terça-feira, 18 de setembro de 2018

Reflexões provocadas por "Desaceleração"

Comentários no blog ninguém fez, mas por e-mail recebi algumas manifestações, principalmente após a segunda das postagens intituladas Desaceleração, dentre elas uma coincidentemente iniciada com as palavras do texto de Leila Ferreira que eu escolhera para começar estas reflexões. Os grifos são da remetente do e-mail.
Quando a máxima "tempo é dinheiro" se aplica (99% do tempo), a pressa é particularmente valorizada. Não é à toa que estamos todos exaustos. O cansaço é tão grande que tem gente pagando para cochilar depois do almoço (ou depois da barra de cereal que substitui o almoço): no centro do Rio de Janeiro já existe um espaço onde se pode dormir por alguns minutos e voltar renovado ao trabalho.
Queria que tivesse na Bahia .......
Tô bem assim fazendo tudo ao mesmo tempo o tempo todo .......
"Algumas empresas começam a estimular seus funcionários a se concentrar em uma atividade de cada vez e a se defender das interrupções eletrônicas sempre que possível.". O processo é gradativo.
Não vejo o dia da PETROBRAS implantar isso.
Primeiro texto seu que consigo ler este ano acredita?
Ao dizer "Tô bem assim fazendo tudo ao mesmo tempo o tempo todo" a remetente do e-mail faz uma declaração que, no meu entender, é aplicável à imensa maioria dos integrantes da autodenominada espécie inteligente do universo. E quanto à indagação feita na frase "Primeiro texto seu que consigo ler este ano acredita?", respondi-lhe que acredito. Afinal, ao se fazer tudo ao mesmo tempo o tempo todo, uma coisa que deixa de ser feita é buscar tempo para ler coisas que provoquem reflexões. E falando em reflexões, seguem algumas provocadas por Desaceleração.
"Quando a máxima 'tempo é dinheiro' se aplica (99% do tempo), a pressa é particularmente valorizada. Não é à toa que estamos todos exaustos.", diz a jornalista e escritora Leila Ferreira, fazendo-me lembrar as seguintes palavras de Eliane Brum, outra jornalista e escritora: "Estamos exaustos e correndo. Exaustos e correndo. Exaustos e correndo. E a má notícia é que continuaremos exaustos e correndo, porque exaustos-e-correndo virou a condição humana dessa época.".
Dessa época em que, segundo James Gleick, outro estudioso da pressa, "uma das causas desse ritmo frenético, que nos impede de nos envolver com o que estamos fazendo, é que ter pressa virou sinal de status. Quem vive correndo dá a impressão de ser uma pessoa importante, requisitada, cheia de compromissos. Quanto menos tempo se tem, mais prestígio. Talvez por isso haja tanto jogo de cena. Não basta ser ocupado: é preciso mostrar que não se tem tempo. O fato é que, somando a pressa genuína com a pressa posada, não sobra espaço para os momentos sem pressa."
Momentos sem pressa que possibilitem a prática de dois hábitos saudáveis que perdemos. O primeiro - ficar sem fazer nada – o dolce far niente dos italianos. Ficar à toa, sem qualquer aparelho eletrônico nas mãos, deixando o corpo e a cabeça descansar. O segundo - fazer uma coisa de cada vez, evitando assim fazer coisas não muito bem e, consequentemente, ter que fazê-las mais de uma vez.
Carl Honoré lembra que as últimas pesquisas neurocientíficas indicam o que a maioria de nós já suspeitava: o cérebro não é dos melhores em matéria de multitarefa. "É claro que conseguimos desempenhar algumas tarefas simples ou rotineiras ao mesmo tempo, mas quando precisamos que o cérebro se envolva de fato naquilo que estamos fazendo é necessário focar em uma atividade de cada vez. Em seu livro, ele pergunta: "Quando foi a última vez que vimos alguém simplesmente olhando pela janela de um trem? Todo mundo está ocupado lendo jornal, jogando videogames, ouvindo música no iPod, trabalhando no laptop ou falando no celular". Ele alega que, na era das mil distrações e dos milhares de estímulos, não conseguimos mais ficar sozinhos com nossos pensamentos. Sentimos tédio ou, mais que isso, entramos em pânico e procuramos qualquer coisa que faça o tempo passar. Aquele mesmo tempo que nunca achamos que temos.
