segunda-feira, 18 de junho de 2018

A ilusão da imortalidade

"Por que estão chorando? Acreditaram que eu fosse imortal?"
(Luís XIV, censurando dois de seus criados, que soluçam ao vê-lo expirar, por não terem se preparado para perdê-lo)
Neste blog em que a maioria das postagens é provocada pela anterior, após uma postagem falando sobre ignorância, segue uma falando sobre ilusão. Para quem leu até o final a postagem anterior, e lembra suas últimas palavras, deparar-se com o título desta pode causar perplexidade. Afinal, suceder uma postagem que espalha a ideia de que "o ser humano é, antes e acima de tudo, um espírito imortal" por uma intitulada A ilusão da imortalidade pode parecer um contra-senso. Mas não é. Por quê? Porque a imortalidade a que se referem às duas postagens não é a mesma.
Lido isto, que tal dar uma lida no texto apresentado a seguir. Extraído do livro Em busca de nós mesmos de Clóvis de Barros Filho e Pedro Calabrez, ele é creditado a Calabrez.
A ilusão da imortalidade
Vivemos sob uma terrível ilusão de imortalidade. Ou talvez um esquecimento conveniente da nossa mortalidade. As pessoas chegam em nosso aniversário e dizem: "Parabéns! Mais um ano de vida!"
Está errado. É um ano a menos.
Mais experiências, mais memórias, mais conquistas, mais interações com o mundo? Pode ser.
Mais anos de vida? Não.
Alguém poderia discordar: "Ora, é mais um ano de vida que foi vivido!"
O que significa isso, leitor? Onde esse "ano de vida vivido" é somado? Só há uma resposta: o ano vivido é somado às memórias. Às nossas memórias pessoais em nosso cérebro. Também às memórias físicas que guardamos fora de nós, no mundo: fotos, filmes e afins.
Para o cérebro, o tempo é composto de passado (memórias) e futuro (planos e sonhos). A cada ano que passa, temos mais memórias. A cada ano que passa, temos menos tempo para conquistar nossos planos e sonhos. O envelhecimento é por definição um esgotamento do tempo à nossa disposição. Afinal, a morte é uma certeza. Cada instante é um passo em direção a ela.
Podemos acreditar que há uma vida depois desta, leitor, mas você deve concordar comigo: esta vida aqui, agora, é única – e não haverá outra oportunidade de vivê-la.
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Um ano a menos a cada ano que passa. Esta é, talvez, a mais estóica das lições. Memento mori. Lembre-se de que você irá morrer.
E quem me ouve dizer isso, pode pensar: "Mas que coisa triste! Isso é um jeito horrível de enxergar a vida!"
Não. Discordo totalmente.
Triste é chegar ao fim da vida, olhar para trás e perceber que desperdiçamos nosso precioso tempo e nossa preciosa energia com pessoas e projetos que não valeram a pena. Triste é arrepender-se por não ter aproveitado, por não ter tentado, por não ter arriscado.
Nas relações, por exemplo. Amizades, namoros, casamentos, relações familiares – não importa. Em todas elas, costumamos nos adaptar. Por anos, a pessoa está lá, ao nosso alcance. Mas nos adaptamos. Nos acostumamos com sua presença e temos a terrível ilusão de que as coisas vão continuar sempre como estão. Deixamos de agradecer, valorizar, investir nossa energia na relação. Passamos a tratar a pessoa como se fosse sempre estar lá.
Até que um dia a pessoa vai embora.
Às vezes por forçada natureza. Nada permanece. Infelizmente a saúde também não. É a única certeza que todos temos, diz a sabedoria popular.
Às vezes por vontade própria. Afinal, um dia as pessoas cansam. Cansaço, exaustão – por serem tratadas com descaso ou não terem a presença devidamente valorizada.
É aí que ele surge. O sentimento mais comum nesse vazio deixado por quem vai embora: o arrependimento. Por não ter feito isto ou aquilo. Por não ter valorizado. Por não ter agradecido. Por não ter estado lá. Por não ter tentado.
