segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Meu tempo é já

"Estamos exaustos e correndo. Exaustos e correndo. Exaustos e correndo. E a má notícia é que continuaremos exaustos e correndo, porque exaustos-e-correndo virou a condição humana dessa época."
(Eliane Brum [1966 - ....], jornalista, escritora e documentarista brasileira)
Para quem mantém um blog onde já publicou uma infinidade de postagens do tipo "Reflexões provocadas por", encontrar uma reportagem onde é dito que "A aceleração intensa na vida contemporânea já seria, assim, uma ameaça concreta à reflexão." é uma verdadeira provocação a chamar atenção para o assunto nela tratado. Sendo assim, segue a reportagem de Bolívar Torres e Jan Niklas publicada na edição de 30 de junho de 2018 do jornal O Globo.
Meu tempo é já
Conectados sem descanso, estamos percorrendo a vida num trem-bala. Por quê? É preciso correr tanto? Não pira, respira!
Não, tempo não é dinheiro. Mas vale muito. E, na era dos smartphones sempre conectados, corremos o risco de ver a vida passar... pela tela. Apenas pare – e leia
A sensação é de estar num trem-bala.
Um olho na reunião, outro no WhatsApp, o email que pisca na tela, a notificação que apita. E é tudo para hoje, para já, para ontem. Se não se pode conter o progresso, então não há nada a fazer contra a aceleração. Será?
- O discurso atual é, sim, de que precisamos nos adaptar a um fenômeno que seria irreversível – diz o francês Christophe Bouton, professor de Filosofia da Universidade de Bordeaux Montaigne e autor do livro "Le temps de l'urgence" ("O tempo da urgência", em tradução livre).
Para ele, vigora hoje uma crença de que urgência e desenvolvimento estão ligados:
- Daí a angústia quando não conseguimos acompanhar essa aceleração. No capitalismo, o tempo é racionalizado ao extremo, e um segundo ganho pode fazer diferença. Então, primeiro, otimizamos o tempo no trabalho. Depois, trazemos essa otimização para fora dele. E nos sentimos culpados até se não usamos ao máximo nosso tempo livre.
A urgência como modelo de gestão do tempo é um conceito que remonta ao fim do século XVIII. Mas, de tão absorvido no nosso cotidiano, parece ter virado algo inerente ao ser humano. E tudo piorou com computadores e smartphones, que facilitaram a invasão das esferas. Por emails, redes sociais, aplicativos, o trabalho chega à nossa casa, os amigos pipocam no escritório, a família nos encontra em qualquer lugar.
Eis aí um dos grandes paradoxos da tecnologia: ao simplificar tarefas, ela nos prometeu liberdade. Mas estamos todos produzindo mais e mais no mesmo tempo. Entramos no ritmo acelerado das máquinas, como argumenta a filósofa e professora titular da Escola de Comunicação da UFRJ Maria Cristina Franco Ferraz. Até nossos corpos, ela diz, estão se tornando cada vez mais "compatíveis" com os modos de produção.
Autora do livro "Ruminações: cultura letrada e dispersão hiperconectada", ela chama atenção para os efeitos que o estilo de vida contemporâneo, crescentemente online, non-stop e hiperconectado, têm sobre a experiência humana.
- Isso achata a medida do tempo – diz Maria Cristina. – Há uma espécie de fragmentação excessiva do nosso desejo e atenção, que pouco consegue pousar sobre as coisas. Se estamos sempre online, estamos sempre capturados.
A aceleração intensa na vida contemporânea já seria, assim, uma ameaça concreta à reflexão. É como se fôssemos uma locomotiva em disparada sem pausas para pensar no que estamos fazendo, diz o antropólogo Orlando Calheiros. Ao estudar os aikewara, grupo indígena que habita a região sudeste do Pará, ele percebeu um contraste evidente entre eles e nós: quando novas tecnologias são incorporadas às rotinas dos índios e aceleram seu trabalho, eles não usam o tempo que ganham para produzir mais tarefas.
- Eles o preenchem com ócio e com aquilo que faz a vida valer a pena – lembra Calheiros. – Uma vez garantido o sustento da família, produzem música, pintura, festa, coisas que são características da sua mito-filosofia e que lhes permitem especular sobre o universo e o cosmos.
Mas de onde vem toda essa rapidez? Professor do Departamento de História da UniRio, Rodrigo Turin vê a aceleração do tempo como um fenômeno central das sociedades contemporâneas. Autor do livro "Tessituras do tempo", o historiador acredita que a confluência das tecnologias digitais e do capital financeiro globalizado acelerou nossas vidas de tal maneira que afetou a política, a economia, o trabalho e mesmo nossas subjetividades.
- Essa onde se reflete até no vocabulário. "Flexibilidade", "eficiência", "excelência" passaram a expressar nossa experiência – diz Turin. – É uma temporalidade sem finalidade, um movimento sem direção determinada.
Nossas diferentes percepções do tempo sempre intrigaram pensadores e cientistas. "Se ninguém me pergunta o que é o tempo, eu sei o que é. Mas se desejo explicar o que é para alguém que me pergunta, não sei responder", escreveu o teólogo Santo Agostinho, antigo estudioso do assunto. Há, no entanto, várias maneiras de o medir de forma objetiva.
A rotação e a translação da Terra, a oscilação de átomos estáveis, como quartzo, rubídio etc. Ou, em laboratório, com a frequência de luz de lasers – explica Horácio Dottori, professor do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Objetivo ou subjetivo, o tempo é o que se faz dele. O importante, alertam estudiosos e artistas, é que isso seja fruto de escolhas. O trem-bala pode até seguir a toda, mas com consciência. Ou confirmamos a impressão que os aikewara têm de nós.
- Para eles, somos zumbis que não saem do computador e só conseguem fazer a mesma coisa – diz Calheiros.
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"A aceleração intensa na vida contemporânea já seria, assim, uma ameaça concreta à reflexão", diz o antropólogo Orlando Calheiros. E ao dizer isso o antropólogo me faz lembrar uma afirmação atribuída a um famoso filósofo que esteve nesta dimensão entre os anos 469 a.C e 399 a.C, onde a.C não significa antes do Celular, compreendido?
Será que a afirmação atribuída ao famoso filósofo é capaz de provocar reflexões? E a reportagem que provocou esta postagem?

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