E ao falar em sentir tédio, Carl Honoré me faz lembrar algo dito por Mário Sérgio Cortella a partir do minuto 6:30 em um vídeo no YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=ff7l2PeDtws).
"O tédio é decisivo para você poder inventar. Hoje você tem o que fazer o tempo todo. Isso é péssimo. A ciência, a religião, a filosofia, a arte nascem do tédio. Elas não nascem da ocupação. Gente ocupada não faz outra coisa a não ser aquilo que já está fazendo. As redes sociais hoje com o mundo da tecnologia ocupam de maneira constante. E ao ocupar de maneira constante você nunca fica sem ter o que fazer."
Ficar sem ter o que fazer! Eis uma benção que esta apressada civilização na qual sobrevivemos enxerga como um problema. "Eu não sei ficar parada; dá um nervoso"! Eis, textualmente, uma confissão que ouvi de uma participante de um trabalho voluntário do qual faço parte. Dá nervoso ficar parada! Que reação sinistra, hein! Uma reação sinistra, infelizmente, bastante comum entre a maioria dos integrantes de uma espécie que, abominando coisas que a ajudariam a tornar-se melhor e endeusando coisas que atuam exatamente no sentido contrário, segue por essa coisa denominada vida pretensiosamente acreditando ser ela a espécie inteligente do universo.
"Carl Honoré me contou que uma mulher com quem conversou descreveu o processo de desaceleração que estava vivendo como "passar de um filme em preto e branco para outro em tecnicolor". As pessoas descobrem seu tempo giusto, como na música, e passam a trabalhar, a se divertir e a viver melhor, alega. Conseguem ser mais criativas e se relacionar melhor com as outras pessoas e com elas mesmas.", diz Leila Ferreira.
Serem mais criativas e se relacionarem melhor com as outras pessoas e com elas mesmas! Será que é adotando esse comportamento, oriundo da adoção do processo de desaceleração citado no parágrafo anterior, que as pessoas, finalmente, conseguirão criar algo que faça jus ao termo civilização? Será que é fácil adotar tal comportamento? No meu entender, não. E ao responder à indagação anterior, imediatamente, me vem à mente uma inesquecível frase pronunciada pelo protagonista do filme Patch Adams – O amor é contagioso. Qual é a frase? "Tudo o que vale a pena fazer é difícil." Frase na qual incluo o processo de desaceleração.
Sendo assim, para ajudá-los a enfrentarem as dificuldades na adoção de tal processo, segue uma sugestão de leitura. Perca tempo – É no lento que a vida acontece, eis o título de um maravilhoso livro de Ciro Marcondes Filho publicado em 2005, época em que tive oportunidade de dá-lo como presente a alguns amigos que por ele se interessaram quando o ofereci no bojo de um e-mail enviado para a minha lista de destinatários. Um livro com um título bastante provocativo, não? Um livro que provocará (em quem ousar perder tempo lendo-o) mais reflexões sobre o processo de desaceleração.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Desaceleração (final)

Continuação de quarta-feira
Segundo o autor de Devagar, estamos vivendo na era da raiva, graças à velocidade. A pressa e a obsessão com a ideia de economizar tempo nos deixam furiosos quando alguém se interpõe em nosso caminho e atrapalha nosso ritmo. Isso pode acontecer nas estradas, nas relações pessoais, na academia de ginástica, nas férias – ou até mesmo nos mosteiros budistas, atrevo-me a acrescentar. Estamos cada vez mais impacientes, porque não podemos perder tempo. E, além de não suportarmos pessoas lentas, computadores lentos ou o motorista na nossa frente que reduziu porque está procurando o nome da rua, estamos perdendo dois hábitos saudáveis. Um deles é ficar sem fazer nada – o dolce far niente dos italianos. Ficar à toa, sem qualquer aparelho eletrônico nas mãos, deixando o corpo e a cabeça descansar é coisa que rarissimamente se faz hoje.
Em seu livro, Carl Honoré pergunta: "Quando foi a última vez que vimos alguém simplesmente olhando pela janela de um trem? Todo mundo está ocupado lendo jornal, jogando videogames, ouvindo música no iPod, trabalhando no laptop ou falando no celular". Ele alega que, na era das mil distrações e dos milhares de estímulos, não conseguimos mais ficar sozinhos com nossos pensamentos. Sentimos tédio ou, mais que isso, entramos em pânico e procuramos qualquer coisa que faça o tempo passar. Aquele mesmo tempo que nunca achamos que temos.