Na raiz do arrependimento está um tipo ruim de esperança: a que vem do verbo "esperar". A pessoa arrependida geralmente é (ou foi) esperançosa. Esperou que as coisas mudassem, esperou a oportunidade, esperou ter coragem. Esperou em vez de agir. Em vez de ter feito diferente.
O arrependimento é um dos sentimentos mais comuns que encontramos dentro de hospitais – de onde muitos infelizmente não retornam.
Esta cena já foi vista por muitos médicos:
Um idoso sofre um acidente vascular cerebral. O filho, um homem jovem, de quarenta e poucos anos, espera notícias. O médico se aproxima e diz: "Infelizmente, com base nas imagens do cérebro do seu pai, o quadro é irreversível".
Neste momento, você vê um homem adulto começar a chorar como uma criança. Em prantos, em um desespero que parte o coração de qualquer ser humano capaz de empatia, ele diz: "Mas doutor, briguei com meu pai há vinte anos. Não nos falamos desde então. Eu queria muito poder falar de novo com ele e me despedir!"
Só que infelizmente não dá mais. Já não há o que fazer.
Mas o pai esteve lá por décadas. Ao alcance de um telefonema. Ao alcance de um abraço e de um pedido de desculpas.
Isso me remete ao ponto inicial: uma das grandes raízes disso é a ilusão de imortalidade. Acreditamos que viveremos para sempre. Convenientemente, esquecemos da nossa própria morte. Com isso, caímos em um delírio de que as oportunidades estarão sempre lá, ao nosso alcance.
Imagine um mundo em que tivéssemos todos os dias a real consciência de que cada minuto é um minuto a menos, de que cada instante é um investimento. Um mundo em que lembrássemos diariamente de que um dia fecharemos os olhos e eles não mais se abrirão. Um mundo em que aceitássemos a ideia de que o abraço que demos em nosso pai e nossa mãe possa ter sido o último. De que o beijo em nosso esposo ou esposa possa ser uma despedida.
Se as pessoas tivessem diariamente essa consciência da finitude da vida, acredito que eliminaríamos grande parte da mesquinharia e pequenez que encontramos nas coisas cotidianas.
Consciente da sua mortalidade, talvez você não brigasse no trânsito. Talvez não se apegasse a detalhes pequenos e insignificantes para brigar com as pessoas queridas da sua vida. Talvez parasse de reclamar de trivialidades no trabalho e aproveitasse as oportunidades que lhe são dadas todos os dias.
A vida acaba. Por isso devemos ser agradecidos todos os dias à natureza por ter nos dado a oportunidade de passear brevemente por este universo. Agradecidos sobretudo pela oportunidade de passear pelo cosmos, possuindo, dentro de nós, o cérebro mais complexo que existe –o único cérebro capaz de aprender sobre ele mesmo, de refletir e de buscar viver melhor amanhã do que vivemos hoje.
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"A vida acaba. Por isso devemos ser agradecidos todos os dias (...) pela oportunidade de (...) refletir e de buscar viver melhor amanhã do que vivemos hoje.", diz Pedro Calabrez. Busca que, inevitavelmente, passa pela reflexão sobre a imortalidade focalizada nesta postagem e também sobre a focalizada na anterior, digo eu.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Realidade Ignorada

"Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual,
 somos seres espirituais vivendo uma experiência humana."
(Teilhard de Chardin [1881 - 1955], teólogo, filósofo e paleontólogo francês)
"Existem apenas duas coisas infinitas - o universo e a estupidez humana. E não tenho tanta certeza quanto ao universo.". Com essa famosa afirmação de Albert Einstein foi encerrada a postagem anterior e provocada esta intitulada Realidade Ignorada. O motivo da provocação? A relação que enxergo entre estupidez e ignorância. Se por um lado, ignorância é algo que pode ser considerado natural, pois o desconhecimento de uma infinidade de coisas é um atributo de todos os que chegam a esta dimensão, por outro lado, sair dela insistindo em ignorar coisas que nela se poderia, e deveria, aprender é algo que nada tem de natural, e que tudo tem de estupidez. Feito este preâmbulo, segue um texto de Hermínio Corrêa de Miranda, extraído de seu livro As duas faces da vida (Textos Reunidos), que enxergo como capaz de contribuir para a redução de nossa ignorância. 
