quarta-feira, 22 de maio de 2019

O poder do abraço

"O melhor presente é um abraço: serve em qualquer pessoa e quem o dá não fica sentido se quem o receber devolvê-lo."
(Adaptação de duas frases encontradas na internet sem atribuição de autor)
Em mais uma postagem alusiva a uma data comemorativa que considero significativa, neste Dia do Abraço, segue um interessante texto publicado no livro Amor pelas coisas imperfeitas, de autoria de Haemin Sunim.
O poder do abraço
Talvez você já tenha ouvido falar que cada vez que alguém o abraça, você ganha mais um dia de vida. É claro que não há maneira de verificar se isso é mesmo verdade, mas nenhum de nós tem dificuldade de entender a mensagem. Quando achamos que as coisas estão ficando complicadas, um abraço caloroso e silencioso pode ter um poder de cura maior do que uma explicação detalhada sobre por que as coisas estão difíceis. Embora eu não possa livrá-lo da dor, ainda assim fico ao seu lado e não saio, inclusive nas piores situações. A maneira mais calorosa de expressar isso é através de um abraço.
Quando fui aos Estados Unidos pela primeira vez, demorei muito para me acostumar com a maneira ocidental de cumprimentar as pessoas. Em vez de me curvar educadamente do jeito coreano tradicional, tive que aprender a forma casual e sem reservas com que os amigos cumprimentam uns aos outros – um rápido aceno de cabeça e um "olá" quando passam uns pelos outros na rua. Tive que aprender que um aperto de mão não é apenas segurar a mão do outro, mas também envolve sorrir, olhar nos olhos e garantir que sua pegada não seja forte nem fraca demais. Mas, de todos os métodos de cumprimento, aquele com que demorei mais a me acostumar foi o abraço. Sobretudo porque, como monge, eu me acostumara a saudar as pessoas fazendo o hapjang – juntando as palmas em frente ao peito e me curvando a partir da cintura. Abrir os braços e abraçar alguém fazia com que eu me sentisse de certa forma envergonhado e constrangido.
Mas é claro que um cumprimento não é algo que se faz sozinho. Se você está se despedindo e a pessoa abre os braços para abraçá-lo, estender a mão para um aperto não apenas vai deixá-la sem graça como vai sugerir que você quer manter distância, o que pode parecer indelicado. Porém, depois de um tempo, quando meu relacionamento com o amigo ou colega já se tornara próximo o suficiente, aprendi a abraçar. Misteriosamente, o constrangimento inicial desapareceu aos poucos, sendo substituído por uma sensação de camaradagem, intimidade e simpatia.
Recentemente ouvi falar de alguns estudos interessantes sobre o abraço – a confirmação científica de que ele realmente faz bem para a saúde. Anthony Grant, um professor de psicologia na Universidade de Sydney, apresentou resultados de uma pesquisa que demonstram que, além de reduzir a ansiedade e a solidão, abraços diminuem nossos níveis do hormônio cortisol, que é secretado em resposta ao estresse; isso, por sua vez, aumenta a imunidade aos patógenos e diminui a pressão sanguínea. E, de acordo com Karen Grewen, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, se um casal dá as mãos e se abraça por 20 segundos antes de sair de casa pela manhã, seus indicadores de estresse serão a metade em comparação com casais que não fazem isso. Em outras palavras, um abraço rápido e caloroso em alguém que amamos nos oferece uma camada de proteção, um isolamento em relação aos estresses do dia.
Como monge, ás vezes preciso oferecer às pessoas essa camada de proteção. Uma dessas ocasiões não me sai da cabeça até hoje. Foi numa noite de autógrafos numa grande livraria de Seul; eu estava assinando o livro de uma mulher e ela de repente disse, com a voz embargada:
- Haemin Sunim, dois meses atrás o pai dos meus filhos faleceu num acidente de carro. Estou em estado de choque e mal tenho saído de casa desde que isso aconteceu. Meu irmão caçula me deu seu livro de presente, provavelmente porque estava com pena de mim; chorei muito enquanto o lia, desde o primeiro capítulo. Por alguma razão, fiquei com a ideia de que, se eu ao menos pudesse conhecer você, isso me daria a coragem para seguir em frente e cuidar direito dos meus filhos. Vivo na zona rural, mas peguei o trem hoje de manhã para vir conhecê-lo pessoalmente.
A voz dela estava embargada e seu rosto, marcado pelas lágrimas. Naquele momento, sem me dar conta do que estava fazendo, me levantei da cadeira, fui em direção a ela e abri os braços. Depois de abraçá-la calorosamente por um instante, falei:
- Eu também vou orar pelo falecido pai dos seus filhos. O espírito dele deve estar observando você do outro mundo, vendo como segue vivendo e como cuidou bem das crianças. Neste momento você está muito solitária e a vida está muito difícil, mas por meio desta experiência você vai se tornar mais forte, mais sábia e mais compassiva. A partir de agora, as coisas vão melhorar aos poucos. Não se preocupe tanto.