O outro hábito que perdemos, segundo o canadense, deixo para o texto seguinte, diz Leila Ferreira, iniciando o último parágrafo do texto intitulado Velório Drive-Through que termina assim:
Agora deu vontade de parar de escrever e ficar sem fazer nada, só olhando pela janela desta casa de mais de cem anos, em Cascais, sentindo o sossego absoluto da avenida da Castelhana – que, na verdade, é uma ruazinha onde raramente passa alguém – e contemplando as nuvens que se deslocam sem pressa em direção ao mar. Hora de desacelerar. Sorry, laptop.
Carl Honoré me contou que uma mulher com quem conversou descreveu o processo de desaceleração que estava vivendo como "passar de um filme em preto e branco para outro em tecnicolor". As pessoas descobrem seu tempo giusto, como na música, e passam a trabalhar, a se divertir e a viver melhor, alega. Conseguem ser mais criativas e se relacionar melhor com as outras pessoas e com elas mesmas. Mas, para que isso aconteça, têm de reaprender algo que está ficando esquecido: fazer uma coisa de cada vez – aquele segundo hábito saudável que não cheguei a especificar no texto anterior.
Responder à pergunta do colega de trabalho ao mesmo tempo em que lê uma mensagem no celular, atende o telefone fixo e confere e-mails pode parecer muito inteligente, muito eficaz e muito moderno, segundo Carl Honoré, mas na maioria das vezes fazer duas coisas (ou mais) ao mesmo tempo significa fazer duas coisas (ou mais) não muito bem. A expressão que se usa hoje é multitarefa. O profissional multitarefa toma decisões, administra conflitos, redige relatórios, checa suas mensagens, fala com o escritório em outra cidade – tudo ao mesmo tempo – e por isso é considerado um exemplo de eficiência. Até que alguém critica o conteúdo do relatório que ele redigiu ou os conflitos que ele achava que havia administrado reaparecem.
Carl Honoré lembra que as últimas pesquisas neurocientíficas indicam o que a maioria de nós já suspeitava: o cérebro não é dos melhores em matéria de multitarefa. "É claro que conseguimos desempenhar algumas tarefas simples ou rotineiras ao mesmo tempo, mas quando precisamos que o cérebro se envolva de fato naquilo que estamos fazendo é necessário focar em uma atividade de cada vez. Muito do que consideramos multitarefa não passa de um malabarismo de atividades feitas em sequência", diz. "E as pesquisas mostram que esse vaivém, esse passar de uma coisa para outra, é extremamente improdutivo: às vezes, gastamos com uma atividade mais que o dobro do tempo caso fosse feita sozinha."
Rever essa prática de fazer tudo ao mesmo tempo (no trabalho e em casa) não é simples. "Mas dá para mudar", garante Carl Honoré.
E para explicar porque não é simples, interrompo aqui as palavras de Honoré e recorro a um trecho de outra passagem do livro. Um trecho em que é citado o americano James Gleick, outro estudioso da doença da pressa, nome dado por especialistas em comportamento à nossa incapacidade de parar. Gleick alega que uma das causas desse ritmo frenético, que nos impede de nos envolver com o que estamos fazendo, é que ter pressa virou sinal de status. Quem vive correndo dá a impressão de ser uma pessoa importante, requisitada, cheia de compromissos. Quanto menos tempo se tem, mais prestígio. Talvez por isso haja tanto jogo de cena. Não basta ser ocupado: é preciso mostrar que não se tem tempo. O fato é que, somando a pressa genuína com a pressa posada, não sobra espaço para os momentos sem pressa.
Quando a máxima "tempo é dinheiro" se aplica (99% do tempo), a pressa é particularmente valorizada. Não é à toa que estamos todos exaustos. O cansaço é tão grande que tem gente pagando para cochilar depois do almoço (ou depois da barra de cereal que substitui o almoço): no centro do Rio de Janeiro já existe um espaço onde se pode dormir por alguns minutos e voltar renovado ao trabalho. Aquele cochilo que acontecia em casa, depois do arroz com feijão e bife acebolado, agora é desfrutado em uma cabine, numa poltrona desenvolvida pela NASA, e os astronautas do asfalto pagam de dezoito a 28 reais por cochilos que vão de vinte a quarenta minutos – o sono cronometrado e o taxímetro rodando.
