terça-feira, 26 de março de 2019

E vai sobrar nada...

"A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para frente".
(Søren Kierkegaard [1813 – 1855], filósofo, teólogo, poeta e crítico social dinamarquês)
"Ouve-se falar de concessões feitas pela América Latina ao capital estrangeiro, mas não de concessões feitas pelos Estados Unidos ao capital de outros países. É que nós não fazemos concessões. Um país é possuído e dominado pelo capital que nele se tenha investido."
De quem são as palavras acima? De Thomas Woodrow Wilson (1856 – 1924). Quem foi Woodrow Wilson? Foi presidente eleito dos Estados Unidos por duas vezes seguidas, ficando no cargo de 04.03.1913 a 04.03.1921. Foi membro do Partido Democrata, tendo também sido reitor da Universidade de Princeton e laureado com o Nobel da Paz em 1919. Na condição de um presidente consciente da responsabilidade de zelar pelos bens com os quais a natureza aquinhoou o país em que ele nascera, e que, temporariamente governava, ele fez a seguinte afirmação:
"A nação que possui petróleo em seu subsolo e o entrega a outro país para explorar, não zela pelo seu futuro."
Embora tenham sido ditas há quase um século, será que faz sentido imaginar que as palavras de Woodrow Wilson tenham prescrito? Não, não faz sentido, pois há palavras que jamais prescreverão, e as de Woodrow Wilson reproduzidas nesta postagem pertencem a esse tipo de palavras. "Que um país é possuído e dominado pelo capital que nele se tenha investido." e "Que possuir petróleo em seu subsolo e o entregar a outro país para explorar, é não zelar pelo futuro da nação que o possui.", são duas afirmações que eram verdadeiras quando Woodrow Wilson as fez, são verdadeiras nos dias de hoje e continuarão sendo per omnia saecula saeculorum.
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"No final, vai a Petrobras também, vai o Banco do Brasil, tem que ir tudo."
Na condição de um ministro da economia inconsciente da responsabilidade de zelar não só pelos bens com os quais a natureza aquinhoou o país como também pelas instituições estratégicas para a preservação da soberania do país em que nasceu, mas pelo qual ele demonstra não ter o mínimo sentimento de pertencimento, Paulo Roberto Nunes Guedes (1949 - ....) é o autor da sinistra declaração reproduzida no parágrafo anterior.
Quem é Paulo Guedes? É um dos quatro fundadores do Banco Pactual – posteriormente comprado e transformado em BTG Pactual. O que é um banco? É uma instituição que pega dinheiro de alguém a quem remunera com as taxas mais irrisórias possíveis e o repassa a alguém de quem cobra as taxas mais exorbitantes possíveis, pois sua razão de ser é a obtenção dos lucros mais estratosféricos possíveis. O que um banco produz? "O que é o crime de assaltar um banco comparado com o crime de fundar um banco?", eis uma famosa indagação de Bertolt Brecht. O que é um banqueiro? – eis uma indagação que lhes deixo.
E como um pretensioso conhecedor da espécie humana, o vosso ministro (como diria Millôr Fernandes) fez a seguinte afirmação: "Pessoas da esquerda têm 'miolo mole' e bom coração; pessoas da direita têm cabeça forte e coração não tão bom." Afirmação que interpreto assim: em relação a tipos de pessoas, o mundo pode ser dividido em dois grupos - o daquelas que destacam-se pelo sentimento de fraternidade e o daquelas que destacam-se pelo sentimento de crueldade. A leitura da afirmação do sinistro ministro trouxe-me imediatamente à mente um trecho do livro O Mestre na Educação de autoria de Pedro de Camargo, publicado em 1977, que reproduzo nos dois próximos parágrafos.
"O intelectualismo não supre o cultivo dos sentimentos. 'Não basta ter coração, é preciso ter bom coração', disse Hilário Ribeiro, o educador emérito. (...) Descurar a aprendizagem da virtude, deixando-se levar pelos deslumbramentos da inteligência, é erro de funestas consequências.
Sobre este assunto, não há muito, o presidente dos Estados Unidos da América do Norte citou um julgado da 'Suprema Corte de Justiça' de Massachusetts, no qual, entre outros princípios de grande importância, se enunciou o de que 'o poder intelectual só e a formação científica, sem integridade de caráter, podem ser mais prejudiciais que a ignorância. A inteligência, superiormente instruída, aliada ao desprezo das virtudes fundamentais, constitui uma ameaça'."
"Descurar a aprendizagem da virtude, deixando-se levar pelos deslumbramentos da inteligência, é erro de funestas consequências.", pois, "A inteligência, superiormente instruída, aliada ao desprezo das virtudes fundamentais, constitui uma ameaça."'. Será que estas duas afirmações são aplicáveis à passagem do sinistro ministro pela Universidade de Chicago, onde ele conheceu um diretor de Orçamento na ditadura militar de Augusto Pinochet (1973 – 1990) no Chile? Será que estas afirmações podem ser aplicadas ao fato de ele ter trabalhado em um regime ditatorial?
Dito isto, faço-lhes a seguinte indagação: Será que faz sentido entregar o destino de uma nação a alguém que tendo se tornado banqueiro aos 34 anos, aos 69 atua como corretor? Como assim? Será que nunca lhes passou pela cabeça a ideia de que vender algo que não é seu recebendo comissão pela venda é coisa de corretores, não de governantes, de ministros, de presidentes de instituições e assemelhados? Será que faz sentido acreditar que, nesta civilização (sic) fundamentada no culto ao dinheiro, existe alguém que venda alguma coisa que não lhe pertence sem receber comissão pela venda?
E ao falar em civilização (sic) fundamentada no culto ao dinheiro, vem-me à mente uma afirmação de Nuccio Ordine, professor de literatura italiana da Universidade da Calábria, feita em um artigo intitulado Democracia líquida, publicado na edição de 16.02.2014 do jornal O Estado de S. Paulo: "Reduzir o valor da vida ao dinheiro mata toda possibilidade de idealizar um mundo melhor.".
"Reduzir o valor da vida ao dinheiro, eis o que move essa insana busca da privatização total e irrestrita, o que leva alguém a querer exterminar tudo que seja público neste país, e matar toda possibilidade de idealizar um país melhor.
"Um país é possuído e dominado pelo capital que nele se tenha investido. (...) A nação que possui petróleo em seu subsolo e o entrega a outro país para explorar, não zela pelo seu futuro.", disse Woodrow Wilson.
"No final, vai a Petrobras também, vai o Banco do Brasil, tem que ir tudo.", disse Paulo Guedes.
Comparem as afirmações acima e tirem suas próprias conclusões, pois as minhas já foram tiradas. E após tirá-las, reutilizando a afirmação de Kierkgaard que epigrafa esta postagem, concluo-a com a seguinte indagação.
Considerando que - "A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para frente" -, olhando-se para trás e refletindo-se sobre as palavras ditas por quem governou os EUA há quase um século, o que é que se vê olhando-se para frente à luz (ou seria às trevas?) das palavras ditas pelo sinistro ministro da economia deste país quando ele diz que "tem que ir tudo"? Indagação que eu respondo assim: E vai sobrar nada...

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