sábado, 8 de março de 2025

Dia Internacional da Mulher - 2025 ou "A odisseia das mulheres"

Após quase três meses sem publicar alguma postagem, devido à minha atual ocupação como acompanhante hospitalar da minha esposa que está hospitalizada desde o dia 15 de dezembro, a proximidade da chegada do Dia Internacional da Mulher levou-me a esforçar-me para encontrar tempo para elaborar uma mensagem alusiva a essa data que considero extremamente significativa. Afinal, desde a criação deste blog (em 1º de fevereiro de 2011), jamais deixei de publicar uma postagem alusiva a tal dia. Aliás, mesmo antes da criação do blog eu me habituara a enviar, por e-mail, uma mensagem para uma crescente lista composta apenas de mulheres. Fiz isso de 2005 a 2010 (ano anterior à criação do blog). Ou seja, há vinte anos publico mensagens alusivas ao Dia Internacional da Mulher.
Feito esse preâmbulo, segue um texto extraído do livro intitulado "Livre Como Uma Deusa Grega – Na mitologia, o melhor da humanidade é a mulher" de autoria de Laure De Chantal, formada em Letras Clássicas pela École Normale Superiéure, Paris. Autora de vários livros sobre a língua francesa e mitologia. O texto extraído é o capítulo final do livro, apresentado como CONCLUSÃO e intitulado "A odisseia das mulheres".
A odisseia das mulheres
Quando Ulisses finalmente retorna a seu palácio, as mulheres correm abraçá-lo, festejam-no e seguram-lhe as mãos, cobrindo-o de beijos da cabeça aos ombros. E ele chora, pois "seu coração reconhecia todas elas" (XII, 492ss.).
Ulisses é um homem mulherengo, no sentido que essa expressão deveria ter sempre: ama as mulheres e, portanto, as respeita, desde a humilde Euricleia, sua velha ama, até a poderosíssima Atena, totalmente convicto de que sem elas seria nada ou, mais exatamente, Ninguém. Em grego, o jogo de palavras é perfeitamente compreensível: sem mêtis, Ulisses é oútis, ninguém.
Não há heroísmo sem mulher e não há feminismo sem homem: essa é uma das muitas lições da Odisseia, uma lição de feminismo e humanidade, a tal ponto que o ensaísta e escritor Samuel Butler pretendeu demonstrar que a Odisseia só podia ser obra de uma mulher.
"Conta-me, Musa, do homem engenhoso, do peregrino que tanto sofreu, que viu e conheceu tantos homens e cidades: a Odisseia começa pela vontade de uma deusa e termina graças à diplomacia de outra: "Põe fim [a essa guerra], filho de Laerte, descendente dos deuses, Ulisses engenhoso!", pede Atena a Ulisses, que concorda: "À voz de Atena, Ulisses, com júbilo no coração, obedece: entre os dois partidos é selada a paz". A invocação inicial é para a musa, a palavra final é de "Atena, filha de Zeus, que porta a égide" (Odisseia, XXIV, 548). Aos combates sanguinários e aos heróis ferozes da Ilíada, que começa com a cólera e termina com a morte, a Odisseia contrapõe a inteligência e o entendimento; à guerra violenta de Ares sucede a guerra vitoriosa de Atena, ou seja, a paz.
Nessa epopeia rumo à civilização, a presença das mulheres é essencial. Sejam elas imortais, mortais, monstruosas e aterrorizantes como Sila ou as sereias, feiticeira divina como Circe, enfermiça e benevolente como Euricleia, que é a primeira a reconhecer Ulisses quando retorna a Ítaca, são as mulheres que fazem e desfazem o destino do herói. Agir, orientar, aconselhar, transmitir força e perseverança, fazer a história avançar, possibilitar o futuro, em suma, é o papel das heroínas e das divindades da Odisseia. No olho da tempestade, Ulisses está arrimado a sua jangada no mar encapelado, mar de aço, cinzento e