terça-feira, 25 de julho de 2017

Um encontro casual

"Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.".
(Caio Graco [154 a.C – 121 a.C])
Inspirado pelo último parágrafo do artigo de Betty Milan apresentado na postagem anterior e pela lembrança de mais uma data comemorativa, neste Dia Nacional do Escritor a ideia escolhida para ser espalhada por este blog vem de uma história publicada na edição de 11 de novembro de 2001 do jornal O Globo em uma coluna assinada por Paulo Coelho. Intitulada Um encontro casual ela é apresentada ao lado de outra e ambas sob o título Duas histórias que poderiam ser reais.
Um encontro casual
O escritor Christopher D’Antonio caminhava deprimido pela pista de corrida do East River, na cidade de Nova York. Na realidade, sua depressão tinha atingido tal intensidade, que planejava cometer suicídio naquela mesma tarde.
Sua impressão era de que a atividade de escritor – à qual vinha se dedicando há décadas – não tinha nenhum valor real, e não fazia muita diferença. O que ele havia realmente deixado de concreto para a humanidade? Seu trabalho não havia mudado o mundo como ele sonhava.
D’Antonio resolveu passar do pensamento à ação. Subiu na grade que separa a pista das águas do East River, e ali permaneceu, com os olhos fixos na água escura, procurando reunir coragem para seu último ato.
De repente, uma voz feminina – cheia de alegria e entusiasmo – o interrompeu.
- Com licença. O senhor é o escritor D’Antonio?
Ele, com indiferença, acenou a cabeça.
- Espero não incomodá-lo – disse a moça. – Talvez esteja interrompendo um momento importante de reflexão.
- Está. O que a senhora deseja?
- Não vou tomar o seu tempo, pois sei que tem muita coisa importante para fazer. Mas simplesmente precisava lhe dizer como seus livros foram importantes na minha vida! Eles me ajudaram de uma forma incrível, e eu só queria agradecer.
D’Antonio desceu da cerca, apertou a mão da moça, e, com os olhos fixos em seus olhos, respondeu:
- Tenho que voltar para casa agora; realmente ainda há muito o que fazer, e não posso ficar aqui por mais tempo. Mas, na verdade, sou eu quem lhe diz obrigado.
Seu trabalho tinha ajudado aquela mulher; era uma maneira de mudar o mundo.
*************
Que história fértil para indagações e reflexões! Indagações que podem começar pelo título. Será que o referido encontro foi casual? Aliás, indo mais além, será que existem encontros casuais? E para responder tais indagações, neste momento, eu recorro à seguinte afirmação de Joseph Klimber: "A vida é uma caixinha de surpresas.". E explico.
Após ter decidido publicar neste uma postagem intitulada Um encontro casual, na última sexta-feira passada, recebi, de uma ex-colega de trabalho que há muito tempo não encontro, um e-mail alusivo ao Dia Internacional do Trabalho composto, simplesmente, pela seguinte mensagem: "Não encontramos ninguém por acaso! Atravessamos o caminho uns dos outros por um motivo." É ou não é uma coincidência? O que vocês acham? E sobre a referida mensagem? O que vocês têm a dizer? Dá o que pensar, não?
Após as reflexões provocadas pelo título da história, passemos a algumas provocadas pela atitude do escritor nela citado. Deprimido pelas impressões de que a atividade de escritor não tinha valor real e de que seu trabalho não havia mudado o mundo como ele sonhava, D’Antonio planejara cometer suicídio naquela mesma tarde.
A leitura das impressões de D’Antonio, imediatamente, fez-me lembrar um conselho dado por Thomas Merton, o famoso místico cristão, numa carta enviada para um amigo. Não fique na dependência de resultados, eis o conselho. Com a intenção de elucidá-lo, segue o trecho do livro intitulado Liderança para Tempos de Incerteza – A Descoberta de um Novo Caminho de autoria de Margaret J. Wheatley onde encontrei o conselho.
"Não fique na dependência de resultados... você pode ter que encarar o fato de que seu trabalho será aparentemente inútil e sem resultados, ou que os resultados serão contrários aos esperados. Acostumando-se a essa idéia, você começa a se concentrar não nos resultados, mas no valor, na retidão, na verdade do próprio trabalho..."
