terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Que filhos queremos: gladiadores ou golfinhos?

O nascimento de um neto, em 20 de dezembro de 2024, despertou em mim o interesse em atualizar-me quanto aos modos de interagir adequadamente com crianças. Em conformidade com tal interesse, sem lembrar como, descobri um livro lançado em 2024 com um instigante título: "A Bula de Cada Criança - O olhar humanista de um pediatra sobre como cuidar dos filhos sem receita pronta", de autoria de Roberto Cooper. Um livro no qual, na condição de mantenedor de um blog intitulado "Espalhando ideias", não tive como não enxergar inúmeras ideias para por ele serem espalhadas. Já tendo espalhado alguns textos, segue mais um.
Que filhos queremos: gladiadores ou golfinhos?
Nossa visão do mundo - fortemente influenciada pela cultura, que são os valores e hábitos de que nos cercamos - define em grande parte como vamos ou queremos criar nossos filhos. Nos dias de hoje, há uma invasão da cultura empresarial na vida privada. Numa empresa, temos o objetivo de criar e manter clientes lucrativos. Isso se obtém através da excelência dos produtos e dos serviços, com o claro e explícito objetivo de superar a concorrência. Estou sendo gentil quando digo superar a concorrência. Em geral a linguagem é mais bélica e a ideia é derrubar, destruir, acabar com a concorrência.
Esse é o jogo. Para obter isso, é preciso que os empregados de todos os níveis estejam motivados, focados e comprometidos com as metas da empresa. Como o objetivo final é lucro, uma empresa deve pensar o tempo todo em minimizar custos e maximizar receitas. Eficiência é uma palavra-chave e metas são fundamentais para se poder medir o tamanho do sucesso. Se bati ou superei a meta, isso é um balizador da minha competência. A visão empresarial do mundo é a de que estamos em guerra. Mesmo internamente, com alguns mecanismos atenuantes, há uma guerra surda, silenciosa, pelo avanço na carreira. Como em uma empresa só se tem um presidente e meia dúzia de diretores, é óbvio que os empregados (motivacionalmente chamados de colaboradores, associados etc.) disputam entre si a entrada nesse funil, rumo ao topo. Há uma concorrência interna entre as pessoas, e a empresa usa isso para obter o máximo de cada um. 
Claro que essa descrição é simplista, superficial e, talvez, exagerada. Serve apenas para nos colocar no contexto do que seria uma cultura empresarial. Certamente, para uma empresa, essa cultura funciona muito bem. É desejável que prosperem e que haja uma continuada melhoria de produtos e serviços. O problema é quando não percebemos que a cultura - bélica, competitiva, baseada em entregar (deliver) e bater metas - se instala na nossa vida pessoal e das nossas famílias. Pessoas e famílias não são empresas. São seres humanos.
Além do fato de a cultura das empresas entrar em nossas vidas, há um equívoco na avaliação da natureza humana. Muitas pessoas acreditam que Darwin (aquele da evolução das espécies) disse que os mais fortes sobrevivem. Não foi isso que ele disse, mas, sim, que os mais aptos sobrevivem. É uma diferença fundamental entre ser forte e ser apto.
Se a nossa visão de mundo for a de que tudo é uma empresa e o mais forte triunfará, certamente educaremos nossos filhos para serem gladiadores implacáveis. Desde cedo lhes daremos tarefas, metas (sem dar esse nome) e bônus (que se chama presente) se cumprirem com o combinado (bater as metas). Seremos generosos com as críticas porque estas fortalecem e preparam para um mundo cruel e competitivo. Seremos econômicos com elogios porque estes amolecem o espírito e levam à acomodação e à inércia.
No entanto, se conseguirmos perceber que a vida pessoal não é feita de metas nem de tarefas (ainda que tenhamos as do dia a dia), mas de emoções, sensações, prazeres (e desprazeres), alegrias (e tristezas), veremos que somos dependentes de relacionamentos. Nossa existência, sem vínculos, sem o outro, que não seja um inimigo, perde o sentido.
Somos seres gregários, vivemos em grupo, dependemos uns dos outros, portanto, há um enorme espaço para solidariedade, compaixão e afeto. Nesse contexto, triunfarão os mais aptos, e a aptidão necessária é a do encontro, da empatia com o outro. Não é a força com que eu domino o outro, mas o afeto com que eu o acolho que pode determinar a felicidade e o bem-estar, coisa que todos desejam.
Se nossa visão de mundo for a de que a cooperação, o altruísmo e uma boa dose de ócio (não fazer compulsivamente algo, apenas pensar, refletir, ser criativo) são importantes, certamente educaremos nossos filhos para se tornarem golfinhos. Golfinhos são inteligentes, brincam, se divertem, vivem em grupo, colaboram entre si para a alimentação e contra o ataque de predadores. Desde cedo lhes mostraremos que ser alguém não se mede (apenas) pelo que se faz. Não seremos pais "operários", sempre à procura de tarefas com nossos filhos, mas pais que querem estar com eles. Fazer algo e estar junto não é exatamente a mesma coisa. Uma agenda sobrecarregada de atividades pode eliminar um tempo precioso de estar junto, literalmente sem fazer nada. O que, em um mundo de tarefeiros, fabris, é quase um crime.
Mas o mundo não é tão simples. Ou isso, ou aquilo. O mundo é complexo e, geralmente, é isso e aquilo, ao mesmo tempo. Assim, temos que pensar em nossos filhos como gladiadores, quando estiverem na arena das empresas, do mercado, da vida profissional e, como golfinhos, na vida, no convívio e nos relacionamentos. Precisamos lhes dar as aptidões para que possam viver bem, em todas as situações, de forma integrada e feliz. O perigo é quando só lhes damos um modo de ver e de estar no mundo. E, hoje, esse modo é o do gladiador.
Precisamos adicionar na formação dos nossos filhos afeto, vínculo, confiança mútua, solidariedade, empatia, compaixão e altruísmo. Só faremos isso, se pudermos ser assim. Não há curso para essas aptidões nas quais possamos inscrever nossos filhos, muito menos comprar algo que os ensine a ser gente. É preciso que sejamos pais amorosos, afetivos, solidários para que nossos filhos cresçam e se tornem adultos capazes de não ver o mundo exclusivamente pelas lentes da competição e da vitória sobre o outro.
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Apresentada a questão - Que filhos queremos: gladiadores ou golfinhos? -, seguida pela argumentação feita pelo próprio questionador para respondê-la, resta a quem se dispôs a ler esta postagem refletir sobre o que diz o pediatra Roberto Cooper em mais um instigante texto.

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