ameaçador, mar que ele enfrenta numa guerra injusta cujo desfecho já está dado: sozinho contra as ondas sem fim, ele só pode perder. Com a boca cheia de água e os olhos inundados de vento e lágrimas, Ulisses está prestes a desistir de tudo, a deixar-se afundar com sua história e seu renome. Do fundo das águas, Leucótoe vem reconfortar o náufrago e lhe cede sua vela. Para que pode servir uma vela quando se trata de enfrentar ventos e mares? Simplesmente para sobreviver, mantendo a esperança, esperança de nadar para chegar a uma praia, uma praia que talvez seja aquela onde Penélope o aguarda.
O mesmo acontece na maioria das epopeias. Perdidos e desorientados, "consumindo-se em desespero", os argonautas estão a ponto de se entregarem à morte num deserto que não conhecem, "sem deixar nome nem rastro na memória dos homens da Terra, esses heróis bravos entre todos, sem terem cumprido seu propósito". Do solo árido e desolado da Líbia, irrompem as heroínas, as divindades do deserto, que lhes reavivam a coragem: "Vamos, de pé" Para de gemer tanto sobre teus infortúnios e faze teus companheiros se levantarem!" (Argonáuticas, IV, 1308 ss.). Os argonautas levantam-se e carregam às costas seu navio, cuja proa mágica e oracular é um presente de Atena, durante dias, até o mar.
As altivas mulheres das epopeias não são mulheres da sombra, cuja única esperança de realizar o que ambicionam se resume no sucesso de seus homens: elas não só agem como conduzem a dança e têm sua própria carreira. Indispensáveis para o desenrolar da história, são "mulheres de campo", sujeitos da ação e não unicamente objetos de temor ou desejo. Quando se trata de lutar com o dragão que vigia o velino, é Medeia em pessoa que enfrenta a fera. A jovem - pois nessa parte de suas aventuras Medeia mal saiu da infância - conquista a vitória sobre o monstro enorme, de "mandíbulas mortais", que ela fascina com um olhar, tornando-o tão inofensivo quanto um animal doméstico. Sem esse combate, sem os filtros que ela inventa, sem os assassinatos que comete, Jasão não iria longe.
Mais do que qualquer outro personagem, Ulisses representa na Antiguidade um ideal de humanidade. Ao lado dos heróis belicosos da Íliada e das múltiplas criaturas selvagens e abomináveis que encontra, Ulisses simboliza a vitória sobre a selvageria, quer seja exercida pelo ser humano ou inerente à natureza. Essa humanidade é feita de comedimento, inteligência e do máximo respeito pelas mulheres. Ao lado de Atena imensa há todas as outras, Circe, Nausícaa, Calipso e, por fim, Penélope. Ulisses, o "homem ideal", sem desmedida, sem hýbris, é amigo das mulheres, que trata como iguais a ele, com franqueza, e não tem problema algum em reconhecer-lhes superioridade, em suplicar a Atena, Circe ou à princesa Nausícaa, diante da qual se ajoelha: "Ah, Rainha, tem piedade!", confiando-lhe: "Não há nada melhor nem mais precioso do que a concordância, no lar, de todos os sentimentos entre marido e mulher: grande despeito dos invejosos, grande alegria dos amigos, felicidade perfeita do casal!" (VI, 180ss.). Esse é o ideal do homem ideal da Odisseia.  
Eruditos e letrados da Antiguidade pretendiam que em Homero estava tudo. Em todo caso, há nele uma bela lição de feminismo e humanidade - a melhor lição, a que é dada pelo exemplo e transmitida pela beleza assombrosa das palavras. A mitologia abundante, quer tenha sido veiculada na poesia, no teatro, nas artes, na Grécia ou em Roma, também soube favorecer o gênio feminino, mostrando sua densidade, seu poder e sua diversidade. Seria preciso muito mais do que um único livro para enumerar todas elas: Cassandra, Dido, a Esfinge, Europa, todas essas orgulhosas mulheres da mitologia que são precisamente o orgulho da condição feminina.