Considerando que elas têm tudo a ver com o conselho de "não ficar na dependência de resultados", seguem duas frases encontradas no mesmo livro e na mesma página. A primeira, atribuída a Vaclav Havel, diz que "Não é a convicção de que alguma coisa vai se desenrolar bem, mas a certeza de que essa coisa faz sentido, seja como for que se desenrole". A segunda, feita pela autora do livro, diz que "Escolhemos nossas ações porque parecem certas, mesmo que não consigam mudar as coisas." Não ficar na dependência de resultados é o título da postagem publicada em 9 de janeiro de 2012 neste blog.
Será que se o amigo a quem Thomas Merton enviou a carta com o conselho de "Não ficar na dependência de resultados" fosse D’Antonio, sua depressão teria atingido a intensidade citada na história? No meu entender, não. E no de vocês?
Que bela história! Uma bela história com um final indagativo e reflexivo, como mostram seus quatro últimos parágrafos reproduzidos abaixo.
- Não vou tomar o seu tempo, pois sei que tem muita coisa importante para fazer. Mas simplesmente precisava lhe dizer como seus livros foram importantes na minha vida! Eles me ajudaram de uma forma incrível, e eu só queria agradecer.
D’Antonio desceu da cerca, apertou a mão da moça, e, com os olhos fixos em seus olhos, respondeu:
- Tenho que voltar para casa agora; realmente ainda há muito o que fazer, e não posso ficar aqui por mais tempo. Mas, na verdade, sou eu quem lhe diz obrigado.
Seu trabalho tinha ajudado aquela mulher; era uma maneira de mudar o mundo.
"Mas, na verdade, sou eu quem lhe diz obrigado.", diz o escritor à leitora, com os olhos fixos em seus olhos, quase no fim da história. Uma história com um final instigante! Afinal, quem deve ser grato a quem? Quem ensinou algo a alguém? E para responder a estas indagações, recorro a uma frase de Margaret J. Wheatley encontrada em seu excelente livro. "A vida nos ensina uma lição básica: nenhum ser vivo vive sozinho. Ela só se organiza em sistemas de interdependência.". Em sistemas de interdependência que fazem com que passemos a vida aprendendo uns com os outros e ensinando uns aos outros.
Sendo assim, que tal procurarmos passar pela vida ensinando aos outros alguma coisa que preste? Tanto em encontros programados quanto em encontros casuais, se é que estes existem, não é mesmo? E agradecendo a todos aqueles com quem aprendermos alguma coisa. De preferência com os olhos fixos em seus olhos, como fez o escritor ao agradecer àquela leitora. Uma leitora que grata pela ajuda que dele julgava ter recebido por meio de seus livros, naquele momento o salvara de um trágico e triste fim.
"Amai-vos uns aos outros", eis a recomendação feita por uma frase de um antigo mestre que desta dimensão partiu há 1.984 anos. "Ajudai-vos uns aos outros", eis a recomendação feita por esta paráfrase inspirada por tudo o que é dito nesta postagem.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

O valor da amizade

Com a intenção de postar mensagens alusivas a datas comemorativas que eu considere significativas, neste Dia do Amigo, este blog espalha um artigo de Betty Milan, psicanalista e escritora, publicado na edição de 23 de dezembro de 2009 da revista Veja com o título O valor da amizade. Decorridos quase oito anos considero-o tremendamente válido.
O valor da amizade
"O amigo vê e ouve o que não somos capazes de ver nem ouvir. Assim sendo, pode fazer por nós o que não temos como fazer por nós mesmos"
A mesma palavra tem significados diferentes de acordo com o texto ou o discurso em que figura. A importância disso é capital, pois significa que, para interpretar uma palavra, precisamos nos debruçar sobre o contexto do qual ela faz parte ou escutar verdadeiramente quem a profere. Do contrário, não a entendemos. O ensinamento básico de Sigmund Freud é esse e bastaria para justificar a psicanálise, se isso ainda fosse necessário.
A maioria das pessoas, no entanto, não se dispõe a escutar. Poucos nascem com essa capacidade, que pode e precisa ser desenvolvida. Escutar é um ato generoso. Implica que eu deixe momentaneamente de falar e esteja aberto para o que o outro tem a dizer.
A escuta é a característica do psicanalista e também do verdadeiro amigo – que não impõe a sua presença, não diz o que não deve ser dito e, assim, faz com que a amizade floresça. Ou seja, o amigo sabe se conter, exercita-se na ética da contenção. Por isso, ele é de paz e a sua maneira de ser pode servir de modelo para todas as outras relações: marido e mulher, pais e filhos e irmãos.