Eu a abracei enquanto ela chorava, e pensei comigo mesmo: "Apesar de me faltarem muitas coisas, quero ser alguém que pode levar algum conforto às pessoas, que pode lhes dar coragem, como um raio quente de sol." Se alguém precisa de um abraço meu, eu dou de boa vontade, com prazer, sempre que necessário. Para vocês que estão lendo isto, se têm familiares ou amigos que estão passando por um momento difícil, lembrem-se de abraçá-los de vez em quando. Quem sabe possam prolongar mesmo a vida deles – e a de vocês também.
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"Talvez você já tenha ouvido falar que cada vez que alguém o abraça, você ganha mais um dia de vida. É claro que não há maneira de verificar se isso é mesmo verdade, mas nenhum de nós tem dificuldade de entender a mensagem."
Com as duas frases acima, Haemin Sunim inicia seu interessante texto intitulado O poder do abraço. Com as duas abaixo, ele o encerra.
"Para vocês que estão lendo isto, se têm familiares ou amigos que estão passando por um momento difícil, lembrem-se de abraçá-los de vez em quando. Quem sabe possam prolongar mesmo a vida deles – e a de vocês também.".
Inspirado por essas quatro frases de Haemin Sunim, encerro esta postagem alusiva ao Dia do Abraço com as seguintes palavras:
Talvez você já tenha ouvido falar que mais importante do que acrescentar dias à vida é acrescentar vida aos dias. Portanto, para vocês que estão lendo esta postagem, se têm familiares ou amigos, independentemente de estarem eles passando ou não por um momento difícil, lembrem-se de abraçá-los de vez em quando. Quem sabe possam acrescentar vida aos dias deles – e aos de vocês também.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Reflexões provocadas por "A doença da ganância"

É impressionante a quantidade de trechos do texto A doença da ganância que chamam minha atenção. Trechos que em sua maioria levam-me a associações com coisas que li, e jamais esqueci. Considerando que associar ideias é uma das melhores maneiras de absorvê-las, compartilho com vocês algumas das associações que fiz a partir do elucidativo texto de Jan Nicolaas Kind.
"Todos nós temos potencial para tendências gananciosas", diz Jan Kind. Tendências que, no meu entender, têm enorme probabilidade de tornarem-se práticas, pois o sentimento de não possuir o suficiente é algo que não está relacionado apenas a uma coisa, mas sim a várias, como se pode ver na seguinte afirmação de Jan: "Essa coisa pode ser dinheiro, poder, sexo, comida, atenção, conhecimento..."
"Quando olhamos para a nossa história relativamente recente (os últimos dois mil anos), concluímos que, apesar de todos os nossos avanços tecnológicos e materiais, ainda nos comportamos como perdulários tolos e egoístas.", diz Jan Kind, fazendo-me lembrar algo que li no livro intitulado O Ato da Vontade, de Roberto Assagioli.
"Se um homem de uma civilização anterior à nossa – um grego da Antiguidade, digamos, ou um romano – aparecesse de súbito entre os seres humanos do presente, suas primeiras impressões o levariam a considerá-los uma raça de mágicos, de semideuses. Mas fosse um Platão ou um Marco Aurélio e se recusasse a ficar deslumbrado ante as maravilhas materiais criadas pela tecnologia avançada e examinasse a condição humana com mais cuidado, suas primeiras impressões dariam lugar a uma grande consternação.
Notaria logo que o homem, não obstante o imponente grau de domínio sobre a natureza, possui um controle muito limitado sobre o seu interior. (...) Verificaria que esse pretenso semideus que controla grandes forças elétricas com o mover de um dedo e inunda o ar de sons e imagens para divertimento de milhões de pessoas – é incapaz de lidar com as próprias emoções, impulsos e desejos."
"Por sermos gananciosos, perdemos a noção de quem realmente somos. (...) Mas, por causa da possessividade, as pessoas pensam que possuem a terra onde temporariamente vivem. Para que os apropriadores de terras se tornem 'proprietários de terras', incontáveis povos indígenas foram dizimados. Como representantes da vida una, não possuímos nada. Nós pertencemos às terras da mãe Terra, somos parte dela. É contra as leis que regem a natureza construir muros para manter "os outros" de fora.", diz Jan Kind.
