O nascimento de um neto, em 20 de
dezembro de 2024, despertou em mim o interesse em atualizar-me quanto aos modos
de interagir adequadamente com crianças. Em conformidade com tal interesse, sem
lembrar como, descobri um livro lançado em 2024 com um instigante título:
"A Bula de Cada Criança - O olhar humanista de um pediatra sobre como
cuidar dos filhos sem receita pronta", de autoria de Roberto Cooper. Um
livro no qual, na condição de mantenedor de um blog intitulado "Espalhando
ideias", não tive como não enxergar inúmeras ideias para por ele serem espalhadas. Já tendo espalhado alguns textos, segue mais um.
Que filhos queremos: gladiadores ou golfinhos?
Nossa
visão do mundo - fortemente influenciada pela cultura, que são os valores e
hábitos de que nos cercamos - define em grande parte como vamos ou queremos
criar nossos filhos. Nos dias de hoje, há uma invasão da cultura empresarial na
vida privada. Numa empresa, temos o objetivo de criar e manter clientes lucrativos.
Isso se obtém através da excelência dos produtos e dos serviços, com o claro e
explícito objetivo de superar a concorrência. Estou sendo gentil quando digo
superar a concorrência. Em geral a linguagem é mais bélica e a ideia é
derrubar, destruir, acabar com a concorrência.
Esse é o
jogo. Para obter isso, é preciso que os empregados de todos os níveis estejam
motivados, focados e comprometidos com as metas da empresa. Como o objetivo
final é lucro, uma empresa deve pensar o tempo todo em minimizar custos e
maximizar receitas. Eficiência é uma palavra-chave e metas são fundamentais
para se poder medir o tamanho do sucesso. Se bati ou superei a meta, isso é um
balizador da minha competência. A visão empresarial do mundo é a de que estamos
em guerra. Mesmo internamente, com alguns mecanismos atenuantes, há uma guerra
surda, silenciosa, pelo avanço na carreira. Como em uma empresa só se tem um
presidente e meia dúzia de diretores, é óbvio que os empregados
(motivacionalmente chamados de colaboradores, associados etc.) disputam entre
si a entrada nesse funil, rumo ao topo. Há uma concorrência interna entre as
pessoas, e a empresa usa isso para obter o máximo de cada um.
Claro que
essa descrição é simplista, superficial e, talvez, exagerada. Serve apenas para
nos colocar no contexto do que seria uma cultura empresarial. Certamente, para
uma empresa, essa cultura funciona muito bem. É desejável que prosperem e que
haja uma continuada melhoria de produtos e serviços. O problema é quando não
percebemos que a cultura - bélica, competitiva, baseada em entregar (deliver)
e bater metas - se instala na nossa vida pessoal e das nossas famílias. Pessoas
e famílias não são empresas. São seres humanos.
Além do
fato de a cultura das empresas entrar em nossas vidas, há um equívoco na
avaliação da natureza humana. Muitas pessoas acreditam que Darwin (aquele da
evolução das espécies) disse que os mais fortes sobrevivem. Não foi isso que
ele disse, mas, sim, que os mais aptos sobrevivem. É uma diferença fundamental
entre ser forte e ser apto.
Se a
nossa visão de mundo for a de que tudo é uma empresa e o mais forte triunfará,
certamente educaremos nossos filhos para serem gladiadores implacáveis. Desde
cedo lhes daremos tarefas, metas (sem dar esse nome) e bônus (que se chama presente)
se cumprirem com o combinado (bater as metas). Seremos generosos com as
críticas porque estas fortalecem e preparam para um mundo cruel e competitivo.
Seremos econômicos com elogios porque estes amolecem o espírito e levam à
acomodação e à inércia.
No
entanto, se conseguirmos perceber que a vida pessoal não é feita de metas nem
de tarefas (ainda que tenhamos as do dia a dia), mas de emoções, sensações,
prazeres (e desprazeres), alegrias (e tristezas), veremos que somos dependentes
de relacionamentos. Nossa existência, sem vínculos, sem o outro, que não seja
um inimigo, perde o sentido.
Somos
seres gregários, vivemos em grupo, dependemos uns dos outros, portanto, há um
enorme espaço para solidariedade, compaixão e afeto. Nesse contexto, triunfarão
os mais aptos, e a aptidão necessária é a do encontro, da empatia com o outro.
Não é a força com que eu domino o outro, mas o afeto com que eu o acolho que
pode determinar a felicidade e o bem-estar, coisa que todos desejam.
Se nossa
visão de mundo for a de que a cooperação, o altruísmo e uma boa dose de ócio
(não fazer compulsivamente algo, apenas pensar, refletir, ser criativo) são
importantes, certamente educaremos nossos filhos para se tornarem golfinhos.
Golfinhos são inteligentes, brincam, se divertem, vivem em grupo, colaboram
entre si para a alimentação e contra o ataque de predadores. Desde cedo lhes
mostraremos que ser alguém não se mede (apenas) pelo que se faz. Não seremos
pais "operários", sempre à procura de tarefas com nossos filhos, mas
pais que querem estar com eles. Fazer algo e estar junto não é exatamente a
mesma coisa. Uma agenda sobrecarregada de atividades pode eliminar um tempo
precioso de estar junto, literalmente sem fazer nada. O que, em um mundo de
tarefeiros, fabris, é quase um crime.
Mas o
mundo não é tão simples. Ou isso, ou aquilo. O mundo é complexo e, geralmente,
é isso e aquilo, ao mesmo tempo. Assim, temos que pensar em nossos filhos como
gladiadores, quando estiverem na arena das empresas, do mercado, da vida
profissional e, como golfinhos, na vida, no convívio e nos relacionamentos.
Precisamos lhes dar as aptidões para que possam viver bem, em todas as
situações, de forma integrada e feliz. O perigo é quando só lhes damos um modo
de ver e de estar no mundo. E, hoje, esse modo é o do gladiador.
Precisamos
adicionar na formação dos nossos filhos afeto, vínculo, confiança mútua,
solidariedade, empatia, compaixão e altruísmo. Só faremos isso, se pudermos ser
assim. Não há curso para essas aptidões nas quais possamos inscrever nossos
filhos, muito menos comprar algo que os ensine a ser gente. É preciso que
sejamos pais amorosos, afetivos, solidários para que nossos filhos cresçam e se
tornem adultos capazes de não ver o mundo exclusivamente pelas lentes da
competição e da vitória sobre o outro.
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Apresentada a questão - Que filhos queremos: gladiadores ou golfinhos? -, seguida pela argumentação feita pelo próprio questionador para respondê-la, resta a quem se dispôs a ler esta postagem refletir sobre o que diz o pediatra Roberto Cooper em mais um instigante texto.
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