Realidade Ignorada
Sobre inúmeras coisas discordam os seres humanos, mas creio possível distinguir-se no troar de tão ruidosas manifestações de desentendimento o estribilho de um consenso a nos assegurar que vivemos uma época de perplexidade e, por conseguinte, de transição. Dependerá de nós, criaturas deste século que se extingue, se o milênio que se avizinha trará no seu bojo a tão sonhada e adiada felicidade coletiva ou se continuaremos a tatear na escuridão dos descaminhos.
A esperança de um encontro com nosso verdadeiro destino parece autorizada precisamente porque o momento é de inquietação e desorientação. Explica-se o aparente paradoxo. Se estamos insatisfeitos com os modelos civilizadores até agora experimentados, é porque ansiamos por propostas e, obviamente, soluções mais inteligentes, menos traumáticas e tão definitivas quanto o permite a mutabilidade da própria vida.
Um exame retrospectivo, mesmo superficial, mas honesto, informa que ainda estamos tentando corrigir disfunções do processo civilizador trabalhando mais com as instituições do que com o ser humano que nelas se integra. Insistem pensadores, filósofos, sociólogos, governantes e líderes de toda espécie em traçar programas estruturais destinados, teoricamente, a melhorar a condição humana, mas - novo paradoxo! - ignorando o principal componente da equação da vida, ou seja, o ser humano, por mais que a demagogia ou a incúria estejam a trombetear que é tudo imaginado em proveito da sociedade. Não é. Nossos desacertos são gerados, antes de qualquer outra consideração, por problemas humanos. Mas como equacioná-los corretamente e gerir com um mínimo de competência os esquemas propostos, se ainda não acrescentamos às fórmulas ditas salvadoras o indispensável ingrediente da realidade espiritual?
As leis, os decretos, os códigos jurídicos, os programas sociais, os planos econômicos, as disciplinas científicas, os sistemas políticos não estão ainda informados de que somos todos espíritos imortais, sobreviventes e reencarnantes, responsáveis perante a lei maior que regula o cosmos e as criaturas que o povoam.
Os aflitivos atritos entre árabes e judeus, por exemplo, se deslocariam prontamente para outra perspectiva se uns e outros se tornassem conscientes de que o árabe de hoje pode ter sido o judeu de ontem, em vidas anteriores, ou vir a ser o de amanhã, em vidas subsequentes.
Aquele que busca o enriquecimento a qualquer custo social ou ético precisa saber que estará sujeito a severo ajuste perante as leis divinas quando retornar ao mundo, em existência de privações e carências. A crescente preocupação com as condições ecológicas, especialmente entre os mais jovens, constitui evidência do desconforto que estão experimentando as novas gerações de encontrarem aviltado, a caminho de total destruição, aquele mundo em que viveram há umas poucas gerações, limpo e harmonioso no funcionamento de seus mecanismos de equilíbrio ambiental. Ainda trazem aqueles, na memória inconsciente, lembrança de um mundo no qual se podia beber a água cristalina dos rios, ouvir o canto dos pássaros, saborear a fruta e o legume sem tóxicos, respirar o ar incontaminado, contemplar o céu despoluído, caminhar sobre as paisagens sem as feias cicatrizes das minerações mutiladoras.
"Après moi, le déluge" ("Depois de mim, o dilúvio"), teria dito um soberano francês, num impulso arrogante de que-me-importismo egoísta. É difícil imaginar onde e como estaria hoje esse pobre espírito, mas não resta dúvida de que armou contra si mesmo o mecanismo infalível da correção, dado que todos os nossos atos e até pensamentos constituem atitudes responsáveis, pelas quais temos de responder de alguma forma, algum dia, em algum ponto do universo.