O que o filósofo e historiador grego Xenofonte escreveu 2.400 anos atrás poderia ter sido escrito hoje: "Um bom amigo é o mais precioso de todos os bens. Está sempre pronto a auxiliar... Há homens, contudo, que investem toda a sua energia no cultivo de árvores para colher frutos, e são negligentes com o amigo, o bem que mais frutifica". O amigo vê e ouve o que não somos capazes de ver nem ouvir. Assim sendo, pode fazer por nós o que não temos como fazer por nós mesmos. Como o analista ele ilumina o caminho.
Ele sabe suspender o seu desejo para que o do outro se manifeste. O que ele mais quer é o acordo. Está menos interessado nos eventuais benefícios materiais que a amizade pode trazer do que no fortalecimento desta. Visa sobretudo ao contentamento do outro e não deve ser confundido com o cúmplice, que visa ao próprio interesse e se liga a alguém em função do que deseja alcançar.
O elo de cumplicidade tende a ser efêmero, enquanto o da amizade é para sempre. Em outras palavras, o amor dos amigos nunca é de agora, e sim para a vida inteira. Também por isso, há milênios a amizade inspira escritores, que se perguntam de que modo escolher um amigo, quais as características de um amigo verdadeiro e o que devemos a ele. Os escritores – os melhores, entre eles, - sabem que a amizade nasce espontaneamente, mas só dará os seus melhores frutos se for cultivada.
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"A maioria das pessoas não se dispõe a escutar. Poucos nascem com essa capacidade, que pode e precisa ser desenvolvida. Escutar é um ato generoso. Implica em deixar momentaneamente de falar e estar aberto para o que o outro tem a dizer. A escuta é a característica do psicanalista e também do verdadeiro amigo – que faz com que a amizade floresça.", afirma Betty Milan.
Provocada pela afirmação da psicanalista, deixo-lhes uma indagação. Será que uma sociedade tagarela em que todos falam e ninguém escuta constitui um ambiente propício ao florescimento da amizade?
"O verdadeiro amigo visa sobretudo ao contentamento do outro e não deve ser confundido com o cúmplice, que visa ao próprio interesse e se liga a alguém em função do que deseja alcançar. O elo de cumplicidade tende a ser efêmero, enquanto o da amizade é para sempre.", afirma Betty Milan.
Provocada por mais uma afirmação da psicanalista, deixo-lhes mais uma indagação. Em uma sociedade fissurada pelo descartável e pelo efêmero, qual dos dois elos tem maior probabilidade de ser criado: o de cumplicidade ou o da amizade?
"O elo de cumplicidade tende a ser efêmero, enquanto o da amizade é para sempre. Em outras palavras, o amor dos amigos nunca é de agora, e sim para a vida inteira. Também por isso, há milênios a amizade inspira escritores, que se perguntam de que modo escolher um amigo, quais as características de um amigo verdadeiro e o que devemos a ele. Os escritores – os melhores, entre eles, - sabem que a amizade nasce espontaneamente, mas só dará os seus melhores frutos se for cultivada", diz Betty Milan.
Ao falar em escritores e seu conhecimento de que a amizade só dará os seus melhores frutos se for cultivada, Betty me faz lembrar o extraordinário Antoine de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe. "As pessoas já não têm tempo de conhecer nada. Preferem comprar tudo pronto nas lojas. Como não existem lojas que vendem amigos, as pessoas não têm mais amigos.". O que vocês acham dessa mensagem por ele deixada?
O valor da amizade, eis o título do artigo de Betty Milan apresentado nesta postagem. Título que, no meu entender, provoca mais duas indagações.
Será que nesta sociedade onde "a maioria das pessoas não se dispõe a escutar, é fissurada pelo descartável e pelo efêmero e, em nome da praticidade, prefere comprar tudo pronto", se a entendermos como algo que "só dará os seus melhores frutos se for cultivado", faz sentido considerarmos a amizade uma coisa que nela (nesta sociedade) é valorizada?
Será que nos dias de hoje faz sentido acreditar que a maioria das pessoas concorde com a afirmação feita por Betty Milan a partir de uma referência feita a Xenofonte? "O que o filósofo e historiador grego Xenofonte escreveu 2.400 anos atrás poderia ter sido escrito hoje: 'Um bom amigo é o mais precioso de todos os bens'.".
