segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A viagem suicida pós-moderna

Inspirada pela passagem do Dia da Consciência Negra ou de Zumbi dos Palmares, a redação da postagem anterior (Dias de inconsciência) me fez lembrar algo publicado, há 21 anos, no livro Um caminho com o coração, de Jack Kornfield. Publicada a postagem, três dias depois, encontrei, na edição de novembro de 2014 da revista Filosofia, um artigo no qual existem passagens inteiramente sintonizadas com afirmações feitas no referido livro. Ou seja, além de "ser uma caixinha de surpresas", como diz Joseph Klimber, a vida é também uma caixinha de coincidências. O artigo é intitulado A viagem suicida pós-moderna e é assinado por Matêus Ramos Cardoso. Matêus é bacharel em filosofia, pós-graduado em ética e filosofia pelo Instituto ProMinas, em ciências da religião pela Universidade Cândido Mendes (RJ) e professor de filosofia na E.E.M. Macário Borba, em Sombrio (SC).
"O elemento mais bem-ajustado da nossa sociedade é a pessoa que não está morta nem viva, apenas entorpecida, enfim um morto-vivo, um zumbi." (...) "Um dos nossos vícios mais difundidos é a velocidade. A sociedade tecnológica obriga-nos a aumentar o ritmo da nossa produtividade e o ritmo das nossas vidas.", são coisas ditas no livro publicado há 21 anos.
"Diante de uma realidade extremamente veloz que se renova a cada instante, alguns acabam se adaptando e vivem como zumbis, mortos-vivos numa sociedade que parece caminhar para o abismo, como numa grande marcha lenta, um congestionamento humano que se dirige para seu próprio velório. (...) Afinal, estar adaptado a uma sociedade doente não é um bom sinal. (...) O modo de vida hodierno é caracterizado pela constante necessidade de produção, que cresce a cada instante. (...) A máxima cartesiana é substituída pela máxima contemporânea: 'Produzo, logo existo!'", são coisas ditas na revista publicada há poucos dias.
Tudo a ver, não? Gostei demais do artigo, porém considerando que ele tem nove páginas (embora entre elas existam fotos e gravuras) dele extraí apenas alguns trechos para apresentar nesta postagem.
A viagem suicida pós-moderna
O teólogo Henri Nouwen (1932 – 1996), inspirado na "espiritualidade do deserto", valoriza o silêncio, a oração, o encontro com Deus e a busca de uma vida simples. Segundo ele, "nosso mundo se aventurou em uma viagem suicida". Seria possível pronunciar uma palavra de esperança diante do turbilhão de agonias inerentes a uma sociedade onde impera a tirania da velocidade? Diante de uma realidade extremamente veloz que se renova a cada instante, alguns acabam se adaptando e vivem como zumbis, mortos-vivos numa sociedade que parece caminhar para o abismo, como numa grande marcha lenta, um congestionamento humano que se dirige para seu próprio velório.
O modo de vida hodierno é caracterizado pela constante necessidade de produção, que cresce a cada instante. Dessa perspectiva, os indivíduos em meio a um estilo de vida exigente, perdem, entre tantas coisas, a saúde. O hiperconsumismo, atual procedimento padrão do homem contemporâneo, tem um preço muito alto; vive-se constantemente sob uma enorme pressão para que esse estilo de vida seja mantido, o que acarreta, por um lado, no aumento das exigências e, por outro, na redução das satisfações. Passos apressados que beiram o desespero. A máxima cartesiana é substituída pela máxima contemporânea: "Produzo, logo existo!"
Assistimos a uma contemporaneidade veloz, onde todas as atividades são atropeladas pela extrema rapidez em tentar solucionar os problemas. Vivemos entre as urgências dos milésimos. Não há recreio para a humanidade, não há intervalos, e toda a pausa para um suspiro que nos permita viver livre por alguns minutos parece colocar nossa existência em um curto-circuito. Parar é blasfemar contra o modus operandi atual. (...)
Para podermos refletir com mais clareza acerca da rapidez tecnológica, que se estende para a subjetividade do ser humano, analisamos a argumentação do doutor em comunicação Dênis de Moraes: "Até 2005, Motorola, Nokia, Samsung e LG conseguiam colocar nas mãos dos clientes um modelo novo de celular a cada dezoito meses. Tal prazo agora é considerado uma eternidade. A média caiu para nove meses. Em alguns casos, o lançamento demora seis". Desse modo, podemos ter uma ideia de como a cultura tecnológica acaba se incorporando ao comportamento humano, o amor se torna um prazer automático e acabamos robotizando nossas vidas. E a grande questão não é se surgirão computadores com uma consciência humana, mas se nós já não estamos vivendo como máquinas, apenas executando funções rapidamente, de forma eficaz e não refletida.
