sábado, 24 de maio de 2014

Reflexões provocadas por "O defeito que matou Senna"

Principalmente para quem não é chegado à idolatria ou quem consegue enxergar além dela, vinte anos após sua publicação, o excelente artigo de Jânio de Freitas intitulado O defeito que matou Senna continua dando o que pensar. E para refletir sobre ele selecionei os quatro seguintes parágrafos. Os grifos são meus.
*************
De quem é a culpa na morte de um campeão como Ayrton Senna? Ou de um principiante como Ratzenberger? De quem é a culpa por acidentes em que só o inexplicável salva, por exemplo, um Barrichello? A resposta vem fácil: é um defeito no carro, ou um defeito na pista, ou defeito do regulamento, de outro competidor. É sempre um defeito material, concreto, visível. E, no entanto, isto é uma cômoda inverdade.
O defeito que causa os acidentes de corridas, fatais ou não, é outro: é o defeito da mente humana. Próprio dos pilotos? Próprio do ser humano. Exatamente igual em quem entra num bólido de corrida como em quem exige, e são todos a exigi-lo, a conquista da vitória, da fama, do cargo superior, da riqueza material, para conceder o seu reconhecimento, a sua admiração. Até a idolatria.
É preciso vencer, porque é preciso encontrar a fama tão desejada, o reconhecimento, a admiração e, como consequência lógica, a fortuna material. Mas, nesta busca, vencer não basta: igual ou maior do que o desejo de vencer é a necessidade de derrotar. Creia: os sentimentos de vencer e de derrotar são muito diferentes. A procura do primeiro pode ser racional. A do segundo nunca o é. Vem das profundezas mais obscuras, uma força que não se oferece sozinha à compreensão, sequer à percepção. Por isso, que admirável, embora inútil, a percepção de Ayrton em uma distante entrevista: "Eu não me conformo em ser segundo, há alguma coisa dentro de mim que não se conforma com isso, nunca."
Vencer a qualquer custo, derrotar a qualquer custo. Neste jogo, o defeito no carro, ou na pista, ou no regulamento, não é mais do que intermediário. É como o revólver e o punhal, inofensivos se não houver quem os faça letais.
*************
Nesta civilização (sic) cada vez mais alicerçada na exacerbação da competitividade, vencer não basta, é preciso derrotar. "Vencer pode ser racional, mas derrotar nunca o é. Derrotar vem das profundezas mais obscuras, uma força que não se oferece sozinha à compreensão, sequer à percepção", diz Jânio de Freitas. Sim, derrotar é mais do que vencer, é matar no adversário qualquer esperança de que algum dia consiga vencer.
"Eu não me conformo em ser segundo, há alguma coisa dentro de mim que não se conforma com isso, nunca.", disse Ayrton Senna em uma entrevista citada por Jânio de Freitas em seu artigo. Vencer o campeonato largando na pole position em todas as provas e liderando-as desde a largada até a bandeirada, era esse o sonho de Senna. Sonho que ele tentou realizar transferindo-se da McLaren para a Williams, em 1994, justificando que o melhor piloto deve pilotar o melhor carro. E foi na condição "melhor piloto e melhor carro" que, largando na pole position, Senna viu Michael Schumacher vencer as duas primeiras corridas daquele ano sem que ele tivesse sequer pontuado.
Para alguém que nunca se conformava em ser segundo aquela situação era desesperadora e, sendo assim, Senna precisava vencer a qualquer custo a terceira corrida daquele ano. Precisava derrotar a qualquer custo aquele piloto que ameaçava usurpar-lhe a supremacia na principal categoria do automobilismo. E foi com esse espírito que, pela terceira vez em três corridas, Senna largou na pole position, ao lado daquele que vencera as duas anteriores. Ou seja, Senna estava extremamente pressionado, principalmente por ele mesmo.
Na manhã da corrida, durante o habitual briefing dos pilotos, chocado com os dois acidentes ocorridos (o primeiro, na antevéspera, impediria que Rubens Barrichello alinhasse para a largada; o segundo, na véspera, matara Roland Ratzenberger), Senna fez duras críticas à pista. Porém, críticas a parte, o que fez ele?