Sim, "perdemos a noção de quem realmente somos", e equivocados dizimamos muitos daqueles que não a perderam. "Incontáveis povos indígenas foram dizimados.", diz Jan Kind, fazendo-me lembrar A Carta do Cacique Seattle. Carta espalhada por este blog em 24 de fevereiro de 2011 em sua nona postagem. Postagem que julguei conveniente ser antecedida por A história de uma certa carta (21 de fevereiro de 2011), e da qual extraí o trecho apresentado a seguir.
"O grande chefe de Washington deverá ensinar às suas crianças que o solo sob seus pés contém as cinzas dos nossos avós. Assim elas aprenderão a respeitar a terra. E deve ensinar a elas o que temos ensinado às nossas: que a terra é nossa mãe. O que acontece com a terra, acontece com os filhos da terra."
Vocês concordam que o Cacique Seattle não perdeu a noção de quem realmente somos?
"A Grande Muralha da China foi construída para proteger os chineses dos ataques do norte. Mesmo assim os mongóis, em 1211, simplesmente a rodearam e invadiram partes do território, infligindo uma terrível derrota ao imperador e seus exércitos.", diz Jan Kind. E aqui, em vez de associação, uso uma paráfrase para fazer uma previsão: Os grandes condomínios fechados são construídos para proteger os que têm dos ataques dos que não têm. Mesmo assim os que não têm, em algum ano, simplesmente os rodearão e invadirão partes do território, infligindo uma terrível derrota aos que imaginavam que neles estariam protegidos. "É contra as leis que regem a natureza construir muros para manter 'os outros' de fora.", diz Jan.
"Quando uma parede é construída e uma solução permanente é adiada, seus construtores correm o risco de que a correção temporária agrave o problema.", diz Jan Kind, fazendo-me lembrar algo dito por Friedrich Nieztsche: "O que não me mata me fortalece".
"Sabemos, teosoficamente, que estamos todos interligados.", diz Jan Kind. Sabemos, "indigenamente", que todas as coisa estão ligadas, digo eu, com base nas seguintes palavras do Cacique Seattle. "O que seria dos homens sem os animais? Se todos os animais se fossem, o homem morreria de uma imensa solidão de espírito. O que quer que aconteça com os animais, logo acontece com os homens. Todas as coisas estão ligadas."
Sabemos, "indigenamente", que tudo está interligado, digo eu, com base no seguinte trecho da introdução de um livro intitulado Flua, de Louis Burlamaqui.
Certa vez, uma pessoa perguntou a um pajé e xamã americano de 101 anos.
- O que você faz?
- Ensino meu povo.
- O que você ensina?
- Quatro coisas: primeiro, a escutar; segundo, que tudo está interligado; terceiro, que tudo está em transformação; quarto, que a Terra não é nossa, nós é que somos da Terra.
Sabemos, "cientificamente", que tudo está interligado, digo eu, com base nas seguintes palavras de Fritjof Capra no livro intitulado Pertencendo ao Universo. "Qualquer que seja o problema (...) ele tem de ser percebido como algo que está ligado aos outros. Para resolver qualquer problema isolado, precisamos de um pensamento sistêmico, pois todos os problemas são sistêmicos, interligados e interdependentes. E ao falar em pensamento sistêmico, recomendo a leitura da quinta postagem deste blog - O Raciocínio Sistêmico (14 de fevereiro de 2011).
"É claro que é hora de acabar com a ganância. (...) O dinheiro não deve controlar nossas vidas.", diz Jan Kinde. "Reduzir o valor da vida ao dinheiro mata toda possibilidade de idealizar um mundo melhor.", afirma Nuccio Ordine, professor de literatura italiana da Universidade da Calábria, em artigo intitulado Democracia líquida, publicado na edição de 16.02.2014 do jornal O Estado de S. Paulo. Tudo a ver, não?!
"É claro que é hora de acabar com a ganância. (...) Em um mundo com tanto sofrimento e dor, é essencial irradiar bondade, compartilhar e demonstrar compaixão, banindo para sempre a ganância de nossas vidas.", diz Jan Kind. O que precisamos fazer para banir para sempre a ganância de nossas vidas? Segundo Jan, "Precisamos colocar em prática o primeiro objetivo da Sociedade Teosofia, formando um núcleo de fraternidade universal: um núcleo capaz de estabelecer os exemplos corretos (segundo Blavatsky)."
"Formar um núcleo capaz de estabelecer os exemplos corretos"! Ou seja, dispormo-nos a comportarmo-nos de forma contrária a da imensa maioria dos integrantes da pretensa espécie inteligente do universo. Como assim? Em vez de esperarmos que os outros nos dêem os exemplos corretos de como comportar-se na vida, sejamos nós a dar aos outros tais exemplos.