Os romanos substituíram a primeira tríade capitolina, feita exclusivamente de divindades masculinas, por uma nova, majoritariamente feminina: para proteger a cidade, Marte, o deus da guerra, e Quirino, o deus com a lança, são substituídos por Juno e Minerva ladeando Júpiter. Os deuses do Panteão, que agrupa as divindades principais, variaram na Antiguidade, porém o Panteão sempre precisava ser composto de seis deusas e seis deuses: no topo do Olimpo, as decisões sempre são tomadas igualitariamente. Nós também possuímos um panteão e, grandes apreciadores de palavras, temos uma para expressar a igualdade nas instâncias de poder: paridade. Mas, na prática, nosso Panteão abriga atualmente oitenta homens e seis mulheres; quanto à paridade, não só ela não existe em lugar algum como é criticada em toda parte.
Os avanços em todas as áreas são tais que as coisas nunca terão sido melhores antes, e não trocarei minha vida de mulher francesa do século XXI europeu pela vida de uma grega da Antiguidade, nem mesmo para pedir um autógrafo a Safo ou a Sócrates. Entretanto, por mais de longe que a mitologia venha, ela nos convida a avançar, a não nos contentarmos com boas intenções, a nunca cedermos a uma igualdade barateada e sim a agirmos mais, para que num dia próximo nosso Panteão seja tão paritário quanto o dos gregos e romanos!
*************
Após um texto usado pela autora como CONCLUSÃO para seu livro, segue um trecho extraído da quarta capa do referido livro para usá-lo na conclusão desta postagem.
"Embora as narrativas das sociedades antigas sejam dominadas pelos homens, a sua mitologia nos mostra o oposto.
A mitologia grega não apenas nos oferece figuras femininas poderosas, mas também imbuiu as mais belas forças da civilização com traços femininos. Na mitologia, o melhor da humanidade é a mulher."
"Todas as pessoas grandes foram um dia crianças. Pena que sejam poucas as que se lembram disso.", diz Antoine de Saint-Exupéry, autor do livro intitulado "Pequeno Príncipe". O que tal afirmação tem a ver com esta postagem? Ela oferece a possibilidade de elaborar a seguinte paráfrase: "Todos os homens grandes foram um dia hóspedes do ventre de uma mulher. Pena que sejam poucos os que se lembram disso.". O que essa paráfrase tem a ver com esta postagem? Ela possibilita a validação da seguinte afirmação: "Na mitologia, o melhor da humanidade é a mulher.", eu explico.
Entre seres que cedem seu ventre para dar a vida a um novo ser e seres que, esquecendo que receberam a vida após terem passado nove meses em um ventre feminino, chegam ao cúmulo de tirarem a vida de uma mulher quais devem ser considerados o que há de melhor na humanidade? Em outras palavras: em termos de humanidade, quem deve ser considerado melhor: quem dá a vida ou quem tira a vida?
Após uma leitura atenta do que é dito acima, será que faz sentido discordar da afirmação que "o melhor da humanidade é a mulher"? Será que após concordar faria sentido negar a outras pessoas a possibilidade de lerem o excelente texto de Laure De Chantal do qual a afirmação foi extraída? Será que, apesar do que relatei no primeiro parágrafo da postagem, faria sentido não me empenhar para publicar uma postagem alusiva ao Dia Internacional da Mulher? Será que conseguirei elaborar uma postagem intitulada "Reflexões provocadas por 'A odisseia das mulheres'"? Sei lá...