E retornando ao ponto em que Carl Honoré diz que "Rever essa prática de fazer tudo ao mesmo tempo (no trabalho e em casa) não é simples. 'Mas dá para mudar'", eu trago o seguinte trecho:
"Quando entendemos que o cérebro tem limites, fica mais fácil. Algumas empresas começam a estimular seus funcionários a se concentrar em uma atividade de cada vez e a se defender das interrupções eletrônicas sempre que possível.". O processo é gradativo. "Somos viciados em adrenalina, e a saída desse ritmo frenético tem que acontecer aos poucos. Por exemplo, podemos começar dedicando uma hora por dia a uma tarefa que exija mais esforço intelectual e durante essa hora manter os equipamentos eletrônicos desligados. Ou podemos experimentar passar uma tarde por semana executando nossas tarefas em sequência, em vez de fazer várias coisas ao mesmo tempo, e depois avaliar o quanto o trabalho rendeu." Carl Honoré afirma que ele próprio diminuiu muito a sua rotina multitarefa, e sente que ficou bem mais criativo e eficiente no trabalho, além de ter passado a viver de forma mais prazerosa por se envolver mais em tudo que faz.
Ele divide sua vida em antes e depois de adotar a filosofia slow. "Hoje, tenho um dia cheio e estimulante, mas sem correria. É uma questão de encontrar o ponto de equilíbrio." O primeiro passo para mudar foi se conscientizar de que estar preso a essa cultura fast forward fazia mal a ele. Precisou, então, tomar providências concretas: "A primeira delas foi diminuir o número de compromissos para que sobrasse mais tempo para coisas importantes. Parei de usar relógio e comecei a fazer pausas durante o meu dia de trabalho para relaxar, meditar um pouco. Tenho desligado o celular e me desligado dos e-mails sempre que possível. A tecnologia não é algo bom nem ruim – é neutra, depende do uso que se faz dela, e nossa tendência é utilizá-la mal. Também aprendi a dizer não: recebo muitos convites e propostas para escrever, fazer palestras, dar consultoria – a tentação de aceitar tudo é grande, mas aí estaria pregando uma coisa e fazendo outra. Então, escolho o que acho mais relevante para manter a minha vida equilibrada".
Fechando a nossa conversa, pergunto a Carl Honoré que epitáfio escreveria na época em que vivia correndo e agora que aprendeu a pisar no freio. Ele responde que o primeiro seria: "Ele viveu (e morreu) com pressa". O de hoje, "O tempo foi seu aliado". Nada a acrescentar.
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Nada a acrescentar, diz Leila Ferreira. Mas muito a pensar, digo eu; muito a refletir sobre o que foi dito nesta postagem e na anterior.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Desaceleração (I)

Sob o título "Meu tempo é já", a postagem publicada no dia 13 de agosto chama atenção para "a aceleração intensa na vida contemporânea". Após a publicação de uma postagem contendo reflexões provocadas por ela, em conformidade com a prática de encadear postagens que tenham alguma relação, segue uma cuja intenção é chamar atenção para a imprescindibilidade de descobrirmos algo que nos possibilite enfrentar essa praga que assola esta civilização (sic). Algo que, felizmente, descobri em um excelente livro de Leila Ferreira intitulado A arte de ser leve em um capítulo intitulado Desaceleração.
Publicado no inverno de 2010, a quem passar pela cabeça a vontade de insinuar que após oito anos a ideia de desaceleração nele defendida pode estar obsoleta, digo que a edição de setembro de 2018 da revista Vida Simples traz em sua capa o seguinte destaque: - Desacelere – Entenda como reduzir o passo das coisas, descartar os excessos e assim ter uma rotina com mais satisfação e propósito naquilo que faz.
Ou seja, segundo a referida revista, o livro de Leila Ferreira continua atualíssimo. E, segundo o mantenedor deste blog, lê-lo do início ao fim é algo que vale a pena fazer. Como informação que considero interessante, digo-lhes que a minha vontade de espalhar a prática da desaceleração, usando uma compilação de trechos de textos do livro de Leila Ferreira, antecedeu a publicação da revista citada. Com a intenção de não desanimar leitores de pouco fôlego, mais uma vez recorro ao método Jack: vamos por partes. Sendo assim, segue a primeira de duas postagens nas quais dividi a compilação.