"Vamos dar o exemplo.", eis a conclamação expressa na frase final de Jan Kind, em seu elucidativo texto. "Seja a mudança que você quer ver no mundo.", eis a conclamação de Gandhi que uso como última associação feita nestas reflexões.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

A doença da ganância

Cumprindo o prometido em Reflexões provocadas por "Leonardo da Vinci, Jesus e Judas", segue um texto intitulado A doença da ganância. Publicado na edição de MAR / ABR 2019 da revista SOPHIA, o texto é atribuído a Jan Nicolaas Kind, membro da Sociedade Teosófica e editor chefe da revista Theosophy Forward.
A doença da ganância
'Nós somos aldeões que preferem viver na rivalidade tribal, desenhando divisões surreais chamadas fronteiras, em vez de entender que as linhas que traçamos são inexistentes'
A doença mais devastadora do mundo é a ganância. Esse vírus infectou o nosso comportamento e o nosso pensamento, influenciou a maneira como lidamos com os outros, o meio ambiente, a política, a educação, a religião, nossa conduta sexual. Estamos dispostos até mesmo a ir à guerra por causa da ganância.
Dinheiro e ganância são forças poderosas que se transformam em influências corruptoras nas pessoas. O dinheiro é visto como sinônimo de poder, e as pessoas ricas são vistas como mais poderosas e com mais autoridade sobre os pobres. O caos é gerado quando a violência irrompe para que uma pessoa obtenha o que deseja. Aqueles que têm uma autoridade maior são capazes de abusar de seu poder e se safar das consequências.
A ganância é uma das sete falhas básicas de caráter, traços de uma personalidade sombria. Todos nós temos potencial para tendências gananciosas; no entanto, para algumas pessoas com um medo especialmente forte de sofrer privações, a ganância pode se tornar um problema sério.
Uma pessoa pode ficar totalmente obcecada em procurar o que "necessita", tentando se apossar da única coisa que eliminará o sentimento profundamente enraizado de não ter o suficiente. Essa coisa pode ser dinheiro, poder, sexo, comida, atenção, conhecimento... Pode ser algo concreto ou abstrato, real ou simbólico. Porém, será algo muito específico, onde todo o complexo da ganância e da necessidade se torna obsessão. Quando isso acontece, a vida se transforma num esforço interminável para adquirir o máximo possível.
Isso deveria ser motivo de preocupação de todos nós. Observamos que aqueles que têm invariavelmente dominam aqueles que não têm. Políticos gananciosos enganam eleitores com falsas promessas. Os poderosos mercados de ações dominam o mundo. Apenas uns poucos que se encontram no topo controlam a vasta população mundial – isto é desigualdade de A a Z. Quando olhamos para a nossa história relativamente recente (os últimos dois mil anos), concluímos que, apesar de todos os nossos avanços tecnológicos e materiais, ainda nos comportamos como perdulários tolos e egoístas.
A Terra se transformou numa aldeia global. Nós somos os aldeões que aparentemente preferem viver na rivalidade tribal, desenhando divisões surreais chamadas fronteiras, em vez de entender que as linhas que traçamos são inexistentes. Quando os astronautas orbitam o planeta, não conseguem ver evidências físicas de qualquer divisão. Nós dividimos porque somos gananciosos: esta é a minha terra, não a sua; esta é minha religião, não a sua; esta é a minha convicção, obviamente melhor que a sua; esta é a minha inteligência, superior à sua.
É surpreendente que não tenhamos aprendido com o nosso passado, enquanto os mesmos problemas dolorosos se repetem de novo e de novo. Por sermos gananciosos, perdemos a noção de quem realmente somos. Onde estávamos antes de nos desencaminharmos e começarmos a traçar linhas?
Se olharmos o período em que estamos neste planeta, somos eternos migrantes, mudando de um lugar para outro. Mas, por causa da possessividade, as pessoas pensam que possuem a terra onde temporariamente vivem. Para que os apropriadores de terras se tornem "proprietários de terras", incontáveis povos indígenas foram dizimados.
Como representantes da vida una, não possuímos nada. Nós pertencemos às terras da mãe Terra, somos parte dela. É contra as leis que regem a natureza construir muros para manter "os outros" de fora. Os outros, desde que começamos a caminhar pelo planeta, estão em busca de um futuro melhor, um ambiente mais justo e uma liberdade abrangente.
Muralhas nunca trouxeram soluções duradouras. Por volta de 122 d.C., os romanos começaram a construir a Muralha de Adriano, uma fortificação para proteger a província romana da Britânia de invasões de bárbaros. Mas não funcionou. A Grande Muralha da China foi construída para proteger os chineses dos ataques do norte. Mesmo assim os mongóis, em 1211, simplesmente a rodearam e invadiram partes do território, infligindo uma terrível derrota ao imperador e seus exércitos.