Não há, pois, fórmulas mágicas nem modelos competentes para equacionamento e solução das assustadoras crises sociais, políticas, econômicas e religiosas que marcaram, com a sua presença, a tônica deste final de século. Os desajustes são profundos, antigos e resistentes. Não se resolvem no âmbito acanhado das leis humanas, nem com lideranças desinformadas da realidade espiritual. Enquanto esse comportamento básico e vital não for incorporado às estruturas do pensamento, seremos todos reféns da insatisfação em vez de hóspedes da felicidade. Curioso, contudo, que, por mais dramáticas que sejam as consequências e amplitudes desse conceito revolucionário, ele começa com a singela e tão ignorada verdade de que o ser humano é, antes e acima de tudo, um espírito imortal.
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"Nossos desacertos são gerados, antes de qualquer outra consideração, por problemas humanos. Mas como equacioná-los corretamente e gerir com um mínimo de competência os esquemas propostos, se ainda não acrescentamos às fórmulas ditas salvadoras o indispensável ingrediente da realidade espiritual?"
"Nossas crises sociais, políticas, econômicas e religiosas não se resolvem no âmbito acanhado das leis humanas, nem com lideranças desinformadas da realidade espiritual. Enquanto esse comportamento básico e vital não for incorporado às estruturas do pensamento, seremos todos reféns da insatisfação em vez de hóspedes da felicidade. Curioso, contudo, que, por mais dramáticas que sejam as consequências e amplitudes desse conceito revolucionário, ele começa com a singela e tão ignorada verdade de que o ser humano é, antes e acima de tudo, um espírito imortal.
Os dois parágrafos imediatamente acima são trechos selecionados do texto de Hermínio Corrêa de Miranda. Texto magnificamente encerrado com "a singela e tão ignorada verdade de que o ser humano é, antes e acima de tudo, um espírito imortal". Singela e tão ignorada verdade que, no meu entender, tem tudo a ver com a afirmação de Teilhard de Chardin usada como epígrafe nesta postagem, e que, por ser algo que creio que devemos ter em mente para o resto da vida, será também usada como rodapé.
"Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual,
 somos seres espirituais vivendo uma experiência humana."

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Como não ser escravo da notícia

"Olhares apressados, acadêmicos que quiseram - seguindo a onda do momento - escrever antes que os outros e publicar, olhares que não deram o tempo da fotografia nem para a fotografia - parafraseando o professor brasileiro Boris Kossoy. Pressa em julgar fotógrafo e fotografia! Faltou tempo para analisarmos a imagem.", diz Simonetta Persichetti no segundo parágrafo de sua excelente reportagem intitulada O menino que nos ensinou a ver, espalhada pela postagem anterior.
"Escrever antes que os outros e publicar", eis a onda do momento! Onda que me traz à mente uma reportagem intitulada Como não ser escravo da notícia, publicada na edição 240 da revista Trip em fevereiro de 2015. Uma reportagem sobre uma revista inglesa que, indo contra a onda do "escrever antes que os outros e publicar", "tem orgulho de ser a última a dar as notícias'".
Como não ser escravo da notícia
Velocidade é o que importa? Não para Rob Orchard e os editores da Delayed Gratification, uma revista inglesa que pretende ser a última a cobrir os fatos
Em um jornalismo dominado por um fluxo incessante de informações, em que ser o primeiro a dar uma notícia - mais do que a qualidade - é o principal objetivo, o britânico Rob Orchard resolveu dar um passo para trás. Há quatro anos, fundou a revista Delayed Gratification, que segue o princípio do slow journalism: publicada apenas quatro vezes por ano, oferece reportagens sobre as principais notícias dos últimos três meses. (O título da revista significa "gratificação adiada", o ato de deixar um prazer para depois.)
"Há uma parede de informação imensa que chega até nós 24 horas por dia e é demais para nos mantermos por cima", afirma Orchard, que hojé é diretor editorial na The Slow Journalism Company, empresa que publica a Delayed Gratification. "Há muita necessidade de fazer curadoria de notícias - cortar todos os ruídos, absurdos e trivialidades que gastam tempo, trazendo aos leitores as histórias que importam." Para isso, a revista expande a cobertura de fatos marcantes, recupera histórias que foram esquecidas pelo público e tem orgulho de ser a "última a dar as notícias".