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Ilha de Páscoa, um dos lugares mais remotos do planeta: depois de um ano de trabalho estressante, minha amiga Juliana fez as malas e foi conhecer a terra misteriosa dos gigantes de pedra (os moai), que pertence ao Chile, mas fica a quase 4 mil quilômetros da costa chilena. Era a primeira grande parada de uma viagem de férias que duraria vinte dias e, assim que desembarcou, ela fez o check-in às pressas e, mais apressada ainda, saiu em direção à praia. Já estava entardecendo, e Juliana tinha decidido que seu primeiro programa na ilha seria ver o pôr do sol. No meio do caminho (e há sempre um meio do caminho), ela se deu conta de que estava correndo. Suada e com a respiração ofegante, parou e se perguntou: "Estou correndo para quê?". Foi nesse momento que a ficha caiu. No meio do oceano Pacífico, com quatro dias pela frente para conhecer a Ilha de Páscoa, e sem qualquer compromisso na agenda, ela estava se comportando como havia feito o ano todo: com pressa, ansiedade e estresse. "Fiquei com medo de perder o pôr do sol, como se fosse uma consulta médica ou uma reunião da empresa.".
Era assim que o canadense Carl Honoré vivia, com uma pressa crônica e um senso de urgência que mantinha inclusive nos momentos de lazer, até que decidiu mudar radicalmente seu estilo de vida e acabou escrevendo Devagar, espécie de livro de cabeceira para os que querem modificar sua relação com o tempo.
Desacelerar, para Carl, não equivale a voltar ao passado nem adotar o ritmo dos caracóis e das lesmas. É ter pressa quando faz sentido ter pressa e tirar o pé do acelerador em outras situações. "A velocidade vicia", diz o canadense, "e estamos viciados nela. Na nossa cultura fast forward, palavras como lento e devagar estão virando palavrões.
Carl sabe o quanto é difícil desacelerar: foi multado por excesso de velocidade quando estava a caminho de uma entrevista para seu livro Devagar. Havia ido à Itália pesquisar dois movimentos internacionais que nasceram no país: o slow food e o cittá slow. O primeiro defende a ecogastronomia: o comer bem associado ao respeito pelo meio ambiente. Estimula as refeições calmas com a família e os amigos, o uso de alimentos locais e sazonais, as receitas passadas de geração em geração – como o nome sugere (slow quer dizer lento ou devagar), é o contrário dos rituais de fast food, em que se engole um hambúrguer de procedência duvidosa no balcão da lanchonete, no carro ou na mesa de trabalho.
O outro movimento, cittá slow (cidade lenta), nasceu quando Bra (sede do slow food) e mais três cidades italianas assinaram uma declaração em que manifestavam sua intenção de transformar em cidades-refúgio para os que não aguentam o ritmo enlouquecido da vida moderna. Outras cidades aderiram e o movimento ultrapassou as fronteiras da Itália. Para receber o certificado de cittá slow é preciso ter menos de 50 mil habitantes e cumprir uma série de exigências, entre elas, diminuir o barulho e o trânsito, aumentar o número de áreas verdes e de ruas para pedestres, preservar as construções históricas, ajudar os produtores e os comerciantes locais a vender seus produtos, defender as tradições locais e estimular o clima de hospitalidade. Bra tem seguido à risca sua própria cartilha. Fechou o trânsito de algumas ruas de seu centro histórico, proibiu a instalação de grandes supermercados e de anúncios luminosos, e passou a privilegiar pequenos estabelecimentos familiares que vendem tecidos artesanais e comidas típicas. Nas cantinas das escolas e dos hospitais, os cardápios são à base de pratos tradicionais feitos com produtos orgânicos.
As cidades slow – e não há como pensar nelas sem sentir vontade de fazer as malas e ir "correndo" para lá – não são contra os avanços tecnológicos nem querem se transformar em museus. Carl Honoré diz que se algo for considerado bom para a qualidade de vida dos moradores será aceito. E dá um exemplo: em Orvieto, cidade medieval entre Roma e Florença e uma das fundadoras do cittá slow, os bondinhos quase centenários – uma de suas marcas registradas – foram substituídos por uma versão moderna, operada com a ajuda de computadores. E o fato de o movimento cittá slow usar um website para promover sua filosofia de bem viver também mostra, segundo Honoré, que a modernidade e a tradição podem conviver de forma equilibrada em "cidades lentas".