"Muralhas nunca trouxeram soluções duradouras. A Muralha da China foi construída para proteger dos ataques do norte. Mesmo assim, os mongóis simplesmente a rodearam e invadiram."
Todos sabemos o que aconteceu em 1989 com o Muro de Berlim. Os muros que os israelenses construíram durante a Segunda Intifada até agora têm dificultado o processo de paz. Barreiras podem piorar as coisas. Quando uma parede é construída e uma solução permanente é adiada, seus construtores correm o risco de que a correção temporária agrave o problema.
Sabemos, teosoficamente, que estamos todos interligados. Artifícios baseados em uma mentalidade separatista servem apenas para retardar nosso crescimento. A ganância não une; em vez disso, causa guerras, fome, destruição e corrupção. Mas não é por isso que estamos aqui. Há, sem dúvida, outro propósito para o nosso ser, especialmente quando se pensa nessa profunda interconectividade. Apesar de nossas noções enganosas e destrutivas de separação, estamos respirando as coisas que Leonardo da Vinci, Jesus, Gandhi e Buda fizeram.
É claro que é hora de acabar com a ganância. Precisamos estar dispostos a compartilhar com os outros, mesmo que seja apenas um pouco. O dinheiro não deve controlar nossas vidas. Precisamos dominar nossos desejos, admirar nossas bênçãos, aproveitar o que fazemos e seguir nossas paixões. Precisamos colocar em prática o primeiro objetivo da Sociedade Teosofia, formando um núcleo de fraternidade universal. Blavatsky deixou isso bem claro: um núcleo capaz de estabelecer os exemplos corretos.
Uma amiga minha em Atenas, na Grécia, adotou, junto com seu marido, uma menina refugiada de uma região muito conturbada. A criança não apenas perdeu sua família como testemunhou a decapitação de sua mãe por fanáticos religiosos. Traumatizada, chegou à costa grega em um barco e foi levada por duas pessoas amáveis que, apesar dos graves problemas econômicos enfrentados pela Grécia, estavam dispostas a abrir seus corações e portas, oferecendo-lhe um merecido futuro.
Em um mundo com tanto sofrimento e dor, é essencial irradiar bondade, compartilhar e demonstrar compaixão, banindo para sempre a ganância de nossas vidas. Vamos dar o exemplo.
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"A doença mais devastadora do mundo é a ganância. Esse vírus infectou o nosso comportamento e o nosso pensamento, influenciou a maneira como lidamos com os outros, o meio ambiente, a política, a educação, a religião, nossa conduta sexual. (...) Todos nós temos potencial para tendências gananciosas..."
Será que as afirmações de Jan Nicolaas Kind apresentadas no parágrafo anterior são suficientes para provocar em todos nós a vontade de refletir sobre tudo o que é dito em seu elucidativo texto?

terça-feira, 7 de maio de 2019

Silêncio, por favor (renovando a solicitação)

Após ter descoberto (em 2014) a existência de um dia para celebrar o silêncio, jamais deixei de publicar uma postagem alusiva a tal dia. A deste ano espalha ideias apresentadas em um texto publicado na internet em 24 de fevereiro de 2019 no endereço https://epocanegocios.globo.com/Vida/noticia/2019/02/silencio-por-favor-ausencia-de-barulho-pode-turbinar-o-cerebro-e-criatividade.html.
A explicação para a presença da expressão entre parênteses no título da postagem é a seguinte: a postagem feita em 14 de maio de 2015 (com retardo de uma semana nela explicado) é intitulada Silêncio, por favor.
Silêncio, por favor: ausência de barulho pode turbinar o cérebro e a criatividade
Vivemos cercados de som e barulho, mas o que acontece quando nos deparamos com o verdadeiro silêncio?
O barulho do trânsito, sirenes estridentes, vozes altas, alertas de mídia social – tudo pode ser avassalador na vida de alguém, mas ainda assim a ausência de som tem sido associada à solidão, ao tédio ou à tristeza. "Vivemos na era do barulho. O silêncio está quase extinto", afirma o filósofo e aventureiro Erling Kagge. E ele diz isso com propriedade: Erling explorou o poder do silêncio e tornou-se a primeira pessoa a alcançar os "três pólos" do norte, sul e o cume do Everest. Mas por que precisamos de silêncio, como o perdemos e onde poderíamos encontrá-lo novamente?
Silêncio permite que nos sintamos 'presentes'
"A Antártida é o lugar mais quieto em que eu já estive", diz Erling. "Ali, estava cada vez mais atento ao mundo do qual faço parte." Ele explica como o silêncio que encontrou em sua expedição permitiu que se sentisse mais "presente": "Eu não estava nem entediado nem interrompido. Eu estava sozinho com meus próprios pensamentos e ideias... Eu estava presente em minha própria vida".