(...) Examinemos, por um momento, nosso cotidiano. Geralmente, somos muito atarefados, reuniões para ir, visitas a fazer, compromissos, etc. É raro o momento em que não temos o que fazer, e quando este momento acontece, não conseguimos desfrutar do ócio, pois a culpa de "não estar produzindo nada", assola nosso ser. Vivemos, cada vez mais, de uma maneira compulsiva, pois já não temos a calma para parar e refletir sobre nossas ações, nossos projetos de vida. Simplesmente seguimos fazendo seja lá o que for, de maneira automática, como máquinas obedecendo a comandos: é preciso motivar as pessoas a produzirem, a obter dinheiro, e todos precisam estar contentes (ou acreditando que estão contentes).
(...) O indivíduo é muito mais do que um objeto, que compra e é comprado, que é tomado pelo sistema, que se dedica a um trabalho para "ganhar a vida", que segue o caminho inverso da lógica da satisfação e da simplicidade.
Nessa viagem suicida pós-moderna, percebe-se que na grande maioria das vezes as pessoas sofrem demais com respostas "erradas" devido ao fato de que ainda não tiveram a coragem de olhar para dentro de si e fazer a pergunta certa: "Afinal, o que queremos da vida?"
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Por que espalho um texto que em seu primeiro parágrafo questiona se "Seria possível pronunciar uma palavra de esperança diante do turbilhão de agonias inerentes a uma sociedade onde impera a tirania da velocidade?"? Seria eu um desesperançado? Não, desesperançado é exatamente o contrário do que sou. Conforme é explicado na postagem Otimistas, pessimistas e esperançosos, considero-me um esperançoso.
O que é um esperançoso? É alguém que acredita que - desde que os indivíduos que a compõem disponham-se a fazer a sua parte – sempre será possível tornar melhor uma sociedade. Mas em que consiste cada um fazer a sua parte? Primeiramente, em avaliar o caminho pelo qual a sociedade está seguindo em sua viagem. Feita a avaliação, o próximo passo é agir de modo a corrigir o caminho equivocado que, por desventura, esteja sendo seguido, pois como diz Matêus Ramos, a sociedade parece estar caminhando para o abismo, para seu próprio velório. É nisto que consiste a esperança: no reconhecimento da existência de coisas erradas e na disposição para atuar no sentido de corrigi-las.
Dito isto, segue uma recomendação. Toda vez que for publicada neste blog alguma postagem que alguém veja como algo que sugere desesperança, a recomendação é interpretá-la à luz do que é dito nos dois parágrafos anteriores, ok? Interpretá-la como uma avaliação compartilhada por alguém que, embora seja um integrante desta sociedade repleta de indivíduos cada vez menos reflexivos, é alguém que já consegue perceber que determinados comportamentos equivocadamente adotados como padrão por esta sociedade, são, na verdade, práticas inteiramente impeditivas à construção de algo que possa fazer jus ao termo civilização.
Nessa viagem suicida pós-moderna, percebe-se que na grande maioria das vezes as pessoas sofrem demais com respostas "erradas" devido ao fato de que ainda não tiveram a coragem de olhar para dentro de si e fazer a pergunta certa: "Afinal, o que queremos da vida?"
É com o parágrafo acima que Matêus Ramos encerra seu artigo. Olhar para dentro de si e fazer a pergunta certa: "Afinal, o que queremos da vida?" Seria isso uma avaliação de como estamos vivendo a vida? Avaliar! Eis a primeira coisa que precisa ser feita por aqueles que quiserem verdadeiramente mudar o que quer que seja para melhor. Afinal, como corrigir o que está sendo feito de modo equivocado sem uma verdadeira avaliação do que esteja sendo feito? Avaliações! Eis uma das coisas estupidamente negligenciadas e deturpadas pela dita espécie inteligente do Universo.

2 comentários:

Matêus disse...

Caro amigo, obrigado por compartilhar de um dos meus artigos. Sua apreciação é fiel ao texto original, parabéns..

att
Prof. Matêus

Guedes disse...

Caro Prof. Matêus,

Considerando que a intenção deste blog é "espalhar ideias que ajudem a interpretar a vida e provoquem ações para torná-la cada vez melhor", ler o seu artigo e não compartilhá-lo seria algo imperdoável.

Obrigado por sua atenção e pelo comentário.

Um abraço,
Guedes