"Mas não é preciso morar numa cittá slow para desacelerar", afirma o canadense. Ele alega que muita gente que se sente atraída pela ideia de adotar uma vida mais calma acha que tem que abandonar a carreira, deixar a cidade e cultivar verduras no campo. O slow é basicamente um estado de espírito, diz Carl, e dá para viver de forma menos frenética em qualquer lugar. Concordo em parte. Já morei em Belo Horizonte, em São Paulo, em Brasília, na Cidade do México, em Londres e agora estou em Araxá, que tem menos de 100 mil habitantes. Mas acho que Carl Honoré toca num ponto importante: quando as pessoas são viciadas na pressa, não adianta trocar a cidade grande por um sítio ou por uma casinha naquela vila de pescadores. E o contrário também vale: há de fato quem consiga sentir calma na hora do rush em São Paulo ou Nova Delhi. Nosso ritmo interno é que precisa desacelerar.
Isso me faz lembrar algo curioso. Tive um programa de TV por onde passaram mais de 1.600 entrevistados, e talvez o mais apressado (e estressado) deles tenha sido um monge com quem conversei num mosteiro budista. No cenário deslumbrante de uma serra, em meio ao verde e ao silêncio, o monge quase acabou comigo e com a minha equipe porque estávamos "demorando muito" para montar a iluminação e ligar os microfones. Poucas vezes na vida vi alguém tão impaciente e tão ríspido. A pressa e a ansiedade daquele monge (que, aparentemente, não tinha qualquer compromisso urgente depois da entrevista) me convenceram de que tudo – absolutamente tudo - nesta vida é relativo. Pode-se viver num ambiente sereno, adotando todas as práticas que em tese proporcionam calma e equilíbrio, e ainda assim ser uma pessoa afobada, para não usar outros (e piores) adjetivos.
Continua na próxima terça-feira

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Reflexões provocadas por "Meu tempo é já"

É impressionante a facilidade com que a pretensa espécie inteligente do universo absorve conceitos que lhe são nocivos. Conceitos que, favorecidos por um estupendo desenvolvimento tecnológico conjugado com uma estúpida aceitação irrefletida da maioria dos integrantes da referida espécie, acabam encontrando as condições propícias para "parecem ter virado algo inerente ao ser humano". Em conformidade com o que acabo de dizer, segue um trecho da reportagem de Bolívar Torres e Jan Niklas que provocou esta postagem.
"A urgência como modelo de gestão do tempo é um conceito que remonta ao fim do século XVIII. Mas, de tão absorvido no nosso cotidiano, parece ter virado algo inerente ao ser humano. E tudo piorou com computadores e smartphones, que facilitaram a invasão das esferas. Por emails, redes sociais, aplicativos, o trabalho chega à nossa casa, os amigos pipocam no escritório, a família nos encontra em qualquer lugar. (...) Um olho na reunião, outro no WhatsApp, o email que pisca na tela, a notificação que apita. E é tudo para hoje, para já, para ontem."
"É tudo para hoje, para já, para ontem"! Ou seja, é tudo feito ao mesmo tempo; tudo feito sem atenção; tudo feito sem a prática da iluminação, e eu explico. Narra um ditado zen que, certa feita, um discípulo fez ao mestre o seguinte questionamento:
- Mestre, como você pratica a iluminação?
- Comendo e dormindo.
Surpreso, o discípulo redarguiu:
- Mas todos comem e dormem!
- Mas nem todos comem quando estão comendo, tampouco dormem quando estão dormindo!
Comer quando estiver comendo; dormir quando estiver dormindo; enfim estar sintonizado com o que estiver fazendo. Vocês conhecem muitas pessoas que agem assim? Vocês agem assim? Nem todos agem assim, diz o mestre zen, em uma resposta na qual ouso substituir "nem todos" por "muito poucos". O problema é que estar sintonizado com o que estiver fazendo, é condição sine qua non para o equilíbrio mental nestes tempos estonteantes em que ávida por conectar-se superficialmente a todos, a imensa maioria dos integrantes desta civilização (sic) percorre essa coisa denominada vida sem perceber que, ao conectar-se superficialmente a todos, no fundo é a ninguém que está realmente conectada. Tempos em que, segundo o antropólogo Orlando Calheiros, "conectados sem descanso, estamos percorrendo a vida como se estivéssemos em um trem-bala; como se fôssemos uma locomotiva em disparada sem pausas para pensar no que estamos fazendo".