Obviamente não podemos ir todos para um deserto gelado a qualquer momento, mas talvez seja possível encontrar um espaço silencioso - um quarto, algum canto silencioso de um jardim ou um cubículo de banheiro - pode nos ajudar a tirar um momento da correria de nossas rotinas diárias e a nos reconectar com nós mesmos.
Erling acredita que todos nós podemos encontrar nosso "silêncio interno" e sugere "ficar de pé no chuveiro... sentado em frente a um fogo crepitante, nadando em um lago na floresta, ou dando um passeio por um campo. Todas essas podem ser experiências de quietude perfeita."
O silêncio nos dá espaço para pensar
O silêncio é "uma chave para desbloquear novas formas de pensar", diz Erling, e a ciência apoia a teoria do filósofo. Mesmo sem o estímulo do som, nossos cérebros permanecem ativos e dinâmicos.
Um estudo de 2001 realizado por neurocientistas da Universidade de Washington descobriu que havia uma função cerebral "modo padrão": eles concluíram que um cérebro "em repouso" ainda estava em ação, constantemente absorvendo e avaliando informações. Pesquisas subsequentes mostraram que esse "modo padrão" também nos ajuda a refletir.
O artigo Frontiers in Human Neuroscience, de 2013, afirma que, mesmo quando o cérebro repousa, ainda é capaz de processar informações no que eles chamam de "espaço de trabalho consciente". Silêncio e descanso podem ser a chave para o nosso melhor pensamento criativo e nossas maiores ideias.
O silêncio é uma ferramenta poderosa de conversação
"O silêncio é uma das grandes artes da conversa", disse o famoso orador romano Cícero. Na conversa ou no debate, é fácil esquecer o poder do silêncio - mas ficar quieto pode ser uma ferramenta muito eficaz, e é uma opção que todos temos à disposição. Ao fazer uma pausa, você pode falar com mais calma e sabedoria: o silêncio pode ser o espaço entre uma explosão inútil de sentimento e uma resposta ponderada. Isso também mostra confiança em um argumento. "Nada fortalece mais a autoridade do que o silêncio", afirmou Leonardo da Vinci.
Mas, além de nos ajudar a derrotar um adversário, ele pode nos ajudar a fortalecer nossos relacionamentos. Ao ficar em silêncio, você está naturalmente ouvindo mais e dando aos outros a oportunidade de compartilhar.
O silêncio pode realmente ajudar nossos cérebros a crescerem
Em 2013, a bióloga Imke Kirste estava testando os efeitos do som nos cérebros dos ratos. Os resultados foram surpreendentes: os sons não tiveram impacto duradouro, mas duas horas de silêncio por dia estimularam o desenvolvimento celular no hipocampo - a parte do cérebro que ajuda a formar as memórias.
Não era o som em si, mas a própria ausência que criava novas células no cérebro dos ratos. Embora o crescimento de novas células cerebrais não tivesse necessariamente benefícios para a saúde, essas células pareciam se tornar neurônios funcionais. Se uma ligação entre o silêncio e a geração de neurônios puder ser estabelecida em humanos também, há uma chance de que o silêncio possa ser usado para ajudar pacientes com condições como demência e depressão.
O silêncio é o antídoto a redes sociais
"As notificações da tela de um celular podem ser viciantes", adverte o filósofo e aventureiro Erling Kagge. "Quanto mais somos inundados, mais desejamos nos distrair. Verificamos e revisamos nossos telefones como um bandido armado, na tentativa de obter satisfação." Mas, em vez de encontrar satisfação, ele afirma que essa forma de ruído gera ansiedade e sentimentos negativos. "Podemos ficar viciados nas mídias sociais, mas isso não significa que estamos felizes." "O silêncio", diz Erling, "é o oposto de tudo isso. É sobre entrar no que você está fazendo, e não viver com outras pessoas e outras coisas".
Pode ser um pensamento assustador, mas tente um jejum tecnológico de algumas horas. Conquiste estas rupturas devagar até que você possa passar um dia inteiro sem seu telefone ou tablet e veja como você se sente depois dessa experiência.
O silêncio ajuda a aliviar o estresse
A enfermeira britânica Florence Nightingale escreveu que "o ruído desnecessário é a mais cruel ausência de cuidados que pode ser infligida a pessoas doentes". Ela argumentava que todo som desnecessário poderia causar temor, angústia e perda de sono para pacientes em recuperação. A pesquisa moderna apoia os pontos de vista dela elaborados no século 19: foram descobertas correlações entre pressão alta e ruído crônico - como o de estradas e aeroportos.
