segunda-feira, 21 de junho de 2021

Interser

"Melhor vive quem melhor conhece; e melhor conhece quem melhor interpreta. Daí a necessidade de esforços cada vez maiores na iluminação do raciocínio"

(Ariston Santana Teles)
"Desde a mais tenra idade, nos ensinam a dividir os problemas, a fragmentar o mundo, o que parece ter o dom de facilitar tarefas e questões complexas. Mas o preço que pagamos por isso é enorme, pois deixamos de ver as consequências de nossos atos e perdemos a noção de integração com o todo maior."
Onde fui buscar o parágrafo inicial desta postagem? Naquela publicada em 14 de fevereiro de 2011 sob o título "O Raciocínio Sistêmico". Por que fui buscá-lo? Porque enxergo os grandes males que afligem esta civilização (sic) como consequências de coisas equivocadas que nos são ensinadas desde a mais tenra idade. Males que dificilmente existiriam se, desde a mais tenra idade, nos fossem ensinados o Raciocínio Sistêmico e o Interser, ensinamentos simplesmente contrários à divisão dos problemas e à fragmentação do mundo.
Onde encontrei o texto sobre o Interser? Em um livro de Thich Nhat Hanh intitulado "Paz é cada passo – O caminho da atenção plena", publicado, no Brasil, pela editora Vozes. Quem é Thich Nhat Hanh? É um poeta, mestre Zen e ativista da paz que nasceu no Vietnã em 11 de outubro de 1926, mas vive no exílio desde 1966, numa comunidade de meditação (Plum Village) que ele fundou na França. Foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz por Martin Luther King (laureado em 1964). É autor de dezenas de livros com o intuito de aproximar os leitores das práticas e ensinamentos budistas.
Feito este preâmbulo, segue o belo texto desse espírito de elite. Elite aqui considerada em sua verdadeira acepção – o que há de melhor numa sociedade -, e não com a equivocada acepção - a minoria composta por indivíduos que por serem mais ricos julgam-se superiores, sabe-se lá em que.
Interser
Se você é um poeta, verá claramente que nesta folha de papel há uma nuvem flutuando. Sem nuvem, não haveria chuva; sem chuva, as árvores não poderiam crescer; e sem árvores, o papel não poderia ser feito. A nuvem é essencial para o papel existir. Se a nuvem não estivesse presente, a folha de papel também não poderia estar presente. Então podemos dizer que a nuvem e o papel inter-são. A palavra "interser" ainda não está no dicionário, mas se combinarmos o prefixo "inter" com o verbo "ser", temos um novo verbo, interser.
Se examinarmos essa folha de papel ainda mais profundamente, podemos ver a luz solar nela. Sem luz solar, a floresta não poderia crescer. Na verdade, nada pode crescer sem luz solar. Desse modo, nós sabemos que o sol também está nesta folha de papel. A folha de papel e a luz do sol interexistem. E se continuarmos a observar, podemos ver o madeireiro que cortou a árvore e levou-a ao moinho para ser transformada em papel. E vemos o trigo. Nós sabemos que o madeireiro não existiria sem o seu pão de cada dia e, portanto, o trigo, que se transformou no pão dele, também está nesta folha de papel. O pai e a mãe do madeireiro também estão nela. Ao olharmos dessa maneira, vemos que esta folha de papel não poderia existir se não fossem todas essas coisas.
Examinando com maior profundidade ainda, também podemos nos ver nesta folha de papel. Isso não é difícil de ser compreendido, pois quando olhamos para uma folha de papel, a folha de papel faz parte da nossa percepção. Sua mente está aqui e a minha também está. Então podemos dizer que tudo está aqui nesta folha de papel. Não podemos apontar uma única coisa que não esteja nela – o tempo, o espaço, a terra, a chuva, os minerais do solo, a luz do sol, a nuvem, o rio, o calor. Tudo coexiste com esta folha de papel. Por isso, eu acho que a palavra interser deveria estar no dicionário. "Ser" significa interser. Nós não podemos simplesmente existir só por conta própria. Temos que interexistir com todas as demais coisas. Esta folha de papel existe, porque tudo o mais existe.
Suponhamos que nós tentássemos retornar um dos elementos à sua origem. Suponhamos que devolvemos a luz solar ao sol. Você acha que a existência desta folha de papel seria possível? Não, sem sol nada poderia existir. E se devolvêssemos o madeireiro à mãe dele, então nós também não disporíamos de uma folha de papel. O fato é que esta folha de papel é composta somente de elementos que não-são-papel. E se mandarmos de volta esse elementos que não-são-papel para suas fontes, então não poderia existir papel de forma alguma. Sem os elementos que não-são-papel, como a mente, o madeireiro, a luz solar e assim por diante, não poderia existir papel. Mesmo sendo tão fina, como esta folha de papel é, tudo no universo está contido nela.
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"Melhor vive quem melhor conhece; e melhor conhece quem melhor interpreta. Daí a necessidade de esforços cada vez maiores na iluminação do raciocínio", diz Ariston Santana Teles.
"'Ser' significa interser. Nós não podemos simplesmente existir só por conta própria. Temos que interexistir com todas as demais coisas.", diz Thich Nhat Hanh.
Será que o que diz Thich Nhat Hanh ajuda-nos a interpretar melhor, pergunto eu. Por acreditar que sim, a próxima postagem deverá espalhar mais um belo texto em que ele focaliza o interser.

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