O termo slow journalism, claro, é inspirado nas outras correntes do slow movement - o slow food e o slow travel são os mais famosos. A semelhança entre essas propostas, seja cozinhar ou viajar, e o jornalismo da Delayed Gratification, explica Orchard, é a ideia de ter tempo, seja para produzir ou para ler algo de qualidade. A quantidade absurda de notícias na internet, por outro lado, "pode comer o seu tempo, deixá-lo ansioso e tornar muito mais difícil para você sentar e se concentrar".
Orchard é otimista em relação ao futuro do slow journalism como um movimento. "Quanto mais as pessoas se desiludirem com notícias inspiradas pelo Twitter, que dizem o que está acontecendo em vez de o que as coisas significam, mais publicações e organizações vão aparecer em torno dessa ideia", diz. "Será sempre um nicho, mas pode fornecer um antídoto útil e nutritivo para a atual configuração da mídia."
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"... um fluxo incessante de informações, em que ser o primeiro a dar uma notícia - mais do que a qualidade - é o principal objetivo", afirma o britânico Rob Orchard, fundador da revista Delayed Gratification ("gratificação adiada"), em relação ao jornalismo destes tempos.
"Olhares apressados, acadêmicos que quiseram - seguindo a onda do momento - escrever antes que os outros e publicar", afirma Simonetta Persichetti, jornalista e crítica de fotografia, em relação ao modo como foi olhada a fotografia de um menino que, em estado de encantamento, assiste, nas ondas de Iemanjá, a queima de fogos do réveillon de 2018. Fotografia que pode ser vista em O menino que nos ensinou a ver.
Vocês enxergam alguma afinidade entre as afirmações de Rob Orchard e de Simonetta Persichetti? Tudo a ver, não?
"Velocidade é o que importa?" - eis a indagação que inicia o subtítulo da reportagem espalhada por esta postagem.
Indagação respondida, no próprio subtítulo, assim: "Não para Rob Orchard e os editores da Delayed Gratification, uma revista inglesa que pretende ser a última a cobrir os fatos."
Indagação que, contrariamente à resposta apresentada no parágrafo anterior, pode ser respondida assim: Sim para uma absurda quantidade de integrantes desta desvairada civilização (sic) para a qual, não apenas na divulgação de notícias, mas em toda e qualquer atividade em que seja possível ser usada, velocidade é o que importa.
A quem discordar de tal afirmação, sugiro refletir sobre a relação da maioria das pessoas com duas coisas elevadas à condição de imprescindibilidade nesta dimensão deste planeta. Quais são essas coisas? Internet e smartphones. Vocês concordam que em cada novo G (3G, 4G, ... nG) que seja disponibilizado a vantagem nele mais enaltecida é o aumento de velocidade que proporciona aos seus escravizados usuários?
Choca-os a expressão escravizados usuários? Acham-a exagerada? Então, leiam o que diz o cantor Armandinho em uma matéria contendo um desabafo sobre sua relação com os smartphones, publicada na internet no dia 16 do mês passado. "Acho triste sermos escravizados como nos filmes, algemados sem ter algemas, e pagar 7.000 reais para ser preso.".
"Pagar para ser escravizado; pagar para ser algemado sem algemas", para usar um grilhão digital! Um grilhão digital que precisa periodicamente ser atualizado para uma versão que aumentando sua velocidade de operação aumente também o grau de escravização. Sinistro, não?! E ao falar em grilhão digital, em mais uma aplicação do método das recordações sucessivas, recordo nesta postagem algo lembrado por Ricardo Antunes em um artigo intitulado A fatura do bem-estar publicado na edição de 16 de setembro de 2012 do jornal O Estado de S. Paulo.
O que Ricardo Antunes lembrou em seu artigo? Que "BlackBerry era o grilhão usado durante a escravidão, nos Estados Unidos, que atava os pés dos negros como forma de impedir sua fuga. Só que agora adentramos na fase do grilhão digital.".