O ruído também pode resultar em níveis elevados de estresse - acredita-se que as ondas sonoras ativam a amígdala, que está associada à formação da memória e à emoção, causando uma liberação de hormônios do estresse. Esse processo pode ocorrer mesmo enquanto dormimos. O silêncio, no entanto, tem o efeito oposto: ajuda a liberar a tensão no cérebro e no corpo. Um estudo publicado na revista Heart descobriu que dois minutos de silêncio podem ser ainda mais calmos do que ouvir música "relaxante".
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Para não alongar ainda mais esta postagem alusiva ao Dia do Silêncio encerro-a destacando apenas um pequeno trecho do texto nela apresentado. Um trecho que reproduzo no próximo parágrafo por nele enxergar uma sugestão irrecusável aos integrantes do mundo em que vivemos: um mundo onde estamos conectados a tudo, menos a nós mesmos.
"Pode ser um pensamento assustador, mas tente um jejum tecnológico de algumas horas. Conquiste estas rupturas devagar até que você possa passar um dia inteiro sem seu telefone ou tablet e veja como você se sente depois dessa experiência."

terça-feira, 30 de abril de 2019

Reflexões provocadas por "Leonardo da Vinci, Jesus e Judas"

"Convidado para posar por alguém que lhe dava um pequeno saco de veludo com moedas de ouro, o rapaz não sentiu a menor ganância. Vivia bem, estava satisfeito, não aspirava a muitas coisas, mas a família induziu-o a posar por uma semana, e receber uma verdadeira fortuna que não ganharia durante toda a vida; assim, ele deveria aceitar. Ele terminou por concordar com a oferta."
Elaborado com trechos da história contada nas duas postagens mais recentes, o parágrafo anterior remete-me a uma citação mantida entre as ilustrações no blog desde sua criação, e reproduzida no próximo parágrafo.
"Ser apenas você mesmo, em um mundo que se esforça ao máximo para torná-lo igual a todos os outros - significa enfrentar a mais árdua batalha que um ser humano pode enfrentar, sem jamais poder abandoná-la."
O autor da citação? O poeta, pintor, ensaísta e dramaturgo norte-americano Edward Estlin Cummings (1894 – 1962), usualmente abreviado como e. e. cummings, em minúsculas, como ele assinava e publicava. Por que recorro a ela nesta postagem? Porque ela explica o fracasso do rapaz ao enfrentar a batalha a que cummings se refere. "Sem sentir a menor ganância diante da oferta de um pequeno saco de veludo com moedas de ouro, induzido pela família, o rapaz tornou-se igual a todos os outros, e terminou por concordar com a oferta."
Terminou por concordar com a oferta, tornou-se igual a todos os outros, e acabou atingido por uma coisa que quase todos sentem, embora, segundo a história, o rapaz não a sentisse no menor grau. Que coisa é essa? A ganância.
Coincidentemente, no período em que elaborava esta postagem, tive a oportunidade de ler na edição de MAR / ABR 2019 da revista SOPHIA, um texto intitulado A doença da ganância. Coincidência que levou-me a definir qual será a ideia a ser espalhada pela postagem que sucederá a que será publicada no Dia do Silêncio. Feita essa chamada, retornemos às reflexões provocadas pela história contada nas duas postagens mais recentes. E para prosseguir com elas, porém evitando alongar demais esta postagem, creio que o mais recomendável seja ir diretamente para o trecho mais sinistro da história; para o trecho em que ficam evidentes algumas consequências da ganância.
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Intrigado com a mudança comportamental do modelo após dois dias de trabalho, Leonardo inquiriu-o: - O que se passa com você? Não é mesmo desde o momento em que o conheci! Seus olhos já não são tão traiçoeiros. O que acontece!?
- Não posso mais. Eu o liberto do compromisso. O senhor não me deve nada. Não posso mais, responde o bandido.
E pedindo-lhe para que voltasse a ser o bandido cruel de antes, Leonardo ouve a seguinte resposta: - Não posso! Não posso, porque à medida que o senhor está desenhando-me, estou voltando ao passado, quando o senhor me contratou para ser o rosto de Cristo.
Leonardo ficou estarrecido, e indagou-lhe: - Mas o que aconteceu com você?
- Eu era puro naquela ocasião. (...) Logo que recebi a pequena fortuna, fui cercado por pessoas desonestas, exploradoras, e por mulheres devassas que me corromperam. Terminei na pior situação moral da comunidade milanesa.
"Então, desci ao fundo do poço para poder defender minhas últimas moedas de ouro. Empenhei-me em lutas terríveis contra outros bandidos e matei um, matei dois, matei uma mulher miserável que se homiziara no meu coração para retirar-me a última gota de sangue, que eram as moedas que eu tinha; odiei-a e assassinei-a a punhal."