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Transumanismo

 "Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores; há os que lutam muitos anos e são muito bons, mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis."

(Bertolt Brecht [1898 – 1956], dramaturgo, poeta e encenador alemão)
Por que inicio esta postagem com essas palavras de Brecht? Porque acredito que ele classificaria como imprescindível o autor do texto nela reproduzido. Quem é o autor? Edgar Morin. Quem é Edgar Morin? Um filósofo e sociólogo francês nascido em Paris, em 08 de julho de 1921. Onde encontrei o texto? No livro "despertemos! - um chamado para o despertar das consciências" publicado no Brasil em 2023, após ter sido publicado na França em 2022 sob o título "Reveillons-nous!". Você concorda que alguém que aos 101 anos prosseguia atuando no despertar das consciências deve ser incluído entre os que lutam toda a vida e, consequentemente, deve ser classificado como imprescindível? Hoje, aos 103 anos, creio que ele ainda prossegue atuando no despertar das consciências.
Transumanismo
Na década de 1980, surgiu o transumanismo, que questiona a natureza humana e a natureza da sociedade para transformá-las. Retoma o mito que a crise ecológica parecia capaz de descartar definitivamente: o do domínio do homem sobre o mundo. O transumanismo conduz a uma metamorfose antropológica em que o humano se tornaria meta-humano, sobre-humano e pós-humano. Com base nas novas possibilidade de intervenção biológica (células-tronco, modificação do DNA e dos telômeros, órgãos artificiais), o transumanismo prevê o prolongamento da vida humana sem senilidade. Mas esse prolongamento não pode ser infinito e tornar-se imortalidade, pois os humanos não poderão erradicar vírus, bactérias, acidentes nem desastres naturais. A morte pode recuar, mas não pode ser derrotada.
E mais: caberá delegar a empresas científicas voltadas para o lucro o direito de criar, por meio de manipulações genéticas, espécimes pós-humanos perigosos? Essas tentativas de aprendizes de feiticeiros poderiam criar monstros.
Outro mito transumanista é o de uma sociedade harmoniosamente regulada pela inteligência artificial, que aboliria qualquer desordem. Mas a abolição da desordem exclui a iniciativa e a criatividade. Ordem impecável é ordem implacável.
O reino da inteligência artificial sobre a sociedade humana seria o de Matrix: a grande máquina anônima que governa todos os indivíduos. O perigo não vem dos robôs, mas do risco de que os humanos se tornem robôs.
Toda a filosofia transumanista mascara o verdadeiro problema da humanidade, que não está no aumento quantitativo de seus poderes, mas na melhoria qualitativa das condições de vida e das relações humanas. A questão essencial não é mudar a natureza humana, mas inibir o pior e promover o melhor que há nela. O transumanismo escamoteia a necessidade fundamental de regenerar o humanismo.
Paralelamente, a onda neoliberal propaga-se pelo mundo desde a década de 1980. A integração técnico-econômica mundial, conhecida como globalização, é realizada sob sua égide no final do século XX. O neoliberalismo globalizado nada mais é que a onipotência globalizada do lucro. O planeta está submetido a esse poder que causa desastres ecológicos e à sujeição de populações, provocando múltiplas revoltas, sempre reprimidas.
Fica claro, portanto, que a nova era une indissoluvelmente o destino da Terra, o da Vida e o da Humanidade em todas as áreas. Traz em si, ao mesmo tempo, perigo mortal e perspectiva de metamorfose.
Também fica claro que o principal motor desse devir ameaçador é o frenesi de poder produzido pela trindade ciência-tecnologia-economia, cada vez mais impulsionada pela dominação insaciável do lucro, bem como pela energia implacável dos Estados.
Fica claro que o progresso traz seu quinhão de retrocessos e desastres.
Fica claro que o excesso de poder criou um excesso de impotência.
Fica claro que essas mesmas forças devastadoras produzem retrocesso político e social generalizado no mundo, e que a crise da democracia conduz ao estabelecimento de Estados neoautoritários e/ou dominados por interesses financeiros.
É nessas condições que surge a pandemia de covid-19, causadora de uma crise sanitária mundial que acarreta a proliferação de crises interdependentes e interagentes que afetam a totalidade da experiência humana, desde a saúde individual, as inter-relações humanas, o trabalho, a vida cotidiana e a vida econômica, social e política das nações, até o conjunto de nosso mundo. Essa crise revela que as interdependências da globalização técnico-econômica não trouxeram solidariedade; põe em xeque problemas de autonomia e dependência das nações. Ao mesmo tempo, coroa a comunhão de destinos da humanidade com o perigo e a ameaça de uma crise coletiva gigantesca, mas sem que essa comunhão de destinos seja consciente. Ao contrário, as ansiedades despertadas pela enorme crise provocam fechamentos identitários e a incriminação de bodes expiatórios. Reinam a inconsciência e o sonambulismo.
Estamos agora no coração da crise, e a crise está no coração da humanidade.
*************
Será que também fica claro que o instigante texto de Edgar Morin deve provocar em nós uma considerável quantidade de reflexões?

terça-feira, 19 de novembro de 2024

O precariado (final)

Continuação  de quarta-feira
Época – O senhor alertou em 2011 que, caso os partidos tradicionais não se dirigissem a essa classe emergente, os partidos populistas o fariam. Isso soa como um presságio, considerando a Brexit e a ascensão de Trump. Em que os grupos tradicionais políticos falharam?
Standing – Os antigos partidos social-democratas na Europa, e mesmo o PT no Brasil, tentaram construir uma sociedade ao redor da formação de empregos, focando no trabalhismo tradicional, em vez de olhar para a ideia de trabalho como um conceito mais amplo. Ao mesmo tempo, a centro-direita tradicional e seus partidos se tornaram cada vez mais moralistas, dizendo: você só precisa cumprir seu dever, obedecer à lei etc. Esses dois grupos estão encolhendo em todo lugar, porque não entendem o precariado e não oferecem um futuro de segurança de renda para ele. Isso deixou um espaço para os populistas neofascistas como Trump e Marine Le Pen na França.