Será que, após a leitura do excelente artigo de Betty Milan e das indagações por ele provocadas, além de comemorativo devemos usar o Dia do Amigo também como um dia indagativo e reflexivo? Um dia para indagar – será que, para mim, a amizade é algo que, realmente, tem valor? E haja reflexão!

terça-feira, 4 de julho de 2017

Vadiagem produtiva

Após Superocupação improdutiva será que Vadiagem produtiva é algo que cairá bem? Pelo sim pelo não (embora não estejamos em um centro de depilação) creio que vale a pena dar uma lida no artigo de Lúcia Guimarães intitulado Vadiagem produtiva publicado na edição de 3 de abril de 2017 do jornal O Estado de S. Paulo.
Vadiagem produtiva
"Estou numa reunião", diz a mensagem de texto. "Ele está em reunião", diz um assistente ao telefone. "Amanhã não dá porque tenho duas reuniões seguidas." Tenho um leve choque cultural cada vez que viajo ao Brasil. Meus parentes e amigos estão sempre numa reunião. E seus dias de trabalho são mais longos do que os de profissionais que conheço em Nova York. Fiz uma pesquisa informal entre os reféns das reuniões intermináveis e colhi a mesma impressão: as reuniões são longas, com pouco foco e, frequentemente, poderiam ser substituídas por uma troca de e-mails.
Ofereço dois nomes: Charles Darwin e Ingmar Bergman. Por que citar juntos o pai da Teoria da Evolução e o grande cineasta do século 20? Gênio, será a resposta mais provável. Um exame das duas biografias revelaria também ambição e paixão pelo que faziam. Os dois homens que mudaram, um a história da ciência, o outro, a história de uma arte, tinham algo mais em comum. Ambos trabalhavam poucas horas por dia, apesar de terem deixado uma produção copiosa.
Nossa cultura de conexão eletrônica incessante enfrenta a angústia da invasão do trabalho na vida pessoal. Um autor americano, Alex Soojung-Kim Pang, diz que algumas grandes figuras históricas devem ser objeto de atenção não apenas pelas suas conquistas, mas também pela maneira como descansavam.
Charles Darwin sentava à mesa do escritório às 8 da manhã. Pesquisava, lia correspondência, escrevia cartas. Ao meio-dia, declarava, "tive um bom dia de trabalho". Depois de almoçar, tirar uma soneca, e caminhar, Darwin passava, se tanto, mais uma hora no escritório, antes do jantar.
Ingmar Bergman dizia que precisava de rotina. Caminhava, comia e lia no mesmo horário. Tempo dedicado a trabalhar nos roteiros, peças e livros? Não mais do que três horas por dia.
Estas e outras histórias estão no livro Rest, Why You Get More Done When You Work Less (Descanso, Por Que Você Faz Mais Quando Trabalha Menos), de Alex Soojung-Kim Pang, um veterano do Vale do Silício e fundador da Restful Company, uma consultoria que examina o problema do excesso de trabalho e seu efeito na produtividade. Ele diz que pessoas talentosas que se mostram produtivas vão longe, não apesar do lazer e do descanso, mas por causa deles.
O aumento da instabilidade no emprego e os gadgets digitais nos tornaram mais inseguros sobre o direito de desligar. Na década de 1950, uma pesquisa feita num instituto de tecnologia do Estado de Illinois mostrou que os cientistas mais produtivos, os que publicavam mais artigos, passavam uma média de 20 horas por semana no local de trabalho. Os que passavam 35 horas publicavam menos. Os piores, em matéria de produtividade? Os que trabalhavam 60 horas por semana.
Diversos profissionais e artistas citados no livro de Alex Soojung-Kim Pang revelam preferência similar por manter uma rotina e se proteger de distrações. Não é coincidência que a era mais infestada de distrações na história da humanidade seja uma era de dias de trabalho cada vez mais longos. O sucesso, diz o autor, está na constância da "prática deliberada" que é feita com foco, estrutura e clareza de objetivos. Pode ser o atleta que não deixa de acordar cedo para nadar. Ou um amigo compositor que me mostrou um chapéu em cima do piano cheio de pedacinhos de papel, cada um com uma clave musical. Todo dia, ele sorteava uma e se obrigava a compor naquela clave por 40 minutos.