O que fez Ricardo Antunes lembrar o uso do BlackBerry durante a escravidão, nos Estados Unidos? O fato de BlackBerry ser o nome de uma empresa que ajudou a criar a indústria de smartphones. Uma empresa que tendo decidido criar uma linha de smartphones e tablets para o mundo corporativo deu aos seus produtos o próprio nome da empresa, e que até 2007 tinha-os como sonho de consumo das pessoas. Ou seja, uma empresa que criara um grilhão digital que se tornara o sonho de consumo dos escravizados.
O tempo passou, o sucesso da BlackBerry passou, e neste mundo insano em que sobrevivemos o lugar da BlackBerry outra empresa ocupou, pois o que parece que nele jamais passará é a facilidade com que a maioria das pessoas adere de bom grado a coisas que as escravizam; e pelas quais até se dispõe a pagar. Estúpido, não?!
E tome método das recordações sucessivas, hein! Método que faz com que o parágrafo anterior me faça lembrar aquela famosa afirmação de Albert Einstein: "Existem apenas duas coisas infinitas - o universo e a estupidez humana. E não tenho tanta certeza quanto ao universo.".

segunda-feira, 28 de maio de 2018

O menino que nos ensinou a ver

Nestes tempos em que registrar fotograficamente nossa presença tornou-se mais importante do que ver algo significativo que esteja acontecendo onde estivermos, partindo de uma inspirada foto do fotógrafo Lucas Landau, a jornalista e crítica de fotografia Simonetta Persichetti produziu uma excelente reportagem chamando nossa atenção para algo que podemos aprender com a atitude de um menino que nela aparece em primeiro plano. A reportagem da qualificada profissional, apresentada como pós-doutora em jornalismo pela USP e professora da faculdade Cásper Libero, foi publicada na edição de 07 de janeiro de 2018 do jornal O Estado de S. Paulo.
O menino que nos ensinou a ver
Imagem do garoto de Copacabana é uma aula. Uma lição sobre o que vale a pena ver, o que vale a pena olhar
O ano de 2018 começou muito bem. Pelo menos no que diz respeito à imagem. Uma fotografia, singela, linda, viralizou nas redes sociais e criou uma celeuma como há muito não se via! Sim, muitas fotos antes desta já marcaram época e se tornaram significativas. Mas o que assusta nesse vozerio é muito mais o pré-conceito (escrevi assim mesmo) do que a imagem em si.
Uma fotografia é uma fotografia! Não afirma nem nega nada! É um átimo, um recorte de um olhar atento que, em frações de segundo, traz a visão de um fotógrafo que metaforicamente quer nos contar uma história. Olhares apressados, acadêmicos que quiseram – seguindo a onda do momento – escrever antes que os outros e publicar, olhares que não deram o tempo da fotografia nem para a fotografia – parafraseando o professor brasileiro Boris Kossoy. Pressa em julgar fotógrafo e fotografia! Faltou tempo para analisarmos a imagem.
O que vemos diante de nós -, e, por favor, vamos deixar de lado se a fotografia originalmente era colorida e a Reuters transformou em preto e branco -, conversa inútil, é uma fotografia potente que traduz nosso momento. Enquanto milhares de pessoas dão as costas para os fogos, para a festa e vemos o espocar dos flashes dos celulares, um menino resolve olhar para o céu e aprender – ou já sabe, ou muito mais provavelmente, confirmar o que os seus olhos veem e celular nenhum pode trazer. Ele assiste sem mediação, sem necessidade de provar, por meio de imagens falsas de redes sociais, ou por meio do que alguns decidem que é visível, nas ondas de Iemanjá, ele se isola, ele vê e seu olhar é de encantamento!
O que tem nela que nos agride, nos afasta? Por quer tentaram acusar o mensageiro, o fotógrafo – o carioca Lucas Landau – que, procurado pela reportagem, não quis se manifestar por ora? E com razão. Não há sentido! Uma fotografia não é uma linguagem universal, ela é plena de códigos que esperam ser desvendados. Alguns falaram em espelho! Não, ela não é espelho, é apenas a visão de um fotógrafo sobre determinado assunto. Uma opinião. Outros tentaram parafrasear o filósofo francês Georges Didi-Huberman e escrever sobre o que vemos e o que nos olha.