E também está associado à Brexit, porque muitos dos votos para a saída vieram da primeira facção do precariado. Estamos vendo a política do precariado se desenvolver enquanto as estruturas políticas não estão em sintonia com a realidade do precariado.

 "Os partidos tradicionais estão encolhendo em todo lugar porque não entendem o precariado"
Época – A elite acordou para esse assunto, como mostrou sua presença em Bilderberg. O que acha de suas ideias serem discutidas nos fóruns econômicos mundiais?
Standing – Fiquei muito surpreso – e contente – por ter sido convidado para Bilderberg. A elite passou a entender que, a não ser que haja alguma resposta para as inseguranças, frustrações e desigualdades associadas ao precariado, toda a estrutura do mercado global estará ameaçada. É um sinal de que uma agenda política mais progressista está emergindo. Bernie Sanders, nos Estados Unidos, e Jeremy Corbyn, no Reino Unido, ainda são parte da antiga esquerda, mas começaram a vocalizar a necessidade de uma nova política. Sanders e Corbyn não são o futuro. Mas podem abrir os caminhos para uma política nova e quebrar o molde dos social-democratas do século XX.
Época – Trump ganhará em 2016 falando ao precariado?
Standing – Trump está apostando na classe ex-trabalhadora, branca, masculina, mas não conversa com a segunda e a terceira facções do precariado. Trump é um demagogo e representa o pior aspecto da política moderna, mas Marine Le Pen é mais perigosa, porque ela usa uma linguagem que atrai uma parcela maior do eleitorado francês. Durante o próximo ano, veremos uma segunda geração de populistas que será mais esperta e inteligente do que Trump. Nós precisamos entender que estamos nos aproximando perigosamente de ter gente como eles sendo eleita para postos políticos importantes.
Época – Como lidar com os problemas levantados pelo precariado sem incorrer em políticas populistas?
Standing – A única forma de combater políticas populistas é ter uma agenda progressista para o precariado. Não vamos vencer isso com mais autoritarismo, ou mais neoliberalismo, ou mais apelos às pessoas sobre passado e decência. Acredito que ter uma renda básica será logo visto como um direito humano universal. Nossos salários, em média, não vão subir no futuro próximo, porque os salários na China estão muito abaixo dos salários no Brasil e ainda mais abaixo dos níveis europeus e americanos. Ao mesmo tempo, a renda dos rentistas está subindo. É preciso deslocar parte desse capital rentista para essas pessoas, e a única forma de fazer isso é ter uma renda básica para todo mundo. Não é uma panacéia, mas é parte de um novo sistema de distribuição de renda. Ao menos que nós nos movamos nessa direção, as ameaças que estamos vendo piorarão.
*************
"A ascensão nos Estados Unidos de demagogos como Donald Trump e a Brexit (a decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia) chamaram a atenção para o trabalho do economista britânico Guy Standing, sobre uma nova classe social que está por trás da explosão de raiva dos eleitores do mundo ocidental desenvolvido. Professor da Universidade de Londres, Standing estuda desde a década de 1980 o precariado, como foi batizada a crescente massa de pessoas que vivem em permanente insegurança em relação a seus empregos, rendas, vida.".

O tempo lhe deu razão – e Standing passou a ser convidado para eventos ultrasseletos como a Conferência de Bilderberg (depois de Davos, o mais importante fórum econômico internacional), realizada em junho na Alemanha. 

Os dois parágrafos anteriores foram extraídos do trecho que antecede as perguntas de uma entrevista intitulada "Estamos perto de ter gente como Trump no poder", concedida há 8 anos e 3,5 meses. O tempo passou, "estar perto de ter gente como Trump no poder" a cada dia se acentuou, e, apenas 5 meses após a publicação de tal entrevista, no poder Trump se instalou.