"Fez rigorosamente o que dele era esperado por dezenas de milhares de espectadores, por centenas de milhares de telespectadores, por seus patrocinadores, por todos os que transmitem, anunciam, divulgam ou, por qualquer outra forma, extraem lucros da Fórmula 1", segundo a opinião de Jânio de Freitas.
Que aquela corrida seria marcada por alguma tragédia era algo prenunciado pelos dois acidentes acima citados. Prenúncio reforçado pela batida ocorrida na largada. Batida que acarretara a entrada do safety car e a sua permanência na pista até a quinta volta. Tragédia concretizada apenas duas voltas após a saída do safety car. Na ânsia de derrotar a qualquer custo aquele que, não sendo o melhor piloto nem tendo o melhor carro, insistia em liderar o campeonato, na condição de um legítimo "praticante da afoiteza ilimitada" (expressão usada por Jânio de Freitas), Senna esqueceu algumas coisas que talvez não devesse. Que coisas? Que naquela corrida ainda restavam 53 voltas, naquele campeonato ainda restavam 13 corridas além daquela e algo mais grave ainda citado por Jânio de Freitas, e repetido abaixo. Os grifos são meus.
"Ayrton Senna entrou em um carro, e com ele entrou a mais de 200 em uma curva, do qual acabara de dizer que não sabia as reações, depois das modificações introduzidas na aerodinâmica."
Eis o esquecimento mais grave. Esquecer que, depois das modificações introduzidas na aerodinâmica ele não sabia quais seriam as reações do carro que pilotava. Esquecimento que o levou a bater no muro da curva Tamburello a 210 km/h. Bater e despedir-se tragicamente de três coisas: daquela corrida, daquele campeonato e daquela encarnação. Senna era, indubitavelmente, um piloto extraordinário, mas, acima de tudo, era um ser humano e como tal não estava imune aos defeitos da mente humana. Dá para discordar que Senna foi vítima de um defeito da mente humana?
Até aqui, estas reflexões focalizam apenas o que ocorreu naquele fatídico domingo na pista de Imola, mas, à luz do que é dito por Jânio de Freitas em seu excelente artigo, creio que outras coisas podem ser focalizadas. Jânio diz que:
"O defeito que matou Senna é o defeito da mente humana. Próprio do ser humano. Exatamente igual em quem entra num bólido de corrida como em quem exige, e são todos a exigi-lo, a conquista da vitória, da fama, do cargo superior, da riqueza material, para conceder o seu reconhecimento, a sua admiração. (...) Próprio do ser que só reconhece outro ser humano pela fama, pela riqueza, pela ostentação física, pela vitória ultramaterial – mesmo que isso destrua o ser humano. Mesmo que isso tenha feito do planeta Terra uma grande pista de Imola."
Ter feito do planeta Terra uma grande pista de Imola! Como isso foi feito? No meu entender, vivendo segundo a mentalidade propiciadora da tragédia ocorrida em Imola: a mentalidade de derrotar a qualquer custo. Mentalidade que está implícita em atos como: exterminar empresas menores antes que cresçam e transformem-se em ameaça a supremacias estabelecidas; denegrir a imagem de quem seja visto como concorrente ou como uma ameaça para fazer perder algo que se tenha obtido. Mentalidade que leva a viver de modo a admirar seres humanos apenas pela fama, pelo cargo superior, pela riqueza material, pela ostentação física, pela vitória ultramaterial – mesmo que isso destrua o ser humano.
Sim, o defeito que matou Senna é o defeito da mente humana. Defeito da mente de seres que, na maioria das vezes, fazem rigorosamente o que deles é esperado, embora, na maioria das vezes, não seja o que rigorosamente deveria lhes convir. Afirmação difícil de aceitar, não? Será este mais um defeito da mente dos seres humanos? A tendência a ver o que quer ver - e que acham que lhes seja conveniente - em vez de ver o que rigorosamente deveria lhes convir. O que vocês acham?

Nenhum comentário: