quarta-feira, 13 de março de 2013

O Milho Bom

Para encerrar a sequência iniciada com Mudar o amanhã, segue um texto que encontrei em um livro intitulado Carta aos CONCURSANDOS, de autoria de Francisco Dirceu Barros e William Douglas. Para quem desejar contribuir para a construção de um mundo melhor considero o texto imperdível. São do livro as seguintes palavras: “O bem que você faz torna o lugar onde você vive melhor, repercutindo para você mesmo. Um bom exemplo disso é retratado pela parábola que segue”.
O Milho Bom
Existia um fazendeiro que por diversas vezes venceu o concurso do “melhor milho".
Todo ano ele entrava com seu milho na feira e ganhava o maior prêmio. Uma vez um repórter de jornal o entrevistou e aprendeu algo interessante sobre como ele cultivava o milho. Descobriu que o fazendeiro compartilhava a sua semente de milho com os vizinhos.
“Como pode você se dispor a compartilhar sua melhor semente de milho com seus vizinhos, quando eles estão competindo com o seu a cada ano?”, perguntou o repórter.
“Por quê?”, replicou o fazendeiro, “Você não sabe? O vento apanha pólen do milho maduro e o leva de campo para campo. Se meus vizinhos cultivam milho inferior, a polinização degradará continuamente a qualidade de meu milho. Se eu for cultivar milho bom, eu tenho que ajudar meus vizinhos a cultivarem milho bom”.
Ele era atento as conexões da vida. O milho dele não pode melhorar, a menos que o milho do vizinho também melhore. Assim também acontece em outras dimensões. Aqueles que escolhem estar em paz devem fazer com que seus vizinhos estejam em paz. Aqueles que querem viver bem, têm que ajudar os outros para que vivam bem. E aqueles que querem ser felizes, têm que ajudar os outros a acharem a felicidade. O bem-estar de cada um está ligado ao bem-estar de todos. A lição, para cada um de nós, é que, se quisermos cultivar algo de bom, temos que ajudar o próximo também a fazê-lo.
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Enxergo na parábola duas aplicações: explicar como esta insana sociedade chegou à degradação atual e ensinar como construir uma sociedade que possibilite bem-estar àqueles que a compõem. Construir tal sociedade passa pela atitude de cada um compartilhar o que tem de bom. Afinal, a vida é feita de conexões (ela é sistêmica) e, se quisermos cultivar algo de bom, temos que ajudar o próximo também a fazê-lo, pois o bem-estar de cada um está ligado ao bem-estar de todos. Deixar a sociedade chegar à degradação atual passa pelo estímulo a competição sem limites que provoca o aniquilamento dos concorrentes.
O vento leva pólen de campo para campo. Portanto, se o milho dos vizinhos for ruim o vento trará para o nosso campo pólen de milho ruim. Se compartilharmos o nosso milho bom com os vizinhos, o vento trará (de volta) pólen do milho bom que compartilhamos. Isto se chama lei do retorno. Segundo esta lei, a vida atua como um bumerangue que traz de volta tudo que cada um faz de bom ou de mal. Portanto, por uma questão de inteligência, só deveríamos fazer coisas boas. A degradada sociedade em que sobrevivemos é conseqüência do desrespeito à lei de retorno.
Falar em cultivar milho me lembra um episódio ocorrido nos primeiros dias de 2010. Uma sobrinha – que na época tinha dezesseis anos de idade - estava em minha casa e uma pergunta que lhe fiz provocou um diálogo que, por analogia com a parábola acima, chamei de “A Lichia Ruim”.
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A Lichia Ruim
- Você conhece esta fruta, sobrinha?
- Não, tio. Que fruta é essa?
- É lichia.
- Ah! Eu planto essa fruta na minha fazenda!
- Você tem uma fazenda?!
- Tenho.
- Onde ela fica?
- No ORKUT.
- No ORKUT!!!
- Sim, quer ver?
Aí, ela foi até o computador e me mostrou a fazenda. “Clicou” em uma figura que representava uns canteiros e surgiram desenhos representando umas frutas. Ao vê-las, falei que eram pêssegos e não lichias. Ela concordou, “clicou” em outra área dos canteiros e apareceram as lichias. Ela prosseguiu mostrando a “sua” fazenda e explicou sua atuação como fazendeira. Dentre as coisas que disse destaco as seguintes:
- A gente rouba coisas nas fazendas dos vizinhos e vende para ganhar dinheiro.
- A gente coloca pragas nas plantações dos vizinhos.
Fiquei espantado com o que ouvi, comentei que era um jogo bastante educativo (!) e fiz algumas perguntas que me parecem bastante óbvias. Faz sentido colocar pragas na plantação de alguém a quem se pretende roubar? Se as pragas destruírem a plantação do vizinho o que restará para ser roubado? Independentemente do ato ilícito de roubar, me pareceu estar diante de uma demonstração de estupidez, pois pragas inseridas na vizinhança propagam-se para a própria plantação. Minha sobrinha ficou sem respostas, mas o meu espanto não terminou aqui. No dia seguinte minha esposa tinha adquirido uma fazenda. Dá para acreditar na melhoria da humanidade?
Sim, se nos dispusermos a cultivar milho bom e a compartilhar com nossos vizinhos as nossas sementes. Não, se optarmos por colocar pragas sem suas plantações, pois a lei do retorno é infalível. Portanto, a lição, para cada um de nós, é que, se quisermos cultivar algo de bom, temos que ajudar o próximo também a fazê-lo.
Em uma fundamentada em uma competitividade a cada dia mais feroz, a parábola do Milho Bom é uma verdadeira lição de anti-competitividade e de cooperação na tarefa de Mudar o amanhã. Para encerrar, deixo-lhes uma afirmação de Paul Scherer que tem tudo a ver com as ideias passadas por esta postagem: “O ser humano tem que perceber que ‘o único meio de multiplicar a felicidade é dividindo-a’”.
Portanto, que tal refletir sobre tudo o que foi dito acima, começar a compartilhar nossas melhores sementes com aqueles com quem interagirmos e, consequentemente, passar a “plantar” um amanhã melhor do que este hoje inteiramente dominado por um estúpido espírito competitivo que vê em todos aqueles com quem se convive (sic) um concorrente a ser eliminado. Um hoje abundante em plantadores de lichia adeptos do espalhamento de pragas e carente de cultivadores de milho dispostos a compartilhar boas sementes. Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem, disse um mestre que veio a este planeta com a intenção de ensinar as pessoas a só cultivar o que for bom e a compartilhá-lo com o próximo. E haja perdão!

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