Mas a prática deliberada é um esforço que deve ser limitado. Se não praticar, afasta as chances de sucesso, praticar demais aumenta as chances de fracasso. É uma noção especialmente importante para determinar as horas de estudo extraescolar e preparação para testes. Alex Soojung-Kim Pangdiz que é preciso distinguir entre disponibilidade de tempo e disponibilidade mental e física para dedicar a um esforço. Ele cita outro estudo, feito nos anos 1980, entre violinistas no conservatório de Berlim. Os violinistas de menos sucesso subestimavam o número de horas dedicadas ao descanso e lazer. Os mais bem-sucedidos respondiam com precisão sobre a distribuição do tempo entre descanso e trabalho. Ou seja, seu descanso era mais consciente e deliberado.
Mais ócio e menos reuniões.
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"Descanso, Por Que Você Faz Mais Quando Trabalha Menos", eis o título de um livro do fundador de uma consultoria que examina o "problema do excesso de trabalho e seu efeito na produtividade". Como interpretar tal título? No meu entender, usando uma frase atribuída ao próprio autor no penúltimo parágrafo do artigo de Lúcia Guimarães: "É preciso distinguir entre disponibilidade de tempo e disponibilidade mental e física para dedicar a um esforço".
Sim, dispor de tempo e dispor de condições mental e física para dedicar a um esforço são duas coisas diferentes; muito diferentes! E é exatamente por não enxergarmos tal distinção, por não respeitarmos tal diferença que trabalhamos mais; muito mais do que precisaríamos trabalhar para realizarmos as tarefas que nos são atribuídas. Afinal, em que consiste essa nefasta coisa denominada retrabalho, tão comum no teatro corporativo, senão no refazimento de tarefas malfeitas, inúmeras vezes por terem sido feitas sem a posse de condições mental e física satisfatórias? Vocês já pensaram nisso? Já se manifestaram contra a prática de trabalhar mal? Eu, já. Durante as 3,7 décadas em que atuei no teatro corporativo, insurgir-me contra as más práticas nele largamente praticadas foi algo que sempre fiz. O sinistro da história é que uma das coisas mais apregoadas em tal teatro é a adesão às "melhores práticas". Como disse Albert Einstein: "Existem apenas duas coisas infinitas - o Universo e a estupidez humana. E não tenho tanta certeza quanto ao Universo."
E ao falar em história, aproveito para chamar atenção para o trecho do artigo de Lúcia Guimarães em que é citada uma interessante passagem do livro de Alex Soojung-Kim Pang.
"Na década de 1950, uma pesquisa feita num instituto de tecnologia do Estado de Illinois mostrou que os cientistas mais produtivos, os que publicavam mais artigos, passavam uma média de 20 horas por semana no local de trabalho. Os que passavam 35 horas publicavam menos. Os piores, em matéria de produtividade? Os que trabalhavam 60 horas por semana."
Ou seja, mostrar que, ao contrário do que a maioria pensa (sic), o aumento da produtividade não é diretamente proporcional à quantidade de horas trabalhadas é algo que já se fazia no século passado; no milênio passado, não é mesmo? Então, por que a maioria ainda insiste em não aderir ao que é mostrado em pesquisas como a citada no parágrafo anterior Talvez por que nem todos têm a consciência que tem a mãe de um ex-colega que trabalhava na Contabilidade, uma área onde trabalhar 60 horas por semana era algo corriqueiro. Contado por ele, leiam o que certa vez ele ouviu dela: "Quem trabalha de segunda a sexta até altas horas e ainda precisa ir trabalhar aos sábados só pode ser incompetente." E consequentemente improdutivo, não é mesmo?
Para quem interessar-se em ler outras postagens que têm muito a ver com o artigo de Lúcia Guimarães, seguem os seguintes links: Não é preguiça, é eficiência (16 de março de 2012), Não é dedicação, é ineficiência (20 de março de 2012), Contrate preguiçosos (23 de março de 2012).
Mais ócio e menos reuniões, eis a recomendação com a qual Lúcia Guimarães encerra seu excelente artigo. Mutatis mutandis, após tudo o que foi dito nesta postagem e na anterior, eis a recomendação com a qual encerro esta postagem: Mais vadiagem e menos superocupação.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Superocupação improdutiva

"Estamos exaustos e correndo. Exaustos e correndo. Exaustos e correndo. E a má notícia é que continuaremos exaustos e correndo, porque exaustos-e-correndo virou a condição humana dessa época."
