja enfrentado.", é uma afirmação de James Baldwin (1924-1987), escritor e ativista americano, da qual gosto muito e que uso aqui para fazer a seguinte paráfrase. "Nem tudo que se entende pode ser solucionado, mas nada pode ser solucionado até que seja entendido".
Com a intenção de contribuir para o entendimento do problema da violência urbana que a cada dia apavora mais esta civilização (sic) repleta de indivíduos inconscientes, elaborei uma pequena relação de afirmações feitas por algumas pessoas que tendo enxergado com bastante nitidez as causas de tal problema podem ajudar-nos a elucidá-lo. Uma relação que imprimo em pequenos bilhetes para oferecer a quem estiver disposto (a) a conversar comigo sobre a solução para o problema da violência urbana. Relação que é reproduzida abaixo.
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"É estranha essa situação do Rio de Janeiro. Essa cidade está degenerada. Não se pense que vamos resolver o problema da segurança botando mais soldados na rua. Para resolvê-la, temos que começar pela educação, saúde, emprego, exclusão social. Ou seja, pegar de todos os lados."
(Celso Furtado [1920 – 2004], economista e destacado intelectual brasileiro ao longo do século XX, em entrevista publicada na edição de 1º de março de 1995 da revista Isto É)
"Se não construirmos escolas agora, daqui a 20 anos faltará dinheiro para construir os presídios necessários."
(Darcy Ribeiro [1922 – 1997], antropólogo, escritor e político, em 1982)
"O analfabetismo, a falta de ocupação, a vida difícil e a miséria poderão criar uma grave situação de insegurança que evoluiria para uma criminalidade irreprimível."
(Alberto Pasqualini [1901 – 1960], advogado, professor, sociólogo e senador, em fevereiro de 1945)
"O carrasco pode suprimir o criminoso, mas a miséria mantém o crime."
(Coelho Neto [1864 – 1934], escritor, professor, e político)
"Por que consentir que os cidadãos se eduquem pessimamente e que seus costumes se vão corrompendo pouco a pouco desde seus mais tenros anos para castigá-los quando, já homens, cometerem delitos que se faziam esperar desde sua infância, que outra coisa é senão criar ladrões para depois castigá-los."
(Thomas Morus [1478 – 1535], estadista, escritor e homem de leis, em 1516)
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Eta problema antigo, hein! Entre a afirmação mais recente e a mais antiga, já se foram 479 anos! Feita esta constatação, passemos a algumas indagações e reflexões provocadas pelas afirmações.
"É estranha essa situação do Rio de Janeiro. Essa cidade está degenerada. Não se pense que vamos resolver o problema da segurança botando mais soldados na rua. Para resolvê-la, temos que começar pela educação, saúde, emprego, exclusão social. Ou seja, pegar de todos os lados.", diz Celso Furtado em 1995.
Ou seja, em 1995, Celso Furtado já enxergava a "cidade do Rio de Janeiro como degenerada" e alertava que "o problema da segurança não se resolve botando mais soldados na rua". Vinte e dois anos depois, em um estado de degeneração ainda maior, o que é que se viu nesta cidade no início deste mês? Algumas de suas ruas repletas de policiais e de soldados em mais uma das ineficazes ações que jamais resolverão o problema da segurança, pois como disse Celso Furtado, "para resolvê-lo temos que começar pela educação saúde e desemprego". Vocês concordam com a afirmação de que "para resolver o problema da segurança temos que começar pela educação"? Será que Darcy Ribeiro concordava?
"Se não construirmos escolas agora, daqui a 20 anos faltará dinheiro para construir os presídios necessários.", Diz Darcy Ribeiro, em 1982.
Feita em 1982, a previsão de Darcy Ribeiro venceu em 2002, correto? Vocês acham que tal previsão foi concretizada? Vocês acham que Darcy Ribeiro concordava com Celso Furtado quanto à afirmação de que "para resolver o problema da segurança temos que começar pela educação"? No meu entender, sim. Será que Alberto Pasqualini concordaria com os dois?
"O analfabetismo, a falta de ocupação, a vida difícil e a miséria poderão criar uma grave situação de insegurança que evoluiria para uma criminalidade irreprimível.", disse Alberto Pasqualini, em 1945.
Vocês conseguem enxergar, nos dias de hoje, a criminalidade irreprimível prevista por Alberto Pasqualini há 72 anos? Seria ele um profeta? Não, acertar previsões não é coisa de profetas, e sim de indivíduos conscientes; de indivíduos que tenham conseguido desenvolver a capacidade de interpretar corretamente o mundo em que vivem. Vocês conseguem perceber que o antídoto para os males apontados por Pasqualini como "possíveis criadores de uma grave situação de insegurança que evoluiria para uma criminalidade irreprimível." é a educação? Ou seja, será que Alberto Pasqualini concordaria com Celso Furtado e Darcy Ribeiro? O que vocês acham?
"O carrasco pode suprimir o criminoso, mas a miséria mantém o crime.", disse Coelho Neto, entre 1864 e 1934.
A miséria mantém o crime, disse Coelho Neto. A miséria (entre outros fatores) poderá criar uma criminalidade irreprimível, disse Alberto Pasqualini. Será que alguém consegue não ver que os dois disseram a mesma coisa? Será que uma criminalidade irreprimível significa que matar criminosos jamais resolverá o problema da violência urbana, pois, da mesma forma que enquanto houver milho haverá pipoca, enquanto houver miséria haverá criminalidade? O que vocês acham?
"Por que consentir que os cidadãos se eduquem pessimamente e que seus costumes se vão corrompendo pouco a pouco desde seus mais tenros anos para castigá-los quando, já homens, cometerem delitos que se faziam esperar desde sua infância, que outra coisa é senão criar ladrões para depois castigá-los.", disse Thomas Morus, em 1516.
"Consentir que os cidadãos se eduquem pessimamente desde seus mais tenros anos para castigá-los quando já forem homens; criar ladrões para depois castigá-los", disse Thomas Morus, em 1516. O grifo é meu e tem a intenção de chamar atenção para a afinidade da afirmação de Morus com as dos outros lúcidos indivíduos citados na postagem. Educação com qualidade, eis a solução para o problema da violência urbana.
Será que a pequena relação de afirmações apresentada nesta postagem conseguirá elucidar o problema da violência urbana que nos apavora cada vez mais?
Para ilustrar a postagem, segue uma charge que, embora assinada por Carlos Latuff com ano 2013, no meu entender, é uma ilustração perfeita para as palavras de Thomas Morus em 1516. "(...) cometerem delitos que se faziam esperar desde sua infância, que outra coisa é senão criar ladrões para depois castigá-los.".