Um antropólogo que, ao estudar os aikewara, grupo indígena que habita a região sudeste do Pará, percebeu um contraste evidente entre eles e nós:
"Quando novas tecnologias são incorporadas às rotinas dos índios e aceleram seu trabalho, eles não usam o tempo que ganham para produzir mais tarefas. - Eles o preenchem com ócio e com aquilo que faz a vida valer a pena. – Uma vez garantido o sustento da família, produzem música, pintura, festa, coisas que são características da sua mito-filosofia e que lhes permitem especular sobre o universo e o cosmos.", lembra Calheiros.
E ainda há quem se refere a coisas estúpidas como sendo "programa de índio"! Há muita gente sem noção, hein!
"Objetivo ou subjetivo, o tempo é o que se faz dele. O importante, alertam estudiosos e artistas, é que isso seja fruto de escolhas. O trem-bala pode até seguir a toda, mas com consciência. Ou confirmamos a impressão que os aikewara têm de nós.", dizem Bolívar Torres e Jan Niklas na reportagem que provocou esta postagem.
E ao dizerem que "o tempo é o que se faz dele", eles me fazem recordar uma inesquecível frase de J. R. R. Tolkien pronunciada pelo personagem Gandalf em O Senhor dos Anéis. Qual é a frase? "A única coisa a fazer é decidir como usar o tempo que nos foi dado.". "E o importante é que isso (o que se faz do tempo) seja fruto de escolhas, alertam estudiosos e artistas. E que as escolhas sejam feitas com consciência.", dizem Torres e Niklas em sua excelente reportagem.
E ao deparar-me com a palavra consciência, o método das recordações sucessivas traz-me à mente a frase final da postagem intitulada Reflexões provocadas por "Radicais livres" e por "Outras formas de compartilhar", publicada em 07 de agosto de 2018. "Se o ciberespaço hoje aparenta ser um lugar ameaçador, a solução para voltarmos a habitar um local seguro e livre pode ser resumida em uma única palavra: conscientização." (o grifo é meu)
Frase que traz-me à mente o seguinte questionamento: Será que conscientização é algo possível sem reflexão? No meu entender, não. Conscientização! Eis a palavra em que pode ser resumida a solução para qualquer problema com o qual a tal da espécie inteligente tenha que se defrontar. Reflexão! Eis a palavra em que pode ser resumido o processo que possibilite chegar à conscientização.
Dito isto, que tal refletir sobre as palavras do antropólogo Orlando Calheiros quando diz que "A aceleração intensa na vida contemporânea já seria, assim, uma ameaça concreta à reflexão, pois é como se fôssemos uma locomotiva em disparada sem pausas para pensar no que estamos fazendo", e, enquanto ainda há tempo, abandonar tal locomotiva?
Para quem quiser ler mais sobre "a aceleração intensa na vida contemporânea", sugiro a leitura de A viagem suicida pós-moderna. E para iniciar "os procedimentos de pouso" destas reflexões, repito aqui as palavras iniciais da reportagem que as provocaram.
"Conectados sem descanso, estamos percorrendo a vida num trem-bala. Por quê? É preciso correr tanto? Não pira, respira! Não, tempo não é dinheiro. Mas vale muito. E, na era dos smartphones sempre conectados, corremos o risco de ver a vida passar... pela tela. Apenas pare – e leia"
Leia e questione, pois como, sabiamente, disse o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925 - 2017), "Nenhuma sociedade que esquece a arte de questionar pode esperar encontrar respostas para os problemas que a afligem." Questione e seja mais um (a) a cooperar para evitar a confirmação da impressão que os aikewara têm de nós. Impressão expressa na frase que encerra a reportagem de Torres e Niklas e atribuída ao antropólogo Orlando Calheiros: "- Para eles, somos zumbis que não saem do computador e só conseguem fazer a mesma coisa."
Questionamento, reflexão, conscientização. Eis três coisas que zumbis jamais farão. Eis três coisas imprescindíveis para encontrar respostas para os problemas que afligem qualquer sociedade. Eis três coisas imprescindíveis para a construção de algo que faça jus ao termo civilização.