Se levássemos em conta todas as discussões levantadas nos últimos dias, nunca teríamos visto a famosa foto daquele que foi considerado o fotógrafo do século 20, o francês Henry Cartier-Bresson, que, em 1954, fotografou um menino feliz e orgulhoso por carregar duas garrafas de vinho numa rua parisiense e, atrás dele, vemos uma menina saltitando e batendo palmas. Muito menos veríamos a foto de um garoto segurando um filhotinho de cachorro, feita pelo fotógrafo húngaro André Kertesz em 1928. Isso sem falar da foto mais dramática do vietnamita Nick Ut, feita em 1972, a imagem emblemática da menina do Vietnã e também o não menos discutido registro do fotógrafo sul-africano Kevin Carter, realizado nos anos 1990, de uma criança num campo de refugiados no Sudão e que, pelo recorte fotográfico, parece estar à morte com um abutre atrás dela, esperando o desfecho.
Fotografias são metáforas, pontos de discussão e reflexão! A foto de Lucas Landau é, na verdade, uma aula sobre o ver, ver por meio dos nossos olhos e não por meio de aparatos. Não é – como muitos disseram nas redes sociais, ou pelo menos não parece ser, - a foto de um menino negro abandonado – é a foto de olhos que querem conhecer o mundo, enxergar. É uma foto que nos diz que vale a pena olhar por nós mesmos! Uma maneira de nos apropriarmos do mundo por meio do olhar. Uma fotografia não representa o mundo tal como ele é, mas de acordo com as convenções de cada um! A pesquisadora de imagens francesa Martine Joly esclarece muito bem que "uma imagem pode ser tudo e seu contrário – visual e imaterial, fabricada e natural, real e virtual, móvel e imóvel, sagrada e profana, antiga e contemporânea, vinculada à vida e à morte, analógica, comparativa, convencional, expressiva, comunicativa, construtora, destrutiva, benéfica e ameaçadora".
Hoje, julgamos e somos julgados pelas imagens. No fim da década de 1960, o também francês Guy Debord, escreveu em seu livro A Sociedade do Espetáculo: "Ali, onde a realidade se transforma em simples imagens, as simples imagens se transformam em realidade".
Toda essa parafernália discursiva é bastante eficiente para nos chamar a atenção para o que vale a pena olhar, para o que vale a pena ver. Uma fotografia de réveillon, que passaria despercebida, nos chamou a atenção para que, mais uma vez, pudéssemos discutir o papel da imagem numa sociedade que se diz imagética, mas que ainda precisa de um texto para decifrar uma fotografia.

Encantado. Nas ondas de Iemanjá, o menino sonha de olhos abertos
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"Fotografias são metáforas, pontos de discussão e reflexão!", diz Simonetta Persichetti. Ponto de reflexão que, no meu entender, levou-a a interpretar a polêmica fotografia assim: "A foto de Lucas Landau é, na verdade, uma aula sobre o ver, ver por meio dos nossos olhos e não por meio de aparatos. (...) É uma foto que nos diz que vale a pena olhar por nós mesmos!"
Uma aula sobre o ver dada por uma foto! Sobre o ver por meio dos nossos olhos e não por meio de aparatos. Uma aula dada pela atitude de um menino que "isola-se nas ondas de Iemanjá para, - sem mediação, sem necessidade de provar, por meio de imagens falsas de redes sociais, ou por meio do que alguns decidem que é visível -, assistir" a um espetáculo para o qual "milhares de pessoas dão as costas". Milhares de pessoas cujo interesse é o registro - em seus celulares – de sua presença em um lugar onde "fisicamente" estão; não a visão do espetáculo que nele está sendo apresentado.
"O menino vê o que celular nenhum pode trazer e seu olhar é de encantamento!", diz Simonetta Persichetti, "enquanto milhares de pessoas dão as costas para os fogos, para a festa e veem o espocar dos flashes dos celulares", com um olhar sobre o qual ela nada diz.
O menino que nos ensinou a ver, eis a afirmação que intitula a reportagem de Simonetta Persichetti. "Será que aprenderemos alguma coisa com o que o menino ensinou?", eis a indagação que encerra esta postagem.