O tempo continuou passando, afinal, como já cantava Cazuza, "O tempo não para", e coisas lamentáveis continuaram ocorrendo; algumas lá, outras cá. Cá, a ascensão de um fã de Trump que culminou em sua eleição para a presidência deste país. Lá, o retorno de Trump à presidência, provocando o eriçamento da legião de fãs que ele tem cá. Retorno que espero que consiga cá provocar algo citado no terceiro parágrafo acima: "Chamar a atenção para o trabalho do economista britânico Guy Standing, sobre uma nova classe social que está por trás da explosão de raiva dos eleitores do mundo ocidental desenvolvido."

"Explosão de raiva dos eleitores de um mundo desenvolvido"?! Mundo desenvolvido em que, cara pálida? Em estupidez, talvez. Definitivamente, não dá para discordar da seguinte afirmação de Abert Einstein: "Existem apenas duas coisas infinitas - o universo e a estupidez humana. E não tenho tanta certeza quanto ao universo."

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

O precariado (I)

"O precariado, termo criado nos anos 1980 pela combinação do adjetivo "precário" e do substantivo "proletariado", é uma classe emergente composta por um número cada vez maior de pessoas que levam vidas de insegurança, entrando e saindo de empregos que conferem pouco significado a suas existências.
Este livro trata de responder a cinco questões fundamentais acerca do precariado: O que é essa classe? Por que devemos nos preocupar com seu crescimento? Por que ela está crescendo? Quem está ingressando nela? Para onde está nos levando? Esta última questão é crucial.
Os dois parágrafos acima foram extraídos do livro O precariado – A nova classe perigosa, de autoria do economista britânico Guy Standing, publicado pela Editora Autêntica em 2011. Livro do qual tomei conhecimento ao ler uma entrevista concedida pelo autor publicada na edição de 1º de agosto de 2016 da revista Época.
Intitulada "Estamos perto de ter gente como Trump no poder", a referida entrevista impressionou-me tanto que a transcrevi na minha pasta de ideias a serem espalhadas. Três meses após a publicação da entrevista, Trump foi eleito presidente dos EUA o que levou-me a pensar em espalhar a entrevista em uma postagem sob o longo título "Será que o economista britânico sabia quão perto estávamos do que ele dizia estar perto de ocorrer?". Acabei não publicando tal postagem naquele momento, o tempo passou, a intenção de publicá-la não foi concretizada, porém tal intenção jamais saiu da minha mente. Sendo assim, oito anos e três meses depois, diante da volta de Trump ao poder, embora tardiamente, segue a primeira parte da elucidativa entrevista. Em relação a determinadas coisas, como diz uma antiga frase: "Antes tarde do que nunca."
O uso do método Jack – vamos por partes -, conforme já explicado algumas vezes neste blog, visa não desestimular leitores de menor fôlego, ok? Segundo minha insuspeita (!!) opinião, tal entrevista é algo que precisa ser lido para que possa ser entendida a encrenca em que estamos metidos.
"Estamos perto de ter gente como Trump no poder"
  O economista britânico diz que a explosão de raiva dos eleitores ocidentais se deve ao crescimento de uma classe social, o precariado, que nunca terá um emprego formal na vida
A ascensão nos Estados Unidos de demagogos como Donald Trump e a Brexit (a decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia) chamaram a atenção para o trabalho do economista britânico Guy Standing, sobre uma nova classe social que está por trás da explosão de raiva dos eleitores do mundo ocidental desenvolvido. Professor da Universidade de Londres, Standing estuda desde a década de 1980 o precariado, como foi batizada a crescente massa de pessoas que vivem em permanente insegurança em relação a seus empregos, rendas, vida. No livro O precariado – A nova classe perigosa (Editora Autêntica), de 2011, Standing alertou que a insegurança que caracteriza essa classe teria um impacto nocivo no cenário político.
O tempo lhe deu razão – e Standing passou a ser convidado para eventos ultrasseletos como a Conferência de Bilderberg (depois de Davos, o mais importante fórum econômico internacional), realizada em junho na Alemanha. Nesta entrevista, ele falou sobre como o precariado está desafiando as tradicionais estruturas políticas a se reinventar.
Época – O termo precariado começou a ser usado na década de 1980, mas foi o senhor quem o popularizou. O que caracteriza o precariado?
Guy Standing – O precariado consiste nas pessoas que se mantêm com empregos temporários, de meio período, casuais. São milhões de pessoas, muitas com educação superior ou diploma do ensino médio, que estão sendo postas em circunstâncias nas quais elas não têm uma narrativa ocupacional que possam dar sua vida. Isso cria uma insegurança existencial, porque elas sentem que não pertencem à sociedade. Além disso, o precariado tem de trabalhar muito em atividades que não são reconhecidas como trabalho. Se você está no precariado, tem de fazer muito networking, treinamentos, entrar em filas, preencher formulários. Ao mesmo tempo, essa classe tem um nível de estudo que está acima do nível de trabalho que ela pode esperar. Isso cria frustração.