"A partir daquele dia, minha sede de sangue, o meu desejo de destruir o mundo, fizeram de mim o pior bandido da Itália. Mas agora, recordando-me do que fui, lembrando-me de como era puro, como era jovem e inocente, não posso posar mais..."
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A reação daquele bandido (que, segundo a história contada, era tido como o mais execrando e traiçoeiro que a polícia havia enjaulado) ao recordar o que fora, faz-me lembrar algo que li em um livro intitulado Pena de Morte, organizado por B. Calheiros Bomfim. De um texto intitulado Sobre a Pena de Morte apresentado no livro como algo dito em uma conferência realizada na Faculdade de Direito de Belo Horizonte, em maio de 1951, por Nélson Hungria (1891 – 1969), um dos mais importantes penalistas brasileiros, extraí o seguinte trecho:
"No Congresso Penal e Penitenciário Internacional de Praga, em 1930, dizia Kellerhals, com a sua autoridade de experimentado diretor de penitenciária: 'Devo declarar que jamais encontrei, no curso da minha experiência, um indivíduo verdadeiramente incorrigível. Nos casos em que não logrei a desejada influência sobre o prisioneiro, tive a impressão de que isso decorria de nossa própria culpa, pelo simples fato de não termos sabido encontrar o método adequado para conquistar o prisioneiro com êxito'. É um ilogismo a afirmação apriorística de incorrigibilidade. Merece inteira adesão este conceito de Quintiliano Saldaña: 'O delinquente não é uma pedra, mas um homem e, portanto, pode mudar, é suscetível de se modificar'. O mais perverso e obstinado malfeitor pode ser ressocializado, tal seja a habilidade do processo empregado para tal fim."
"Devo declarar que jamais encontrei, no curso da minha experiência, um indivíduo verdadeiramente incorrigível.", disse Kellerhals, com a sua autoridade de experimentado diretor de penitenciária, no Congresso Penal e Penitenciário Internacional de Praga, há 89 anos. "O mais perverso e obstinado malfeitor pode ser ressocializado, tal seja a habilidade do processo empregado para tal fim.", disse Nélson Hungria, há 68 anos.
E passadas tantas décadas, demonstrando nada ter entendido de tais declarações, em que acredita a imensa maioria dos integrantes desta insana civilização (sic)? Em um estúpido lema que diz que bandido bom é bandido morto.
E para entender a estupidez de tal lema, assistir um documentário intitulado Armados talvez seja uma boa ideia. Com duração de 54 minutos, ele pode ser assistido em https://www.youtube.com/watch?v=TZwxYze7RcQ. Foi desse documentário que extraí os dois próximos parágrafos contendo um depoimento de Francisco Chao, inspetor de Polícia Civil, professor de Direito Penal e Justiça Criminal, promovido por "bravura e merecimento" ao longo de sua carreira de quase 17 anos como policial.
"A gente tem sim, no Rio de Janeiro, uma corrida armamentista, isso é evidente, porque a polícia também pecou. O marginal via o policial como alguém que ia prendê-lo ou alguém que ia extorqui-lo. Por uma série de fatores, a polícia muda a sua relação com a criminalidade do tráfico de drogas. Ela começa a partir pro confronto puro e simples. A imprensa mitificava isso porque a sociedade queria isso. A sociedade estava apavorada e ela queria simplesmente o extermínio sistemático da criminalidade. A marginalidade se torna mais violenta à medida que ela não vê na ação policial a expectativa da prisão, mas sim a da morte, do extermínio puro e simples."
"A marginalidade começa a adquirir fuzis fal, fuzis HK, alemães, e aí a polícia começa também, evidentemente, a arrecadar essas armas, a apreender essas armas e a disponibilizar essas armas via autorização judicial. E aí, a marginalidade passou para outro patamar. Ela começa a adquirir as granadas. Aí, a polícia passa a utilizar os carros blindados. Aí, a marginalidade, isso é fato público e notório, adquire minas terrestres. E já passam a confrontar, a tentar impedir a entrada da polícia a qualquer custo. Aí, num quarto momento, essa marginalidade vem pro asfalto."
"Esta história real, retrata a ingenuidade e a violência, as duas faces da mesma moeda.", eis a frase que encerra a história contada nas duas postagens mais recentes. Frase que enxergo como tendo sido elaborada considerando os que cometem crimes.
"Esta época atual, retrata a estupidez e a violência, a mesma face de uma das duas da mesma moeda.", eis a paráfrase que encerra estas reflexões. Paráfrase que elaborei considerando os que concordam com o estúpido lema que diz que bandido bom é bandido morto.