(Eliane Brum)
Esta postagem apresenta um artigo de Guilherme Wisnik intitulado Superocupação improdutiva publicado na edição de 7 de março de 2016 do jornal Folha de S.Paulo.
Superocupação improdutiva
Por que é que nos sentimos cada vez mais ocupados e, ao mesmo tempo, menos capazes de perceber o resultado palpável daquilo que fazemos? Trata-se de uma estranha forma de vida em piloto automático: quanto mais mensagens de e-mails você se dedicar a responder, mais mensagens terá para responder de volta no dia seguinte.
Parece haver um sinistro paralelo entre a desmaterialização das coisas sob a égide do capital financeiro e a superocupação improdutiva do nosso cotidiano atual. Afinal, a economia financeira não acrescenta riquezas ao mundo, mas, ao contrário, gera valor especulando-o de forma predatória. Nós, igualmente, internalizamos o trabalho em nosso cotidiano, colonizando os antigos momentos de ócio e de lazer com atividades supostamente produtivas, e matando o tédio criativo com a permanente e ansiosa comunicação de informações pela internet.
Esse é o tema do livro "Sociedade do Cansaço" (Editora Vozes, 2015, 78 págs., R$ 22), de Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha. Segundo Han, vivemos um momento de importante quebra de paradigmas culturais, que vem substituindo os valores de alteridade e de negatividade pela positividade homogeneizadora.
Assim, se o século 20 foi uma era bacteriológica, baseada no paradigma bipolar da imunorreação do eu contra a ameaça infecciosa do outro, as patologias contemporâneas são neuronais (depressão, transtorno de déficit de atenção), causadas por excessos do próprio eu contra si próprio.
Inaugurada pela queda de um muro, a nossa era assiste à abertura desregulamentada do mundo para a promiscuidade da globalização, em que tudo se equaliza.
Igualmente, o paradigma da sociedade disciplinar, feita de hospitais, asilos, presídios, quartéis e fábricas, cede lugar a uma sociedade do desempenho, povoada por academias fitness, torres de escritórios, bancos, aeroportos e shopping centers. Empresários de si mesmos, seus habitantes não são mais sujeitos da obediência, mas do desempenho e da produção movidos pela energia motivacional: "Yes, we can". Incitados à iniciativa pessoal, internalizam a disciplina sob a forma de uma aparente liberdade de ação. Assim, enquanto a antiga sociedade gerava loucos e delinquentes, a atual produz fracassados e depressivos, paralisados por uma sociedade que crê que nada é impossível.
Daí a freqüente sensação de nos percebermos em meio a uma bola de neve que cresce sem parar, na qual perdemos o controle das ações. Respondendo sempre a coisas desencadeadas anteriormente, estamos fazendo a roda da vida girar mas sem vislumbrar pontos de chegada, ou momentos luminosos no caminho.
A atenção dispersa, na forma da multitarefa, não é um progresso civilizatório, argumenta Han, e sim um retrocesso, equivalente ao do animal que realiza suas tarefas sempre alerta ao regime da sobrevivência. Frente ao sentimento atual de transitoriedade da vida e do mundo, reagimos com a histeria hiperativa da produção, como uma forma de terapia ocupacional. Mas a pura inquietação gerada pelo excesso de informações e de estímulos é estéril. E, ao diminuir a atenção profunda, ela coloca em xeque o lugar social da cultura e do pensamento que é também, no plano individual, o lugar da constituição do sujeito.
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Ao livro no qual argumenta que a "A atenção dispersa, na forma da multitarefa, não é um progresso civilizatório, e sim um retrocesso, equivalente ao do animal que realiza suas tarefas sempre alerta ao regime da sobrevivência.", o filósofo sul-coreano, radicado na Alemanha, Byung-Chul Han dá o título Sociedade do Cansaço.
Ao artigo elaborado a partir do livro Sociedade do Cansaço, Guilherme Wisnik dá o título Superocupação improdutiva.
À "condição humana dessa época" caracterizada pela insana prática de "estarmos exaustos e correndo, exaustos e correndo, exaustos e correndo", a premiada jornalista e escritora Eliane Brum dá a denominação "exaustos-e-correndo".
À sociedade em que sobrevivemos, e para a qual considero válidos os títulos e a denominação citados nos parágrafos acima, também é válido dar a denominação Sociedade da Insanidade? O que vocês acham?