Outro aspecto do precariado é que essa classe não tem acesso a benefícios sociais das empresas nem do Estado. Então enfrenta uma insegurança constante em relação à renda, especialmente porque os salários do precariado flutuam muito.

Época – Quais são as condições de vida do precariado?
Standing – O precariado vive à beira de um endividamento insustentável e se torna um alvo enorme de exploração. Ao mesmo tempo, o precariado não tem acesso à seguridade social, porque não tem registro de contribuição nem empregadores fixos e regulares. E, finalmente, o precariado se distingue porque esse é o primeiro grupo na história que sistematicamente perde direitos civis, sociais, culturais, políticos e econômicos. Não são as formas de trabalho e emprego que definem as pessoas do precariado, mas o fato de que elas são suplicantes que precisam pedir a autoridades por benefícios, ajuda, seguro, favores, qualquer coisa.
Época – De acordo com suas estimativas, o precariado representa entre 40% e 45% da força de trabalho em muitos países. O que essa insegurança de renda e esse "status de suplicante" significam em termos comportamentais?
Standing – Todas essas circunstâncias criam o que eu chamo de quatro "A". O primeiro A é ansiedade. O segundo A é alienação. As pessoas têm de fazer muitas coisas que não querem fazer e não podem fazer o que gostariam de fazer. Então, elas se sentem alienadas. O terceiro A é anomia, que significa um sentimento de desespero em relação às próprias circunstâncias. Isso leva ao quarto A, que é a raiva (anger, em inglês). Essa raiva está favorecendo políticos populistas e neofascistas na Europa e nos Estados Unidos.
Época – O senhor atribui boa parte das revoltas recentes – da Primavera Árabe ao movimento Occupy Wall Street – à ascensão do precariado como uma massa raivosa, mas sem consciência própria. Isso mudou?
Standing – O precariado consiste basicamente em três facções. A primeira é formada por pessoas que não têm altos níveis de educação, vêm de comunidades tradicionais de trabalhadores e olham para o passado, no sentido de ver o que os pais tinham. Esse grupo é facilmente manipulado pelos populistas e neofascistas. A segunda facção é formada por pessoas que não têm um lar, os migrantes, as minorias, os deficientes, que se sentem privados de tudo. Esse grupo é desorientado politicamente e pode ir para qualquer lado. Alguns deles recorrem a medidas extremas de autodestruição, suicídio, doenças sociais, mesmo o terrorismo individualizado irracional. A terceira facção é formada pelos jovens com altos níveis de educação que foram empurrados para o precariado. A esse grupo, foi prometido um futuro, quando eles estavam na universidade. E eles terminam endividados e frustrados. Esse grupo participou das revoltas da Primavera Árabe, do movimento Occupy, do Indignados, na Espanha, e assim por diante.

No início, essa facção estava mais unida pelas coisas que a eles se opunham do que pelas que defendiam. Isso vem mudando. Esse grupo educado atingiu um estágio de compreensão sobre a situação estrutural e passou a se ver como parte de uma classe emergente. Essa facção agora atingiu o ponto de exigir representação no Estado. Vemos grupos como o Podemos, na Espanha, o Syriza, na Grécia, e diversos outros surgindo para representar o precariado.

Termina na próxima terça-feira